domingo, 31 de outubro de 2010
O Mundo fala de Dilma: ela começa a andar com a próprias pernas
Hugh O’Shaughnessy – The Independent
A mulher mais poderosa do mundo começará a andar com as próprias pernas no próximo fim de semana. Forte e vigorosa aos 63 anos, essa ex-líder da resistência a uma ditadura militar (que a torturou) se prepara para conquistar o seu lugar como Presidente do Brasil.
Como chefe de estado, a Presidente Dilma Rousseff seria mais poderosa que a Chanceler da Alemanha, Angela Merkel e que a Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton: seu país enorme de 200 milhões de pessoas está comemorando seu novo tesouro petrolífero. A taxa de crescimento do Brasil, rivalizando com a China, é algo que a Europa e Washington podem apenas invejar.
Sua ampla vitória prevista para a próxima eleição presidencial será comemorada com encantamento por milhões. Marca a demolição final do “estado de segurança nacional”, um arranjo que os governos conservadores, nos EUA e na Europa já tomaram como seu melhor artifício para limitar a democracia e a reforma. Ele sustenta um status quo corrompido que mantém a imensa maioria na pobreza na América Latina, enquanto favorece seus amigos ricos.
A senhora Rousseff, filha de um imigrante búlgaro no Brasil e de sua esposa, professora primária, foi beneficiada por ser, de fato, a primeira ministra do imensamente popular Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ex-líder sindical. Mas com uma história de determinação e sucesso (que inclui ter se curado de um câncer linfático), essa companheira, mãe e avó será mulher por si mesma. As pesquisas mostram que ela construiu uma posição inexpugnável – de mais de 50%, comparado com menos de 30% – sobre o seu rival mais próximo, homem enfadonho de centro, chamado José Serra. Há pouca dúvida de que ela estará instalada no Palácio Presidencial Alvorada de Brasília, em janeiro.
Assim como o Presidente Jose Mujica do Uruguai, vizinho do Brasil, a senhora Rousseff não se constrange com um passado numa guerrilha urbana, que incluiu o combate a generais e um tempo na cadeia como prisioneira política.
Quando menina, na provinciana cidade de Belo Horizonte, ela diz que sonhava respectivamente em se tornar bailarina, bombeira e uma artista de trapézio. As freiras de sua escola levavam suas turmas para as áreas pobres para mostrá-las a grande desigualdade entre a minoria de classe média e a vasta maioria de pobres. Ela lembra que quando um menino pobre de olhos tristes chegou à porta da casa de sua família ela rasgou uma nota de dinheiro pela metade e dividiu com ele, sem saber que metade de uma nota não tinha valor.
Seu pai, Pedro, morreu quando ela tinha 14 anos, mas a essas alturas ele já tinha apresentado a Dilma os romances de Zola e Dostoiévski. Depois disso, ela e seus irmãos tiveram de batalhar duro com sua mãe para alcançar seus objetivos. Aos 16 anos ela estava na POLOP (Política Operária), um grupo organizado por fora do tradicional Partido Comunista Brasileiro que buscava trazer o socialismo para quem pouco sabia a seu respeito.
Os generais tomaram o poder em 1964 e instauraram um reino de terror para defender o que chamavam “segurança nacional”. Ela se juntou aos grupos radicais secretos que não viam nada de errado em pegar em armas para combater um regime militar ilegítimo. Além de agradarem aos ricos e esmagar sindicatos e classes baixas, os generais censuraram a imprensa, proibindo editores de deixarem espaços vazios nos jornais para mostrar onde as notícias tinham sido suprimidas.
A senhora Rousseff terminou na clandestina VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares). Nos anos 60 e 70, os membros dessas organizações sequestravam diplomatas estrangeiros para resgatar prisioneiros: um embaixador dos EUA foi trocado por uma dúzia de prisioneiros políticos; um embaixador alemão foi trocado por 40 militantes; um representante suíço, trocado por 70. Eles também balearam torturadores especialistas estrangeiros enviados para treinar os esquadrões da morte dos generais. Embora diga que nunca usou armas, ela chegou a ser capturada e torturada pela polícia secreta na equivalente brasileira de Abu Ghraib, o presídio Tiradentes, em São Paulo. Ela recebeu uma sentença de 25 meses por “subversão” e foi libertada depois de três anos. Hoje ela confessa abertamente ter “querido mudar o mundo”.
Em 1973 ela se mudou para o próspero estado do sul, o Rio Grande do Sul, onde seu segundo marido, um advogado, estava terminando de cumprir sua pena como prisioneiro político (seu primeiro casamento com um jovem militante de esquerda, Claudio Galeno, não sobreviveu às tensões de duas pessoas na correria, em cidades diferentes). Ela voltou à universidade, começou a trabalhar para o governo do estado em 1975, e teve uma filha, Paula.
Em 1986 ela foi nomeada secretária de finanças da cidade de Porto Alegre, a capital do estado, onde seus talentos políticos começaram a florescer. Os anos 1990 foram anos de bons ventos para ela. Em 1993 ela foi nomeada secretária de minas e energia do estado, e impulsionou amplamente o aumento da produção de energia, assegurando que o estado enfrentasse o racionamento de energia de que o resto do país padeceu.
Ela fez mil quilômetros de novas linhas de energia elétrica, novas barragens e estações de energia térmica construídas, enquanto persuadia os cidadãos a desligarem as luzes sempre que pudessem. Sua estrela política começou a brilhar muito. Mas em 1994, depois de 24 anos juntos, ela se separou do Senhor Araújo, aparentemente de maneira amigável. Ao mesmo tempo ela se voltou à vida acadêmica e política, mas sua tentativa de concluir o doutorado em ciências sociais fracassou em 1998.
Em 2000 ela adquiriu seu espaço com Lula e seu Partido dos Trabalhadores, que se volta sucessivamente para a combinação de crescimento econômico com o ataque à pobreza. Os dois se deram bem imediatamente e ela se tornou sua primeira ministra de energia em 2003. Dois anos depois ele a tornou chefe da casa civil e desde então passou a apostar nela para a sua sucessão. Ela estava ao lado de Lula quando o Brasil encontrou uma vasta camada de petróleo, ajudando o líder que muitos da mídia européia e estadunidense denunciaram uma década atrás como um militante da extrema esquerda a retirar 24 milhões de brasileiros da pobreza. Lula estava com ela em abril do ano passado quando foi diagnosticada com um câncer linfático, uma condição declarada sob controle há um ano. Denúncias recentes de irregularidades financeiras entre membros de sua equipe quando estava no governo não parecem ter abalado a popularidade da candidata.
A Senhora Rousseff provavelmente convidará o Presidente Mujica do Uruguai para sua posse no Ano Novo. O Presidente Evo Morales, da Bolívia, o Presidente Hugo Chávez, da Venezuela e o Presidente Lugo, do Paraguai – outros líderes bem sucedidos da América do Sul que, como ela, têm sofrido ataques de campanhas impiedosas de degradação na mídia ocidental – certamente também estarão lá. Será uma celebração da decência política – e do feminismo.
Tradução: Katarina Peixoto
A mulher mais poderosa do mundo começará a andar com as próprias pernas no próximo fim de semana. Forte e vigorosa aos 63 anos, essa ex-líder da resistência a uma ditadura militar (que a torturou) se prepara para conquistar o seu lugar como Presidente do Brasil.
Como chefe de estado, a Presidente Dilma Rousseff seria mais poderosa que a Chanceler da Alemanha, Angela Merkel e que a Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton: seu país enorme de 200 milhões de pessoas está comemorando seu novo tesouro petrolífero. A taxa de crescimento do Brasil, rivalizando com a China, é algo que a Europa e Washington podem apenas invejar.
Sua ampla vitória prevista para a próxima eleição presidencial será comemorada com encantamento por milhões. Marca a demolição final do “estado de segurança nacional”, um arranjo que os governos conservadores, nos EUA e na Europa já tomaram como seu melhor artifício para limitar a democracia e a reforma. Ele sustenta um status quo corrompido que mantém a imensa maioria na pobreza na América Latina, enquanto favorece seus amigos ricos.
A senhora Rousseff, filha de um imigrante búlgaro no Brasil e de sua esposa, professora primária, foi beneficiada por ser, de fato, a primeira ministra do imensamente popular Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ex-líder sindical. Mas com uma história de determinação e sucesso (que inclui ter se curado de um câncer linfático), essa companheira, mãe e avó será mulher por si mesma. As pesquisas mostram que ela construiu uma posição inexpugnável – de mais de 50%, comparado com menos de 30% – sobre o seu rival mais próximo, homem enfadonho de centro, chamado José Serra. Há pouca dúvida de que ela estará instalada no Palácio Presidencial Alvorada de Brasília, em janeiro.
Assim como o Presidente Jose Mujica do Uruguai, vizinho do Brasil, a senhora Rousseff não se constrange com um passado numa guerrilha urbana, que incluiu o combate a generais e um tempo na cadeia como prisioneira política.
Quando menina, na provinciana cidade de Belo Horizonte, ela diz que sonhava respectivamente em se tornar bailarina, bombeira e uma artista de trapézio. As freiras de sua escola levavam suas turmas para as áreas pobres para mostrá-las a grande desigualdade entre a minoria de classe média e a vasta maioria de pobres. Ela lembra que quando um menino pobre de olhos tristes chegou à porta da casa de sua família ela rasgou uma nota de dinheiro pela metade e dividiu com ele, sem saber que metade de uma nota não tinha valor.
Seu pai, Pedro, morreu quando ela tinha 14 anos, mas a essas alturas ele já tinha apresentado a Dilma os romances de Zola e Dostoiévski. Depois disso, ela e seus irmãos tiveram de batalhar duro com sua mãe para alcançar seus objetivos. Aos 16 anos ela estava na POLOP (Política Operária), um grupo organizado por fora do tradicional Partido Comunista Brasileiro que buscava trazer o socialismo para quem pouco sabia a seu respeito.
Os generais tomaram o poder em 1964 e instauraram um reino de terror para defender o que chamavam “segurança nacional”. Ela se juntou aos grupos radicais secretos que não viam nada de errado em pegar em armas para combater um regime militar ilegítimo. Além de agradarem aos ricos e esmagar sindicatos e classes baixas, os generais censuraram a imprensa, proibindo editores de deixarem espaços vazios nos jornais para mostrar onde as notícias tinham sido suprimidas.
A senhora Rousseff terminou na clandestina VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares). Nos anos 60 e 70, os membros dessas organizações sequestravam diplomatas estrangeiros para resgatar prisioneiros: um embaixador dos EUA foi trocado por uma dúzia de prisioneiros políticos; um embaixador alemão foi trocado por 40 militantes; um representante suíço, trocado por 70. Eles também balearam torturadores especialistas estrangeiros enviados para treinar os esquadrões da morte dos generais. Embora diga que nunca usou armas, ela chegou a ser capturada e torturada pela polícia secreta na equivalente brasileira de Abu Ghraib, o presídio Tiradentes, em São Paulo. Ela recebeu uma sentença de 25 meses por “subversão” e foi libertada depois de três anos. Hoje ela confessa abertamente ter “querido mudar o mundo”.
Em 1973 ela se mudou para o próspero estado do sul, o Rio Grande do Sul, onde seu segundo marido, um advogado, estava terminando de cumprir sua pena como prisioneiro político (seu primeiro casamento com um jovem militante de esquerda, Claudio Galeno, não sobreviveu às tensões de duas pessoas na correria, em cidades diferentes). Ela voltou à universidade, começou a trabalhar para o governo do estado em 1975, e teve uma filha, Paula.
Em 1986 ela foi nomeada secretária de finanças da cidade de Porto Alegre, a capital do estado, onde seus talentos políticos começaram a florescer. Os anos 1990 foram anos de bons ventos para ela. Em 1993 ela foi nomeada secretária de minas e energia do estado, e impulsionou amplamente o aumento da produção de energia, assegurando que o estado enfrentasse o racionamento de energia de que o resto do país padeceu.
Ela fez mil quilômetros de novas linhas de energia elétrica, novas barragens e estações de energia térmica construídas, enquanto persuadia os cidadãos a desligarem as luzes sempre que pudessem. Sua estrela política começou a brilhar muito. Mas em 1994, depois de 24 anos juntos, ela se separou do Senhor Araújo, aparentemente de maneira amigável. Ao mesmo tempo ela se voltou à vida acadêmica e política, mas sua tentativa de concluir o doutorado em ciências sociais fracassou em 1998.
Em 2000 ela adquiriu seu espaço com Lula e seu Partido dos Trabalhadores, que se volta sucessivamente para a combinação de crescimento econômico com o ataque à pobreza. Os dois se deram bem imediatamente e ela se tornou sua primeira ministra de energia em 2003. Dois anos depois ele a tornou chefe da casa civil e desde então passou a apostar nela para a sua sucessão. Ela estava ao lado de Lula quando o Brasil encontrou uma vasta camada de petróleo, ajudando o líder que muitos da mídia européia e estadunidense denunciaram uma década atrás como um militante da extrema esquerda a retirar 24 milhões de brasileiros da pobreza. Lula estava com ela em abril do ano passado quando foi diagnosticada com um câncer linfático, uma condição declarada sob controle há um ano. Denúncias recentes de irregularidades financeiras entre membros de sua equipe quando estava no governo não parecem ter abalado a popularidade da candidata.
A Senhora Rousseff provavelmente convidará o Presidente Mujica do Uruguai para sua posse no Ano Novo. O Presidente Evo Morales, da Bolívia, o Presidente Hugo Chávez, da Venezuela e o Presidente Lugo, do Paraguai – outros líderes bem sucedidos da América do Sul que, como ela, têm sofrido ataques de campanhas impiedosas de degradação na mídia ocidental – certamente também estarão lá. Será uma celebração da decência política – e do feminismo.
