Estou voltando para onde não há nada à minha espera. Este café à beira de estrada adia uns parcos minutos o meu destino e só faz aumentar a tensão que me põe um trem sobre o peito. Estou retornando a um lugar que nunca foi meu e que nada me identifica. Sou nada neste ônibus que divido com outros seres vazios de sonhos. Ainda 1600 quilômetros me separam do que julgo seja o meu destino final, e essa espera tortura meus pensamentos mágicos. Uma angústia filha da puta me acompanha, como uma sombra da qual não consigo me ver livre. Esse ambiente aquecido e ruidoso me soa um oásis nesse campo de neve, que cai lá fora sem cessar. Isso daqui é um útero aquecido artificialmente, que abriga alguns por alguns instantes. Logo todos serão devolvidos à sua angústia silenciosa fora daqui. Se me dão opção, permaneço, não embarco, tomo mais um café e outro e outro... na esperança de me transmutar a dezenas de milhares de quilômetros daqui, para uma terra de um ar quente que me inflou os pulmões por vez primeira. Olho a minha volta e diviso aquela que serve as mesas: – Donde a alegria que expressa no olhar??!! Só há tristeza, frio, umidade e solidão aqui em torno! Observo a janela; lá fora, a lotação estacionada é a representação da desesperança. Que se vá sem mim! (Me ocorre uma canção: “chove lá fora / e aqui tá tanto frio”) Por um momento penso que gostaria de ser ela; me sentir seguro, feliz como ela aparenta ser, alheia a esse espaço deprimente. (Mera divagação ..., se eu fosse ela queria mais era morrer!) A canção insiste: “Me chama, me chama, me chama...”
Nomes de Favela, de Paulo Cesar Pinheiro. Um contraponto à necropolítica de vagabundos, bandidos e desqualificados que o Bolsonarismo trouxe para a Política.
O poema 'O outro Brasil que vem aí', de Gilberto Freyre, criado no ano de 1926. Tão Antigo, Tão Atual! No vídeo que segue, o poema é declamado pela Verônica, do Canal Trago um Livro.
Esta postagem reproduz o conteúdo de um paper produzido em 2023/2024 para orientar estudos sobre os resultados das eleições municipais daquele ano. Decidi torná-lo público em razão da repetição do fenômeno nas eleições legislativas na Argentina.
José Ribeiro Jr, publisher do The Villa Biscaia Post
O principal fenômeno nas eleições municipais de 2024 provavelmente não tenha a ver com um suposto crescimento da direita ou o também suposto encurtamento da esquerda. Tampouco é um fenômeno que surgiu apenas no pleito atual; já estava presente nos mais recentes pleitos, sinalizando um crescente desinteresse pelas eleições. Então, o elemento "novo", que definiu direta ou indiretamente o resultado das urnas, pelo menos nas grandes capitais, foram a ABSTINÊNCIA - principalmente - e o VOTO EM BRANCO de cerca de 1/3 dos eleitores.
Esse fenômeno ocorreu tanto no primeiro como no segundo turno, em diferentes capitais, como Curitiba e São Paulo, talvez evidenciando uma nacionalização dessa tendência. A questão é estudar o que motivou esse procedimento e o que levou a isto.
Uma hipótese é o descrédito da população com o sistema político e com as autoridades em si.
Seria importante identificar ideologicamente esse um terço que virou as costas aos candidatos. Talvez por coincidência, esse é o mesmo tamanho daquele contingente que nas eleições em geral flutua entre a esquerda e a direita, pendendo para o lado que se mostrar mais capaz de lhe acrescentar valor.
Se assim for, são pessoas que olham nos candidatos valores como coerência e credibilidade. Aqueles assim identificados são aceitos, sendo de esquerda ou de direita, porque passam a ideia de que suas escolhas, ainda que contrárias aos interesses imediatos de seu eleitores, são as possíveis naquele momento, ou as mais adequadas. Passam a ideia de que não agem por interesses menores, ou particulares, em geral escusos. Por não identificar esses valores nos candidatos com maiores chances de serem eleitos, esse tipo de eleitor não aceitou se associar nem ao candidato da direita, nem ao da esquerda.
O ocorrido na disputa em São Paulo dá força a essa hipótese. Uma parcela do 1/3 que preferiu se abster ou votar em branco em vez de destinar o voto à dupla Guilherme Boulos/Martha pode ter na lembrança o Boulos e a Martha de 2013, quando - um movido por ambição, a outra por despeito - uniram-se à extrema direita para tentar destruir o PT e a então presidente Dilma Rousseff.
Vale recordar: em um dos melhores momento de todos os tempos do Brasil, em 2013, Guilherme Boulos liderou o movimento "Não vai ter Copa", que descambou em quebra-quebra em todo o País, incentivado por provocadores da extrema direita e turbinado pela velha mídia - Jornal Nacional e revista Veja à frente.
Se alguém havia esquecido dessa página negra do candidato do PSOL, o neoextremista de direita, Aldo Rebelo, tratou de lembrar ao produzir um vídeo usado pela campanha adversária no qual sentenciava, arremedando Boulos contra a Copa do Mundo no Brasil: "Não vai ter Boulos".
