Fernando Campelo Duarte
Eu havia pertencido à Polícia e lá deixara bons amigos. Moço de 18 anos, saído de Colégio Marista, filho único, dificuldades e tropeços da vida de meu pai, pequeno varejista do comércio do Rio de Janeiro, e uma amizade de família com os Nobre fizeram-me da noite para o dia o investigador 1129 da Delegacia Regional de Segurança Política e Social, na Polícia Civil do mato-grossense Filinto Müller.
Disse que havia pertencido à Polícia, pois dela saíra a pedidos, cinco meses após entrar, para conservar a mamãe viva alguns anos mais, que tanto a desgastava e preocupava ver o filho que com sacrifícios educara, às voltas com as vicissitudes e os perigos sem glória de mero agente da autoridade.
E porque fizera um concurso no DASP e esperava nomeação para ser o burocrata que ainda sou hoje 20 anos depois, saíra eu da Polícia e lá deixara companheiros dos "0 Hora", das "campanas", das diligências perigosas nas madrugadas dos subúrbios cariocas.
Um dia, já Escriturário do Ministério da Educação e Saúde, já em plena guerra que então abalava o mundo, eis que pelos amigos da Polícia fui dos poucos sabedores do embarque da FEB, do 1º primeiro escalão dos que primeiro se foram como Expedicionários para voltarem sofridos mas gloriosos como Pracinhas.
E aí começa a estória, a estória que só hoje posso contar e que tanto tempo me calei, por assim ser preciso.
Manhã bem cedo, bem informado de hora e local para lá me dirigi; claro que não era, não sou e espero em Deus que jamais seja espião, mormente contra a Pátria. Apenas movia-me a curiosidade de participar de algo histórico como o embarque de meus irmãos de geração, que os invejava tanto, pois fora recusado por deficiência física para o serviço ativo do Exército.
Fui de bonde até onde ele foi, da Ponte dos Marinheiros até o Santo Cristo, e daí, a pé até o Cais do Porto, onde estava o grande navio americano que levaria a FEB.
Esperava encontrar meus amigos da Polícia e junto deles, no meio deles, participar anônimo da segurança do grandioso embarque. Mas ai de mim, algo imprevisível aconteceu: os homens da Polícia que vedavam o ingresso no cais, na avenida Rodrigues Alves e já a alguns exitantes e curiosos prendiam, eram todos estranhos, todos de má cotadura, gente vinda não sei de onde, talvez da Polícia Especial. E então, para não ser preso por suspeito e tal coisa eu sabia como doía nos idos do Estado Novo, dei de pronto meia volta, sem sequer olhar para trás, que até a imagem bíblica da mulher de Lhot me veio à mente e não queria levar bala nem virar estátua de sal.
Apressei o passo e voltei rápido pela rua de onde viera e de súbito deparei com uma placa branca no portal de uma casa, que logo passou a ser para mim a tábua de salvação. Rezavam os dizeres da placa, se ainda me lembro: Ministério da Educação e Saúde. Departamento Nacional de Saúde - Serviço de Saúde dos Portos.
Ali estava a minha salvação e cumpria aproveitá-la.
Ingressei no casarão velhote, e moço que era, solteiro, bem vestido no S120 que me dava o luxo de ter, perguntei logo ao primeiro que encontrei pelo Chefe, se estava e quem era. Aí esse primeiro chamou um segundo e outros mais vieram e não sei porque cargas d’água, acredito que por nervoso, pois por presunção juro que não foi, ao saber por todos aqueles quem era o Chefe e que não estava, disse-lhes que era do Gabinete do Ministro e que estava em inspeção.
Foi um corre-corre danado, todo mundo se arrumando, todo mundo trabalhando e o mais graduado solícito, prestimoso me atendendo.
Tive que ver mapas e relatórios, ouvir desculpas e pedidos, queixas e reclamações, a esta altura já tomando cafezinho feito às pressas, com cuidado para o Oficial de Gabinete do ministro Capanema.
