domingo, 11 de outubro de 2026

DECÁLOGO DO DIÁLOGO E DA CONVIVÊNCIA

Hoje a africana de origem indiana Navi Pillay recebeu o Nobel da paz, defensora

dos mais excluídos e perseguidos, inclusive do Mandela, sobretudo denunciando o

genocídio de Gaza. Hoje também, ironia da sorte, TRUMP, uma das centenas de

candidatos ao Nobel, ordenou o fuzilamento público de um condenado, como

acontecia séculos atrás. Terá alguém presenciando? Espero que não.

Hoje senti um irrefreável desejo de responder a muitos, que me solicitaram uma

resposta ao inesperado ódio, que invadiu o Brasil, dividindo famílias, comunidades

e mil agregações. Apresento o decálogo que aflorou ao longo de mais de 60 anos

de missão.

1)NA ATUAL POLARIZAÇÃO NAVEGAMOS NO PIOR ÓDIO, como uns comentam,

nunca acontecido no Brasil acolhedor.

Pe. Lebret, um dos maiores estudiosos da economia, dos direitos humanos e do

racismo, visitando o Brasil para proferir várias conferências, elogiou o nosso país,

como o melhor do mundo pela convivência pacífica, inefável, acolhedora e

incomparável a três outros países: os USA, a África do sul e a Índia.

2) ODIAI E FICAREIS DOENTES, AMAI E FICAREIS CURADOS.

O teu pior inimigo não está fora de ti, mas dentro como inquilino, que te tira o

apetite, a digestão e o sono!

3) ANTES DE CONDENAR PROCURE CONHECER AS FONTES que te confirmam nas

tuas opiniões, que são frequentemente de autores que condenam sem conhecer os

condenados.

4) OUÇA OUTROS SINOS NÃO SÓ OS QUE TOCAM EM SINTONIA COM AS TUAS

OPINIÕES.

Ouça e veja áudios e vídeos, leia textos e aborde pessoas que têm opiniões

contrarias às tuas. De todos temos algo para apreender.

5) O CRISTÃO NÃO TEM INIMIGOS.

S. João XXIII convocou o Concilio Vaticano II e convidou todas as denominações

cristãs. Hoje seriam convidados Muçulmanos, Budistas, Indus, judeus...Quando Kruchev enviou-lhe os parabéns pelos 80 anos, contrariando os

cardeais, o Papa respondeu-lhe com gratidão e logo depois recebeu a filha do líder

russo.

Seu lema: “O CRISTÃO NÃO TEM INIMIGOS, mas apenas adversários que têm

opiniões diferentes”

.

6) SÁBIO É QUEM VÊ O CONJUNTO, discerne e julga só após ter ouvido outras

opiniões, que não são dogmas, mas apenas prováveis verdades.

7) PRECISAMOS BANIR OS NOSSOS PRECONCEITOS, pois sempre acabamos

condenando sem conhecer. Fui educado ao “diálogo” interesseiro, mirando

converter todos ao catolicismo. Hoje frequento cultos evangélicos, protestantes,

espiritas, judeus, umbanda, candomblé. Sem me omitir ao diálogo, procuro

apresentar o catolicismo e discernir, em todos os crentes em Deus, valores a imitar

e antivalores a evitar.

8) TODOS OS CRENTES TÊM VALORES.

Acredito que o catolicismo é a melhor religião, pois vim aqui como missionário

católico, mas aprecio os valores de todos os crentes.

9) NÃO NOS ESGOTEMOS OBCECADOS POR UM PARTIDO, que é apenas uma

parte, sem demonizar os outros.

10) O AMOR É PURA GRATUIDADE SEM INTERESSES.

Em 1986, representando o Paraná, participei em Assis do encontro ecumênico

de todas as religiões, evento profético, apreciando em especial o ISLAM, pois ISLAM

significa ABANDONO INCONDICIONAL a Deus: mensagem cristã!

O meu primeiro catequista repetia: “Observem os mandamentos para escapar

do Inferno e ganhar o Paraíso.” A mística muçulmana Rabia de Baçorá descobriu o

Amor de Deus como pura gratuidade, sem sombra de interesses, ao orar:

“Meu Deus eu Te amo, não por interesses, não para escapar do Inferno e ganhar

o Paraiso, EU TE AMO PORQUE SÓ TU ÉS AMOR!”


Curitiba 9 de outubro 2026.


Pe. João Rocha

Missionário da Divina Ternura, Feliz em Sê-lo


quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O Brasil Moderno nasceu com o presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores. Agora é prosseguir

Editorial do The Villa Biscaia Post (para o povo entojado)

O povo brasileiro sempre trabalhou muito. O problema é que, até 2003, antes do primeiro Governo Lula, para milhões de brasileiros, trabalhar não significava necessariamente progredir. Trabalhava-se para sobreviver, para pagar as contas, para manter a família — mas, muitas vezes, sem a possibilidade concreta de melhorar de vida e colher os frutos do próprio esforço.


Quando o Governo Lula chegou, uma parcela enorme da população experimentou, pela primeira vez, uma sensação que deveria ser elementar em qualquer sociedade: TRABALHAR VALE A PENA.


Antes disso, milhões de brasileiros atravessavam a vida sem jamais entrar em um avião, sem poder viajar nas férias, sem se hospedar em um hotel, sem frequentar uma churrascaria quando quisessem, sem trocar uma casa pequena por outra maior quando a família crescesse — e, muitas vezes, sem sequer ter um carro velho para passear com os filhos.


Para muitos, tudo isso parecia reservado a uma minoria.


Foi durante os governos do presidente Lula que essas possibilidades começaram a se tornar parte da vida cotidiana de milhões de brasileiros.


Lula não simplesmente “deu” alguma coisa a ninguém. Lula ajudou a criar condições para que milhões de brasileiros pudessem conquistar aquilo que já mereciam pelo próprio trabalho. O Brasil começou a se transformar em um país mais moderno e inclusivo, no qual a origem social não precisava determinar, para sempre, o destino de uma pessoa.


Trabalhar, o brasileiro já trabalhava — e muito. O que faltava era que o esforço pudesse se converter em oportunidade, mobilidade social e melhoria efetiva da qualidade de vida.


É nesse ponto que talvez esteja uma das maiores transformações daquele período.


A filha da empregada doméstica pôde deixar de ter como destino inevitável o mesmo trabalho da mãe e chegar à universidade, formando-se em Medicina. O filho do porteiro pôde não precisar repetir a profissão do pai e estudar Engenharia. O filho do operário pôde construir sua própria trajetória, estudar Administração e chegar à direção de uma indústria, em vez de depender de uma vaga conseguida pelo pai na fábrica.


Os exemplos são milhões.


E talvez seja justamente isso o que mais incomode aqueles que preferem acreditar que a sociedade deve permanecer imutável: quando uma geração conquista oportunidades que a anterior não teve, a velha lógica da desigualdade começa a ser rompida.


É verdade que nenhum governo resolveu todos os problemas do Brasil — nem poderia. Ainda há pobreza, desigualdade, serviços públicos deficientes e enormes obstáculos a superar. Mas reconhecer os avanços não significa ignorar o que falta. Ao contrário: significa compreender de onde partimos e o quanto ainda precisamos avançar.


Aos que transformam qualquer conquista social em motivo de ressentimento, aos que preferem o lamento à construção e aos que desejam devolver o Brasil a um passado de oportunidades restritas, deixemos o seu ÓDIO.