Tradução: Katarina Peixoto
Dilma, 1ª mulher Presidente do Brasil
Os brasileiros elegeram hoje, 31 de outubro de 2010, a primeira mulher presidente da República. Com 92% das urnas apuradas, Dilma Rousseff é considerada vitoriosa com 55,3% dos votos válidos. Seu adversário do PSDB, José Serra, tem, até o momento, 44,6%.
Os brasileiros foram às urnas no domingo que antecede o feriado de 2 de Novembro com a convicção de que o projeto iniciado pelo governo Lula em 2003 será aprofundado e aprimorado por Dilma. Ainda hoje, a presidente eleita deve fazer um pronunciamento no hotel em Brasília onde acompanha a apuração dos votos com seus aliados.
O compromisso é fazer um governo de união. “Se eu for eleita, amanhã se inicia uma nova etapa na democracia brasileira. Tenho o compromisso democrático de governar para todos os brasileiros com a coligação que me trouxe até aqui", disse na última entrevista concedida como candidata, antes de votar, em Porto Alegre.
(Dilma na Web)
sábado, 30 de outubro de 2010
Biblioteca Nacional completa 200 anos com raridades longe dos olhos do público
(Copiado do portal iG)
Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro | 30/10/201
Quando D. João VI fugiu das tropas napoleônicas trouxe para o Brasil o rico acervo de livros pertencentes à Corte Real. Em 1810, foi fundada a Biblioteca Nacional (então Real Biblioteca), que atualmente tem sede em um imponente palácio na praça da Cinelândia, centro do Rio de Janeiro. Duzentos anos depois, comemorados nesta sexta-feira (29), parte destes exemplares, somados a muitos outros que foram sendo doados ao longo dos séculos, conferem à instituição o título de a mais importante biblioteca da América Latina, que a ela se somam hoje nove milhões de obras.
A reportagem do iG teve acesso a raridades da Biblioteca Nacional, sendo algumas delas guardadas em cofres e vigiadas dia e noite por forte esquema de segurança – que conta com vigilância humana e por meio de câmeras. Como é o caso de um raríssimo exemplar da Bíblia Moguncia, datada de 1462, de origem alemã, escrita em latim e impressa em letras góticas em pergaminho. Esta é considerada a
segunda mais antiga edição da bíblia no mundo e foi trazida pela família imperial ao Brasil. Notam-se detalhes do animal que deu origem ao pergaminho – como marcas de pêlos e buracos referentes ao mamilo.
É preciso todo cuidado ao se manusear uma obra como esta. Após uma série de autorizações de diretores, o cofre climatizado é aberto por um segurança e uma técnica da sessão de “obras raras”, cuidadosamente, a retira com luvas brancas. Somente ela pode manusear as páginas do livro. As fotos devem ser feitas com certa rapidez, para que a peça volte logo em seguida à proteção do cofre. O “impresso mais precioso da América Latina” está na sessão “mais raro entre os raros” do acervo.
“Memória do mundo”
Outra preciosidade da Biblioteca Nacional, que também está longe dos olhos do público, é o documento original assinado por D. João VI autorizando a abertura dos portos às nações amigas, fato que trouxe prosperidade comercial à nova sede do império português. A carta de 28 de janeiro de 1808, escrita ainda na Bahia, traz uma curiosidade: D. João assina como “príncipe” e faz cinco pontos, referentes à constelação do cruzeiro do sul. Este documento concorre ao título de “memória do mundo”, conferido pela Unesco.
No “setor de manuscritos”, cercado de todo tipo de cuidado, está o “livro das horas”, do século 14, que pertenceu – por último - à Dona Thereza Cristina, mulher de D. Pedro II. Feito a mão, escrito em latim e com iluminuras em ouro, o livro é uma relíquia que venceu o tempo e está intacto até hoje. Ali também está a coleção de 1180 estampas sobre a fauna e a flora feitas por Alexandre Rodrigues Ferreira, durante uma expedição no norte do Brasil em 1763.
Logo na entrada principal, diante de uma escadaria com tapete vermelho, o busto de D. João VI dá as boas vindas aos visitantes, que percorrem os salões suntuosos
Manuscritos e cartografias
São mais de 800 mil manuscritos referentes à história brasileira, arquivos literários, fotos e registros de época. No setor de “cartografia”, 30 mil mapas e três mil atlas estão dispostos em imensas gavetas. Impressiona um deles, do começo do século 16, bastante colorido, com uma configuração bem diferente da visão de mundo atual – a América do Sul é “ilha Brasil” e a do Norte um trecho de terra definido como “Flórida”, nos oceanos estão desenhos de dragões e bestas.
Considerado a “UTI da biblioteca”, o setor de restauração é o local para onde se destinam peças que precisam de reparo urgente. Por lá já passou o precioso original de “Os Lusíadas”, de Luis de Camões, guardado sob sigilo total.
Aniversário do bicentenário
A exposição “Biblioteca Nacional 200 Anos: Uma Defesa do Infinito”, com curadoria do escritor Marco Lucchesi, marca a data comemorativa. De 3 de novembro a 25 de fevereiro, o público poderá ver de perto duzentas peças originais que compõem o acervo do lugar.
Entre as raridades expostas estão o fac-símile da primeira edição de “Os Lusíadas”; “A menina do narizinho arrebitado”, de 1920, de Monteiro Lobato; peças que integram edições de periódicos como o jornal “O Pasquim”; manuscritos de Clarice Lispector, Raul Pompéia, Castro Alves, Graciliano Ramos e Carlos Drummond de Andrade; a ópera “O Guarani” (1871), de Carlos Gomes, entre outros.
SERVIÇO
Exposição “Biblioteca Nacional 200 Anos: Uma Defesa do Infinito”
Biblioteca Nacional - Rua México, s/nº - Centro, Rio de Janeiro, RJ
De 3 de novembro a 25 de fevereiro
Segunda a sexta, 10h às 17h/ sábado, 10h às 15h
Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro | 30/10/201
Foto: George Magaraia
O prédio atual da FBN teve sua pedra fundamental lançada em 15 de agosto de 1905 e foi inaugurado cinco anos depois, em 29 de outubro de 1910
segunda mais antiga edição da bíblia no mundo e foi trazida pela família imperial ao Brasil. Notam-se detalhes do animal que deu origem ao pergaminho – como marcas de pêlos e buracos referentes ao mamilo.
É preciso todo cuidado ao se manusear uma obra como esta. Após uma série de autorizações de diretores, o cofre climatizado é aberto por um segurança e uma técnica da sessão de “obras raras”, cuidadosamente, a retira com luvas brancas. Somente ela pode manusear as páginas do livro. As fotos devem ser feitas com certa rapidez, para que a peça volte logo em seguida à proteção do cofre. O “impresso mais precioso da América Latina” está na sessão “mais raro entre os raros” do acervo.
“Memória do mundo”
Outra preciosidade da Biblioteca Nacional, que também está longe dos olhos do público, é o documento original assinado por D. João VI autorizando a abertura dos portos às nações amigas, fato que trouxe prosperidade comercial à nova sede do império português. A carta de 28 de janeiro de 1808, escrita ainda na Bahia, traz uma curiosidade: D. João assina como “príncipe” e faz cinco pontos, referentes à constelação do cruzeiro do sul. Este documento concorre ao título de “memória do mundo”, conferido pela Unesco.
No “setor de manuscritos”, cercado de todo tipo de cuidado, está o “livro das horas”, do século 14, que pertenceu – por último - à Dona Thereza Cristina, mulher de D. Pedro II. Feito a mão, escrito em latim e com iluminuras em ouro, o livro é uma relíquia que venceu o tempo e está intacto até hoje. Ali também está a coleção de 1180 estampas sobre a fauna e a flora feitas por Alexandre Rodrigues Ferreira, durante uma expedição no norte do Brasil em 1763.
Foto: George Magaraia
Logo na entrada principal, diante de uma escadaria com tapete vermelho, o busto de D. João VI dá as boas vindas aos visitantes, que percorrem os salões suntuosos
Manuscritos e cartografias
São mais de 800 mil manuscritos referentes à história brasileira, arquivos literários, fotos e registros de época. No setor de “cartografia”, 30 mil mapas e três mil atlas estão dispostos em imensas gavetas. Impressiona um deles, do começo do século 16, bastante colorido, com uma configuração bem diferente da visão de mundo atual – a América do Sul é “ilha Brasil” e a do Norte um trecho de terra definido como “Flórida”, nos oceanos estão desenhos de dragões e bestas.
Considerado a “UTI da biblioteca”, o setor de restauração é o local para onde se destinam peças que precisam de reparo urgente. Por lá já passou o precioso original de “Os Lusíadas”, de Luis de Camões, guardado sob sigilo total.
Aniversário do bicentenário
A exposição “Biblioteca Nacional 200 Anos: Uma Defesa do Infinito”, com curadoria do escritor Marco Lucchesi, marca a data comemorativa. De 3 de novembro a 25 de fevereiro, o público poderá ver de perto duzentas peças originais que compõem o acervo do lugar.
Entre as raridades expostas estão o fac-símile da primeira edição de “Os Lusíadas”; “A menina do narizinho arrebitado”, de 1920, de Monteiro Lobato; peças que integram edições de periódicos como o jornal “O Pasquim”; manuscritos de Clarice Lispector, Raul Pompéia, Castro Alves, Graciliano Ramos e Carlos Drummond de Andrade; a ópera “O Guarani” (1871), de Carlos Gomes, entre outros.
SERVIÇO
Exposição “Biblioteca Nacional 200 Anos: Uma Defesa do Infinito”
Biblioteca Nacional - Rua México, s/nº - Centro, Rio de Janeiro, RJ
De 3 de novembro a 25 de fevereiro
Segunda a sexta, 10h às 17h/ sábado, 10h às 15h
Candidato caô-caô quase apanhô
O ladrãozinho de merenda escolar, deputado Índio de Bosta (DEMO/RJ), quase apanhou na comunidade da Rocinha, onde foi fazer demagogia pró-Serra. Por pouco o povo não fez justiça pelas próprias mãos. Índio de Bosta, a exemplo do que fez o seu líder José Serra em 1964, fugiu! Tal candidato, tal vice! Primeiro assistam a desmoralização do cacique merendinha, depois respondam se não foi em gente como Índio e Serra que Bezerra da Silva se inspirou para compor "Candidato Caô-Caô" (com o Rappa). Bom sábado a todo mundo!
Agora confira: é ou não é o Índio de Bosta?!
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Aêee, mulherio: é a vez de vocês!
Homenagem às mulheres. De Aniceto do Império a Dilma Roussef: Mulher na Presidência é Sapiência! É Sapiência!
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Mulher fala ao celular em filme de Chaplin. Viajante no tempo?
O filme é de 1928, quando não havia redes de telefonia móvel em lugar nenhum do mundo. Apesar desse detalhe, como diz o Serra sobre o Paulo Preto, uma figurante aparece falando no celular. Seria uma viajante no tempo? O enigma intriga os cinéfilos da galáxia, assim como os mineiros de Varginha. Assista o vídeo e confira.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Salve Lula, 65 anos de vida e estrela!
"Deus dá a cada Homem uma Estrela
Uns fazem dela um Sol
Outros nem conseguem vê-la"
Helena Kolody (1912-2004)
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Assista o vídeo com a prova da corrupção de José Serra em obras de SP
A Folha de São Paulo gravou em abril deste ano o vídeo a seguir, no qual antecipa o resultado da licitação feita pelo então governador José Serra para as obras do Metrô paulista. O negócio envolve 4 bilhões de Reais! Ontem foi anunciado o resultado da licitação e bateu exatamente com o que a Folha já sabia há cerca de 6 meses. Essa é a verdadeira "ficha limpa" de José Serra. Duvido que o casal Bonner/Fátima dêem essa notícia na edição de hoje. No máximo darão a defesa de Serra dizendo que não conhece o Metrô, assim como também não conhecia o Paulo Preto (até que o dito cujo ameaçou contar tudo sobre o RodoAnel).
Corrupção de Serra/FHC que a Globo esconde
Como foi amplamente divulgado na blogosfera desde agosto deste ano, a quebra de sigilo da filha de José Serra (Verônica Serra) e outras pessoas ligadas ao esquema de arrecadação de dinheiro da campanha tucana estava relacionada à briga entre Serra e Aécio Neves. O ex-governador mineiro descobriu que os aloprados de José Serra estavam montando dossiês contra ele (em 2009 Aécio queria ser candidato à Presidência no lugar de Serra) e usou o jornalista Amaury Ribeiro Jr. para investigar o envolvimento de Serra e de sua filha nos casos de corrupção nas privatizações. Veja o vídeo com informações que a Globo não deu e não vai dar (nem a Globo, nem a Veja, Folha, Estadão ...)
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
O bom-humor vence o ódio que Serra trouxe para a campanha (2)
Alunos da UNB declaram voto em José Serra. Veja seus motivos.
O bom-humor vence o ódio que José Serra trouxe pra campanha
Serra é piada no Twitter
(Do Yahoo)A polêmica em torno do objeto que atingiu a cabeça do candidato José Serra (PSDB) durante passeata no Rio de Janeiro, quarta-feira, tomou conta das redes sociais nesta quinta-feira, especialmente do Twitter – em tom de piada. Uma câmera do SBT flagrou que Serra foi atingido pelo que parece ser uma simples bolinha de papel.