Fiz promessas evasivas de providências que se impunham, fiquei sabendo de tudo sobre a saúde dos Portos, sobre a desrratização dos porões de navios, sobre os perigos da peste bubônica e um milhão de coisas outras.
Lá fora, no Caís, a FEB embarcava e eu suava a cântaros, às voltas com a encrenca em que me metera na ânsia de escapar de uma outra pior.
Afinal todos ouvidos, todos satisfeitos e preocupados com o Chefe que ainda não chegara, após ouvir um pedido especial de promoção feito pelo contínuo, despedi-me dizendo que deixara o carro à distância por causa do embarque da FEB e saí a passos compassados até dobrar a esquina.
Aí quase corri e quando dei por mim estava sentado, de regresso no primeiro banco de bonde que alcançara no Largo de Santo Cristo. Respirei aliviado e prometi a mim mesmo guardar segredo, que só hoje, 20 anos após revelo de nunca ter sido Oficial de Gabinete de Ministro e sim apenas um Escriturário, e do Serviço de Documentação, que era diretamente subordinado ao Gabinete do Ministro.
Curitiba, 12 de agosto de 1964.
Fernando Campelo Duarte
Serviço do Acordo de Classificação do Estado do Paraná
quarta-feira, 24 de abril de 2024
segunda-feira, 8 de abril de 2024
quarta-feira, 3 de abril de 2024
Promessa a São João Batista
Seo Jaime é funcionário público bonachão, da antiga, e gosta de contar 'causos'. Este é um deles.
Certo dia, lá pelo longínquo ano de 1984, como de costume desde a morte de sua mãe ele saiu em busca de lenha pelo transcurso do Dia de São João, data também do natalício de sua genitora. No bairro do Xaxim, na época periferia de Curitiba, ele conseguiu o que buscava, mas havia um porém: os 30 metros de lenha amontoados no terreiro, além de únicos, já estavam vendidos, conforme o chacareiro lhe disse.
Matreiro, seo Jaime não se deu por vencido e ficou por ali proseando, estudando um jeito de levar o que queria. Um metro quadrado lhe bastava, mas o chacareiro firmava pé em não vender o que já era de outro. De repente surge o filho mais novo do chacareiro, ao volante de uma Kombi que fora abastecer de gasolina. Vem, entrega as chaves ao pai e diz que o dinheiro não foi suficiente para completar o tanque, uma vez que o combustível havia subido de preço, desta vez de 670 para 890 cruzeiros (a moeda da época). O velho quase que infartou. Os 'elogios' que proferiu aos governantes são impublicáveis. De lado, seo Jaime tornou à conversa:
- Pois essa lenha que eu queria era para fazer uma promessa a São João Batista para vir levar esse Figueiredo (o então presidente general João Batista Figueiredo) para o Quinto dos Infernos ...
O chacareiro quase nem deixou ele acabar de falar:
- Quem comprou 30 metros não vai dar pela falta de um. Posso ajudar nessa promessa também?
Pouco depois estava seo Jaime a caminho de casa e com a lenha necessária para a fogueira em memória de sua mãe. Não levou de graça, mas - ele conta - o chacareiro fez questão de lhe vender pela metade do preço, para assegurar, desta forma, sua participação no cumprimento da promessa.
Seo Jaime garante que enquanto as brasas ardiam e a fumaça subia ao céu fez o pedido prometido.
(No ano de 1984, seo Jaime entregava os releases da Secretaria do Interior nos veículos de Comunicação).
Certo dia, lá pelo longínquo ano de 1984, como de costume desde a morte de sua mãe ele saiu em busca de lenha pelo transcurso do Dia de São João, data também do natalício de sua genitora. No bairro do Xaxim, na época periferia de Curitiba, ele conseguiu o que buscava, mas havia um porém: os 30 metros de lenha amontoados no terreiro, além de únicos, já estavam vendidos, conforme o chacareiro lhe disse.