Nós temos trabalho a fazer.


Os desafios da modernização do País continuam imensos. E tornam-se ainda maiores quando a sociedade se deixa contaminar por discursos que pretendem desvalorizar conquistas, desacreditar políticas de inclusão e convencer os brasileiros de que avançar foi um erro.


Não podemos aceitar que o País dê passos para trás e, depois, cobre novamente dos brasileiros que trabalham a tarefa de reconstruir aquilo que já havia sido conquistado.


O Brasil precisa seguir em frente.


Precisa de mais oportunidades, mais educação, mais emprego, mais renda, mais desenvolvimento e, sobretudo, de uma sociedade em que o lugar onde uma pessoa nasce não determine o lugar onde ela poderá chegar.


Que nunca nos esqueçamos:


“NÃO TÁ MORTO QUEM PELEIA.” 

O Brasil Moderno nasceu com o presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores. Agora é prosseguir

Editorial do The Villa Biscaia Post (para comunicação direta)

O povo brasileiro sempre trabalhou muito. Acontece que até 2003, antes do Governo Lula, trabalhar não valia a pena. As pessoas trabalhavam apenas para sobreviver, sem melhorar de vida, sem gozar os frutos de seu esforço.


Quando o Governo Lula chegou, pela primeira vez TRABALHAR VALEU A PENA.


Antes, milhões passavam por esta vida sem nunca terem entrado em um avião, sem poder viajar de férias, sem poder se hospedar em um hotel, sem poder ir a uma churrascaria sempre que quisessem, sem poder trocar de casa por uma maior quando a família aumentava, sem ter nem mesmo um carro velho para passear com a família.


Tudo isso se tornou normal com o presidente Lula na administração do Brasil.


Lula não deu. Lula começou a transformar o Brasil em um país moderno, em que todas as pessoas têm os mesmos direitos e oportunidades de progredir. Trabalhar, todo mundo já trabalhava — e muito —, só não via um retorno de seus esforços.


Com o presidente Lula administrando o País, a filha da doméstica não foi mais OBRIGADA a ser doméstica da filha do patrão e se formou em Medicina. O filho do porteiro não precisou ser porteiro também e estudou Engenharia. O filho do operário não dependeu de o pai conseguir colocá-lo também na fábrica, mas estudou Administração e foi dirigir a indústria.


Os exemplos são milhões.


Só os 'encostados' não conseguiram progredir, e o que restou a eles foi apenas o ÓDIO ao presidente Lula, que criou oportunidades reais para quem já trabalhava muito conquistar o melhor fruto do seu esforço.


Deixemos os 'encostados' e 'reclamões' com o seu ÓDIO e vamos em frente, porque são imensos os desafios de prosseguir na modernização do nosso País. E ainda muito maiores quando a sociedade se deixa contaminar pelo discurso dos  "encostados" e dá passos para trás, impondo, depois, aos brasileiros que trabalham a obrigação de reconstruir o que já estava pronto. 

Que nunca nos esqueçamos de que "NÃO TÁ MORTO QUEM PELEA".

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Da série "Histórias prosáicas"

... e é por ela ser assim tão delicada / que eu trato sempre dela muito bem!

Um dia comum em Curitiba. Frio, muito frio. Mais ou menos 10 horas da manhã. Nas imediações da Praça Ouvidor Pardinho, avisto um homem e um menino catando papéis e outros recicláveis em um carrinho mambembe que o homem empurra.


Os dois caminham na contramão pela Rua 24 de Maio; o menino, mais solto, vai à frente. Atravessa a rua para pegar uma caixa de papelão do outro lado da calçada. Coloca a caixa no carrinho e, mais adiante, recolhe algumas garrafas PET, que também ajeita no carrinho.


O menino é ágil, e pouco se pode ver de sua aparência, enfiado que está em um casaco maior do que ele e uma touca de lã preta enterrada na cabeça, quase cobrindo o rosto, que o protege do frio. Quatro ou cinco metros atrás vem o homem com o carrinho. Ele também, por vezes, larga o carrinho, atravessa a rua ou vai até um desses equipamentos à frente dos prédios, onde os moradores depositam os sacos de lixo para a coleta, e recolhe alguma coisa que valha algumas moedas na reciclagem.


Apesar do frio que faz nessa manhã de sábado curitibana, com pouco movimento na rua e a óbvia carência econômica da dupla — para não falar da carência, senão proteica, ao menos lipídica —, os dois seguem em um ritmo, digamos, animado. São ágeis e rápidos e, nesse ritmo, vão avançando pelo caminho. Já atravessaram a Avenida Iguaçu e se aproximam da Avenida Silva Jardim.


Estou observando a dupla, que me chamou a atenção, parado em frente a uma clínica e aguardando o Uber que chamei. Estou meio invisível para eles e, assim, posso observá-los sem representar um incômodo.


Nesse embalo, vem se aproximando um veículo prata que, quando vê a dupla, me dá a impressão de que diminui a velocidade e os observa. Passa lentamente, sem dar na vista, mas percebo que observa com interesse. Acompanho, com a vista, discretamente, o carro e o sujeito.


Próximo de onde estou percebo um tijolo meio desencaixado do muro que divisa a clínica da velha casa ao lado. Penso comigo: se esse sujeito for atacá-los, vou atirar esse tijolo no carro ou, se for o caso, na cabeça do cabra.


Não foi preciso. O sujeito dobrou à direita na Avenida Iguaçu e desapareceu das minhas vistas.


Parece que o homem e o menino não se deram conta do "intruso" a ameaçá-los — isso, na minha cabeça, porque o sujeito não fez qualquer gesto que sugerisse agressão; apenas reduziu a marcha e parecia observá-los com atenção.


A dupla se aproxima do ponto em que me encontro, no meio da quadra entre a Avenida Silva Jardim e a Iguaçu. Eis que, de repente, reaparece o sujeito do veículo prata. Percebo agora que apenas deu a volta na quadra e dirige o carro ostensivamente em direção à dupla, que continua sem se dar conta.


Dirige o carro para a esquerda da rua, aproximando-se de onde estão o homem, o menino e o carrinho.


Pego o tijolo e fico no aguardo do início da ação.


Vai ser hoje!


O sujeito faz descer a janela do carro, estica o braço para fora e chama o garoto, que até então parecia ignorar a presença do intruso.


O homem que o acompanha - um sujeito alto e esquálido, também encasacado com o que parece ser mais um trapo do que um casaco - está a uns cinco metros de distância do menino.


Ouço o homem do carro prata chamar o garoto, com o braço estendido para fora da janela. Só então o garoto se dá conta da presença do sujeito e se volta para ver o que é.


O tijolo está firme na minha mão, pronto para entrar em ação.


O garoto se aproxima da janela do carro e ouço o sujeito perguntar:


— Aceita?


Agucei os olhos, o ouvido e a mão.


No ato seguinte, percebo que o garoto pega algo que o sujeito do carro lhe entrega, responde alguma coisa que não consegui ouvir e se afasta.


O sujeito levanta o vidro do veículo, acelera e se vai, descendo a Rua 24 de Maio em direção ao Parolim, deixando claro que havia dado a volta na quadra exatamente para voltar e abordar a dupla.


Então, o que vem a seguir me surpreende: o garoto é uma garota — uma mulher, na verdade. Parece-me estar na faixa entre 25 e 30 anos, o tipo que se diz mignon.


