segunda-feira, 7 de abril de 2025

A maravilhosa Flamboyant na voz e interpretação do grande Emílio Santiago


Flamboyant, com Emílio Santiago 

(Compositores: João Batista Maranhão Filho e Paulo César de Oliveira Feital)


Por quantas noites eu me vi desencantar

Enquanto os palcos desabavam sobre mim

O meu amor então beijava o meu olhar

Dizia: "Vamos lá. Levanta e vai cantar"

E eu me vestia e ela ia amamentar

Nosso menino era platéia e camarim

E dos seus seios parecia perguntar:

"Meu pai, o que é que há?

Me beija e vai cantar"

E eu sabia que tinha de ir

Pra amenizar toda a dor da cidade

E eu pousava nos pianos por aí

Tal qual um sabiá pousa num flamboyant

Por quantas vezes eu pedi a Deus de manhã

Deixar eu cantar pro Brasil

Pra ter no portão o leite e o pão

E o rabo do cão que diz não quando é sim

Meu amor já na porta de casa

Tendo ao colo o nosso Arlequim

Me dava a impressão de um samba de Tom Jobim

Até que um dia eu resolvi desencantar

E desabei por sobre os palcos do país

O meu amor ainda beija o meu olhar

E eu digo: "Vamos lá; Cantar; Pra que chorar?"

E eu peço a Deus para poder doar a luz

Que  minha voz cumpra a missão de atenuar

Toda a amargura dessa terra de Jesus

E eu digo: "Vera Cruz, cantar pra não chorar"

E pros que cantam nos seus cabarés

Tenham orgulho dessa profissão

Pousem nos palcos dos pianos, violões

E a voz é um colibri, nas flores das canções

Por quantas vezes eu peço a Deus de manhã:

"Conserva-me a simplicidade"

"Pra ter no portão o leite e o pão"

E o rabo do cão que diz não quando é sim

Meu amor já na porta de casa

E o sorriso do meu Arlequim

É um céu de emoções e eu sou uma luz assim

A brilhar, a brilhar, a brilhar

Meu amor sempre à porta de casa

E o sorriso do meu Arlequim

Sou um samba-canção eterno de Tom Jobim

A cantar, a cantar, a cantar

Meu amor sempre à porta de casa

E o sorriso do meu Arlequim...

domingo, 6 de abril de 2025

Angústia

 



Tristeza, solidão, silêncio, uma angústia filha da puta. Aqui é um oásis em campo de neve. Um útero aquecido artificialmente, que abriga alguns por alguns instantes. Logo todos serão devolvidos à sua angústia silenciosa fora daqui. Se me dão opção, permaneço, não embarco, tomo mais um café, e outro e outro..., na esperança de acordar em casa, a milhares de quilômetros. Olho aquela que serve: donde a alegria que expressa no olhar? Só há tristeza, frio, umidade e solidão aqui em torno...! Lá fora, a lotação é a representação da desesperança. Que se vá sem mim. Me ocorre uma canção: “chove lá fora / e aqui tá tanto frio”. Por um momento queria ser ela, me sentir feliz, seguro, como ela aparenta ser, alheia a esse espaço deprimente. Se eu fosse ela, queria mais era morrer. A canção insiste: me chama, me chama, me chama.

Solidão (1992)

Noite Estrelada, obra de Vincent Van Gogh

Quase zero hora. Fecha o programa em que vinha trabalhando, encerra o login, desliga a máquina. Àquela hora restam poucos gatos pingados na Redação. Se despede com um aceno, sem balbuciar palavra e sai, descendo os três lances de escada que conduzem para fora do prédio. A rua, a essa hora e no meio da semana, costuma estar quase vazia. A noite está quente, boa para se caminhar. E é o que faz. Podia tomar um táxi, um ônibus para voltar à casa. Mas para quê? Caminha pela rua vazia quase roçando o tapume da obra de um grande edifício que está sendo erguido nas imediações. Sente conforto com a sensação de desaparecer, ser absorvido por aquelas paredes, como numa passagem imaginária para outra dimensão qualquer. Pensa na vida. Tem quase 40 anos. A família está em vias de se dissolver, como de fato ocorrerá. Os dias que virão serão uma incógnita e, de certa forma, isso o estimula mais do que o atormenta. Atravessa uma rua um pouco mais movimentada, olha para dentro dos carros, se fixa nos casais – a essa hora não há crianças acompanhando os pais. Se sente nostálgico de uma situação que ainda irá viver, mais sozinho ainda do que está agora. Continua o caminho; até a casa são cerca de 4 quilômetros e meio, um trajeto que deve percorrer em cerca de uma hora. Contorna uma praça, passa por pessoas que aguardam ônibus em um ponto. Evita o olhar das pessoas, receia encontrar alguém conhecido. Essa possibilidade é praticamente nula, mas o desejo de evitar contato persiste como se o risco fosse real e iminente. Toma uma rua em forte aclive, agora numa direção mais definida rumo à casa. Vence os cerca de mil metros até o topo do trajeto, a partir de onde a rua se converte em um longo declive, como que para compensar o gasto de energia do trecho anterior. Tem a atenção voltada para um ambiente iluminado, um bar aberto àquela hora. Estranhamente sente vontade de entrar. Não mais que meia dúzia de notívagos bebem cerveja e assistem algo numa velha TV suspensa. Há muito tempo, desde que a crise se instalou na sua vida, não sente fome. Mesmo assim, para justificar a presença ali, pede um sanduiche e algo para beber. O ambiente lhe é absolutamente estranho e isto propicia um relativo conforto emocional: ninguém ali conhece os problemas que ele vive. Momentaneamente se sente bem; há meses, talvez um ano, não experimentava essa sensação. Os presentes não estranham a presença do estranho, aliás, são praticamente indiferentes a ele – é mais um que prefere a rua à casa, à noite. Cada qual tem seus motivos. Termina o sanduiche e a bebida, paga a despesa e volta ao seu caminho. Ainda faltam uns 2 quilômetros para chegar em casa, já deve ser quase uma hora da manhã, a noite está clara, quente e aquele homem que caminha só consegue por breves minutos desaparecer no mundo. Até chegar em casa, onde todos já dormem e onde adentrará o seu quarto, tomará um banho e se deitará para dormir por algumas horas. Se tiver sorte, não irá sonhar. Amanhã será outro dia, e pode ser que nesse novo dia aconteça algo que traga a vida perdida que ele quer de volta. Mas pressente que não acontecerá. Ele ainda não sabe, mas não faltam muitos amanheceres para o sol voltar a brilhar para ele. Até lá, seguirá só; ele só e seus pensamentos.