Matreiro, seo Jaime não se deu por vencido e ficou por ali proseando, estudando um jeito de levar o que queria. Um metro quadrado lhe bastava, mas o chacareiro firmava pé em não vender o que já era de outro. De repente surge o filho mais novo do chacareiro, ao volante de uma Kombi que fora abastecer de gasolina. Vem, entrega as chaves ao pai e diz que o dinheiro não foi suficiente para completar o tanque, uma vez que o combustível havia subido de preço, desta vez de 670 para 890 cruzeiros (a moeda da época). O velho quase que infartou. Os 'elogios' que proferiu aos governantes são impublicáveis. De lado, seo Jaime tornou à conversa:
- Pois essa lenha que eu queria era para fazer uma promessa a São João Batista para vir levar esse Figueiredo (o então presidente general João Batista Figueiredo) para o Quinto dos Infernos ...
O chacareiro quase nem deixou ele acabar de falar:
- Quem comprou 30 metros não vai dar pela falta de um. Posso ajudar nessa promessa também?
Pouco depois estava seo Jaime a caminho de casa e com a lenha necessária para a fogueira em memória de sua mãe. Não levou de graça, mas - ele conta - o chacareiro fez questão de lhe vender pela metade do preço, para assegurar, desta forma, sua participação no cumprimento da promessa.
Seo Jaime garante que enquanto as brasas ardiam e a fumaça subia ao céu fez o pedido prometido.
(No ano de 1984, seo Jaime entregava os releases da Secretaria do Interior nos veículos de Comunicação).
segunda-feira, 1 de abril de 2024
Reflexões inspiradas na crônica Olhos Parados, atribuída ao poeta Manoel de Barros
RG, 28 junho 99
Meu bom Sobrinho e Amigo Chico:
Do mesmo modo que para "ouvir estrelas / é preciso amar para entendê-las" (Bilac), só vivendo e sentindo muito cada momento que nos dá a Vida é que se pode encontrar felicidade em cada um deles. Fico surpreso ao ver que muito do prazer do Poeta sempre foi meu também. A repetida lembrança dos livros já lidos, duma infância o tempo todo presente, dos passeios aos morros e às ruas antigas, que já não existem, entre velhos eucaliptos há muito mortos, os animais que eram meus amigos e meus irmãos, das Escolas primárias, das professoras, dos poucos colegas com quem faziamos camaradagem, ríamos e conversávamos sobre as coisas do mundo, da Natureza e do Universo, a experiência de plantar e ver crescer, a nostalgia de ver um vagalume e voltar àquelas noites em pijamas de flanela, que fazia a minha boa Mãe, quando a escuridão era fechada e tracejada pelos bichinhos que caçávamos para esfregar a sua luz na nossa roupa, e voltar àquelas noites cheias de estrelas cadentes, e acordar cedo e ver rolinhas e joão-de-barro andando no fundo do quintal, recordar as músicas de uma época tão antiga que em breve dela verá registro, mas ninguém mais que a tenha sentido, em cores, sons e cheiros, que são coisas de percepção individual e impossíveis de transmitir.
Seria para mim uma surpresa se o Poeta fosse um homem jovem - eu o imagino como a mim próprio, quando os tantos anos vividos nos levam a divulgar essas coisas boas e inesquecíveis, embora estivessem, elas todo o tempo aflorando em nossa mente, e as tivéssemos como um bem só nosso e vedado ao conhecimento alheio.