Ela retira a touca e ajeita os cabelos fartos, pretos, e sorri enquanto exibe, entre os dedos da mão direita, o objeto recebido do sujeito do carro prata: uma nota de dinheiro.


O que vem a seguir é ainda mais surpreendente.


Com ares e alegria de adolescente, a mulher que pensei ser menino vai lépida até o homem — ele também da mesma faixa de idade — e exclama:


— Amor, olha, 50 reais...


Só então fico sabendo o valor da nota entregue ao "menino".


Ainda acompanhei com os olhos aquela dupla, ou melhor, aquele casal, que se tratou de forma tão amorosa, como se fossem adolescentes animados e enamorados — e talvez o fossem.


Não sei vocês, milhões que me leem agora, mas em todas as minhas relações não posso indicar exemplo melhor do que parece ser um casal feliz.


Felizes apesar da pobreza, do trabalho rude e de ganho risível, das roupas disformes, do dia chuvoso, da manhã fria, do céu cinzento, de uma Curitiba pouco afeita aos deserdados do capital, e do futuro incerto.


Alheios àquele cenário e condição adversos, aqueles carrinheiros criaram o seu próprio sol e seu céu azul. Tão concretos que aqueceram a alma de um terceiro que observava à distância, assim como a do outro personagem que, por pouco, não foi alvo de um tijolo.


Momentos e situações como esses me fazem pensar que o céu realmente existe e que não tem nada de especial; tão somente corações aquecidos trocando afetos.


Para o casal, que possivelmente jamais saberá que motivou este registro, posto a canção 'A Felicidade', de Vinícius de Moraes e Tom Jobim




quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A maldição do 1º nome da dupla sertaneja (ou não)

A morte de Rick, da dupla Rick & Renner, confirma a maldição de ser o primeiro nome da dupla, conforme alertou um sobrinho do Zeca Baleiro. Vejam as mortes violentas ou de grave doença que atingiram outras duplas: Sandro e Gustavo (do sucesso garagem da vizinha), Leandro & Leonardo, João Paulo e Daniel, Claudinho e Buchecha, Christian & Ralf, Lennon e McCartney, entre outros. Nomes como Chitãozinho, Bruno, Maiara, Zé Neto, Gian, Matheus e Rio Negro são alguns dos integrantes de duplas sertanejas que estão em sobressalto com a situação e cogitam até em colocar o nome do parceiro a frente do duo, alegando que soa melhor. Zezé de Camargo e Victor foram mais radicais e partiram para a carreira solo e deixando o Luciano e o Léo chupando o dedo. Os que já haviam percebido o risco bem antes e tratado de seguir caminhos isolados foram os internacionais Simon & Garfunkel e os brazucas Sandy & Júnior e Moro & Dallagnol. Nem as companhias de seguros estão aceitando segurar os primeiros nomes das duplas, enquadrando os casos como "suicídio", dado que os elementos conhecem a "Maldição do 1º nome" e mesmo assim aceitam correr o risco. No mercado fonográfico corre a versão de que foi por já saber dessa maldição que Roberto Carlos se recusou a formar uma dupla com Erasmo, Caetano com Gil e Bethânia com Gal.
Leandro & Leonardo
Claudinho & Buchecha
João Paulo & Daniel

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Pensando como um banqueiro autor da 'maior fraude financeira do Universo', como escreveria a Folha da Província S Paulo

Pensando em voz alta, se eu fosse um banqueiro envolvido em crimes financeiros, em vias de ser preso e com amigos no Banco Central e na velha imprensa eu pensaria em fugir do País. Com essa ideia na cabeça, avisaria previamente a diversos diretores do Bacen de que iria aos Emirados Árabes negociar a venda do banco e resolver o problema. Caso eu fosse preso, acusado de tentar fugir do país, teria o meu álibi confirmado por vários altos funcionários da instituição federal e criaria a condição de aparente boa-fé para meus advogados defenderem em Juízo o meu direito de responder em liberdade. O magistrado que me concedesse o HC também estaria resguardado pela legalidade do ato. Mas não só: eu também enviaria mensagens pelo whatsApp para um ministro do STF, às vésperas da minha prisão, perguntando se eu deveria fugir do país, se daria tempo, se ele tinha conseguido segurar meus problemas etc. Não um ministro qualquer, mas um cuja banca advocatícia de sua mulher e filho fosse contratada do meu Banco. Certamente o ministro não me responderia, e é certo que me julgaria um débil mental por agir com tamanha displicência e irresponsabilidade. Mas não me importaria com o que ele pensasse de mim, desde que caísse na teia, dando substância à narrativa dos meus aliados da velha imprensa.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O Retorno às Gerais do Coração

Maria Lucia Madeira Duarte Matheus
(Para Minas Gerais, minha terrinha, sobretudo com Helena e Clarinha)


"Espírito de Minas, me visita, e sobre a confusão desta cidade, onde voz e buzina se confundem, lança teu claro raio ordenador" (Carlos Drummond, em Prece de Mineiro no Rio)


Há sete anos, um sonho do tamanho de Minas vinha sendo gestado no peito. Sete anos de uma ausência que não é esquecimento, mas uma espera paciente, como a do ferro nas entranhas da terra. O desejo não era apenas de chão, era de sangue e de infância, de levar Helena e Clarinha para que seus pés sentissem a textura e o calor da nossa "terrinha".
No dia 10 de julho de 2026, quando o relógio mal marcava cinco da manhã, nós partimos de Curitiba. Edemir, Fercea, Clarinha, Helena e eu. Fomos rumo ao sol nascente, em direção ao abraço que as Gerais nos guardavam.
Chegamos! E Belo Horizonte nos acolheu com aquele calor que só os de casa sabem dar. Serginho, Jane e Dida abriram as portas e os braços, dissipando o cansaço da estrada.

O Sabor da Província e das Lembranças

No dia seguinte, a manhã já nasceu com cheiro de pão de queijo e café fresco. Na casa de Jane e Sérgio, ao redor da mesa com Jô e Rodrigo, reatamos os laços com a hospitalidade.
A Pampulha nos viu passar, com sua igrejinha que é curva e oração, e Dida se juntou à comitiva. Depois, a Praça da Liberdade, com suas palmeiras imperiais, e um café tardio no CCBB, onde a cultura e a conversa se misturaram.
A noite foi uma festa de sabores na casa de Flávio e Ondina. Entre as primas, rimos e comemos as delícias da terra — com destaque absoluto para aquele saboroso caldo de mandioca preparado pela Ondina. Um abraço em forma de alimento, "gostosura demais da conta", diríamos nós!

O Churrasco dos Vinte Primos

No dia 12, o ponto de encontro foi a casa de Dida e Rodrigo. Os pais dele, Ângela e Clodomiro, vieram com a amorosa deferência de quem sabe que família é território sagrado.
O churrasco reuniu o clã: vinte pessoas. O barulho de copos, risos, o aroma da carne na brasa e o sotaque amigo. Mas a maior alegria veio antes do almoço: a emoção do encontro com Luciana, Julinha — ainda um segredo abençoado guardado no ventre — e Dan.
Voltamos para a casa da Jane para dormir, com o peito cheio de afeto.