Segundo a Folha Online, a bolinha de papel foi atirada depois de um outro objeto ter sido arremessado contra Serra. Essa versão foi apresentada também pelo PSDB em nota oficial divulgada na noite desta quinta-feira. Ou seja: teriam sido dois objetos. Mas a assessoria do PSDB, num primeiro momento, informou que Serra tinha sido atingido por uma bandeira de um petista.
O presidente Lula se irritou com a repercussão e criticou a atitude de Serra, ao que o PSDB prometeu responder.
Veja a imagem do SBT:(http://br.eleicoes.yahoo.net/blog/post/221/serra-piada-no-twitter)
O perito Ricardo Molina diz não ter dúvidas de que foram dois os objetos que atingiram Serra - primeiro a bolinha de papel, como flagra o SBT, e depois um objeto que poderia ser uma bobina de fita crepe, como flagrou a Folha Online.
Atingido, Serra foi levado para um hospital da região para fazer um exame de ressonância magnética (ontem, Serra havia dito que fizeram uma tomografia da cabeça). O médico que o examinou, Jacob Kligerman, disse que nada errado foi constatado e recomendou repouso de 24 horas.
A Melhor Parte Começa Agora.
Olha a criatividade da rapaziada!
Foi aí que começaram as piadas na internet. “Quando a criançada da 5ª série descobrir que tomar bolinha de papel garante 24h de repouso, vai ser uma festa”, postou no Twitter o internauta @necaboullosa . “Bolinha de papel: médico recomenda a Serra repouso por quatro anos”, comentou o internauta @planetariopardo. “Lula perdeu dedo, Dilma venceu câncer, Serra leva uma bolinha de papel e pede tomografia...”, postou @maudiz.
As hashtags BoladePapelFacts (uma alusão aos famosos “Chuck Norris Facts”) e SerraRojas chegaram aos Trending Topics como os assuntos mais comentados no mundo. Esta última hashtag faz alusão ao goleiro Roberto Rojas, que simulou ter sido atingido por um rojão em jogo do Brasil contra o Chile no Maracanã, em 1989, válido pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 1990. Rojas chegou a fazer um corte na testa com uma lâmina para fazer a farsa ficar ainda mais impressionante. A grande ironia na associação está no fato de que, pela farsa, a Seleção Chilena acabou suspensa por quatro anos – exatamente o período que dura um mandato presidencial – e Rojas foi banido do esporte.
“O Serra é um fingidor/Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A bolinha de papel que deveras sente”, postou o @mundohype, inspirado em poema de Fernando Pessoa.
Alguém que se passa pelo do candidato do Psol, Plínio de Arruda Sampaio, lembrou do caso Paulo Preto, o ex-assessor de Serra, acusado de sumir com R$ 4 milhões da campanha do tucano. “Na bolinha de papel tava escrito: "Não se larga um lider ferido na estrada" Ass: Paulo Preto.”
As piadas com a bolinha de papel foram muito boas. “O exame de ‘bolística’ determinou que o projétil saiu de um chumaço de Maxprint, calibre A4”, disse Rodolfo Cabral.
“Células terroristas Chamex, Maxprint e Aracruz disputam autoria do atentado!”, comentou Pedro Almeida.
“Ações da Faber Castel, Chamex e Xerox saltam e o povo compra papel desesperadamente. Serra teme uma guerra civil”, comentou Felipe Salgado.
“Bolinha de papel é considerada arma branca”, brincou Leticya Simões.
Até o palhaço Tiririca entrou na brincadeira. Eleito deputado federal pelo PR, partido que faz parte da coligação que apoia Dilma Rousseff (PT), Tiririca fez piada com o joquempô, diversão no recreio das escolas: “Pedra vence tesoura. Tesoura vence papel. Papel vence Serra!”
O grande destaque, porém, foi a criação de um perfil da bolinha de papel no Twitter, o Bolinha_dePapel. Em poucas horas a brincadeira já tinha mais de mil seguidores, graças a comentários como “Meu primo papel de seda morre de medo da Soninha”, “Vendo o nível dessa campanha, meu primo papel higiênico não aguentou e se mandou pra reciclagem” e “Fernando Gabeira fez curso com meu primo Papel de Parede, pra ficar com cara de paisagem do lado do Serra.”
Por Alberto Oliveira, do site Yahoo
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Tom Zé e a exegese do funk carioca
Essa eu achei no Blog Bueno (http://blogjoelbueno.blogspot.com/),sujeito muito bem informado e humorado. É a partir da obra Tô ficando Atoladinha que Tom Zé diz e prova que a Bossa Nova está na gênese do funk carioca. Palavra de mestre não se discute.
Imprensa e igrejas (católica e batista), os grandes derrotados na eleição 2010
Esse texto é do Blog Balaio do Kotscho, do excepcional jornalista Ricardo Kotscho (http://colunistas.ig.com.br/ricardokotscho/). Reproduzo aqui por sua relevância e oportunidade. Após, assista o vídeo e confira a falsa agressão ao candidato José Serra.
"Caros leitores,
por motivos de força menor, hoje não estou disposto a atualizar o Balaio, mas queria falar apenas de dois fatos da quinta-feira que merecem registro:
* Confirmado: a terceira onda que favorecia Serra no começo do segundo turno virou marolinha.
O novo ibope divulgado pelo Jornal Nacional apenas confirma o que o Vox Populi já havia mostrado na véspera e que tanta indignação causou ao Sergio Guerra, o comandante da campanha tucana. Segundo os números apresentados por Fátima Bernardes, a vantagem de Dilma Rousseff sobre José Serra aumentou de 6 para 11 pontos (51 a 40, nos votos totais) e de 6 para 12 (56 a 44, nos votos válidos). Até o momento, Guerra ainda não se manifestou sobre o Ibope.
* A “agressão” a Serra foi uma farsa.
Imagens mostradas pelo SBT e linkadas pelos leitores aqui no Balaio provam que a tal da “agressão de petistas ao candidato Serra”, que até o levou ao hospital, quarta-feira, no Rio, não passou de uma pantomina muito mal ensaiada. Parece que foi só uma bola de papel enrolada em fita durex. Teve colunista da velha mídia que viu até uma bandeirada de petistas na cabeça de Serra. Se fosse isso, convenhamos, sobraria certamente ao menos uma foto, com tantos jornalistas seguindo o candidato. Foi apenas mais um factóide que não vingou, mas certamente será utilizado no programa de TV. Vai ficar conhecido como o “novo caso Rojas” (lembram-se do goleiro chileno que se “feriu” no Maracanã?)."
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Acredite se quiser ...
Do site G1, em São Paulo
Segundo PF, jornalista disse ter pago despachante para obter dados.
Em nota, Aécio nega ligação com suposto dossiê sobre tucanos
Segundo PF, jornalista disse ter pago despachante para obter dados.
Repórter disse ter agido movido por suposta disputa interna do PSDB.
Em nota divulgada nesta quarta-feira (20), o ex-governador e senador eleito por Minas Gerais Aécio Neves (PSDB) negou ter ligação com a suposta produção de um dossiê sobre pessoas ligadas ao candidato tucano à Presidência da República, José Serra. O nome do ex-governador mineiro foi citado pela Polícia Federal em entrevista coletiva nesta quarta sobre as investigações. Segundo a polícia, o jornalista Amaury Ribeiro Jr. disse, em depoimento, que encomendara a quebra dos sigilos fiscais do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, da filha de José Serra, Verônica, do genro dele, Alexandre Bourgeois, e de outros tucanos entre setembro e outubro de 2009.
Ribeiro Jr., então repórter do jornal "O Estado de Minas", decidiu fazer a investigação, segundo relatou a PF, depois de descobrir que o deputado Marcelo Itagiba (PSDB-RJ) estaria supostamente à frente de um grupo de espionagem a serviço de Serra, à época governador de São Paulo, para obter informações comprometedoras sobre Aécio Neves.
“Repudio com veemência e indignação a tentativa de vinculação do meu nome às graves ações envolvendo o PT e o senhor Amaury Ribeiro Jr., a quem não conheço e com quem jamais mantive qualquer tipo de relação. Tal prática jamais fez parte da minha história política em 25 anos de vida pública", afirmou Aécio Neves.
Digo eu:
1) O jornal "O Estado de Minas" é quase um diário oficial de Aécio Neves (como a Folha e o Estadão são "diários oficiais" de José Serra). Era lá que Amaury trabalhava.
2) Na época em que Amaury Ribeiro Jr montou o dossiê contra Serra, Aécio estava sendo atacado por jornalistas ligados a José Serra. Um deles escreveu o artigo "Pó pará, governador", insinuando que Aécio cheirava cocaína. Outro jornalista noticiou que Aécio batia em mulher e citou uma namorada dele, uma ex-miss.
3) Era o final do ano de 2009 e Serra e Aécio disputavam dentro do PSDB quem seria o candidato à sucessão de Lula.
4) Não foi a primeira vez que Serra usou sua tropa de choque (bandidos) para destruir aliados. Em 2001, ele detonou a candidatura da Roseana Sarney (do PFL, aliado ao governo FHC) usando o mesmo deputado Itagiba, na época delegado da Polícia Federal. Seguiram o marido da Roseana até ele sacar sabe-se lá de onde (caixa 2, certamente) R$ 1 milhão e o prenderam. Depois expuseram a pilha de dinheiro na capa da Veja, no Jornal Nacional, na capa do Globo, Folha, Estadão. E a candidatura da Roseana morreu. E morreu também a aliança que ela e o pai dela tinham com o PSDB de FHC e Serra.
5) Em 2006, Serra e Itagiba tentaram o mesmo golpe contra Lula. Usaram o idiota do Mercadante para cair no conto da venda de um "dossiê contra Serra". O idiota caiu e repetiu-se exatamente o mesmo procedimento: fotos da montanha de dinheiro expostas no JN, nas capas de Veja, Globo, Folha e Estadão. Só que dessa vez não deu certo. Com certeza, Serra passou batido pelas lições do velho Marx, especialmente aquela em que o filósofo ensina que "a História só se repete como farsa ou tragédia".
Zé Ribeiro Jr.
Serra usa a filha como laranja para ocultar mansão da Justiça
Na Declaração de Bens que José Serra entregou ao Tribunal Superior Eleitoral não se faz menção à nababesca residência em que vive o tucano, no Alto de Pinheiros, bairro nobre da zona oeste paulistana.
Como se sabe, o candidato do PSDB é morador de um palacete situado na rua Antônio de Gouveia Giudice, na região conhecida pelo ostentoso luxo das residências e pelo altíssimo padrão de vida de seus habitantes. Ali, os imóveis mais modestos raramente custam menos de R$ 2 milhões.
Comenta-se que o verdadeiro dono da aparatosa moradia seria ninguém menos que um certo Gregório Marin Preciado, espanhol naturalizado brasileiro, casado com a prima de José Serra, Vicencia Talan Marin.
Serra, em sociedade com sua filha Verônica, teve uma empresa de consultoria denominada ACP Análise da Conjuntura Econômica e Perspectivas Ltda. O negócio sempre funcionou no prédio da empresa Gremafer, especializada em trambiques (Rua Simão Álvares, 1020, Pinheiros, São Paulo), de propriedade de Gregório Preciado. Curiosamente, por ocasião da campanha presidencial de 2002, o tucano “esqueceu” de declarar a empresa entre seus bens, fato que obrigou o advogado Arnaldo Malheiros a divulgar uma enroladíssima nota à imprensa, como se pode ler no site Universo Jurídico.
Nessa mesma nota, o causídico apressou-se em dar explicações sobre “a casa em que o casal reside em São Paulo”, que, segundo ele, “é de propriedade de sua filha, Verônica Allende Serra (sócia de Daniel Dantas), que a adquiriu em 2001 (época aurea das privatizações), como declarou à Receita Federal. A filha de Serra teve rendimentos declarados à Receita Federal nos dois últimos anos-bases, em valor bem superior ao pago pelo imóvel, conforme documentos em meu poder”.
(Do excepcional Blog Cloaca News)
terça-feira, 19 de outubro de 2010
... e o debate segue animado na Globo ...
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| Zé Abestado |
Serra - Nunca ouvi falar nesse cidadão, não conheço.
Dilma (indignada, exibindo fotos de Serra abraçado com o Tiririca) - Como não conhece, ele está aqui na foto de mãos dadas com você, cantando "Florentina, Florentina, Florentina de Jesus, não sei se tu me amas, por que tu me seduz".
Tiririca (entra VT) - Quero avisar que se eu for cassado por analfabetismo vou abrir a boca sobre o Rodoanel. Não se deixa um companheiro caído na estrada. Assim eu vou mórrerrr!
Serra (flagrado na mentira) - Ah, você não disse que estava falando do Francisco Everardo Oliveira Silva. Eu não conheço ele por Tiririca. Aliás, esse é um apelido preconceituoso que o PT colocou nele, porque "tiririca" significa erva daninha. É assim que o PT trata o povo humilde, desrespeitando, pondo apelidos discriminatórios. E quero dizer que o Tiririca é inocente, quer dizer, ele é alfabetizado, pós-graduado, doutorado, um verdadeiro PhD. Até o Cardoso teve aula com ele.
Boa noite, telespectadores. Boa noite, Fátima.
Dilma mostra que mulher não é bibelô
Willian Bonner Simpson e a modelo de nu Fátima Bernardes tentaram encurralar a Dilma, mas foram literalmente destroçados pela primeira mulher Presidente da República do Brasil. A diferença de Dilma para Fátima Bernardes, por exemplo, e que enquanto Dilma enfrentava a ditadura para que o Brasil fosse um país respeitado e senhor de seu destino, a esposa de Willian Bonner posava nua para distrair a rapaziada e mantê-la apática. Pois já dizia sabiamente o saudoso Plínio Marcos: quem se masturba não faz revolução.