Martha ex-Suplicy não fez menos. Tomada de ódio contra Dilma Rousseff, Martha aliou-se ao então vice-presidente Michel Temer em um golpe de traição contra a presidenta, que resultou no impeachment sem crime de responsabilidade. Então deputada, Martha não apenas votou a favor da derrubada de um governo escolhido democraticamente pela maioria da população; ela cassou o mandato da primeira e única mulher que chegou à Presidência do Brasil e entregou o poder a um homem sem votos e tampouco méritos para ocupar essa posição. E não foi só: feminista de carteirinha, Martha justificou a ausência absoluta de mulheres na equipe ministerial de Michel Temer, fato que considerou natural.
Não foi a primeira pisada de bola feia da ex-petista. Quando tentava a reeleição à Prefeitura de São Paulo, em disputa com o então quase desconhecido Gilberto Kassab, para quem perdeu, mesmo sendo reconhecida como "melhor prefeita de São Paulo de todos os tempos", Martha sugeriu de maneira dissimulada que o adversário era homossexual.
Ela reagia a uma campanha difamatória nas redes sociais que pregava o voto em Kassab e se valia da posição da então prefeita em defesa dos direitos dos homossexuais para "demonizá-la" perante eleitores ultraconservadores. Tais páginas, se não tinham autorização de Kassab, também não eram renegadas por ele, supostamente também homossexual.
Questionado por Martha se era casado, tinha filhos..., Kassab não precisou responder, tampouco se defender, o que o desgastaria; a mídia contrária a Martha tratou de atacá-la, acusando-a de ser homofóbica, e os movimentos LGBTQIA+ , sempre defendidos pela ex-prefeita, engrossaram os ataques. Poupado da exposição negativa por uma "imprensa amiga", Kassab derrotou Martha nas urnas e se consolidou como um dos principais líderes partidários nacionais.
Em Curitiba, onde os candidatos de direita predominaram, esse 1/3 que não votou ou optou por votar em branco pode ter agido por se sentir enganado pelos principais nomes de extrema direita que os apoiavam: o ex-presidente Jair Bolsonaro e o ex-juiz, atual senador Sergio Moro.
Tanto Bolsonaro como Moro possuem seguidores ideológicos de extrema direita, que os apoiam de maneira cega. Esses possivelmente se dividiram entre os candidatos Eduardo Pimentel e Cristina Graeml, especialmente ela. Eleitores de centro-esquerda e de esquerda possivelmente deram o seu voto em segundo turno a Pimentel (não por ele, mas para evitar a vitória dela).
Entre os que viraram as costas aos dois candidatos de direita, certamente estão uns poucos militantes da extrema esquerda, que julgam com isso "marcar posição". Fora esses poucos, o grosso da parcela que não compareceu às urnas ou anulou optando pelo voto em branco possivelmente é composto pelos desiludidos de Bolsonaro e Moro.
Outrora, o ex-presidente militarista recebeu votos desse contingente em razão da agressiva campanha de mídia contra o PT e Lula. Mas o seu desastrado governo e sua constante agressão à Democracia e às leis fizeram abrir os olhos desse público.
O mesmo ocorreu em relação ao ex-juiz, cujas atitudes reveladas pela Vaza Jato e o fim da blindagem que a velha mídia lhe concedia expuseram o seu caráter ambicioso e carreirista aos olhos desse público conservador.
O que pode ser feito
O aqui exposto não tem suporte científico; trata-se apenas de uma tentativa de interpretar o fenômeno abstinência a partir de um olhar sobre o diversificado noticiário das eleições de 2024 e das manifestações sobre o tema nas redes sociais, em especial o X (ex-Twitter), WhatsApp e Facebook. A análise empírica deveria ser complementada com uma pesquisa com esse público, para identificar suas razões.
Trabalhando sem a confirmação por pesquisa, considerando ser verdade o quadro descrito, cabe às forças de esquerda e centro esquerda conquistar ao menos uma parte significativa desse público conservador para obter sucesso nas próximas eleições de 2026. Para isto, a Comunicação deve ter um caráter de ESCLARECIMENTO, não apenas informativo.
O Trio Meyer Ferreira apresenta o show “Brasilidades” nesta quinta-feira, dia 23/10, no Teatro da Biblioteca Central da PUC, no Prado Velho. O grupo é formado pelas irmãs Corina (flauta transversal), Elisa (bandolim, clarinete, banjo e piano) e Lia Meyer (violão de 6 e 7 cordas). A apresentação em Curitiba inclui o lançamento da composição inédita "Araucária", de Elisa Meyer com arranjos do maestro Aramis Mendes, da Orquestra Experimental da PUC/PR. O show marca também a estreia do novo nome do Grupo, criado em 2002 como "Choro das 3" e popularmente conhecido no Brasil e nos Estados Unidos pelas lives que realiza todas as quintas-feiras, transmitidas pelo Youtube e outras redes sociais.
A apresentação GRATUITA integra o Circuito Cultural PUCPR 2025 e conta com patrocínio da Chamex.
Serviço:
Trio Meyer Ferreira
Data: 23 de outubro de 2025
Horário: 20h
Local: Biblioteca Central da PUCPR (Rua Imac. Conceição, 1155, Prado Velho)
Quem visitar Manaus pela primeira vez deve estar preparado para encontrar uma
cidade envelhecida, maltratada pelas administrações municipal e estadual, com
muita sujeira nas ruas, que fedem a urina e fezes. Não era o que eu esperava
encontrar na cidade que está no nosso imaginário desde os primeiros anos
escolares, quando as professoras nos falam de um grandioso rio, um dos maiores
do mundo, que atravessa uma floresta magnífica, de árvores mais altas do que os
mais altos edifícios e que 10 homens não são suficientes para abraçar uma
delas.