A Rota para Bom Despacho

No dia 13, Chico chegou a BH, completando o círculo. Tomamos café e rumamos para Bom Despacho em dois carros. Edemir e família, Jane, Sônia, Chico e eu.
Lá, os primos nos esperavam em um lugar especial onde almoçamos. Mas o coração bateu mais forte depois: a chegada à casa da tia Jacira. Ah, o encontro! A emoção de vê-la feliz, simplesmente por estarmos ali, compartilhando a presença e a vida.
Depois, na casa de Miroka e Paulo, vivemos o indescritível. A emoção que as palavras custam a traduzir, a certeza de que somos feitos da mesma raiz. Gratidão, família! Nessa noite, a dispersão foi o repouso merecido. Chico, Helena e eu fomos para o acolhedor apartamento da Celeste e Fercea, Edemir e Clarinha foram para o apartamento de Claudio e Luda, de onde partiriam para Curitiba logo cedo, às seis da manhã do dia 14, sentindo sabores agridoces de despedida e afeto!
Este dia 14 amanheceu com a partida de parte da nossa comitiva. Voltei para a casa da tia Jacira, mas uma dor forte no joelho direito me levou à Santa Casa. Com a dedicação e o amparo do Chico, da Helena e das primas, fui liberada quase ao cair da noite.
Dormimos no apartamento da Celeste numa noite tranquila antes da inevitável despedida. Deixamos em Bom Despacho um tanto de nós — coração, lágrimas e alma — especialmente com nossa tia Jacira, que já passa dos 96 anos de sabedoria e luz. Mas levamos nos corações uma gratidão inefável por tudo.
De volta a BH no carro da Jane — com Jane, Sônia, Chico, Helena e eu —, o reencontro continuou. Consegui rever os primos, filhos dos tios Irene e Mário, reunindo quase todas as suas famílias (uma verdadeira bênção conseguir isso em um único fim de semana!). Revi os filhos dos tios Raymundo e Dirce, com um carinho especial a Flávio e Ondina. Encontrei ainda o primo Tovinho (filho dos tios Ilza e Cristóvam) e a prima Lourdes (filha dos tios Antônio e Belchiorina).

A vocês todos, que nos deram o mais precioso de todos os presentes — o tempo de amorosidade —, a nossa eterna gratidão.

A Viagem que Não Termina

No dia 15, às nove da noite, saímos da casa da amada Jane rumo à rodoviária. Chico, Helena e eu embarcamos no ônibus leito para São Paulo, nos despedindo da nossa anfitriã-mor com o peito apertureiro de saudade.
A viagem física terminou na estrada, mas o rastro de Minas permanece. Como no verso drummondiano de que o amor é grande e cabe nesta janela sobre a serra, a nossa terra não é apenas um lugar no mapa: é esse abraço retomado que nos refaz por dentro.

Desabafo de um PAI

"É preciso Amar as Pessoas Como Se Não Houvesse Amanhã" (Renato Russo, em Pais & Filhos)
Angelo Eduardo Duarte Xavier