Chapolin Lula: Sigam-me os Bons!!!!
"O Homem e a Mulher de Coragem enobrecem até
os seus adversários. Já os covardes e os traidores
não têm o respeito sequer daqueles que se beneficiam
de seus atos pulsilânimes." (Winston Churchill)
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Algumas mulheres brasileiras ainda não chegaram a 1915
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| Capistrano de Abreu |
“A mulher; leiteira que, na pré-história, dentro da caverna, se conservava ao lado da cria, enquanto o macho, em defensiva à entrada, vibrava a lasca de árvore e despedia a pedra, espada e artilharia primitivas; enquanto os vizinhos (os neutros) aguardavam dentre os resultados do combate a partilha da carne do vencido: a mulher, na Europa inteira, está a revelar idoneidade para todos os labores que eram, por decisão do homem, privilégio do mais forte, como tal se ele avaliando.
A aptidão da mulher para todos os trabalhos, que outrora lhe estiveram defesos, é hoje verdade incontestada. Sua superioridade analítica justifica as previdentes asserções de Stuart Mill; sua lida é mais delicada, mais honesta que a do homem.
Professora, médica, enfermeira, farmacêutica, hoteleira, guarda-livros, telefonista, mecânica, advogada, tudo isso e mais é a mulher na França; tudo menos eleitora e homem. Uma, jovem diplomada em Letras e em Direito, está trabalhando no Subsecretariado de Finanças: é a porta da governação que se abre ao feminismo.
Encerrado o grande conflito, acreditas que a mulher, desistindo de valor adquirido como capital humano, restitua ao marido mutilado ou ao irmão ensurdecido o emprego em que bem os substituiu? Resultante dum imprevisto metabolismo social, teremos a luta dos sexos sucedendo à das classes? Não exageremos os receios. Caso rivalidades apareçam, brandas interferências policiais renormalizarão a polissecular e inevitável convivência; e o mundo continuará a ser o mundo sob o influxo da mais justa e oportuna conquista de civilização: igualdade de direitos”.
Mídia no Brasil e no New Deal: Similitudes
Antonio Delfim Netto, na CartaCapital, 20/10/2010
Qualquer semelhança entre a agressão da mídia no Brasil aos programas de Lula e as reações da mídia nos EUA ao New Deal, nos anos 30, não é só coincidência.
Em abril de 2008, escrevi um comentário comparando o PAC e o Fome Zero do governo Lula aos programas de obras públicas e de combate ao desemprego sob o guarda-chuva do New Deal de FD Roosevelt, o presidente que conseguiu tirar a economia americana da Grande Depressão produzida a partir da quebra da Bolsa de NY, em outubro de 1929. Três quartos de século separam essas experiências: na primeira metade da década 1930-1940, os EUA e o mundo mergulharam numa crise sem precedentes.
Quando Roosevelt tomou posse, em 1933, para seu primeiro mandato, o PIB americano havia sido reduzido a praticamente a metade (56,4 bilhões de dólares) do que era em 1929 (103 bilhões de dólares).
Apesar da tragédia do desemprego, que chegava a 30% da força de trabalho, os EUA eram uma nação próspera. Havia muita riqueza e uma boa parte da sociedade afluente aceitava o desemprego como contingência natural numa economia de mercado. A melhor coisa que os governos deviam fazer era ficar fora disso.
Roosevelt surpreendeu, já no discurso de posse, anunciando o fim da era da indiferença: “Temos 15 milhões de sujeitos passando fome e nós vamos dar de comer a eles. O governo entende que é sua obrigação providenciar trabalho para que eles mesmos voltem a sustentar suas famílias.”
Para escândalo de muitos, seu governo pôs em marcha dois enormes programas, nunca antes tentados naquele país, de amparo ao trabalho e combate à miséria, com investimentos públicos em obras, cuja principal prioridade era absorver mão de obra (uma espécie de PAC). O empreendimento-símbolo foi a criação da TVA (Tennessee Valley Authority), que construiu barragens para a produção de energia e gerenciou os projetos de irrigação para a produção de alimentos.
Esses programas sofreram pesado bombardeio da oposição conservadora, que, a título de defender a livre iniciativa, esconjurava a intervenção estatal no setor privado, porque interferia na oferta e procura de mão de obra, desvirtuando o funcionamento do mercado de trabalho… Um dado interessante é que os ataques da mídia republicana evitavam agredir o presidente (e seus altos níveis de popularidade), concentrando toda a fúria contra a figura de Harry Hopkins, principal mentor dos programas de amparo ao trabalhador e gerente de obras públicas, qualificado de “perigoso socialista”. Qualquer semelhança com as agressões midiáticas recentes aos programas Fome Zero, Luz para Todos e ao PAC não é simples coincidência…
Hoje, ninguém duvida que o New Deal foi decisivo para a reconstrução da confiança dos americanos nos fundamentos do regime de economia de mercado. Suas ações ajudaram a salvar o capitalismo, na medida em que os milhões de trabalhadores que recuperaram os empregos voltaram “a acreditar na vontade e na capacidade do governo de intervir na economia para proporcionar uma igualdade mais substancial de oportunidades” (FDR numa de suas falas no rádio, Conversa ao Pé do Fogo).
O fato é que o PIB americano cresceu durante o primeiro e segundo mandatos e, em 1940, havia recuperado o nível que perdera desde o início da grande crise, medindo 101,4 bilhões de dólares. Roosevelt completou um terceiro mandato presidencial e ainda foi eleito (no fim da Segunda Guerra Mundial), para um quarto mandato, mas faleceu antes de exercê-lo.
Quando Lula assumiu o primeiro mandato, em 2002, a economia brasileira não estava na situação desesperadora da americana em 1933, mas contabilizava algo como 12% de desemprego da população economicamente ativa e vinha de um período de 20 anos de medíocre crescimento, com a renda per capita praticamente estagnada. Seu governo pôs em prática os programas de combate à fome que prometera no prólogo de sua Carta aos Brasileiros e posteriormente o PAC, que soma o investimento público e obras privadas, com foco na recuperação da desgastada infraestrutura de transportes, da matriz energética e na indústria da habitação. Setores de grande demanda de mão de obra e de promoção do desenvolvimento.
Oito anos depois (e 15 milhões de empregos a mais), os resultados são visíveis: queda acentuada das taxas do desemprego (para menos de 7% da população economicamente ativa), crescimento da renda e dos níveis de consumo da população, recuperação da autoestima do trabalhador e uma sociedade que adquiriu condições de oferecer substancial melhora na distribuição de oportunidades. Isso, tendo atravessado a segunda pior crise da economia mundial dos últimos 80 anos, com o PIB crescendo em 2010 acima de 7%.
Denúncia bomba!!
Um portal de Foz do Iguaçu, o Clickfoz, confirmou junto ao Hotel das Cataratas que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso esteve presente em um evento fechado ontem (17/10) à noite no hotel com a presença de vários estrangeiros.
Segundo o jornalista mineiro Laerte Braga, em seu blog, Brasil Mobilizado, o propósito do encontro seria apresentar a investidores estrangeiros oportunidades de negócios no Brasil, com a privatização de estatais brasileiras no caso de vitória de José Serra.
Ainda segundo Braga, FHC estaria assumindo com os empresários o compromisso de venda de empresas como a Petrobras, Banco do Brasil e Itaipu, em nome de José Serra.
“Cada um dos investidores recebeu uma pasta com dados sobre o Brasil, artigos de jornais nacionais e internacionais e descrição detalhada do que José FHC Serra vai vender se for eleito”, escreveu Laerte Braga. “E além disso os investidores estão sendo concitados a contribuir para a campanha de José FHC Serra, além de instados a pressionar seus parceiros brasileiros e a mídia privada a aumentar o tom da campanha contra Dilma Roussef.”
Ainda segundo o blog, FHC teria dito, logo após ser apresentado pelo organizador do evento Raphael Ekmann, que “se deixarmos passar a oportunidade agora jamais conseguiremos vender essas empresas.”
Raphael Ekmann, ex-gerente comercial da Globosat, é responsável por relações com investidores do Grupo de Investimentos Tarpon. Em 2006, este grupo fez uma oferta hostil para tentar comprar a Acesita, e em 2009, vendeu sua participação na siderúrgica para a Arcelor Mittal.
Braga cita a presença de outras pessoas, como Alice Handy, que vem a ser fundadora e presidente de um grupo privado de investimentos em Charlottesville, nos Estados Unidos, e de Anjum Hussain, diretor de gerenciamento de risco de outro fundo de investimentos que administra US$ 1,6 bilhão.
A jornalista Hildegard Angel afirmou em seu blog no R7, que “o fato é realmente grave e pode ser visto como um ato contra a soberania brasileira e seria importante tanto o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como o candidato José Serra virem a público esclarecer essa denúncia.”
Segundo o jornalista mineiro Laerte Braga, em seu blog, Brasil Mobilizado, o propósito do encontro seria apresentar a investidores estrangeiros oportunidades de negócios no Brasil, com a privatização de estatais brasileiras no caso de vitória de José Serra.
Ainda segundo Braga, FHC estaria assumindo com os empresários o compromisso de venda de empresas como a Petrobras, Banco do Brasil e Itaipu, em nome de José Serra.
“Cada um dos investidores recebeu uma pasta com dados sobre o Brasil, artigos de jornais nacionais e internacionais e descrição detalhada do que José FHC Serra vai vender se for eleito”, escreveu Laerte Braga. “E além disso os investidores estão sendo concitados a contribuir para a campanha de José FHC Serra, além de instados a pressionar seus parceiros brasileiros e a mídia privada a aumentar o tom da campanha contra Dilma Roussef.”
Ainda segundo o blog, FHC teria dito, logo após ser apresentado pelo organizador do evento Raphael Ekmann, que “se deixarmos passar a oportunidade agora jamais conseguiremos vender essas empresas.”
Raphael Ekmann, ex-gerente comercial da Globosat, é responsável por relações com investidores do Grupo de Investimentos Tarpon. Em 2006, este grupo fez uma oferta hostil para tentar comprar a Acesita, e em 2009, vendeu sua participação na siderúrgica para a Arcelor Mittal.
Braga cita a presença de outras pessoas, como Alice Handy, que vem a ser fundadora e presidente de um grupo privado de investimentos em Charlottesville, nos Estados Unidos, e de Anjum Hussain, diretor de gerenciamento de risco de outro fundo de investimentos que administra US$ 1,6 bilhão.
A jornalista Hildegard Angel afirmou em seu blog no R7, que “o fato é realmente grave e pode ser visto como um ato contra a soberania brasileira e seria importante tanto o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como o candidato José Serra virem a público esclarecer essa denúncia.”
Dilma é um Brasil pra cima! Baixo astral pode ficar com Serra
A turma do contra - aquela que tem inveja do sucesso alheio porque contrasta com o seu governo fracassado - debocha da equipe de Lula e diz que o governo foi "loteado" entre partidos, como se a coalisão política não fosse a essência da Democracia. O ministro José Gomes Temporão, por exemplo, é do PMDB e faz um excepcional trabalho no Ministério da Saúde. Veja o que diz o Temporão e tire você suas próprias conclusões (vídeo de 3 minutos, mensagem aos médicos):
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
A psicologia de massa do fascismo à brasileira
Esse artigo do jornalista Luiz Nassif traduz o que eu sinto e gostaria de dizer. O País está vivendo talvez o seu maior momento nos últimos 50 anos e cada um de nós tem a possibilidade única de escrever a História. Para isso, temos a opção de molhar nossa pena na coragem e na esperança, ou no ódio e na covardia. Nossa responsabilidade está em assumirmos que o País que teremos será consequência dessa nossa decisão, já que nem o Bem nem o Mal decorrem de geração espontânea.
A psicologia de massa do fascismo à brasileiraLuis Nassif, 13/10/2010 - 23:15
Há tempos alerto para a campanha de ódio que o pacto mídia-FHC estava plantando no jogo político brasileiro. O momento é dos mais delicados. O país passa por profundos processos de transformação, com a entrada de milhões de pessoas no mercado de consumo e político. Pela primeira vez na história, abre-se espaço para um mercado de consumo de massa capaz de lançar o país na primeira divisão da economia mundial. Esses movimentos foram essenciais na construção de outras nações, mas sempre vieram acompanhados de tensões, conflitos, entre os que emergem buscando espaço, e os já estabelecidos impondo resistências. Em outros países, essas tensões descambaram para guerras, como a da Secessão norte-americana, ou para movimentos totalitários, como o fascismo nos anos 20 na Europa.
Nos últimos anos, parecia que Lula completaria a travessia para o novo modelo reduzindo substancialmente os atritos. O reconhecimento do exterior ajudou a aplainar o pesado preconceito da classe média acuada. A estratégia política de juntar todas as peças – de multinacionais a pequenas empresas, do agronegócio à agricultura familiar, do mercado aos movimentos sociais – permitiu uma síntese admirável do novo país. O terrorismo midiático, levantando fantasmas com o MST, Bolívia, Venezuela, Cuba e outras bobagens, não passava de jogo de cena, no qual nem a própria mídia acreditava.
À falta de um projeto de país, esgotado o modelo no qual se escudou, FHC – seguido por seu discípulo José Serra – passou a apostar tudo na radicalização. Ajudou a referendar a idéia da república sindicalista, a espalhar rumores sobre tendências totalitárias de Lula, mesmo sabendo que tais temores eram infundados.
Em ambientes mais sérios do que nas entrevistas políticas aos jornais, o sociólogo FHC não endossava as afirmações irresponsáveis do político FHC.