O saneamento da cidade é precário e não é raro encontrar esgoto escorrendo a céu
aberto em áreas centrais. Ao longo de uma avenida estrutural, no lado Leste da
Cidade, em um canal que separa as vias é despejado esgoto sanitário de moradias,
empresas e pequenas indústrias, formando um córrego esverdeado e fétido.
Joga-se todo o tipo de lixo nas ruas (copos de plástico, garrafas pet, papel e
papelão, frutas estragadas ...), mesmo em áreas em que há equipamento público
para descartes. Muitos bueiros estão entupidos de resíduos a ponto de vedar as
grades por onde deveria escorrer a água das chuvas. A cultura da sujeira impera,
especialmente no Centro envelhecido de Manaus.
A área portuária é um pouco mais cuidada, talvez porque bastante frequentada por
turistas estrangeiros que embarcam para passeios pelas águas do Amazonas. O
Terminal Hidroviário não tem a sofisticação de aeroportos, está mais para
rodoviárias, mas preserva um padrão razoável de limpeza e conforto - como ar
condicionado - aos frequentadores. No portal de vidro de acesso ao terminal um
COMUNICADO em boas dimensões avisa que os banheiros daquele ambiente público
"são para uso exclusivo dos passageiros em viagens e clientes do centro
comercial" e que é requerida a "apresentação do QR Code obtido com os lojistas
ou bilheteria". Isso ajuda a explicar porque das ruas de Manaus emanam maus
odores.
COMÉRCIO DE ZONA FRANCA
A região central da cidade é pulverizada de pequenas lojas de comércio de
produtos importados. As ruas, apinhadas de lojas, vendedores e compradores se
assemelham bastante a Ciudad Del Este, no Paraguai, assim como à Rua 25 de
Março, em São Paulo, ou o popular bairro de Madureira, no Rio de Janeiro.
Produtos eletrônicos, perfumaria, roupas, anabolizantes, quinquilharias de
cozinha são algumas das mercadorias ofertadas ao público em disputa vocal pelos
anunciantes.
Às 19 horas o Centro da Cidade "morre" com o fechamento das milhares
de lojinhas de importados e o encerramento das também milhares de barraquinhas
de frutas, roupas populares e badulaques em geral. Ruas antes apinhadas de
pessoas repentinamente se tornam desertas e até o movimento de veículos cai
consideravelmente. Quem caminhar pelas ruas vazias, especialmente turistas, irá
se surpreender, mas nada que represente insegurança.
A propósito, a atual administração do Amazonas tem uma campanha de segurança
pública curiosa, que usa o vocábulo "PAREDÃO" para transmitir a ideia de
proteção às pessoas, ao mesmo tempo em que sugere uma advertência a quem
pretenda cometer algum delito. O Sistema Paredão, como é denominado o programa
de segurança do Governo em parceria com a Associação Comercial do Amazonas, faz
a integração das câmeras de vigilância das empresas com a base da Secretaria de
Segurança Pública do Estado. O compartilhamento das imagens captadas pelas
câmeras privadas com aquelas dos totens estatais espalhados pelas ruas e praças
de Manaus, que fazem o reconhecimento facial e veicular, reduziu
significativamente as ocorrências de roubos e furtos na Capital e levou à prisão
de pessoas condenadas e foragidas. Parece que funciona.
MANUTENÇÃO PRECÁRIA OU ZERO
Manaus, como já disse, é uma cidade de arquitetura e infraestrutura
envelhecidas, o que não significa carência de recursos, mas desleixo da
administração pública. O Estado teve um Orçamento aprovado este ano de R$ 31,4
bilhões, parte considerável proveniente do Polo Industrial de Manaus, mas também
do setor Serviços, que está no topo da composição do PIB amazonense.
A propósito, a rede hoteleira, com exceção daquela instalada no Polo Industrial,
está igualmente envelhecida. Às vezes, precocemente envelhecida, revelando falta
de investimentos em manutenção. É verdade que essas são impressões de um
viajante acostumado com a qualidade bastante razoável da infraestrutura de
Turismo existente no Sul e no Sudeste, principalmente nessas duas regiões.
A falta de uma manutenção mais frequente não explica totalmente a deterioração
precoce da infraestrutura da cidade e dos equipamentos públicos; aparentemente,
há uma baixa qualidade dos materiais utilizados nas construções. Isto se
percebe, por exemplo, no Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, totalmente
reformado e modernizado na preparação do Brasil para sediar a Copa do Mundo de
2014 e as Olimpíadas de 2016. Notadamente, a estrutura metálica do aeródromo de
Manaus é de qualidade bastante inferior àquela de outros aeroportos reformados
na mesma época, como o Affonso Pena, na Região Metropolitana de Curitiba, ou o
Aluízio Alves, em São Gonçalo do Amarante, na vizinhança de Natal/RN. Desleixo,
corrupção, incompetência???? Essa é uma pergunta sem resposta.
QUESTÃO CULTURAL
Independente disso, a frágil estrutura de saneamento, a falta de uma política de
urbanização, a precarização dos serviços públicos, tudo isso somado à cultura de
boa parte da população manauara que parece ter naturalizado o péssimo estado de
limpeza e conservação das vias públicas compõem o retrato das áreas centrais de
Manaus. Esse quadro não é exclusivo de Manaus, frise-se; as periferias de São
Paulo e do Rio de Janeiro, por exemplo, diferem pouco ou nada da área mais
antiga de Manaus. Mesmo na chamada "área nobre" como a Ponta Negra, a bonita
praia fluvial manauara, a baixa qualidade dos materiais dos equipamentos
públicos empresta um aspecto envelhecido a estruturas como o anfiteatro ao ar
livre, construído à beira do Rio Negro.