Algumas das experiências do Poeta ...são as minhas! Também estive numa igreja velha, vazia, nela entrei e logo saí, e não tem 1 ano voltei ao casarão abandonado, já não mais igreja, e procurei o zelador para saber da sua história, e onde hoje ela se encontrava, o seu nome, e o que se fez dos livros de registros de batismos; também entrei por caminhos fora do meu itinerário Escola-casa por pura curiosidade de exploração de novos roteiros, e quase me afoguei num riacho em cheia, aos nove anos, porque queria ver de perto o volume das águas, depois da chuva; e a beleza , que ele via saindo das rosas, eu a via fugindo das dálias, que eu achava escandalosas, aos meus sete, e cujo perfume não me dava propriamente agrado; de modo que me identifico com as lembranças e com o sentimento do Poeta para com as coisas tão simples da sua vida, e que provavelmente ele considera o seu mais precioso bem. Porque os outros, que por ventura ele possua, poderão ser vendidos ou trocados, mas um sacramento tem valor próprio e único, pertence à vida de uma pessoa tanto quanto a alma é individual e intransferível.
Mais uma vez sou grato à sua presença junto a mim, essa presença o mais das vezes não física, como agora, quando através dos olhos parados do Poeta você me reativa os verdadeiros valores desta minha vida.
Muito obrigado.
Graudo
Meu bom Sobrinho e Amigo Chico:
Do mesmo modo que para "ouvir estrelas / é preciso amar para entendê-las" (Bilac), só vivendo e sentindo muito cada momento que nos dá a Vida é que se pode encontrar felicidade em cada um deles. Fico surpreso ao ver que muito do prazer do Poeta sempre foi meu também. A repetida lembrança dos livros já lidos, duma infância o tempo todo presente, dos passeios aos morros e às ruas antigas, que já não existem, entre velhos eucaliptos há muito mortos, os animais que eram meus amigos e meus irmãos, das Escolas primárias, das professoras, dos poucos colegas com quem faziamos camaradagem, ríamos e conversávamos sobre as coisas do mundo, da Natureza e do Universo, a experiência de plantar e ver crescer, a nostalgia de ver um vagalume e voltar àquelas noites em pijamas de flanela, que fazia a minha boa Mãe, quando a escuridão era fechada e tracejada pelos bichinhos que caçávamos para esfregar a sua luz na nossa roupa, e voltar àquelas noites cheias de estrelas cadentes, e acordar cedo e ver rolinhas e joão-de-barro andando no fundo do quintal, recordar as músicas de uma época tão antiga que em breve dela verá registro, mas ninguém mais que a tenha sentido, em cores, sons e cheiros, que são coisas de percepção individual e impossíveis de transmitir.
Seria para mim uma surpresa se o Poeta fosse um homem jovem - eu o imagino como a mim próprio, quando os tantos anos vividos nos levam a divulgar essas coisas boas e inesquecíveis, embora estivessem, elas todo o tempo aflorando em nossa mente, e as tivéssemos como um bem só nosso e vedado ao conhecimento alheio.
Algumas das experiências do Poeta ...são as minhas! Também estive numa igreja velha, vazia, nela entrei e logo saí, e não tem 1 ano voltei ao casarão abandonado, já não mais igreja, e procurei o zelador para saber da sua história, e onde hoje ela se encontrava, o seu nome, e o que se fez dos livros de registros de batismos; também entrei por caminhos fora do meu itinerário Escola-casa por pura curiosidade de exploração de novos roteiros, e quase me afoguei num riacho em cheia, aos nove anos, porque queria ver de perto o volume das águas, depois da chuva; e a beleza , que ele via saindo das rosas, eu a via fugindo das dálias, que eu achava escandalosas, aos meus sete, e cujo perfume não me dava propriamente agrado; de modo que me identifico com as lembranças e com o sentimento do Poeta para com as coisas tão simples da sua vida, e que provavelmente ele considera o seu mais precioso bem. Porque os outros, que por ventura ele possua, poderão ser vendidos ou trocados, mas um sacramento tem valor próprio e único, pertence à vida de uma pessoa tanto quanto a alma é individual e intransferível.
Mais uma vez sou grato à sua presença junto a mim, essa presença o mais das vezes não física, como agora, quando através dos olhos parados do Poeta você me reativa os verdadeiros valores desta minha vida.
Muito obrigado.
Graudo
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