Mas as sementes do ódio frutificaram. E agora explodem em sua plenitude, misturando a exploração dos preconceitos da classe média com o da religiosidade das classes mais simples de um candidato que, por muitos anos, parecia ser a encarnação do Brasil moderno e hoje representa o oportunismo mais deslavado da moderna história política brasileira.
O fascismo à brasileira
Se alguém pretende desenvolver alguma tese nova sobre a psicologia de massa do fascismo, no Brasil, aproveite. Nessas eleições, o clima que envolve algumas camadas da sociedade é o laboratório mais completo – e com acompanhamento online - de como é possível inculcar ódio, superstição e intolerância em classes sociais das mais variadas no Brasil urbano – supostamente o lado moderno da sociedade.
Dia desses, um pai relatou um caso de bullying com a filha, quando se declarou a favor de Dilma.
Em São Paulo esse clima está generalizado. Nos contatos com familiares, nesses feriados, recebi relatos de um sentimento difuso de ódio no ar como há muito tempo não se via, provavelmente nem na campanha do impeachment de Collor, talvez apenas em 1964, período em que amigos dedavam amigos e os piores sentimentos vinham à tona, da pequena cidade do interior à grande metrópole.
Agora, esse ódio não está poupando nenhum setor. É figadal, ostensivo, irracional, não se curvando a argumentos ou ponderações.
Minhas filhas menores freqüentam uma escola liberal, que estimula a tolerância em todos os níveis. Os relatos que me trazem é que qualquer opinião que não seja contra Dilma provoca o isolamento da colega. Outro pai de aluna do Vera Cruz me diz que as coleguinhas afirmam no recreio que Dilma é assassina.
Na empresa em que trabalha outra filha, toda a média gerência é furiosamente anti-Dilma. No primeiro turno, ela anunciou seu voto em Marina e foi cercada por colegas indignados. O mesmo ocorre no ambiente de trabalho de outra filha.
No domingo fui visitar uma tia na Vila Maria. O mesmo sentimento dos antidilmistas, virulento, agressivo, intimidador. Um amigo banqueiro ficou surpreso ao entrar no seu banco, na segunda, é captar as reações dos funcionários ao debate da Band.
A construção do ódio
Na base do ódio um trabalho da mídia de massa de martelar diariamente a história das duas caras, a guerrilha, o terrorismo, a ameaça de que sem Lula ela entregaria o país ao demonizado José Dirceu. Depois, o episódio da Erenice abrindo as comportas do que foi plantado.
Os desdobramentos são imprevisíveis e transcendem o processo eleitoral. A irresponsabilidade da mídia de massa e de um candidato de uma ambição sem limites conseguiu introjetar na sociedade brasileira uma intolerância que, em outros tempos, se resolvia com golpes de Estado. Agora, não, mas será um veneno violento que afetará o jogo político posterior, seja quem for o vencedor.
Que país sairá dessas eleições?, até desanima imaginar.
Mas demonstra cabalmente as dificuldades embutidas em qualquer espasmo de modernização brasileira, explica as raízes do subdesenvolvimento, a resistência história a qualquer processo de modernização. Não é a herança portuguesa. É a escassez de homens públicos de fôlego com responsabilidade institucional sobre o país. É a comprovação de porque o país sempre ficou para trás, abortou seus melhores momentos de modernização, apequenou-se nos momentos cruciais, cedendo a um vale-tudo sem projeto, uma guerra sem honra.
Seria interessante que o maior especialista da era da Internet, o espanhol Manuel Castells, em uma próxima vinda ao Brasil, convidado por seu amigo Fernando Henrique Cardoso, possa escapar da programação do Instituto FHC para entender um pouco melhor a irresponsabilidade, o egocentrismo absurdo que levou um ex-presidente a abrir mão da biografia por um último espasmo de poder. Sem se importar com o preço que o país poderia pagar.
(http://www.advivo.com.br/
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Aliado corrupto de Serra aparece e ameaça entregar tudo
Do Blog O Tijolaço
O ex-diretor das obras do Rodoanel, citado por Dilma Rousseff no debate, finalmente reapareceu nas páginas de jornal. E dizendo, ameaçadoramente, “não me deixem só″ aos dirigentes tucanos e ao seu “desconhecido” José Serra – vejam a que ponto vai a hipocrisia, dizer que “não conhece” o nome do homem a quem deixou a tarefa de dirigir a mais importante obra de seu Governo, em São Paulo”.
Mas não se anime em achar que a imprensa, agora, investigará os fatos sombrios que já foram noticiados a seu respeito, como a matéria da Istoé que o acusava de ter ficado com R$ 4 milhões arrecadados como “caixa-2″ para a campanha serrista.
Se você olhar a reportagem – a entrevista de Souza é um primor de arrogância e um claro chamado a ser protegido pela máquina tucana – pode até ter a impressão de que o jornal, finalmente, resolveu fazer jornalismo.
Mas basta reparar algumas circunstâncias para ficar com um bando de tucanos atrás das orelhas sobre o que está sendo feito.
A repórter Andrea Michael – não faço um juízo de valor, mas um registro de fato – é a mesma que é acusada de produzir informações favoráveis ao banqueiro Daniel Dantas no processo e que teve sua prisão preventiva pedida pela Polícia Federal na Operação Satiagraha, prisão que, igualmente registro foi negada pelo juiz Fausto de Sanctis. Isso não a desqualifica como pessoa ou profissional mas o jornal, até para preservar sua repórter, deveria evitar a coincidência de que tenha sido a mesma repórter que, no dia 27 de agosto, foi escalada para fazer uma matéria desmentindo as acusações da revista, onde os advogados de “Paulo Preto” dizem que vão processar os jornalistas.
Nesta matéria, por sinal, não há sequer uma referência ao episódio, dois meses antes, da prisão do engenheiro, acusado de receptação, ao tentar vender uma jóia roubada da loja de alto luxo paulista Gucci, igualmente publicada pela Folha, no dia 15 de junho, episódio de pleno conhecimento do jornal, portanto.
Aliás, a Folha não pode alegar, sequer, que esta acusação de receptação o torne fonte menos crível, pois não se escusou de abrir manchetes para o tal “consultor” duplamente condenado por posse de objeto roubado e, também, moeda falsa. Desta vez, porém, a chamada é discreta, muito distante das letras garrafais com que se acusou de corrupção a sra. Erenice Guerra.
Não pode haver defesa mais enfática de que se apurem todas as irregularidades e muito menos alguém nega que uma imprensa livre e ativa seja uma ferramenta inigualável de combate à corrupção. Mas quando esta imprensa retém informação, a publica de forma seletiva e parcial, em função do quanto ela prejudica ou beneficia a candidatura de sua predileção, trai o seu papel de informar.
E polui, pela omissão e pelo dirigismo do que publica, as próprias liberdades democráticas, que tem seu maior alicerce no esclarecimento e na escolha livre da população no processo eleitoral.
O ex-diretor das obras do Rodoanel, citado por Dilma Rousseff no debate, finalmente reapareceu nas páginas de jornal. E dizendo, ameaçadoramente, “não me deixem só″ aos dirigentes tucanos e ao seu “desconhecido” José Serra – vejam a que ponto vai a hipocrisia, dizer que “não conhece” o nome do homem a quem deixou a tarefa de dirigir a mais importante obra de seu Governo, em São Paulo”.
Mas não se anime em achar que a imprensa, agora, investigará os fatos sombrios que já foram noticiados a seu respeito, como a matéria da Istoé que o acusava de ter ficado com R$ 4 milhões arrecadados como “caixa-2″ para a campanha serrista.
Se você olhar a reportagem – a entrevista de Souza é um primor de arrogância e um claro chamado a ser protegido pela máquina tucana – pode até ter a impressão de que o jornal, finalmente, resolveu fazer jornalismo.
Mas basta reparar algumas circunstâncias para ficar com um bando de tucanos atrás das orelhas sobre o que está sendo feito.
A repórter Andrea Michael – não faço um juízo de valor, mas um registro de fato – é a mesma que é acusada de produzir informações favoráveis ao banqueiro Daniel Dantas no processo e que teve sua prisão preventiva pedida pela Polícia Federal na Operação Satiagraha, prisão que, igualmente registro foi negada pelo juiz Fausto de Sanctis. Isso não a desqualifica como pessoa ou profissional mas o jornal, até para preservar sua repórter, deveria evitar a coincidência de que tenha sido a mesma repórter que, no dia 27 de agosto, foi escalada para fazer uma matéria desmentindo as acusações da revista, onde os advogados de “Paulo Preto” dizem que vão processar os jornalistas.
Nesta matéria, por sinal, não há sequer uma referência ao episódio, dois meses antes, da prisão do engenheiro, acusado de receptação, ao tentar vender uma jóia roubada da loja de alto luxo paulista Gucci, igualmente publicada pela Folha, no dia 15 de junho, episódio de pleno conhecimento do jornal, portanto.
Aliás, a Folha não pode alegar, sequer, que esta acusação de receptação o torne fonte menos crível, pois não se escusou de abrir manchetes para o tal “consultor” duplamente condenado por posse de objeto roubado e, também, moeda falsa. Desta vez, porém, a chamada é discreta, muito distante das letras garrafais com que se acusou de corrupção a sra. Erenice Guerra.
Não pode haver defesa mais enfática de que se apurem todas as irregularidades e muito menos alguém nega que uma imprensa livre e ativa seja uma ferramenta inigualável de combate à corrupção. Mas quando esta imprensa retém informação, a publica de forma seletiva e parcial, em função do quanto ela prejudica ou beneficia a candidatura de sua predileção, trai o seu papel de informar.
E polui, pela omissão e pelo dirigismo do que publica, as próprias liberdades democráticas, que tem seu maior alicerce no esclarecimento e na escolha livre da população no processo eleitoral.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Síntese do debate da Band
Dilma é a diferença entre quem é competente e conhece a fundo a administração pública e os problemas e quem, como Serra, só cita bordões.
domingo, 10 de outubro de 2010
Resposta a uma amigo, em pleno clima de beligerância da campanha eleitoral de 2010
A elite
existe e manda nesse pais desde 1500. Você e eu não fazemos parte da elite e
nunca faremos. Essa elite é incompetente e vive de favores do Estado desde
1500. O Brasil teve oportunidade de mudar em diversas ocasiões. Em todas, até
agora, essa elite usou a classe média para impedir qualquer transformação que
nos tornasse um país forte e respeitado. Trairam o povo na Independência,
traíram na República, traíram em todos os movimentos políticos do Século XX
(alguns dos quais eu e você vivenciamos). Finalmente o povo chegou ao poder com
Lula. O Lula não fez o que os imbecis dos comunistas/esquerdistas de botequim
queriam que ele fizesse, que era fechar bancos, reestatizar tudo, dar mordomia
pra funcionário da Caixa e BB que atendem mal o público etc etc etc. Fez um
governo que atendeu os pobres, porque nenhum país se torna grande se a maioria
de sua população vive na pobreza e na miséria, e fez o país crescer trazendo
benefícios para todos, inclusive essa elite fdp. Enfrentou a sacanagem da mídia
aliada à elite e enfrentou os petistas de botequim que queriam botar fogo no
país. Levou pau dos dois lados, foi traído por antigos companheiros (esses são
os piores), como a Heloísa Helena, a Marina Silva, o Requião, o Cesar Benjamin,
o Hélio Bicudo e tantos outros. Sobreviveu ao oportunista do Zé
Dirceu, ao fraco de carater do Palocci, ao porra-louca do Tarso Genro. Está
fazendo um bom governo porque nós, povo, não nos acovardamos e, ao contrário,
ficamos do lado dele em todos os momentos. Além de nós, povo, Lula pôde contar
com gente competente, leal e firme como a Dilma, o Mantega, o Celso Amorim, o
Ciro Gomes e até novos companheiros que se mostraram corajosos e leais, como o
Sérgio Cabral. Agora, a raça que não presta do PT se junta com a raça que não
presta do PSDB, do DEMO e do PPS para tentar sabotar mais uma vez a
oportunidade do Brasil se tornar um país soberano de verdade. Elite, traidores
e covardes estão reunidos num mesmo projeto para tentar, mais uma vez, trair os
brasileiros. Trazem pra campanha eleitoral temas passionais, como corrupção e aborto. Eu
te pergunto: você prefere a corrupção do PSDB ou a corrupção do PT? Ora,
nenhuma! – sei que você responderá. É isso: ninguém é a favor da corrupção,
seja dos aliados ou dos adversários, e honestidade é obrigação, não é mérito.
Portanto, se ninguém no universo é a favor da corrupção – e não existe nenhuma
hipótese de algum político se dizer a favor da corrupção – esse tema não tem
que entrar na campanha política. Só entra para enganar eleitores ingênuos, os
que se deixam usar ora por um partido, ora por outro, mas são sempre massa de
manobra. Religião e aborto também não têm que entrar na campanha eleitoral,
porque religião é assunto pessoal de cada um e todos devemos respeitar a fé (ou
a falta dela) dos nossos semelhantes. E a questão do aborto é questão de saúde
pública, não pode ser discutida em clima emocional. Aborto não é método
contraceptivo (se liberar vira uma carnificina), mas também não se pode prender
(nem deixar morrer sem atendimento) uma mulher ignorante que fez um aborto com
uma agulha de tricô.
Enfim, meu caro amigo, eu estou ao lado da Dilma não por causa do PT (onde há um bando de frouxos), mas pela coragem e firmeza da Dilma, que foi leal ao Lula e ao país e tem coragem suficiente para liderar a verdadeira batalha que teremos que enfrentar para não sermos traídos mais uma vez por um pacto das elites. Entre a Dilma e o José Serra não tenho a menor dúvida de ficar com ela. Serra é um covarde, que incitou o povo contra os militares em 1964 e depois fugiu do país, deixando a merda nas nossas mãos. Depois de 20 anos no exterior voltou para reivindicar indenização de perseguido da ditadura. Dilma tinha 19 anos, era uma adolescente, filha de gente de posses, podia ter sido mais uma dondoca no país, mas decidiu enfrentar os ditadores, ser presa, passar humilhações, e não desertou da luta covardemente. E, meu caro, a covardia é o pior defeito que um homem pode ter.