São dois exemplos - o Anfiteatro e o Aeroporto - demonstrativos de que os
administradores públicos do Amazonas tratam mal indistintamente tanto os ricos
como os pobres. E isso contrasta com a alta qualidade e bom gosto daqueles que
construíram o internacionalmente famoso Teatro Amazonas, uma das maravilhas
brasileiras.
HERANÇA DOS BARÕES DO LATEX E VIDA NOTURNA
Considerado um dos maiores símbolos da "Belle Époque" no Brasil, o Teatro
Amazonas foi inaugurado em 1896, no auge do ciclo da borracha, construído com os
recursos financeiros gerados pela extração do látex das seringueiras. O Teatro é
aberto a visitações guiadas, mas também apresenta uma programação eclética que
vai da música clássica a apresentações de grupos populares. Também é palco de
festivais que já são tradição na agenda cultural de Manaus (Festival Amazonas de
Ópera, Festival Amazonas de Teatro e Festival Amazonas de Jazz).
As luxuosas e de bom gosto instalações do Teatro Amazonas são testemunhas do
luxo e riqueza que imperavam na época áurea dos seringais: dos lustres que
iluminam os ambientes, ao mármore das escadarias e colunas, passando pelas
cadeiras originais da plateia e dos camarotes, assim como os espelhos de
cristal, quase tudo veio importado da Europa. A madeira e a arte brasileira
estão presentes no piso do Salão Nobre, que exibe um mosaico de cores formado
por pequenas peças geométricas feitas em jacarandá e pau-amarelo, madeiras
nobres brasileiras. A pintura que ilustra o teto do Salão Nobre é uma obra do
artista italiano Domenico de Angelis, intitulada "A glorificação das Bellas
Artes da Amazônia".
À frente do Teatro abre-se uma ampla praça, com barzinhos e restaurantes
dividindo espaço com a majestosa Igreja de São Sebastião, contemporânea da
construção do Teatro. O local (Largo São Sebastião) é bastante frequentado,
especialmente à noite, quando o calor de Manaus dá uma mínima trégua. É um dos
pontos do centro de Manaus em que há vida noturna.
Outra coisa que chama a atenção em Manaus é a pintura de elementos
característicos da Amazônia na fachada de grandes prédios públicos, como o
edifício do Ministério da Fazenda, onde uma criança indígena descansa apoiada em
um tronco de árvore pendente sobre o Rio Amazonas. Outras edificações exibem
elementos da fauna e do folclore amazônico, ilustrações que distinguem as
construções em meio à "floresta de concreto".
INDÚSTRIA DA FÉ
Na minha curta passagem por Manaus não consegui visitar o MUSA, assim denominado
o Museu da Amazônia, que fica a cerca de 15 quilômetros do Centro de Manaus e
onde o visitante pode optar por fazer os percursos por conta própria ou com um
guia. Elegi a quarta-feira, véspera da viagem de retorno, para conhecer aquela
atração sem saber que este é o dia dedicado à manutenção daquele espaço. (Também
não fui ver o famoso encontro das águas (Rio Amazonas e Rio Negro), menos por
falta de oportunidade do que por ser pouco afeito a navegações. Me bastei com as
imagens disponíveis na Web).
Frustrada a visita àquele museu ao ar livre, optei por retornar ao hotel de
ônibus e assim apreciar melhor o trajeto. O transporte coletivo não contrasta
com a cidade em geral, isto é, os ônibus são igualmente velhos e mal cuidados,
mas a curta viagem valeu a pena pela experiência de viver um pouco do dia a dia
do trabalhador manauara. A propósito, o povo de Manaus é amistoso e gentil em
todas as situações e compartilha com os visitantes o desagrado pela má
administração pública da cidade.
Nesse trajeto me chamou a atenção o grande número de igrejas evangélicas no
Amazonas, muitas das quais lado a lado, o que deve gerar uma disputa renhida por
fieis e dízimos. Quando cheguei ao número 37 desisti, para não me perder nessa
conta. (Em pé no coletivo, a dois passos de onde me sentei, um pregador passou
todo o trajeto conclamando os passageiros a amarmos a Deus, e parecia
desagradado comigo por não responder "amém" às dezenas de "glória a Deus" com
que entremeava a sua fala.)
Mais tarde, buscando complementar informações no Google, li que o número de
igrejas evangélicas em Manaus chegava a cerca de 8,5 mil congregações em 2024,
de acordo com a Ordem dos Ministros Evangélicos do Amazonas.
A MESA E AS ÁGUAS DA AMAZÔNIA
A comida é um dos pontos altos de Manaus. Os pratos com peixes da Amazônia, como
tambaqui e pirarucu, especialmente estes, preparados com receitas variadas são
servidos na maioria dos restaurantes, dos populares aos sofisticados. Para quem,
como eu, não aprecia tanto os pescados há opções como carne de sol com queijo
coalho, acompanhada de farofa de banana da terra, purê de macaxeira e salada de
palmito de pupunha. A banana da terra, também chamada banana pacovã é
ingrediente de diversos pratos, sejam doces ou salgados, como o escondidinho de
tambaqui com essa banana especial. Para arrematar, sucos de taperebá (ou cajá),
cupuaçu, graviola, acerola, manga, goiaba - estes os mais comuns.