Hoje é Dia dos Pais.
E eu confesso que não sei muito bem como explicar o que estou sentindo.
Talvez porque algumas dores sejam grandes demais para caber em palavras.
Passei o dia trabalhando. Afinal, a vida continua, as responsabilidades continuam e as contas não param porque é Dia dos Pais.
Aqui no restaurante de assados, um rapaz que trabalha comigo precisou ficar até tarde. Ele e meu sobrinho ficaram limpando as máquinas até pouco tempo atrás. E foi justamente por ele estar aqui trabalhando comigo que, já quase no fim do dia, recebi uma mensagem de uma das minhas filhas.
Uma mensagem preocupada com ele.
Perguntando se eu sabia onde ele estava, porque ela estava ligando e ele não atendia, querendo saber até que horas ele tinha trabalhado.
E no meio daquela mensagem veio um “feliz Dia dos Pais”.
Talvez para muita gente isso não significasse nada.
Para mim, significou.
Porque passei o dia inteiro esperando, talvez ingenuamente, que em algum momento algum dos meus filhos lembrasse de mim não porque precisava de alguma coisa, mas simplesmente porque sentiu vontade.
Queria uma mensagem.
Uma ligação.
Um “pai, como você está?”
Uma palavra de carinho.
Qualquer coisa que me fizesse sentir que, em algum lugar, alguém sente minha falta.
Tenho três filhos.
Um deles ainda é uma criança e foi o único que me mandou uma mensagem pelo Dia dos Pais. E eu sei que, pela idade, provavelmente teve também o incentivo da mãe.
Mas recebi.
E fiquei feliz.
Porque talvez hoje eu tenha percebido que o que realmente me faz falta não são presentes, não são homenagens e nem qualquer coisa material.
É afeto.
É presença.
É sentir que alguém quer estar perto porque quer.
É sentir que alguém procura você simplesmente porque sentiu saudade.
E isso, infelizmente, tenho sentido cada vez menos.
Uma das minhas filhas não fala comigo há cerca de três anos.
Três anos.
E talvez ela tenha suas razões.
Talvez tenha suas mágoas.
Talvez, na visão dela, tudo aquilo seja suficiente para se afastar de mim.
Eu não estou aqui dizendo que sou perfeito.
Não sou.
Errei.
Cometi erros.
Tomei decisões erradas.
Talvez tenha falhado em muitas coisas.
Mas Deus sabe que nunca foi por falta de vontade de acertar.
E isso é o que mais me dói.
Porque quando olho para minha vida, fico tentando entender onde foi que eu errei tanto.
Meu pai morreu quando eu tinha apenas três anos.
Eu cresci sem saber o que era ter um pai.
Sem ter uma referência masculina dentro de casa.
Sem ter alguém para me ensinar aquilo que um menino precisa aprender de um homem.
Não tive essa oportunidade.
Tive que aprender a viver através das pessoas que foram aparecendo no meu caminho.
Coordenadores de orfanatos, padrastos, tios e outros homens que passaram pela minha vida.
Alguns me ensinaram coisas boas.
Outros deixaram marcas que carrego até hoje.
E não quero entrar aqui em todas as dores que vivi.
Não quero transformar este texto em uma lista das coisas ruins que aconteceram comigo.
O que quero dizer é que, mesmo sem ter tido as melhores referências, eu tentei.
Tentei sobreviver.
Tentei ser melhor.
Tentei construir uma família diferente daquela que eu tive.
Tentei dar aos meus filhos aquilo que eu não tive.
Talvez tenha sido justamente por isso que hoje essa situação doa tanto.
Porque eu queria ter conseguido fazer diferente.
Queria que meus filhos tivessem um pai que eles pudessem procurar.
Que pudessem ligar.
Que pudessem abraçar.
Que pudessem procurar quando precisassem de uma palavra.
Queria que eles sentissem que eu fazia falta.
Mas hoje muitas vezes sinto que só sou lembrado quando alguém precisa de alguma coisa.
E isso machuca.
Muito.
Talvez meus filhos não tenham ideia do que é passar pela vida sem ter pai.
Talvez não tenham ideia do que significa sentir falta de uma referência que nunca existiu.
Talvez nunca tenham precisado entender isso.
E talvez eu tenha errado em alguma coisa que eu ainda não consegui enxergar.
Mas tem uma coisa que a vida me ensinou e que eu nunca esqueci.
Minha mãe.
Minha mãe infelizmente não teve condições de me criar como deveria.
Ela também deixou marcas e traumas na minha vida.
Durante muitos anos carreguei dores relacionadas àquilo que vivi.
Mas Deus me deu a oportunidade de viver algo que mudou a forma como eu enxergava tudo isso.
Foram os últimos momentos que tive o privilégio de viver ao lado dela.
Ela estava internada, depois de sofrer um AVC.
E naquele hospital, cuidando dela, aconteceu algo dentro de mim que eu nunca vou esquecer.
Eu olhei para aquela mulher e, de repente, consegui enxergar minha própria infância de outra maneira.
Quando eu era bebê, eu não sabia absolutamente nada.
Eu só fazia necessidades nas fraldas.
Babava.
Chorava.
Precisava comer.
Precisava ser limpo.
Precisava de alguém para fazer tudo por mim.
Eu dependia completamente dela.
E naquele hospital, olhando para minha mãe naquele estado, eu percebi que, de alguma maneira, estava vivendo uma pequena parte daquilo que ela viveu comigo nos meus primeiros meses de vida.
Eu limpava a baba dela.
Ajudava a enfermeira a cuidar dela.
Cantava para ela.
Ficava ali ao lado dela.
E naquele momento Deus me fez entender uma coisa.
Talvez ela não tenha conseguido me dar tudo.
Talvez tenha errado.
Talvez tenha deixado feridas que carreguei por muitos anos.
Mas aquilo que ela conseguiu me dar, ela me deu.
E naquele momento eu consegui valorizar isso.
Consegui entender que, apesar de tudo, eu também tinha sido aquele bebê que um dia precisou dela para absolutamente tudo.
E eu tive a oportunidade de retribuir.
Eu cuidei dela.
Eu estive ali.
E aquilo me ensinou algo que carrego até hoje:
Às vezes, precisamos olhar para a história de alguém por inteiro antes de julgá-la apenas pelos erros.
Talvez seja por isso que hoje eu me pergunte tanto sobre meus próprios filhos.
Será que um dia eles vão conseguir olhar para a minha história inteira?
Será que algum dia vão conseguir enxergar além dos meus erros?
Será que algum dia vão conseguir entender que eu também fui um homem tentando aprender a ser pai sem nunca ter tido um?
Eu olho para o mundo e vejo tantas histórias.
Vejo pessoas que fizeram coisas terríveis com seus filhos.
Pais que abandonaram.
Pais que machucaram.
Pais que fizeram coisas que eu jamais faria.
E, mesmo assim, muitas vezes, quando chegam ao fim da vida, estão cercados de filhos.
Recebem homenagens.
Recebem palavras de amor.
Recebem reconhecimento.
E eu fico aqui pensando:
Onde foi que eu errei tanto?
O que eu fiz de tão errado para que eu não consiga experimentar isso nem enquanto estou vivo?
Não estou dizendo que meus filhos não tenham motivos.
Talvez tenham.
Não estou dizendo que eu não tenha errado.
Eu errei.
Mas será que tudo aquilo que fiz de errado é maior do que tudo aquilo que tentei fazer certo?
Será que não existiu esforço suficiente?
Será que não existiu amor suficiente?
Será que não existiu trabalho suficiente?
Será que não existiram noites mal dormidas, preocupações, renúncias, suor e luta suficientes?
Tenho 45 anos.
Minha juventude já passou.
E durante toda a minha vida não faltou esforço.
Sempre trabalhei.
Sempre tentei construir.
Sempre tentei melhorar.
Sempre sonhei em ter pessoas ao meu lado para lutar comigo, construir comigo e, um dia, desfrutar comigo daquilo que nós mesmos plantamos.
Deixei cada um livre para seguir seu caminho.
Nunca quis obrigar ninguém a ficar ao meu lado.
Eu só queria que ficassem porque queriam.
Porque sentiam amor.
Porque sentiam saudade.
Porque minha presença significava alguma coisa.
Hoje, inclusive, estou aqui trabalhando com alguém que tem me ajudado e a quem estou tentando proporcionar algumas oportunidades. A moto que ele está usando faz parte disso, de um investimento que estou fazendo em alguém que está caminhando comigo e me ajudando no trabalho.
E às vezes fico pensando que poderia estar fazendo isso pelos meus próprios filhos, construindo junto, ajudando, proporcionando oportunidades para que também pudessem colher comigo aquilo que passei a vida inteira tentando plantar.
Mas cada um escolheu seu caminho.
E eu sempre respeitei isso.
Talvez seja justamente por isso que doa tanto.
Porque tudo o que construí, de alguma forma, eu sempre imaginei que poderia ser compartilhado com aqueles que amo.
Hoje, justamente no Dia dos Pais, enquanto vejo tantas famílias comemorando juntas, eu estou aqui.
Fisicamente cercado de trabalho.
Mas emocionalmente me sentindo completamente sozinho.
E talvez seja essa a parte mais difícil de explicar.
Porque abandono não é necessariamente estar sozinho em um lugar.
Às vezes você está cercado de pessoas e, mesmo assim, sente um vazio que ninguém consegue preencher.
Você olha para o telefone esperando uma mensagem.
Esperando uma ligação.
Esperando que alguém pergunte como você está.
E o telefone permanece em silêncio.
Até que toca.
Mas toca porque alguém precisa de alguma coisa.
E isso dói de uma maneira que talvez só quem já sentiu consiga entender.
Às vezes eu vejo pessoas que fizeram coisas terríveis tendo filhos ao lado e me pergunto se eu realmente errei tanto assim.
Porque não sinto que meus filhos sintam minha falta.
Não sinto que me procuram por uma palavra.
Por um conselho.
Por um abraço.
Por um simples “pai, estou com saudade”.
E isso me faz questionar minha própria vida.
Me faz olhar para trás e pensar em tudo que fiz.
Em tudo que tentei.
Em tudo que deixei de fazer por mim para fazer por outras pessoas.
E me pergunto:
Onde foi que eu errei?
Talvez eu nunca descubra.
Talvez meus filhos nunca me contem.
Talvez cada um carregue dentro de si uma versão da história que eu não conheço.
Mas existe uma coisa que Deus conhece.
Ele conhece minha intenção.
Conhece minhas noites.
Conhece meu esforço.
Conhece minhas lágrimas que ninguém viu.
Conhece as vezes em que eu estava cansado e continuei.
Conhece as vezes em que eu também precisava de ajuda e, mesmo assim, fui ajudar alguém.
E sabe que, apesar dos meus erros, eu tentei.
Hoje, no meio dessa dor, tento encontrar motivação para continuar entregando aquilo que ainda tenho para aqueles que ainda dependem de mim.
É por eles que continuo.
É por eles que entrego meu esforço, meu suor e cada suspiro de vida que o Criador ainda me concede.
Talvez eu tenha chegado ao ponto de não esperar mais reconhecimento.
Talvez eu tenha que aprender a fazer o bem sem esperar que alguém perceba.
Mas hoje eu precisava escrever.
Precisava deixar isso registrado.
Não para acusar.
Não para condenar ninguém.
Mas porque talvez um dia alguém encontre estas palavras e consiga entender o que existia dentro de mim neste Dia dos Pais.
Talvez um dia um filho leia.
Talvez um dia um neto leia.
E talvez alguém consiga enxergar que, por trás de tudo isso, existiu um homem que passou a vida tentando ser melhor do que aquilo que recebeu.
Um menino que perdeu o pai aos três anos.
Um homem que cresceu sem uma referência masculina.
Um homem que carregou seus próprios traumas.
Um filho que, mesmo tendo suas próprias feridas com a mãe, conseguiu um dia sentar ao lado dela em um hospital, limpar sua baba, ajudar a cuidar dela, cantar para ela e entender que aquilo que ela conseguiu lhe dar, ela havia dado.
E talvez essa seja a maior lição que Deus me deixou:
Que todos nós somos resultado de histórias que muitas vezes não conhecemos por inteiro.
E talvez seja isso que eu mais gostaria que meus filhos um dia entendessem sobre mim.
Eu também tenho uma história.
Eu também tive feridas.
Eu também precisei aprender.
Eu também errei.
Mas eu tentei.
De verdade.
Hoje encerro este Dia dos Pais com o coração pesado.
Sem esperar presentes.
Sem esperar homenagens.
Sem exigir gratidão.
Apenas deixando registrado aquilo que não consegui dizer olhando nos olhos de ninguém.
Talvez um dia alguém leia e entenda.
Talvez não.
Mas pelo menos estas palavras ficarão.
Para lembrar que, em algum Dia dos Pais, existiu um pai sentado no meio da própria luta, cercado de trabalho, tentando entender onde havia errado e por que, mesmo tendo passado a vida tentando construir, sentia que não havia conseguido construir o vínculo que mais desejava.
E mesmo assim, amanhã eu vou levantar.
Vou trabalhar.
Vou continuar cuidando daqueles que ainda dependem de mim.
Não porque não dói.
Mas porque a vida continua.
E porque, apesar de tudo, ainda tenho dentro de mim a vontade de ser melhor do que aquilo que recebi.
Com estas palavras encerro este Dia dos Pais.
Para aqueles que tiveram um dia diferente do meu, desfrutem com louvor e gratidão.
Abracem seus pais.
Abracem seus filhos.
Digam que amam.
Enquanto ainda existe tempo.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