Espero que estejamos juntos nessa luta para não voltarmos atrás e seguirmos construindo esse novo Brasil que é respeitado pelo mundo. O PT não é dono dessa luta; nós brasileiros é que somos, por isso não podemos deixar nas mãos apenas dos políticos. Não adianta a elite tentar nos dividir hoje entre petistas e não-petistas, entre católicos, evangélicos e ateus, entre a favor e contra o aborto ... Tudo besteira. Somos nós, povo, contra a elite e seus serviçais (que sempre os há).
Forte abraço do
Zé Ribeiro
Enfim, meu caro amigo, eu estou ao lado da Dilma não por causa do PT (onde há um bando de frouxos), mas pela coragem e firmeza da Dilma, que foi leal ao Lula e ao país e tem coragem suficiente para liderar a verdadeira batalha que teremos que enfrentar para não sermos traídos mais uma vez por um pacto das elites. Entre a Dilma e o José Serra não tenho a menor dúvida de ficar com ela. Serra é um covarde, que incitou o povo contra os militares em 1964 e depois fugiu do país, deixando a merda nas nossas mãos. Depois de 20 anos no exterior voltou para reivindicar indenização de perseguido da ditadura. Dilma tinha 19 anos, era uma adolescente, filha de gente de posses, podia ter sido mais uma dondoca no país, mas decidiu enfrentar os ditadores, ser presa, passar humilhações, e não desertou da luta covardemente. E, meu caro, a covardia é o pior defeito que um homem pode ter.
Espero que estejamos juntos nessa luta para não voltarmos atrás e seguirmos construindo esse novo Brasil que é respeitado pelo mundo. O PT não é dono dessa luta; nós brasileiros é que somos, por isso não podemos deixar nas mãos apenas dos políticos. Não adianta a elite tentar nos dividir hoje entre petistas e não-petistas, entre católicos, evangélicos e ateus, entre a favor e contra o aborto ... Tudo besteira. Somos nós, povo, contra a elite e seus serviçais (que sempre os há).
Forte abraço do
Zé Ribeiro
sábado, 9 de outubro de 2010
Sempre é tempo de recomeçar!
John Lennon faria 70 anos no dia de hoje. Perdeu a vida em 1980, abatido pelo tiro de um pobre coitado doido de pedra. Cumpriu a recomendação gaiata de morrer jovem para ser um defunto bonito. Não proclamo "Vida eterna a John!" porque ele se adiantou ao meu desejo. Então, que haja um piano de cauda branco e uma guitarra elétrica na Eternidade.
My sweet George Harrison
Billy Preston solta a voz e ataca no piano (acompanhado por Paul McCartney). Eric Clapton e Tom Petty nas guitarras elétricas. Ringo Starr na bateria, fazendo parceria com Phill Collins. Recomenda-se som nas alturas.
O vídeo é trecho que um "showzasso" que reuniu amigos de George Harrison quando fazia um ano da morte do Beatle (Concert for George). O palco da festa foi o Royal Albert Hall London, e a data, dezembro de 2002.
O vídeo é trecho que um "showzasso" que reuniu amigos de George Harrison quando fazia um ano da morte do Beatle (Concert for George). O palco da festa foi o Royal Albert Hall London, e a data, dezembro de 2002.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Um bom filme para um dia de chuva
Uma sugestão de filme para se assistir em casa, caso chova nesse final de semana. Chama-se "Dúvida" e cuida do candente tema da pedofilia. Nos papéis principais os grandes atores Philip Seymour, como pároco, e Meryl Streep, interpretando a madre rigorosa que suspeita da conduta indevida do pastor. A trama não se resume a isto, mas traz para a reflexão dos expectadores o peso que têm certos interesses pessoais na atitude de condescendência da sociedade para com alguns crimes de forte conteúdo moral, psicológico etc. Filmes como "Dúvida" cutucam a hipocrisia de uma sociedade em que padres e pastores de conduta imoral se valem de temas importantes como o aborto para arrastar seus "rebanhos" aos currais de certos candidatos. O filme é atual no tema, mas deve ter sido lançado lá pelo ano de 2008. Provavelmente não entrou no roteiro dos grandes cinemas. Assista um trecho do sermão em que o padre suspeito manda um recado direto para a religiosa ao discorrer sobre as conseqüências da maledicência.
Bom final de semana para todos!
Bom final de semana para todos!
Para aguardar o sábado de sol que se avizinha
Recomenda-se som nas alturas! (não igual agroboy de pick-up urbana).
Geraldo Vandré: entrevista ao repórter Geneton Moraes Neto
Geraldo Vandré Especial // Tudo o que o Grande Mudo da MPB disse na primeira gravação que faz para uma TV depois de décadas (Hoje, ele garante:”Não existe nada mais subversivo do que um subdesenvolvido erudito”)
ter, 21/09/10
por Geneton Moraes Neto |
Um dos mais duradouros silêncios da Música Popular Brasileira foi quebrado num fim de tarde de domingo no Clube da Aeronáutica, no Rio de Janeiro.
“Demorou uma eternidade”, mas Geraldo Vandré, o grande mudo da MPB, resolveu falar diante de uma câmera de TV.
Desde que voltou para o Brasil, no segundo semestre de 1973, depois de quatro anos e meio de exílio, Geraldo Vandré mergulhou num mutismo quase absoluto.
O compositor e cantor que entrara para a história da MPB dos anos sessenta como autor de canções como “Disparada” (em parceria de Théo de Barros) e “Pra Não Dizer que Não Falei de Flores”/Caminhando” , parecia ter se especializado em provocar espantos em série no público.
Primeiro espanto: numa declaração feita na volta do exílio, anunciou que, a partir dali, só queria fazer “canções de amor e paz”. O Jornal do Brasil registrou outras declarações de Vandré: “Eu desejo, em primeiro lugar, integrar-me à nova realidade brasileira. Isso é um processo que demanda paciência e tranquilidade de espírito – que espero encontrar aqui, nessa nova realidade”.
Segundo espanto: ao contrário do que se esperava, não houve novas canções de “amor e paz”. Vandré sumiu. Nada de shows, nada de entrevistas, nada de excursões. Nada, nada, nada. Recolheu-se a um país que parece ter um só habitante: o próprio Geraldo Vandré.
O Vandré pós-exílio não lembrava em nada o compositor que arrebatara o público no Festival Internacional da Canção de 1967. Entoados por Vandré diante de um Maracanãzinho superlotado, os versos de “Caminhando” ( “vem/vamos embora/que esperar não é saber/quem sabe faz a hora/não espera acontecer”) saíram daquele palco para entrar na história: viraram uma espécie de hino de protesto contra o regime militar. Sob uma vaia de fazer tremer as estruturas do ginásio, o júri deu o prêmio à “Sabiá”, a parceria de Chico Buarque com Tom Jobim. Mas o público foi seduzido pelo tom incendiário dos versos de “Caminhando”. Pouco depois, desabava sobre o país o Ato Institucional número 5 – que dava poderes absolutos aos militares. Vandré partiu para o exílio. A música “Caminhando” foi proibida.
O terceiro espanto viria anos depois: para surpresa geral, descobriu-se que Geraldo Vandré compôs uma peça sinfônica em homenagem à FAB, a Força Aérea Brasileira. Sim, era verdade. Vandré não apenas compôs a declaração de amor à FAB como cultivou uma relação próxima com a Aeronáutica. Vive sozinho em São Paulo. Quando vem ao Rio, para visitar a mãe nonagenária, hospeda-se no hotel do Clube da Aeronáutica, nas proximidades do aeroporto Santos Dumont.
De vez em quando, faz aparições fugidias. Virou lenda. O mutismo deu origem a lendas de todo tipo. Vandré teria sido torturado na volta ao Brasil. Teria, simplesmente, “pirado”. Teria feito um acordo secreto com os militares. E assim por diante. A lenda mais estapafúrdia dizia que ele teria sido castrado ! O silêncio, claro, só servia para alimentar o mistério. Como acontece em casos assim, a fantasia toma o lugar dos fatos.
O que há de certo é que ele foi, sim, constrangido a gravar um depoimento no Aeroporto de Brasília, em 1973. A gravação foi exibida à noite, na TV. Por onde andaria este filme ? Fiz uma primeira busca. Voltei de mãos vazias. Vandré tem lembrança de que agentes da Polícia Federal participaram da operação. Não há registros do filme nem na Polícia Federal em Brasília nem no Arquivo Nacional. Faço uma tentativa no Centro de Documentação da Rede Globo. Nada. Com quem estará o filme ? O que se sabe é que uma empresa de Brasília - uma produtora que, entre outras atividades, fazia filmes para órgãos do governo – foi contratada para gravar o depoimento de Vandré, no aeroporto. O cinegrafista escalado pela produtora para a gravação foi Evilásio Carneiro - por coincidência, trabalha hoje na Globonews. Por falar no assunto: uma dupla de documentaristas prepara atualmente um filme sobre o dono da produtora mobilizada para a gravação do depoimento – um italiano radicado na capital da República. Nome: Dino Cazzola. Em breve, novas informações.
Igualmente, as imagens de Geraldo Vandré cantando “Caminhando” no Maracanãzinho estão desaparecidas. Restou o áudio da performance. Lá, é possível ouvir o pequeno discurso que Vandré, elegantemente, fez em defesa de Chico Buarque e de Tom Jobim, crucificados pelas vaias do público. “A vida não se resume a festivais”, diz, antes de começar a cantar “Caminhando”.
Houve, obviamente, uma ruptura profunda entre o Vandré de antes e o Vandré de depois do exílio. O próprio Vandré nos deu uma explicação : disse que perdeu a motivação e a razão para cantar porque aquele Brasil de 1973 já começava a viver um processo que ele chama de “massificação”. Num país em que a “cultura artística” foi engolida pela “cultura massificada”, não haveria lugar para o que ele fazia.
Depois de quatro meses de insistência, a produtora de TV Mariana Filgueiras terminou convencendo o Grande Mudo da MPB a falar. O mérito de ter derrubado o muro de silêncio que Vandré ergueu em volta de si deve ser creditado, portanto, à capacidade de insistência da produtora. É algo que ocorre com incrível frequência em TV: a responsável pelo furo de reportagem fica nos bastidores. C´est la vie. Mas fica feito o registro.
Vandré marcou o encontro para as cinco da tarde do domingo, doze de setembro – justamente o dia em que ele completava setenta e cinco anos de idade. Nasceu em setembro de 1935 em João Pessoa, Paraíba.
O autor de pelo menos uma obra prima indiscutível – “Disparada” – escolheu o fim de tarde do domingo em que fazia aniversário para produzir um novo mistério – um, entre tantos outros que passou a cultivar desde que saiu de cena: o Grande Mudo decidiu, finalmente, que iria falar diante de uma câmera de TV. Por quê ? É provável que o fato de estar fazendo aniversário tenha pesado.
Para minha surpresa, o Grande Mudo estava solícito, falante, acessível. Aceitou sem reclamar os pedidos para caminhar no saguão do Clube de Aeronáutica diante da câmera do cinegrafista Ricardo Carvalho.
Quando a entrevista terminou, Vandré se recolheu a um quarto do Hotel da Aeronáutica. Cinegrafista improvisado, captei a cena com minha DVCAM: Vandré se afastando em direção à escadaria que dá acesso aos quartos. Estava sozinho. Terminava assim o domingo em que completava setenta e cinco anos. Não imaginei que um dia iria testemunhar esta cena - o cantor que um dia incendiou o país com seus versos de alta combustão estava ali, solitário, no dia em que fazia aniversário, depois de ter quebrado, diante de mim, um silêncio que se estendeu por décadas. Quem se lembra da última entrevista concedida por Vandré para uma TV ? Havia um tom ligeiramente melancólico na cena solitária protagonizada por Vandré no saguão do hotel, a caminho da ala dos hóspedes. Nada de grave. Os domingos à noite não são sempre assim ?
O que importa é que Geraldo Vandré deu sinal de vida. Eu estava lá para testemunhar a cena. Estava fazendo minha pequena parte no circo de horrores geral : “produzir memória”, não deixar que as palavras se desfaçam no vento. Afinal, o que diabos um repórter pode fazer de útil, além de “produzir memória” ? Pouquíssima coisa. Quase nada. Quando Vandré sumiu na penumbra do corredor do hotel, dei por cumprida minha missão – o depoimento tinha sido devidamente colhido. É hora de passá-lo adiante. Eis o que o Grande Mudo falou no dia em que quebrou o silêncio:
A pergunta que todos gostariam de fazer é a mais simples possível: o que foi que aconteceu com Geraldo Vandré ?
Vandré : “Ficou fora dos acontecimentos (ri). Ficou fora dos acontecimentos. Acho melhor para ele. Tenho outras coisas para fazer. Estudei leis. Quando terminei meu curso de Direito aqui no Rio e fui me dedicar a uma carreira artística, já sabia que arte é cultura inútil. Mas hoje consegui ser mais inútil do que qualquer artista. Sou advogado num tempo sem lei. Quer coisa mais inútil do que isso ? Quando entrei na escola, para estudar, era a Universidade do Distrito Federal. Quando saí, era Universidade do Estado da Guanabara. Hoje, é Uerj, no Maracanã”.
Você se animaria a fazer uma temporada comercial,em teatros ?