Na véspera da minha despedida de Manaus fui finalmente conhecer a famosa Ponta
Negra, praia fluvial às margens do Rio Negro, que fica a cerca de 15 quilômetros
do centro da cidade. Parece outra Manaus: avenidas largas, bem iluminadas e
sinalizadas, amplas calçadas com as mesmas pedras portuguesas da decoração de
Copacabana, ciclovias, equipamentos urbanos, mirantes que dão para o Rio Negro,
projeto de paisagismo e outras belezas comuns nos grandes centros.
O Calçadão da Ponta Negra é um convite à caminhada, especialmente ao amanhecer e
ao entardecer - meu caso. Depois de conhecer razoavelmente a área em que se
localiza o Anfiteatro ao ar livre, caminhar pelas areias em meio a banhistas e
guarda-sóis, decidi percorrer a pé parte do caminho de retorno, pelo menos até o
Shopping Ponta Negra. O início do percurso se deu em meio ao som ensurdecedor de
milhares de periquitos que se recolhiam para o anoitecer nas copas das dezenas
de árvores que ornamentam o calçadão. Mal sabia eu que aquela agitação próximo
das 17 horas, com o sol ainda bastante presente, prenunciava temporal. Logo as
nuvens apagaram o sol, as primeiras gotas se precipitaram enquanto eu prosseguia
na caminhada, deixando para trás abrigos de ônibus e pontos de venda de água de
côco e refrigerantes. Minha aposta em um breve chuvisco se converteu em uma hora
cheia de chuva intensa, ao cabo da qual eu havia caminhado 1,5 quilômetros e me
encontrava completamente encharcado. Quando finalmente a chuva cedeu, desvesti a
camiseta para torcê-la e usá-la como uma toalha. A bermuda permaneceu
encharcada, mas me sentei em um banco de concreto, descalcei o tênis e a meia e
torci ambos. Assim, mais ou menos aprumado, adentrei o Shopping Ponta Negra e a
primeira loja de calçados que encontrei para comprar um substituto ao All Star
cinza azulado, acabado. Impossibilitado, por óbvio, de experimentar o novo
calçado peguei um de numeração 41, paguei e chamei um Uber para voltar ao hotel.
Na manhã seguinte, faltando 5 horas para o vôo que me levaria de volta a São
Paulo, precisei voltar ao Shopping Ponta Negra para trocar o calçado por uma
numeração maior. Bati na porta da loja - àquela hora (8:00) ainda fechada - e
expliquei a minha situação. Os vendedores foram compreensivos e me livraram de
viajar de Havaianas.
Assim encerrei a minha curta (uma semana) e boa estadia em Manaus, de onde levo
saudades e boas recordações. Até a chuva torrencial que me apanhou nas calçadas
da Ponta Negra foi providencial, pois me proporcionou um banho indireto nas
águas amazônicas.
Para encerrar, preciso registrar uma certa impressão de que o meu velho,
ensopado e encardido All Star deixado no quarto do Hotel Saint Paul me dirigiu
um olhar de abandono no instante em que, à porta do quarto, fazia a última
inspeção para não esquecer nada. É um tanto envergonhado que confesso que dei
adeus a ele, agradeci pelos bons momentos que compartilhamos e encomendei-o aos
cuidados da santa Cássia Eller para encontrar um novo parceiro e não acabar em uma
sarjeta do Centro de Manaus. Fechei a porta e parti com o coração apertado. Deve
ser coisa do Espírito da Floresta.
O filósofo Leandro Karnal confessou ao entrevistador Antonio Tabet (Canal Alt Tabet, UOL) que, no período do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, como havia a possibilidade de que o impedimento alcançasse a chapa e não apenas a titular, ou seja, cairia também o vice Michel Temer, ele foi consultado por "altas autoridades da República" se aceitaria ser uma espécie de "presidente tampão".
Essa consulta visava supostamente alguém não associado ao Governo ou à Oposição, que assumiria o comando do País temporariamente para convocar novas eleições, conforme era a interpretação constitucional feita por alguns. O filósofo disse não ter aceitado por não ter vocação para ser o Papa Celestino V, que assumiu o Papado no Século XIII em uma situação semelhante de embates entre duas facções, e acabou preso e morreu na prisão.
Karnal não citou nomes, mas é possível suspeitar de alguns personagens que têm (ou tinham) proximidade suficiente com o filósofo para tentar a abordagem, como os ministros Luís Roberto Barroso e Edson Fachin, ambos do STF. Há quem mencione até um personagem menor, o ex-juiz lavajateiro e atual senador Sérgio Moro, bastante ligado ao também senador Flávio Arns.
O que parece certo é que era alguém ligado aos políticos tucanos, que contavam com a proteção do então juiz da Lava Jato para tentar voltar ao poder e aos negócios e para isto precisavam contar com um personagem de alta popularidade e vaidoso e ingênuo o suficiente para se deixar manobrar. Se assim tiver sido, isto encaixa perfeitamente com a resposta que Karnal afirma ter dado: "Não me chamem para tapar um incêndio que vocês querem manipular que eu seja o bombeiro. Não me chamem para isso".
Os bandidos do PCC são inteligentes, mas a maioria mal e mal completou o 1o Grau, ao contrário dos bandidos da elite, que cursaram Direito, Engenharia, Medicina, Economia etc e estão acostumados a fraudar/aumentar o volume das bebidas destiladas com etanol, mas jamais com metanol.