O Ouvidor de Histórias - Podia estar roubando ...

Se você tem uma boa história para contar eu quero ouvi-la. E se você concordar, quero recontá-la aqui, com pinceladas de fantasia. Os nomes dos personagens podem ser fictícios ou não; você decide.

Essa história eu ouvi de um motorista de táxi no Rio de Janeiro, lá por 2012/2013. Ficou na minha memória e agora compartilho com vocês. O título saiu um tanto aleatório, tem a ver com aquela coisa do sujeito que pede um troco e diz:"eu podia estar roubando etc". Não é o caso do nosso personagem. Quem sabe, por uma dessas coincidências da vida, esse registro chega ao conhecimento dele e se reconhece no relato. Oxalá assim o seja.   


O Ouvidor de Histórias
Na era pré-Uber, chamo um táxi para me levar ao Santos Dumont. O trajeto desde o finalzinho da Barra, quase Recreio dos Bandeirantes, até o aeroporto no Aterro do Flamengo é longo e, com esse trânsito de início da manhã, vai levar bem uma hora e meia, pelo menos. O motorista é falante, e geralmente isso é uma vantagem para quem se interessa em ouvir histórias. E a do Otávio Guedes* — o taxista, não o homônimo jornalista da GloboNews — parece boa.

Nascido e criado na Rocinha, hoje mora em uma comunidade (nova nomenclatura para as antigas favelas) que ele menciona, mas eu desconheço. Mora razoavelmente bem, pelo que deixa transparecer ao ver um toldo em uma loja de materiais de construção e comentar que comprou um igual para cobrir a piscina que mandou fazer em casa.

Me conta que a mulher é professora e tem uma "pequena escola particular"; o casal tem uma filha em fase de alfabetização. Dá a entender que são uma família bem ajustada, digamos assim. O carro que ele dirige é alugado de um terceiro, para quem paga uma diária. O táxi, na verdade, é um bico que Otávio Guedes arrumou enquanto está de licença do emprego de motorista do transporte de valores. Conta que teve um pequeno incidente no ombro e foi afastado pelo seguro-saúde, mas, como se sente bem, está aproveitando para fazer um dinheiro a mais.

Fico curioso sobre a atividade de transporte de valores e ele me conta que atua com uma equipe armada e que diariamente recebe um roteiro para recolher os valores e levá-los ao ponto central da empresa. Responde a uma curiosidade minha e diz que nunca teve nenhum episódio de assalto. Esperto, confidencia que, por conta própria, descumpre o roteiro prévio que a empresa lhe determina. Deixa claro que é uma medida de segurança que adota para evitar cair em alguma armadilha. Receia que algum comparsa de assaltantes entregue o roteiro aos colegas de quadrilha. Pergunto se a empresa não controla o cumprimento dos roteiros, e ele responde que sim, e que mais de uma vez foi chamado à atenção, mas diz, rindo, que o que conta é a segurança dele e dos companheiros. Vai mais além: relata que diariamente, antes de saírem à rua, reúne os dois seguranças armados que o acompanham, fazem uma oração pedindo a proteção de seus anjos e santos e passa a instrução: "Se ocorrer um assalto, não reagiremos; não vamos morrer para defender dinheiro" — resume.

Penso que eles estão certos.

Me conta que os amigos de infância e adolescência na Rocinha ou estão na prisão ou morreram. Fala de um amigo que ganhou muito dinheiro com atividades do crime — que não especifica — e lamenta que esse amigo tenha sido morto em confronto com a polícia. Gostava do amigo e conta que, depois que ele entrou na vida do crime, não tiveram muito mais contato e que, nas poucas oportunidades em que se encontraram, tentava convencê-lo a mudar de vida. Lembra que outros colegas, ao contrário, aproveitavam a boa vida que a amizade com o amigo bandido rico lhes proporcionava. Cita as festas, a piscina construída na casa edificada na favela, as bebidas, as drogas, as mulheres... E diz ter sido rude com amigos que se aproveitavam da boa vida proporcionada pelo parceiro rico, indiferentes ao destino quase certo que o aguardava, como acabou se confirmando.

Otávio Guedes é evidentemente alguém inteligente e bem articulado. Pergunto se fez algum curso técnico ou profissionalizante. Não apenas fez, como ganhou dinheiro transmitindo o conhecimento a outros.

— Como foi? — pergunto.

Me conta que na época das privatizações da telefonia no Brasil as empresas que adquiriram as estatais passaram a terceirizar tarefas que antes eram executadas por funcionários próprios. Um dia leu essa notícia em um jornal qualquer e, com essa ideia na cabeça, lhe chamou a atenção um carro com uma escada sobre o teto. Foi perguntar ao motorista e ficou sabendo que a Telemar — que havia comprado a companhia telefônica do Rio de Janeiro, a antiga Telerj — contratava terceiros para instalar as redes de internet e telefone nas residências e empresas. Quis saber como o sujeito aprendera a fazer as tais ligações e recebeu a indicação de uma dessas "escolas" particulares que começavam a aparecer para treinar os interessados. Matriculou-se, fez o breve curso, financiou a compra de um Fiat Uno, instalou a escada no teto, credenciou-se na Telemar e entrou no negócio de telefonia e internet. Saiu-se tão bem no cursinho que foi convidado a dar aulas aos novos alunos, e assim conjugou as duas atividades. Isso foi antes de entrar para o serviço de transporte de valores.

Volto à história sobre a origem na favela e questiono como ele conseguiu não se contaminar com o crime organizado ou as milícias, e a resposta é um antigo ensinamento de vida.

— Ouvi meus pais — diz, dando ênfase especialmente ao pai, já falecido.

