"O homem e a mulher de coragem enobrecem até seus adversários; já o traidor não tem o respeito sequer daqueles que se beneficiam de seus atos pusilânimes"
Numa dessas correntes que circulam na Web li a frase acima, atribuída a Wiston Churchill. Tenho dúvida quanto à autoria, mas a frase me ocorre a propósito de um *livro que Juanita Castro acaba de lançar no Brasil, no qual narra com indisfarçável ódio sua traição aos irmãos Fidel e Raul Castro, à sua Pátria e a todos os que lutaram e morreram pela soberania de Cuba.
Em 2011, a velha senhora vive em Miami, desprezada não só pelos Castro, mas também pela Cia, a qual serviu pelo menos de 1961 a 1969, quando o serviço de espionagem do governo dos Estados Unidos a descartou. A traição não é suposição; ela própria confessa ter sido contratada pela Cia para trair os Castro e a nação cubana, tarefa que executou com denodo, inclusive durante a invasão da Baia dos Porcos, quando os Estados Unidos patrocinaram uma agressão armada a Cuba, que se tivesse êxito significaria a morte de Fidel e Raul. No combate ou assassinados.
Ainda mais grave que isso é uma revelação que diz respeito ao Brasil: quem recrutou Juanita Castro para a Cia e que também trabalhava para a agência norte-americana foi a mulher do embaixador brasileiro Vasco Leitão da Cunha, uma certa Virgínia. Juanita diz não saber se o marido-embaixador também era contratado da Cia, e aí fica a delicada questão: ou era agente, ou o último a saber.
Vasco era o embaixador brasileiro em Cuba quando os revolucionários de Fidel derrotaram a ditadura de Fulgencio Batista, em 1959. Mais tarde foi nomeado pelo presidente Jango Goulart para representar o Brasil na Rússia. Em 1964, quando a ditadura brasileira se implantou, tornou-se ministro das Relações Exteriores do governo de Castelo Branco. Isso significa que na época da ditadura militar o Itamaraty era comandado pelo serviço de inteligência do Governo dos Estados Unidos! O que a casa de Rio Branco tem a dizer sobre essa revelação, desconhece-se.
A propósito, essa é a única revelação nas 400 páginas de seu livro, tudo o mais já é sobejamente conhecido. A “grande” acusação à Revolução Cubana é a expropriação dos bens dos milionários batistianos. Aliás, da parte que Juanita não conseguiu retirar do país, porque milhões de dólares em jóias, obras de arte e dinheiro ela conseguiu enviar para os Estados Unidos se valendo de ser irmã de Fidel e Raul.
Maior ódio que a Fidel, Juanita só destina a Che Guevara, e não consegue disfarçar o motivo: ter sido desprezada pelo guerrilheiro. Encantada pelo charme do Che, Juanita tentou apresentar-se a ele no destacamento de La Cabaña, que Che comandava. Levou a tiracolo duas “comadres”, uma certa Ana Ely Esteva e a mulher do embaixador Vasco Leitão da Cunha, Virgínia. Juanita conta que Che as viu chegar e não interrompeu o que estava fazendo (“uma descortesia com a irmã de Fidel”, segundo ela). Quando as atendeu deixou bem claro a avaliação que fazia do grupo: “espero que não tenham vindo interceder por nenhum delinqüente ...” As três saíram “batendo os cascos”.
Para servir à Cia, Juanita recebeu um rádio microondas de comunicação, um manual para decifrar as mensagens em código e dinheiro, que lhe chegava escondido em latas de alimentos. Donna era o codinome dado a ela pela agência norte-americana, e as senhas para saber se havia ou não mensagens cifradas nas transmissões diárias às 7h da noite da rádio Nova York eram a execução da canção Fascinação (sim) ou a abertura de Madame Butterfly (não).
Em 29 de junho de 1964, Juanita recebeu orientação da Cia para deixar Cuba e foi para a Cidade do México, onde foi apresentada à imprensa. Em vez de responder aos jornalistas, ela apenas leu as 7 páginas datilografadas, preparadas pela Cia, com acusações ao governo de Cuba e a Fidel Castro. E se retirou sem falar com os repórteres.
Passou a servir à Cia no México e posteriormente em Miami. Isso até 1969. Então, por conta da política do governo Nixon de coexistência pacífica com a União Soviética, recebeu ordem para acabar com os ataques a Cuba e passar a elogiar o regime comunista. Como obviamente ela se negou, a agência cortou o abastecimento de dólares, a proteção pessoal e o programa Rádio Periódico, transmitido pela emissora New York, por meio do qual Juanita atacava o governo cubano. A Cia fez mais: armou um flagrante da irmã Castro vendendo drogas controladas na farmácia que possuía em Miami, e ela acabou presa.
De traição em traição, Juanita chega aos quase 80 anos amargurada, rejeitada por todos os irmãos, sobrevivendo de um pequeno negócio em Miami e sofrendo a repulsa da Cia e também dos exilados cubanos/batistianos. Cumpre-se, assim, a sentença atribuída equivocadamente ao inglês Churchill: “o traidor não tem o respeito sequer daqueles que se beneficiam de seus atos pusilânimes”.
Livro: Fidel e Raul, Meus irmãos. A História Secreta
Autor: Depoimento de Juanita Castro a jornalista mexicana María Antonieta Collins
400 páginas
Editora Planeta