Amazonas, Hotel Confort Manaus. O ar condicionado o livra do calor sufocante de fim de Verão, início de Outono no Hemisfério Norte. Liga a TV para se distrair, mas não encontra nada que valha a pena no canal a cabo. Cai no sono com a TV ligada e ingressa, repentinamente, em uma espécie de sonho acordado. Abre os olhos, olha pra TV que estava fora do ar, só enxerga aqueles rabiscos do sinal eletrônico. Repentinamente, uma espécie de espírito vagal se materializa.
Um calafrio percorre a espinha, fica paralisado. O espírito assume o controle remoto da TV e seleciona o Youtube. A rede social está logada em uma assinatura desconhecida; a foto é de uma mulher. Morena, bonitinha, na faixa dos 40/50 anos e com bom gosto musical (inscrita em diversos canais da melhor MPB). O espírito inicia então uma ação reprovável, mas é inútil tentar impedi-lo, adverti-lo. O maldoso ri, ri muito, enquanto pesquisa canais no YouTube da desconhecida: seleciona dezenas de canais nos quais inscreve a incauta que deixou o Youtube logado: canal do bispo Edir Macedo, do apóstolo Waldomiro Santiago, dezenas de páginas gospel de péssima qualidade (como se fosse possível piorar), páginas de Wesley Safadão, Jojô Todynho (que canta "Hoje tô gostosa pra caralho"), de diversos grupos funk. Entre outros. A obra do espírito Quinta Série adentra por muitos outros endereços virtuais não recomendáveis, inscrevendo a incauta em dezenas de páginas deprimentes.
Esse relato é exclusivamente para alertar e advertir os milhões que acessam este humilde Blog Compaixão é Fortaleza: quando se logarem no YouTube ou em qualquer outra rede fora de suas casas, ao deixarem o ambiente não se esqueçam de deslogar, ou correm o risco de serem vítimas do Espírito 5ª Série.
O Brasil sempre foi um dos maiores produtores mundiais de café. Contudo, até
meados dos anos 1980, os brasileiros ingeriam uma bebida preparada com grãos de
baixa qualidade, com misturas que iam da cevada ao estrume seco, e sem o aprumo
das técnicas de graduação de torra e moagem. Os grãos de melhor qualidade eram
reservados à exportação, aqui ficava o rejeito. Assim era o café que os
brasileiros conheciam, consumiam e gostavam.
Quando a indústria da torrefação
decidiu mudar esse quadro, a principal tarefa foi reeducar o paladar do povo
brasileiro para o café de boa qualidade, que era até então uma exclusividade dos países importadores do produto do Brasil. Estudos e pesquisas encomendadas
pela ABIC (Associação Brasileira da Indústria do Café) revelavam que uma das
piores bebidas era consumida pelo público carioca, que a partir de então
precisava ser convencido a mudar o seu mau gosto, porém sem ser melindrado. E, assim como o carioca, os demais brasileiros também precisaram ter seu paladar reeducado para consumir uma bebida de melhor qualidade do que aquela com que estavam habituados.
O primeiro e mais importante passo foi a criação do Selo de Pureza ABIC, conferido àquelas marcas que aderissem ao programa de autorregulamentação voluntária. Essa adesão implicava aceitação de se submeter à fiscalização segundo as regras estabelecidas pelo regulamento do programa. Em troca, ostentar o Selo de Pureza ABIC na embalagem comunicava ao consumidor que se tratava de produto PURO, sem adulterações ou misturas, sendo 100% Café. O Selo ABIC, portanto, garantia a segurança dos alimentos e o respeito ao consumidor.
Mas ainda era preciso vencer o paladar acostumado com o café ruim. Paralelo a essa iniciativa, a propaganda convocou gourmets e baristas para
reeducar o paladar dos brasileiros e ensinar o melhor preparo da bebida, assim
como a escolha dos grãos por regiões geográficas de produção, graduação de torra etc. Foi necessário investir tempo, trabalho, conhecimento e técnicas para trazer o consumidor satisfeito com o café ruim para a nova realidade de um
produto de qualidade internacional. Levou décadas para os brasileiros trocarem o cafezinho passado em pano do botequim da esquina pelas múltiplas opções de
variedades de grãos e origem e ambientes agradáveis das cafeterias modernas. Mas a ABIC venceu.
Assim é a situação dos Governos do PT: antes do Lula ter sido
eleito presidente em 2002, os brasileiros só conheciam más experiências de
Governo. Algumas até representaram uma tentativa de colocar o Brasil no âmbito
dos países fortemente industrializados - mesmo em épocas de ditadura, como os
Governos de Getúlio Vargas e Ernesto Geisel -, outras retrocederam o País à
condição de colônia norte-americana, embora com um falso verniz de modernidade,
como os Governos de Collor, FHC, Temer e Bolsonaro. Portanto, o cidadão médio brasileiro está acostumado a Governos de baixa qualidade e tende a se contentar com isso. Um Governo altivo até assusta esse povo, como o sujeito acostumado a entrar pela porta dos fundos e que, de repente, se vê na contingência de usar a entrada principal e se sente paralisado de vergonha e pavor.