Vandré : “Tenho uma prioridade: fazer a minha obra de língua espanhola. É uma obra popular. Além de tudo, o que quero fazer, antes de cantar canções populares no Brasil, é terminar uma série de estudos para piano, música erudita com vistas a composição de um poema sinfônico. Porque aí já é a subversão total. Não existe nada mais subversivo do que um subdesenvolvido erudito”.
O fato de a música “Caminhando” ter se tornado uma espécie de hino de protesto provoca o quê em você hoje: orgulho ou irritação ?
Vandré: “Estou tão distante de tudo. Mas não tenho o que corrigir em nada do que fiz. Tenho muito orgulho de tudo o que fiz. Protesto é coisa de quem não tem poder. Não faço canção de protesto. Fazia música brasileira. Canções brasileiras. A história de “protesto” tem muito a ver com a alienação denominatória, é o “protest song” norte-americano, a música country. Há algumas coincidências. Não concordo com a denominação “música de protesto”. Fiz música popular brasileira”.
Você teve uma divergência artística com os tropicalistas – entre eles, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Hoje, você ainda considera ruim a música que eles faziam na época ?
Vandré : “Com essa pergunta, eu me lembrei de uma reposta que o próprio Gil deu uma vez. Fiz uma pergunta a ele. Não me lembro qual foi. E ele disse: “Ah, faço qualquer coisa. Uma tem que dar certo”. Eu não faço qualquer coisa”.
Mas você mudou de opinião sobre os tropicalistas ou não ?
Vandré: “Parece que eles continuam na mesma. É o que me parece. Eu estou distante de tudo – não só do Tropicalismo como de tudo praticamente que se faz do Brasil”.
Em que país vive Geraldo Vandré ?
Vandré: “Vive num Brasil que não está aqui. Geraldo Vandré vive no Brasil. Eu até me atreveria a dizer que quem não vive no Brasil é a maioria dos brasileiros. A quase totalidade dos brasileiros não vive mais no Brasil. Vive num amontoado”.
Como é este Brasil de Geraldo Vandré ?
Vandré : “É o antes – de quarenta anos atrás. O país que o Brasil era quando fiz música para o Brasil não era este país de hoje. Não existia este processo de massificação. Dentro da minha própria carreira – profissionalmente falando – houve uma mudança ali no Maracanãzinho. Ali, houve a passagem do que eu fazia para um público de um teatro de setecentas ou no máximo mil e duzentas pessoas para um ginásio com trinta mil pessoas. E a televisão direto no ar. Já foi a massificação”.
O Brasil de quarenta anos atrás era melhor do que o Brasil de hoje ?
Vandré: “Eu fazia música para aquele país”.
E por que não fazer música para o Brasil de hoje ?
Vandré: “Porque o país é outro. O que existe é cultura de massa. Não é cultura artística brasileira. Não há praticamente espaço para a cultura artística. Se você considerar os outros autores, eles fazem coisas de vez em quando. Não têm uma carreira como tinham antigamente – nem Chico Buarque nem Edu Lobo, ninguém. A carreira que eles têm é uma carreira hoje muito segmentada”.
Você se considera, então, uma espécie de exilado que vive dentro do Brasil ?
Vandré: “Estou exilado até hoje. Ainda não voltei. Eu estou exilado e afastado das atividades que eu tinha até 1968 no Brasil. Eu me afastei. Não retornei”.
Por que é que você resolveu se afastar totalmente da carreira artística naquela época ?
Vandré: “Naquela época, já era assim: já era como hoje. Quando voltei, o Brasil já estava num processo de massificação em que o público para quem eu tinha escrito e para quem eu tinha composto praticamente já não existia, aquela classe média de quatro anos e meio antes. Estava muito confuso tudo.Fui esperando, fui vendo outras coisas. Isso foi de mal a pior – cada vez mais. Para você ter uma ideia: quando terminei o curso de Direito no Rio e me mudei para São Paulo, em 1961, para fazer uma carreira artística, não existia bóia-fria em São Paulo. Hoje, São Paulo é a terra do bóia-fria: todo mundo amontodo nas cidades. Vão aos campos para plantar e para colher e depois voltam para a cidades. Quando fui para São Paulo, a cidade tinha quatro milhões de habitantes. Hoje, são dezesseis milhões de amontoados. É um genocídio. Tiraram todo mundo dos campos para produzir e exportar…”
A decisão de interromper a carreira,então, foi – de certa maneira – um protesto contra o que você via como “massificação” da sociedade brasileira ?
Vandré: “Não. O que houve foi muito mais uma falta de motivo, uma falta de razão para cantar. Protesto,não: falta de razão, falta de porquê. Estou fazendo o que acho que devia fazer”.
O que é que chama a atenção do Geraldo Vandré no Brasil de hoje ? Que manifestação artística desperta interesse ?
Vandré: “A miséria aumentou. Se você pegar a letra de “Caminhando” – ” pelos campos, as fomes em grandes plantações/pelas ruas marchando indecisos cordões/ ainda fazem da flor seu mais forte refrão/ e acreditam nas flores vencendo o canhão” -, hoje é mais ainda. Hoje, as ruas estão muito mais cheias de indecisos cordões. O processo de massificação destruiu praticamente a urbe brasileira”.
Você se animaria a fazer uma canção como “Caminhando” hoje ?
Vandré:”Não existe isso. A gente nunca faz uma canção como uma outra. Aquela é uma canção. Cada uma é uma.A gente faz independentemente de animação. Quando decide fazer, faz”.
Você diria que o Brasil é um país ingrato ?
Vandré : “Não. De forma alguma. São coisas que ocorrem. Guerra é guerra.Não perdi (ri). Eu me lembrei agora de um poema muito bonito de Gonçalves Dias que aprendi com meu pai: “Não chores, meu filho, não chores/ Viver é lutar/ A vida,meu filho, é combate/é luta renhida/ que aos fracos abate e aos bravos só pode exaltar”.
Quando você se lembra hoje do Maracanãzinho inteiro cantando “Caminhando” que sentimento você tem ?
Vandré: “Aquilo foi muito bonito, muito bonito. Pena que eu não posso ver o VT. Estão guardando o VT não sei para quê.Quero ver o VT. Lá na sua estação eles devem ter. Procure lá. Consegue o VT para ver!” ( olhando para a câmera).
Você tem saudade daquela época ?
Vandré : “Saudades….Saudades…Um pouco. Mas também há tanta coisa para fazer que não dá muito tempo de sentir saudade”.
Você vive de quê hoje ? Você recebe direitos autorais ?
Vandré: “Nunca dependi de música para viver. Sou servidor público. Hoje, estou aposentado como servidor público federal”.
Você deixou de receber direitos autorais ?
Vandré: “Pagam o que querem. Não existe controle. Não existe critério. Se nós tivéssemos direito de autor, teríamos os direitos conexos, direitos de marcas, patentes, propriedade industrial. É um assunto complexo. Mas aí não seríamos subdesenvolvidos“.
Você foi o único grande nome daquela geração que não voltou aos palcos – entre eles, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque…
Vandré: “Eu não voltei. É uma boa pergunta: por que não voltei? Não mudou tudo ? Mas será que mudou ?As razões pelas quais me afastei continuam preponderantes no que que se apresenta como realidade brasileira”.
Se você fosse escrever um verbete numa enciclopédia sobre Geraldo Vandré qual seria a primeira frase ?
Vandré: “Criminoso (ri)”.
Por quê ?
Vandré : “O que você chama de governo ainda me tem como anistiado por haver cantado as canções que cantei. Fui demitido do serviço público por causa das canções. O que se apresenta como governo no Brasil até hoje cobra impostos sobre o “corpo de delito” que foram as canções que fiz. Deu para entender agora ? “.
Você foi punido pelo governo da época, perdeu o emprego público…
Vandré: “Fui demitido. Depois, retornei. Briguei, briguei, briguei..”
Em algum momento, você foi considerado “criminoso”…
Vandré: “Fui demitido por causa da canção. E essa canção que foi mltivo de minha demissão até hoje é…Voltei por força de um despacho dado com fundamento na Lei de Anistia, como se eu fosse criminoso. Anistia é para criminoso – condenado por sentença transitada em julgado, se ele aceitar. Porque ele pode não aceitar. Aceitar a anistia significa aceitar-se criminoso, beneficiário de anistia”.
Você acha que a grande injustiça foi esta : em algum momento você ser considerado um criminoso ?
Vandré: “Injustiça não é a palavra…”
Você teria cometido um “delito de opinião” …
Vandré: “Não. Era subversão mesmo, sob certos aspectos, porque não havia nada mais para fazer naquele instante. Não me lembro. Mas as Forças Armadas, propriamente ditas, entenderam muito melhor do que a sociedade civil. Nunca tive nenhum problema com as Forças Armadas propriamente. Sempre houve uma consideração e respeito entre nós”.
Hoje, você nega que tenha sido em algum momento um antimilitarista nos anos sessenta ?
Vandré: “Nunca fui antimilitarista. Nunca assumi tal posição. Fui lá e falei o que queria dizer, numa canção que foi dita e cantada no Brasil diante de todo mundo. A canção foi cantada para os soldados, também”.
O grande equívoco sobre Geraldo Vandré foi este : achar que você era antimilitarista ?
Vandré : “Não houve, na realidade, um grande equívoco. Houve uma grande manipulação porque, quanto mais proibido, mais sucesso fazia; mais se vendia; menos conta se prestava. É uma questão muito séria”.
Qual foi a última manifestação artística que despertou o interesse e a curiosidade de Geraldo Vandré no Brasil ?
Vandré: “Passei quatro anos e meio fora do Brasil. Quando voltei, havia uma coisa muito importante que era o Movimento Armorial. Havia o Quinteto Armorial e a Orquestra Armorial. A sonoridade era muito condensada. O resultado era importante. Para mim, foi a coisa mais importante que aconteceu nos últimos tempos. Não me lembro de outra coisa que tenha ido além daquilo”.
E da produção recente, alguma coisa chamou a atenção do Geraldo Vandré ?
Vandré: “Nada. Tiririca (ri). Dizem que vai ser o deputado mais votado de São Paulo. Está bom ? “.
Você disse, numa discussão na época dos festivais: “A vida não se resume a festivais”. Hoje, tanto tempo depois dos festivais, qual é o principal interesse do Geraldo Vandré ?
Vandré : “São as outras coisas que não estão nos festivais. Minha vida funcional – de que cuidei até me aposentar; as minhas relações com a Força Aérea, o meu projeto de fazer estas gravações na América espanhola…Tenho muita coisa para fazer”.
Outro grande nome que se celebrizou como opositor do regime militar na música brasileira foi Chico Buarque de Holanda. Você acompanhou o que ele fez depois ?
Vandré: “Chico teve um caminho diferente do meu. Não chegou a parar. Produziu muito durante aquela época em que eu estava fora. Chico ficou aqui. Saiu e voltou, saiu e voltou. Passei quatro anos e meio fora. Quando voltei, fiz uma tentativa de apresentação num programa de televisão. Não vem ao caso qual, mas não gostei do que aconteceu: o jogo de pressões que se fez em volta. Recuei. Depois, passou-se um tempo. A própria Globo queria fazer um festival. Chegaram a me procurar. Não tive interesse em participar”.
O que é que a produção de Chico Buarque significa para você ?
Vandré: “Chico é uma pessoa muito talentosa, muito importante. Um grande artista”.
Você perdeu o contato com todos os seus companheiros de geração na música ?
Vandré: “Nunca fui muito enfronhado no meio artístico. Fazia minhas coisas. Voltava para minhas atividades extramusicais”.
É verdade que você ficou escondido na casa da família Guimarães Rosa antes de ir para o exílio ?
Vandré: “Eu saí de circulação. Depois que o tempo foi passando, as coisas vão ficando claras: as Forças Armadas propriamente ditas não tinham nada contra mim. Não tomaram nenhuma iniciativa contra mim. Quando fecharam o Congresso Nacional, no dia 13 de dezembro de 1968, eu estava indo para Brasília para fazer um espetáculo.Evidentemente, suspendemos o espetáculo. Vim de carro – guiando – até São Paulo. Eu estava à mão das Forças Armadas….Nunca deixei de estar. Mas claro que algo poderia acontecer: ao andar à toa pela rua, eu poderia de repente encontrar um “guardinha de trânsito” que quisesse fazer média. Há sempre alguém que quer tirar proveito de situações assim. Para evitar, saí de circulação. Durante um tempo, estive na casa de Dona Aracy (viúva de Guimarães Rosa – que tinha morrido meses antes). Fiquei lá porque, quando vinha para o Rio, como não tinha casa aqui, sempre ficava na casa de amigos e de pessoas conhecidas”.
Por que você tomou esta decisão tão drástica – de interromper uma carreira de tanto sucesso ?
Vandré: “Decidir sair do Brasil naquele ano de 1968. (N:Os mesmos agentes que prenderam Caetano Veloso e Gilberto em São Paulo,em dezembro de 1968, tentaram prender Geraldo Vandré. Mas, avisado por Dedé, à época mulher de Caetano Veloso, Geraldo Vandré conseguiu escapar a tempo) Eu tinha uma programação para fazer fora do Brasil. Tinha um contrato com a televisão Bavária,na Alemanha, para fazer um filme sobre Geraldo Vandré. Fui fazer. Passei um ano e meio pela Europa. Depois, voltei para o Chile – para onde eu tinha ido do Brasil. Havia muitos brasileiros lá ainda. De lá, fui para o Peru. Ganhamos um festival em Lima em 1972 com uma canção que era a única não cantada em espanhol. Era cantada em “brasileiro” mesmo. O Brasil não conhece a canção.Chama-se “Pátria Amada Idolatrada, Salve, Salve – Canção terceira”.
