terça-feira, 6 de agosto de 2024

Memórias da pandemia da Covid-19

É quase madrugada, aqui no prédio há um silêncio sepulcral. Na rua também não passa um carro, um motoqueiro entregador, nem mesmo daqueles que têm pai e não abrem o escapamento da motocicleta. No apartamento em que vegeto, então, nem os meus passos fazem qualquer ruído. E estou calçando propositalmente uma bota, não é nem sapatênis, que faz a gente flutuar. Não, é uma bota de cano curto, dessas que só uso no inverno, e nem assim ela faz barulho. Parece que faz isso para me irritar, aumentar a minha solidão.

Desde que a última namorada foi embora isso daqui ficou uma quietude enervante. Quando ela vivia aqui eu até dava um jeito de atiçá-la para que soltasse uns berros, um escandalozinho pra quebrar o ar de monotonia do ambiente. Era uma polaca, sabe, e polacos têm gênio miserável de ruim, qualquer coisinha já fecham o tempo. E a minha polaca era explosiva; quando eu conseguia enfezá-la, não só o meu prédio, mas os demais do quarteirão ficavam sabendo que eu era um "vagabundo, que não sabia tratar uma mulher"! Aquilo tinha ritmo, era animado. Usava uns qualificativos massa: "demonho" era o mais usual. Não era dessas que dissimulam o desequilíbrio emocional e por mais que a gente mereça nos saem com coisa do tipo: "não aprovo seus modos".
Ah, vá...

Mas voltando ao que interessa, eu até podia aumentar o volume da TV para agitar as coisas, e até recorri a esse expediente uma noite dessas, mas só serviu pra vizinhança pensar que ocorria uma suruba aqui em casa, tal os aiiiiii, ahnnnn, uiiiii e outros gemidos que essas atrizes de filmes pornô são treinadas pra fazer. Houve queixas à administração do condomínio, recebi multa, não foi bom. De resto, me granjeou olhares de admiração de uns adolescentes e outros da mais indisfarçada lascívia de vizinhas que também moram só. A princípio até achei que iria tirar proveito, mas a mais ajeitadinha caminha com o auxílio de um andador e no último aniversário que comemorou tinha mais velas em cima do bolo do que naqueles cruzeiros de cemitérios.

Mas o meu problema nem é tanto com o barulho, e sim o tédio que o silêncio propicia. Noite dessas, num final de semana, resolvi passar trotes por telefone pra quebrar a monotonia. Peguei uma antiga lista telefônica e comecei a pesquisar. Queria um desses prédios em que há telefone na portaria. Logo encontrei um, num edifício alto na rua do Biarticulado. Escolhi um apartamento aleatório, o 601, de alguém com sobrenome Azevedo. Eram 3h50 da madrugada do sábado, fazia um calor insuportável e chovia moderadamente. Tive que ligar três vezes até que finalmente alguém atendeu. Fiz aquela voz arrastada de bêbado e tasquei:

- Dr. Azevedo? Aqui é o porteiro, me empresta 50 reais pra eu comprar uma cerveja e cigarro, que acabou?

O sujeito ficou possesso: - VOCÊ TÁ BÊBADO, REGINALDO? SABE QUE HORAS SÃO? VOU LIGAR PRA ADMINISTRAÇÃO, VOCÊ VAI SER DEMITIDO!

Insisti: - Quando sair o vale eu pago. Vou subir buscar ...

O sujeito entortou: - NÃO VENHA; VOCÊ VAI SE DEMITIDO!

Bati o telefone. Em seguida liguei pro porteiro, com tom de voz de comando:

- Reginaldo, é o Dr. Azevedo, do 601. Sobe aqui rápido pra me ajudar que quebrou um cano e está alagando tudo.

Antes de desligar, arrematei: - Você tá de calção por baixo? Ante a afirmação, determinei: Venha de calção pra não se ensopar todo. E desliguei.

Meia hora depois, quando ainda imaginava a cena do Reginaldo só de calção apertando a campainha do Dr. Azevedo às 4 horas da manhã, o telefone tocou. Era da Polícia. O tal Azevedo e o Reginaldo são daquele tipinho que não tem senso de humor.