A Comunicação dos governos petistas, portanto, precisa aprender a reeducar o cidadão médio brasileiro a consumir a cidadania plena, com altivez sem afetação, com a naturalidade dos cidadãos do mundo. E essa é uma tarefa que, assim como foi o desafio de retirar o carioca da condição de bebedor do pior café do Brasil, sem contudo melindrá-lo no seu orgulho, tem que ser realizada com técnica esmerada, competência, coragem, naturalidade e, sobretudo, paciência.
O cidadão médio deve ser preparado para consumir um Governo competente. A comunicação tem essa tarefa de educar o cidadão para esse consumo, sem atacar o governo antigo com o qual ele estava acostumado e que, por não ter consciência de que o produto era ruim, consumia e atribuía a ele uma qualidade inexistente. Insistir com o povo que ele estava errado em consumir um mau governo é melindrá-lo desnecessariamente.
O cidadão médio está acostumado a consumir um noticiário de conteúdo medíocre,
vendido em uma embalagem bonita. Por não ter acesso a uma opção massificada de
boa qualidade, o brasileiro consome essa imprensa que serve ao público OPINIÃO,
em vez de INFORMAÇÃO.
A chamada imprensa alternativa com viés de esquerda - TVs
de internet, canais do Youtube, portais, blogs etc -, embora com maior conteúdo
de informação, também entrega ao seu público um produto em geral reativo e
excessivamente improvisado e igualmente discursivo. Há exceções, com o Jornal GGN, o portal Plural, o ICL, o programa O É da Coisa, mas ainda são poucos. Já os veículos alternativos com viés de direita, além dos mesmos defeitos da imprensa tradicional, acrescentam a venda de opiniões raivosas e fake news. Ambos, contudo, têm seu público cativo e limitado.
Mas como fazer
Definir como agir é uma tarefa bem mais complexa do que diagnosticar
o problema, como feito até aqui. Um bom início é apresentar a questão a
profissionais da Comunicação identificados com o programa do Governo do Partido
dos Trabalhadores e promover um debate franco do qual poderão surgir as
diretrizes para uma Comunicação de Governo eficiente, mais proativa do que
reativa.
Alguns indicativos
. Informação não é discurso político
. Não ter vergonha
de ser Governo
. Não flertar com populismo barato (ex: aceitar greves oportunistas, passar pano para apoiador corrupto, esconder números, pedir desculpas exageradas e /ou falsas, tergiversar com temas como a Segurança Pública, Incompetência, Ineficiência, o funcionário público indolente etc.)
. Dar mensagens claras por meio de ações
. Combater a má Política, os maus políticos com ações, não com discursos
. Enfrentar as causas impopulares sem muita fala ou passando insegurança (lições d'O Principe).
. Não se importar com as críticas vazias da mídia, mas não temer e enfrentar a mídia tendenciosa com firmeza sem perder a serenidade.
O desenvolvimento da solução é trabalho não para especialistas, mas para bons profissionais de IMPRENSA com vivência não apenas em veículos de mídia, mas
também em competentes Assessorias de Imprensa e dispostos a enfrentar desafios e inovar.
Enquanto um pequeno grupo de evangélicos, envolvidos na bandeira de Israel, faz louvor em frente a um condomínio de Brasília em favor da impunidade do ex-presidente Jair Bolsonaro, no Paraná outro grupo, este reunindo Católicos e demais Cristãos de diversas denominações, está em Oração pelo ministro Alexandre de Moraes, para que leve a frente a sua missão de defesa da Democracia e da Soberania do Brasil.
Os religiosos paranaenses não buscam exposição na mídia, mas desejam que o seu ato de fé chegue ao conhecimento de Alexandre de Moraes, para que sinta a solidariedade do povo brasileiro neste momento em que mais precisa ser firme e inflexível para fazer valer a Lei ante violentas pressões de políticos do Centrão, de parte da mídia e até de um governo estrangeiro.
O grupo religioso inclui em suas Orações os familiares diretos do ministro Alexandre de Moraes, que também estão sendo alvos de sanções estrangeiras e de ameaças de criminosos em decorrência do trabalho do pai e marido.
O Brasil vive um momento extremamente delicado em que a Democracia e a Economia Popular estão em risco. A rapinagem de Michel Temer aliada à incompetência de Jair Bolsonaro resultaram na entrega dos cofres públicos aos deputados e senadores mais desqualificados desde a promulgação da República. O presidente Lula e o ministro Fernando Haddad tentam reverter esse quadro dificílimo, mas não contam com um apoio parlamentar que permita implementar as medidas necessárias para o ajuste fiscal. O Congresso Nacional transformou-se em um valhacouto de espertalhões, desonestos e covardes, que obedecem aos seus financiadores do mercado financeiro e do crime organizado. Lula e Haddad lutam praticamente sozinhos contra uma quadrilha. A parte do Congresso Nacional que não é Centrão e que deveria ser ponta de lança do Governo no meio parlamentar não tem dado demonstrações EFETIVAS de que se difere do Centrão. Muito provavelmente, os mais de R$ 30 milhões em emendas para fazer campanha a que cada deputado federal tem direito seduziu a muitos. Em tempos outros, os que se opõem às práticas do Centrão já teriam formado um bloco de oposição dentro do Congresso Nacional para denunciar e enfrentar as CHANTAGENS dos presidentes da Câmara e do Senado ao Governo do Brasil. Anunciariam a mobilização à imprensa, definiriam seus postulados, dariam entrevistas, firmariam posição, assumiriam de maneira firme e ostensiva para a população o compromisso com a maioria que deseja justiça tributária no país. Lamentavelmente, nada disso acontecerá. A rebeldia política não morreu, os grandes líderes, sim. Não há no Congresso Nacional uma única liderança à altura do momento político que o País atravessa, o que contribui para alimentar nas pessoas a ideia de que TODO o Congresso é CORRUPTO. E com razão, porque o cidadão rejeita a ideia de ter que escolher entre CORRUPTOS e COVARDES.
