José Ribeiro Jr
Nos anos 80, um poeta popular escreveu: "Sorte tem quem acredita nela". É uma
meia verdade, porque só acreditar não basta, é preciso dar oportunidade à sorte
para que ela nos encontre. E essa oportunidade atende pelo nome de
INICIATIVA.
Isso me vem à ideia depois de ouvir o relato sobre uma jovem mulher que deixou o
seu país, foi enganada, passou dificuldades, enfrentou-as e se estabeleceu. E um
dia, assim como quem não quer nada, a sorte esbarrou com ela e derramou sobre
ela as suas bênçãos pagãs.
Mas vamos ao começo: a nossa personagem chama-se Letícia e é uma mulher negra,
original da República Democrática do Congo, país africano que por muitos anos
foi colônia da Bélgica. Lá, a nossa Letícia era casada e seu marido trabalhava na
área da Informática. Tinham uma filha pequena, Raíssa, que veio com a mãe para o Brasil
em busca de melhor sorte. O ponto de contato no Brasil era um irmão do marido,
que vivia no Paraná. O parceiro seguiria a mulher e a filha mais adiante, quando
..., quando ..., quando ... e até hoje não veio. Isso foi há 8 anos.
Quando se deu conta do logro, a congolesa tocou a vida sozinha. Uma habilidade
trazida da África era o trato com cabelos encarapinhados. A moça sabia fazer
aquelas tranças que fazem sucesso nas cabeças de artistas, jogadores de futebol
e outros famosos. Tanto que ganharam nome em inglês: Dreadlocks (rastafari, para
outros).
Foi assim que ela rapidamente conseguiu colocação em salões de cabeleireiro e
conquistou a simpatia de clientes. Não demorou muito, montou seu próprio
negócio, simples, pequeno, apertado, mas seu. E assim, dando sopa para ser
bafejada por alguma sorte, eis que numa manhã comum foi parada na Rua das
Flores, o quarteirão mais famoso no Centro de Curitiba, por alguém que se dizia
fotógrafo e pedia que ela posasse seu bonito rosto e cabeleira para alguns
instantâneos.
Após postar as fotos em seu Instagram (isthisreal), o fotógrafo-artista Brian
Baldrati quis ouvir sua história e soube do sonho de trazer a mãe para o Brasil.
Daí para a ideia de fazer um crowdfunding (vaquinha) entre os seus 1,8 milhão de
seguidores, para abrir à cabeleireira congolesa as "portas da esperança", foi um
pulo.
Uma breve pesquisa em sites de viagens mostrou que R$ 12 mil
seriam suficientes para bancar a viagem transatlântica. As carteiras se abriram
rapidamente, atendendo o apelo do influenciador digital, e não pararam nos R$ 12
mil, bateram a marca dos R$ 25 mil. Agora não só era possível trazer a mãe da
nossa personagem ao Brasil, como também dar um 'upgrade' no salão.
Voltando ao poeta popular e parodiando a sua 'máxima', concluo que quem deseja
se molhar deve, ao menos, sair à rua sem guarda-chuva.
A moça deu ao Salão o nome Baobá, uma árvore enorme, de origem africana, com
muitas raízes. A inspiração não se encerra na memória afetiva de sua longínqua África, ela tem também um significado no imaginário de Letícia: multiplicar o salão em diversas franquias,
tantas quantas são as raízes de um bom Baobá.
As fotos a seguir são de autoria do fotógrafo Brian Baldrati, postadas em sua página no Instagram (isthisreal). O próprio autor aparece em uma das imagens, ao lado de Letícia e Raíssa.