O velho — conta — criou os filhos com a seguinte orientação: "Sigam o caminho certo, não façam nada que envergonhe os seus pais e estudem sempre, porque só se sai da pobreza pelo estudo."

Parece simples; certamente todo mundo já deve ter ouvido alguém se referir a esse tipo de orientação para a vida. Contudo, a eficiência, ou não, desse conselho depende de uma circunstância singular: precisa, necessariamente, vir acompanhada do exemplo pessoal. No caso do meu interlocutor eventual em uma viagem de táxi - se é verdadeiro o relato que me fez no percurso do Recreio ao Santos Dumont - o exemplo dos pais não conflitou com a recomendação passada à prole.

Enfim, chegamos ao Santos Dumont e eu me despeço de Otávio Guedes desejando que ele se recupere logo do problema no ombro e retorne a conduzir sua pequena equipe de transporte de valores. Sempre com sabedoria e segurança, com a consciência de que, se o dinheiro vier a trocar de mãos, que assim o seja: sem tiros, sem risco de vida. Ele não usou a expressão, mas eu intuí o que quis dizer: "O dinheiro que se dane; é a Vida o que importa."

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Saudades do poeta de Sobral

"Eu gostaria de ser santo para fazer milagres para o povo"
Belchior, 2005, entrevistado por Chico Pinheiro

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Matteus tá pronto para vestir a camisa e assumir vaga na Câmara

Luís Lomba 



A fraude à cota de gênero obrigou a anulação dos votos recebidos pelo PRTB, PRD e PMB nas eleições municipais de Curitiba em 2024. A recontagem determinada pelo Tribunal Regional Eleitoral dá mais uma vaga na Câmara ao Partido dos Trabalhadores (PT), que passa de três para quatro representantes na Casa. Matteus Henrique vai se juntar a Vanda de Assis, Giorgia Prates e Angelo Vanhoni.
Cria da Zona Sul de Curitiba, Matteus já iniciou o aquecimento à beira do campo, louco para entrar no jogo. Ele conversou com a Vigília sobre a trajetória até aqui, as circunstâncias da conquista do mandato na Câmara e as perspectivas da pré-candidatura a deputado estadual, entre outros temas. Confira a íntegra da entrevista:
Já mandou fazer o terno da posse?
Ainda não, mas acho que nas próximas semanas...
Já tem data para a posse?
Não, porque eles têm prazo para apresentar embargos de declaração e aí tem esse período para julgar os embargos, que é mais rápido. O TRE tem sessões na metade e no final de julho. Em uma dessas sessões julgam os embargos e a gente no dia seguinte já assume.

 
Matteus: em breeve, vereador do PT em Curitiba
(Foto: Luís Lomba)