Eu, sinceramente, preferia estar fazendo SEXO com a mulherada, mas estou aqui protestando contra esse estado de coisas porque o dever me chama.
O nome 'esquisito' não faz jus à qualidade do trabalho do artista paraibano Seu Pereira e seu grupo musical: Seu Pereira e Coletivo 401. Para os milhões que acompanham esse blog de grande penetração, posto a canção Perdido. Foi por meio dessa singela composição que descobri no Youtube esse grupo sensacional e suas composições bonitas, interessantes, criativas, singulares. Não tenho muita informação sobre 'Seu Pereira', apenas que o grupo é de João Pessoa, na Paraíba. Mais um bom fruto do nosso bonito e amado Nordeste. Vou postar também a sugestiva "Um dia". Mas não fiquem só nas duas canções; aproveitem, deem um Google e encontrem a Rua que irá levá-los à obra maravilhosa desse grande artista.
Tristeza, solidão, silêncio, uma angústia filha da puta. Aqui é um oásis em campo de neve. Um útero aquecido artificialmente, que abriga alguns por alguns instantes. Logo todos serão devolvidos à sua angústia silenciosa fora daqui. Se me dão opção, permaneço, não embarco, tomo mais um café, e outro e outro..., na esperança de acordar em casa, a milhares de quilômetros. Olho aquela que serve: donde a alegria que expressa no olhar? Só há tristeza, frio, umidade e solidão aqui em torno...! Lá fora, a lotação é a representação da desesperança. Que se vá sem mim. Me ocorre uma canção: “chove lá fora / e aqui tá tanto frio”. Por um momento queria ser ela, me sentir feliz, seguro, como ela aparenta ser, alheia a esse espaço deprimente. Se eu fosse ela, queria mais era morrer. A canção insiste: me chama, me chama, me chama.
Quase zero hora. Fecha o programa em que vinha trabalhando, encerra o login, desliga a máquina. Àquela hora restam poucos gatos pingados na Redação. Se despede com um aceno, sem balbuciar palavra e sai, descendo os três lances de escada que conduzem para fora do prédio. A rua, a essa hora e no meio da semana, costuma estar quase vazia. A noite está quente, boa para se caminhar. E é o que faz. Podia tomar um táxi, um ônibus para voltar à casa. Mas para quê? Caminha pela rua vazia quase roçando o tapume da obra de um grande edifício que está sendo erguido nas imediações. Sente conforto com a sensação de desaparecer, ser absorvido por aquelas paredes, como numa passagem imaginária para outra dimensão qualquer. Pensa na vida. Tem quase 40 anos. A família está em vias de se dissolver, como de fato ocorrerá. Os dias que virão serão uma incógnita e, de certa forma, isso o estimula mais do que o atormenta. Atravessa uma rua um pouco mais movimentada, olha para dentro dos carros, se fixa nos casais – a essa hora não há crianças acompanhando os pais. Se sente nostálgico de uma situação que ainda irá viver, mais sozinho ainda do que está agora. Continua o caminho; até a casa são cerca de 4 quilômetros e meio, um trajeto que deve percorrer em cerca de uma hora. Contorna uma praça, passa por pessoas que aguardam ônibus em um ponto. Evita o olhar das pessoas, receia encontrar alguém conhecido. Essa possibilidade é praticamente nula, mas o desejo de evitar contato persiste como se o risco fosse real e iminente. Toma uma rua em forte aclive, agora numa direção mais definida rumo à casa. Vence os cerca de mil metros até o topo do trajeto, a partir de onde a rua se converte em um longo declive, como que para compensar o gasto de energia do trecho anterior. Tem a atenção voltada para um ambiente iluminado, um bar aberto àquela hora. Estranhamente sente vontade de entrar. Não mais que meia dúzia de notívagos bebem cerveja e assistem algo numa velha TV suspensa. Há muito tempo, desde que a crise se instalou na sua vida, não sente fome. Mesmo assim, para justificar a presença ali, pede um sanduiche e algo para beber. O ambiente lhe é absolutamente estranho e isto propicia um relativo conforto emocional: ninguém ali conhece os problemas que ele vive. Momentaneamente se sente bem; há meses, talvez um ano, não experimentava essa sensação. Os presentes não estranham a presença do estranho, aliás, são praticamente indiferentes a ele – é mais um que prefere a rua à casa, à noite. Cada qual tem seus motivos. Termina o sanduiche e a bebida, paga a despesa e volta ao seu caminho. Ainda faltam uns 2 quilômetros para chegar em casa, já deve ser quase uma hora da manhã, a noite está clara, quente e aquele homem que caminha só consegue por breves minutos desaparecer no mundo. Até chegar em casa, onde todos já dormem e onde adentrará o seu quarto, tomará um banho e se deitará para dormir por algumas horas. Se tiver sorte, não irá sonhar. Amanhã será outro dia, e pode ser que nesse novo dia aconteça algo que traga a vida perdida que ele quer de volta. Mas pressente que não acontecerá. Ele ainda não sabe, mas não faltam muitos amanheceres para o sol voltar a brilhar para ele. Até lá, seguirá só; ele só e seus pensamentos.