Você se lembra da letra ?
Vandré : “Eu me lembro. É uma canção que foi feita para ser cantada por um homem e uma mulher. Existe de caso pensado – coincidentemente – uma confusão de sentimentos entre a ideia da pátria e a ideia da mulher amada.O homem canta: “Se é pra dizer-te adeus/ pra não te ver jamais/Eu – que dos filhos teus fui te querer demais-/no verso que hoje chora para me fazer capaz da dor que me devora/quero dizer-te mais/ que além de adeus/ agora eu te prometo em paz levar comigo afora o amor demais”.
E a mulher, cuja imagem se confunde com a noção da pátria, responde:
“Amado meu sempre será quem me guardou no seu cantar/ quem me levou além do céu/além dos seus/e além do mais/ amado meu/ que além de mim se dá/não se perdeu nem se perderá”.
Os dois cantam juntos um para o outro. É um contraponto”.
Você foi constrangido a gravar, em 1973, um depoimento em que negava que fosse militante político. Qual foi o peso deste depoimento na decisão de Geraldo Vandré de interromper a carreira ?
Vandré: “Nunca fui constrangido a declarar que não tive militância política. Nunca tive militância político-partidária. Nunca pertenci a nenhum partido. Nunca fui político profissional. Não fui obrigado a dizer que não era militante. Nunca fui militante político. Nesta contemporaneidade em que estamos, eu me lembrei de um professor de Filosofia que dizia: “O homem é um animal político”. Sou uma qualidade de animal político que não depende de eleição. Vamos estudar a diferença entre política e eleição ?”.
Que lembrança você guarda deste depoimento ? Você foi levado para uma sala do aeroporto de Brasília e gravou um depoimento em que – de certa maneira – renegava ….
Vandré (interrompendo) : “É um assunto que ficou muito confuso. Não me lembro exatamente. Gostaria de ver a declaração…”
Você gravou o depoimento quando voltou do Chile…
Vandré: “Gostaria de ver, porque houve montagens. Era gravação. O que foi para o ar não sei”
O depoimento criou espanto na época, porque – de certa maneira – era você negando a militância política…
Vandré: “Nunca fui militante. Se engajamento político é pertencer a um partido, nunca pertenci a nenhum. Nunca fui engajado politicamente”.
Você obrigado a gravar este depoimento ? Fazia parte do acordo para voltar para o Brasil ?
Vandré: “Queriam que eu fizesse uma declaração. Não me lembro o que foi que disse. Mas eu disse coisas que poderia dizer. O que eu disse era verdade. Não disse nada que não tenha querido dizer. A TV Globo deve ter isso. Procure lá…”
A gente procurou e não encontrou….
Vandré: “Pois é: somem com tudo. Que loucura essa…Por quê ? Veja se acha o vt do Maracanãzinho. É o que tem Tom Jobim. É o mesmo vt. A minha parte sumiu. Por quê ? Fizeram uma retrospectiva do Festival. Botaram o Festival no Maracanãzinho- Tom,Chico, todo mundo, Cynara e Cybele. Mas,na hora de botar o Geraldo Vandré, usaram um filme feito na Alemanha, em que eu estava de barba. Não é certo”…
Talvez tenham recolhido o filme…
Vandré: “Para mim, é muito difícil acreditar que a TV Globo tenha se desfeito do filme. Não acredito. Devem estar guardando muito bem guardado”
Só para esclarecer este episódio sobre o depoimento que você gravou quando voltou do exílio : que lembrança exatamente você tem ? Quem pediu a você para gravar este depoimento ?
Vandré: “Aquelas declarações foram feitas para uma pessoa que se me apresentava como da Polícia Federal. Fiz um depoimento aqui. Depois, disseram que eu tinha de ir para Brasília. Cheguei ao Brasil no dia 14 de julho. Dois meses depois, apareço como se estivesse chegando em Brasília. Aquilo foi uma manipulação. O depoimento foi gravado antes. Gravaram-me descendo do avião em Brasília. Tudo muito manipulado. É esta a história dos vts: normalmente, temos esta doença. Estou falando aqui. O que vai ser mostrado vai ser uma seleção que a estação vai fazer. Não vai ser o que estou dizendo. Isso é muito sério”.
Para encerrar o assunto: o depoimento teve um peso na decisão de interromper a carreira ? Você ficou incomodado com aquilo ?
Vandré: “Não. Eu estava chegando e vendo como estavam a coisas.Não tinha menor noção da realidade. Tive de passar por um processo de adaptação no retorno ao Brasil”.
O grande mistério que existe sobre Geraldo Vandré durante todas essas décadas é, afinal de contas, o que aconteceu com ele depois da volta do exílio: você foi maltratado fisicamente ?
Vandré: “Não.Não”
Se você tivesse a chance hoje de se dirigir a uma plateia de jovens num festival,o que é que você diria a eles ?
Vandré: “Vamos ter de dar um tempo aí, não é ?…” (rindo)
Um “tempo” de quantos anos ?
Vandré: “Não sei. Agora, vocês vão votar para presidente, deputado, senador. Estão ocupados com outras coisas. Estou por fora”.
Que papel você acha que vai caber a Geraldo Vandré na história da música popular brasileira moderna ?
Vandré: “Nunca fiz este tipo de avaliação”.
Que papel você espera ter ? Você se acha suficientemente reconhecido ?
Vandré: “Obtive o reconhecimento que procurei e quis”.
Você em algum momento se arrepende de ter interrompido a carreira ?
Vandré: “Não. Porque raramente me arrependo das coisas que faço. Calculo bem, reflito bem, meço bem : quando faço é para ficar feito mesmo. Não existe arrependimento não”.
Para efeito de registro histórico: você, primeiro, não se considera antimilitarista…
Vandré: “Não…”
Segundo: você não foi maltratado fisicamente durante o regime militar…
Vandré: “Não…”
Terceiro: você disse o que quis no depoimento que você foi forçado a gravar quando voltou do exílio…
Vandré: “E em quarto: há o Quarto Comando Aéreo Regional…Tenho uma canção para o “exército azul”, a Força Aérea…(ri e exibe o brasão da Aeronáutica, impresso numa espécie de cartão de visita que traz, no verso, a letra de “Fabiana“). A aviação é muito bonita. A loucura é a aviação. Porque a maior loucura do homem é voar. Conhece loucura maior do que esta ? Não existe”.
Como é que surgiu a fascinação de Geraldo Vandré pela aviação ?
Vandré: “Desde pequeno, desde criança”.
Você gostaria de ter sido aviador ?
Vandré: “É. Não fui aviador militar. Não sou piloto, mas – de certa forma – sou aviador, porque me ocupo de assuntos da aviação. Uma coisa é aviador, outra é piloto. Você pode ser piloto, co-piloto, rádio navegador, mecânico de bordo, médico aviador. Há vários caminhos – não necessariamente tem de ser piloto…”.
O fato de você ter composto uma música em homenagem à Força Aérea criou um certo espanto. Hoje, você se hospeda em hotéis da Aeronáutica, como este. Nós estamos num ambiente militar…
Vandré :”Relativamente, porque este é um instituto de direito privado…”
Houve alguma mudança na postura do Geraldo Vandré ou não em relação às Forças Armadas ?
Vandré : “O que houve foi o reconhecimento de uma parte da sociedade que nunca tinha tido oportunidade de saber realmente quais eram as minhas posições”.
Em que situação Geraldo Vandré voltaria a um palco hoje ?
Vandré:”Depende de onde. Tenho uma programação na qual investo meu tempo e minhas energias : gravar um disco no exterior, num país de língua espanhola. É minha prioridade. Depois, vou ver minha programação para o Brasil. Escrevi umas trinta canções originalmente em “americano de habla hispânica”. Quero gravar num país de música espanhola, com músicos de lá. Minha prioridade comercial é esta. Para o Brasil, por ora, o projeto é a canção da Força Aérea mesmo – e um projeto sinfônico. A canção se chama Fabiana porque nasceu na FAB – em sua honra e em seu louvor”.
Você, hoje, então prefere compor peças sinfônicas ?
Vandré: “Tenho estudado música. Compus uma série de estudos para piano – aproveitando da técnica de uma jovem pianista de São Paulo. Mas a música ganhou outras dimensões. Passou a ser física e matemática. Ritmos do coração. Fica mais complicado,mas, para mim, é música”.
Você tem planos de gravar a música que você fez em homenagem à FAB ?
Vandré: “Claro. Já fizemos uma apresentação numa festa da Força Aérea em torno das comemorações da Semana da Asa, em São Paulo, com um coral de trezentos infantes. Uma coisa muito bonita. Com o tempo, vamos ver quais são alternativas que se colocam”.
Você declarou algumas vezes : “Geraldo Vandré não existe mais….”
Vandré ( interrompendo) : “Não, não declarei. Eu disse que ele não canta no Brasil comercialmente. Apresentei uma canção para a Força Aérea do Brasil. Não canto comercialmente no Brasil porque os problemas todos que tive de enfrentar resultaram de especulações comerciais: vendas clandestinas, câmbio negro, tudo isso. Quanto mais se proibia,mais se vendia. A sociedade, às vezes, tem essa doença”.
Você canta “Disparada” hoje, em casa ?
Vandré : “Não. Faz tempo que não pego num violão. Tenho de voltar a estudar”.
Que instrumento, então, você toca ? Piano ?
Vandré :”Não. Não sou pianista. Toco de improviso alguma coisa”.
Pelo menos duas músicas que você compôs são conhecidíssimas até hoje: “Disparada” e “Caminhando”.
Vandré ( interrompendo) : “Pelo menos duas…”
Se você fosse escolher uma, que música você escolheria como típica da produção de Geraldo Vandré ?
Vandré: “Disparada” é mais brasileira, tem uma forma mais consequente com a tradição das formas da música popular : a moda de viola. “Caminhando” já é mais urbana. É uma crônica da realidade. É a primeira vez que fiz uma crônica. Deu no que deu. A realidade não estava muito querendo ser…”
Retratada…A obra-prima de Geraldo Vandré qual é ?
Vandré: “Todas são iguais. Para mim, são todas iguais. Isso de obra-prima é uma questão de seleção e de predileção do público, os meios de comunicação e os chamados formadores de opinião”.
Mas você deve ter uma predileção pessoal…
Vandré: “Não tenho. É tudo igual mesmo”.
As peças sinfônicas você compõe como ?
Vandré : “As melodias, algumas harmonias…Para escrever em notas convencionais, preciso da escrita de pessoas que estão muito mais afeitas a esta tarefa do que eu.Eu levaria anos para escrever uma partitura. Jamais escreveria como alguém que faz parte de uma orquestra, lê e escreve na hora, à primeira vista. Hoje,estou dedicado a preparar um poema sinfônico cuja abertura coralística será a Fabiana, a canção que fiz para a Força Aérea”.
Você hoje se animaria a fazer um espetáculo para o público brasileiro ?
Vandré :”Não.Para o público brasileiro, só uma coisa muito especial”…
Em que situação você voltaria a se apresentar no Brasil ?
Vandré: “Chegamos a cogitar de fazer uma apresentação da Fabiana no Clube de Aeronáutica. É um dos projetos de que chegamos a nos ocupar. Mas até agora as coisas ficaram postergadas, porque o clube vai entrar em reforma. Vêm aí as Olimpíadas Militares. O clube vai ter de se adequar”.
Qual é a grande inspiração que você tem para compor essas peças sinfônicas ? O que é que motiva você a compor ?
Vandré: “Nunca dependi muito da palavra inspiração. Escolhia os temas. O fundamental para mim é a memória que tenho do que ouvia no cancioneiro popular, as músicas de desde a minha infância”.
O público brasileiro ainda vai ter chance de ver Geraldo Vandré cantando “Caminhando” e “Disparada” no palco ?
Vandré: “Isso é profecia. Não sou profeta”.
O que é que levou você a fazer uma música em homenagem à FAB, a Força Aérea Brasileira, você, que era tido nos anos sessenta como antimilitarista ?
Vandré: “Era tido. Por quem ? Isso deveria ser perguntado para os que a mim me tinham como antimilitarista.Não sou militarista. Mas também não sou anti. Todos os países soberanos do mundo têm suas forças armadas. O que é que devemos fazer com as nossas ? Entregá-las para outras pessoas ? Vamos fazer isso ? Acho que não!
Chamo de “Fabiana” porque nasceu na FAB. Costumamos dizer assim: uma servidora da FAB é “fabiana”. A letra diz : “Desde os tempos distantes de criança numa força,sem par, do pensamento teu sentido infinito e resultado do que sempre será meu sentimento/todo teu/todo amor e encantamento/vertente.resplendor e firmamento/ Como a flor do melhor entendimento/a certeza que nunca me faltou/na firmeza do teu querer bastante/seja perto ou distante é meu sustento/ De lamentos não vive o que é querente do teu ser no passado e no presente/Do futuro direi que sabem gentes de todos os rincões e continentes/que só tu saber do meu querer silente/porque só tu soubeste, enquanto infante, das luzes do luzir mais reluzente pertencer ao meu ser mais permanente”.
O refrão é, coincidentemente, um contraponto de “vem/vamos embora/ que esperar não é saber” : “Vive em tuas asas todo o meu viver/ meu sonhar marinho / todo amanhecer”.
Termina a entrevista. Já são quase sete da noite. O Grande Solitário da MPB caminha em direção à escadaria que dá acesso à ala de hóspedes do hotel que funciona no Clube da Aeronáutica. Parte sozinho. Vai em companhia do único habitante do Brasil que Geraldo Vandré criou para si: o próprio Geraldo Vandré.
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