Quem é Matteus Henrique?
Eu sou um jovem do Sul da cidade, nascido e criado na região Sul, nasci no CIC, cresci no Capão Raso, minha família inteira é dali. Sou filho de uma professora da rede municipal. Desde pequeno gostei muito de estudar. Estudei em escola pública. Sou formado em Direito pela Federal do Paraná e hoje estou fazendo doutorado também na Federal. Sou fruto do movimento estudantil, da luta pela educação, participei do grêmio estudantil, do centro acadêmico, do DCE. Faço parte de uma geração que nasceu e cresceu no governo Lula. É uma geração que percebeu que vários sonhos que nossos pais tinham a gente conseguiu acessar, mas a gente quer um pouquinho a mais. Eu sou fruto dessa geração e foi isso que fez a gente construir esse processo todo.
Quando surgiu a vontade de disputar uma eleição?
Tem muito um sentimento de coletividade. Desde pequeno, por minha mãe ser professora e muito envolvida com o movimento sindical, ela fez parte da gestão do sindicato do magistério aqui de Curitiba, parte da minha família é do MST, eu sempre circulei nesse universo. A política nunca foi estranha pra mim, mas quando a gente começa a acessar alguns lugares, principalmente a universidade, a gente começa a perceber que sem algumas políticas públicas muito específicas a gente não teria chegado lá, meus amigos não teriam chegado, minha irmã não teria chegado.
E pra isso tem que ocupar mais espaços…
Se a gente não estiver ocupando alguns espaços para fomentar esse tipo de política, a gente não vai chegar em lugar nenhum. Então, de todos esses movimentos de que fiz parte, acabou que a gente criou um grupo muito unido, que começou a pensar qual é o próximo passo que a gente precisa dar e avançar para essas políticas e garantir os direitos que a gente conseguiu conquistar nesses últimos 10, 15 anos. E foi aí que a gente começou a discutir a candidatura, a identificar que, felizmente, começamos a ter um voto mais crítico em Curitiba. Acho que a eleição da Carol (Dartora), a eleição do Renato (Freitas), da Ana Júlia (Ribeiro), foram eleições de pessoas diferentes do padrão habitual até então, a gente começou a identificar que o voto em pessoas negras, em jovens, em LGBTs, começou a ser mais materialmente visível. Foi aí que a gente começou a organizar essa campanha.
Quando foi isso exatamente?
Foi depois do segundo turno de 2022 que a gente começou a pensar: acho que vamos, pode ser, dá pra ser. E aí foi um período de um ano e meio, dois anos de construção, até chegar na eleição em si. Foi um sonho muito coletivo.
Nessa campanha você já ficou de suplente. Como foi?
Foi uma campanha muito boa, foi uma campanha divertida, que é muito o perfil do nosso grupo, que também é muito disciplinado. Fizemos reuniões toda semana, por anos, e planejamos muito bem a campanha, que foi uma campanha alegre, em que a gente conseguiu comunicar muito daquilo que a gente queria comunicar sobre cidade, dialogar com os segmentos que a gente se propôs a conversar.
Ser um nome novo ajuda ou atrapalha?
Exige mais planejamento. A gente não tinha um nome conhecido, não tinha um sobrenome marcante, a gente não tinha nenhum padrinho político que carregou a campanha. A gente foi o 17º orçamento da chapa do PT e a quarta maior votação. Isso é muito fruto desse trabalho, desse engajamento que a gente foi criando e que acabou sendo a surpresa da eleição.
Foram mais de 4 mil votos…
4 mil 145. Não foi surpresa porque a gente via a coisa acontecer, né? Mas a gente teve que se desdobrar em mil durante a campanha para conseguir fazer acontecer. A gente saiu com um grupo unido e isso é bem importante, e com um saldo político também, de mostrar que tem como fazer. E tem como fazer garantindo e não abrindo mão dos princípios que a gente tem, não abrindo mão de um sentimento que a gente precisa ter de solidariedade ao outro, de carinho com as pessoas que estão envolvidas nesse processo todo, porque é isso, muita gente se doou, doou tempo, doou dinheiro, para construir uma coisa que a gente não sabia o que ia acontecer. Então essa experiência toda foi muito boa.
Você vai assumir a vaga por causa da fraude da votação de gênero. O que aconteceu?
Há a obrigatoriedade de todos os partidos cumprirem cotas de gênero. Infelizmente o que muitos partidos fazem é inscrever um número x de mulheres para cumprir essa cota, mas na prática não dão os elementos para elas poderem disputar mesmo. Eles colocam o nome na chapa, dão um mínimo de dinheiro para a mulher e praticamente todo o dinheiro do partido para um homem que eles querem eleger no final das contas. A Justiça Eleitoral começou a criar vários instrumentos para barrar esse tipo de fraude. Hoje os partidos, além de inscreverem mulheres, têm que garantir que elas tenham estrutura, tenham participação efetiva na distribuição dos recursos da chapa, garantir que de fato a candidata faça uma campanha para disputar uma vaga na eleição em que está concorrendo. Aqui em Curitiba a gente identificou situações de fraude nas chapas do PRD, do PRTB e do PMB.
Como foram as fraudes?
Para citar o exemplo do PMB: a candidata fez campanha durante todo o período eleitoral com um número, que foi fornecido pelo partido, e no dia da eleição ela começou a receber ligações das pessoas que votaram nela dizendo que digitaram o número dela e apareceu a foto de um homem. Então ela fez a campanha dela inteira para um homem.
Quem é essa candidata?
Telma Nogueira. É uma situação que chegaria a ser cômica se não fosse trágica, o Partido da Mulher Brasileira fazer um negócio desses. No PRD e no PRTB teve mulher que recebeu R$ 250 para fazer a campanha, não dá para fazer nada com isso. Você não é candidata, só finge que é. A Justiça Eleitoral tem sido mais rigorosa com isso. As outras duas ações já tinham sido julgadas, inclusive já levaram a cassação de alguns mandatos na Câmara, e faltava essa do PMB.
O que fazer para não ser só mais um na Câmara Municipal?
Eu acho que é importante o aumento da bancada de oposição, porque somos poucos, então qualquer coisinha a mais já significa muita coisa. Eu acho também que a gente vive o cenário de uma legislatura muito ruim. O que a gente vê da Câmara é sempre alguma pauta vergonhosa para a Casa. É rachadinha em gabinete, escândalo, briga, vereador que falta a sessão porque não quer votar contra o amigo. É isso que aparece no noticiário sobre a câmara hoje. A gente tem a oportunidade agora de mostrar que tem como construir um mandato popular de esquerda que seja eficiente, um mandato que olhe para a população, que esteja atento às demandas da cidade.
É mais fácil para um jovem conseguir isso?
Eu sou alguém nascido e criado em Curitiba, que sempre andou muito pela cidade, que anda de ônibus pela cidade inteira, que sempre frequentou os equipamentos públicos da cidade. Então acho que a gente precisa construir um mandato que seja capaz de dar resposta para os curitibanos e para as curitibanas. Acho que essa é a grande demanda que a gente tem enquanto campo progressista e que eu acho que talvez seja o grande ponto que a gente vem para somar nesse entendimento, que é o mandato de uma pessoa jovem, negra, LGBT, mas também de um advogado curitibano, que tem condição de olhar para essa estrutura da nossa cidade e pensar alternativas a esse modelo, que já tem dado vários sinais de que é um modelo fracassado.
Por que é um modelo fracassado?
Uma cidade que vê a cada ano os usuários do transporte coletivo diminuírem, é claro que é um modelo fracassado de mobilidade. Uma cidade que vê a fila da Cohab parada há 20 anos é um modelo fracassado de política habitacional. Então é esse modelo que a gente precisa começar a fazer o enfrentamento, de maneira técnica, apresentando alternativas para a cidade. Eu acho que essa é a grande contribuição que a gente vai ter condição de fazer nesse período aqui na Câmara.
Que outras pautas vão merecer tua atenção como vereador?
Neste mês vão entrar duas pautas bem importantes na agenda da Câmara. A primeira é a licitação do transporte, então a gente vai ter que se debruçar muito sobre esse novo edital, que vai coordenar o transporte nos próximos anos. A gente tem várias críticas, porque é a mesma empresa há décadas no transporte público de Curitiba, sem a gente saber muito bem quanto custa efetivamente o transporte, com uma passagem caríssima que impede muita gente de transitar pela cidade. Um outro tema importante vai ser o debate do Plano Diretor. É uma discussão que a gente faz desde a época da campanha. Queremos debater direito à cidade, como a cidade se organiza. A gente tem hoje, principalmente na região central, uma especulação imobiliária que tem expulsado cada vez mais as pessoas para longe. E esse modelo do Plano Diretor acentua as desigualdades. Temos também as questões dos servidores públicos, do magistério municipal, dos servidores da saúde, da segurança pública, que têm sido prejudicados em seus planos de carreira. Temos também toda a discussão sobre representatividade, sobre políticas públicas específicas para as pessoas negras em Curitiba, para a juventude, para as mulheres, para a população LGBT, são segmentos que a gente trabalhou muito na campanha e quer agora também poder pensar políticas públicas juntos.
Como fica a pré-candidatura a deputado estadual?
A nossa pré-candidatura veio da demanda de companheiros e companheiras de outras cidades, que passaram a ver nesse projeto que a gente construiu aqui em Curitiba um horizonte diferente também para o Paraná. Desde o ano passado a gente tem construído essa pré-campanha, tem rodado o Estado em várias cidades para conversar com pessoas, para apresentar esse programa, para levantar as reais necessidades que a gente tem para construir uma alternativa. É uma pré-campanha que já está organizada em vários municípios pelo Estado. Então, acho que o mandato (de vereador) vem para fortalecer esse ciclo, porque ele nos permite fazer uma disputa já estando dentro da política institucional, já estando com o mandato que nos garante visibilidade, nos garante condição de fazer um enfrentamento diferente. Então, a gente assume agora essa cadeira na Câmara e mantém essa pré-campanha que já está rodando no Estado inteiro e que vem para somar.
Como vê as possibilidades de se eleger?
Muitos dos deputados estaduais do PT hoje vão sair para deputado federal, Renato, Ana Julia, Arilson, Luciana Rafagnin. Então eu acho que sobretudo nesse voto jovem, negro, LGBT, que são segmentos que a gente trabalha muito, a gente tem condição de disputar, de fazer o debate. Mas a gente precisa ter um projeto que olhe para todas as pessoas. Durante a campanha construímos propostas para dois grandes grupos: os jovens e os 60 Mais, que num primeiro momento podem parecer grupos antagônicos, mas que são igualmente vulneráveis e que demandam políticas públicas. Tenho uma mãe que já é idosa e demanda várias coisas. Se eu defendo um projeto de cidade, ele precisa atender às minhas demandas de um homem jovem, mas ele também precisa atender a minha mãe, que é uma mulher idosa que transita pela cidade tanto quanto eu; e também precisa atender a minha irmã, que é uma mulher negra, jovem, que vai transitar em outros lugares e demanda outras políticas.
Você faz doutorado na UFPR. Qual é o tema de estudo?
Eu gosto muito da história do Direito, principalmente no século XIX. No doutorado estou estudando propriedade e escravidão, estudando como é essa relação que a gente acabou tendo no Brasil de pessoas serem tratadas como coisas. E acho que a gente precisa identificar, pelo menos é o meu objetivo na pesquisa, identificar como isso de fato aconteceu a partir de alguns documentos históricos que a gente tem na mão hoje. Entender como essa virada aconteceu, quais movimentos fizeram com que o que era tão certo, que pessoas negras não têm sentimento, só servem para trabalhar, como foi essa virada para perceber que, não, peraí, de fato são pessoas, não são coisas, têm garantias de direitos como a gente tem para tantos outros grupos. Então esse movimento aconteceu e é meu objetivo na pesquisa identificar os nuances desse período histórico, final do século 19.
Fonte: Agência Vigília Comunica (https://www.vigiliacomunica.com/post/matteus-ta-pronto-para-vestir-a-camisa-e-assumir-vaga-na-camara)