domingo, 25 de abril de 2010

R$ 456 Milhões - um número cabalístico para os Demos/Tucanos

Pouco antes de deixar o governo de São Paulo, o candidato José Serra fechou um acordo com 5 empreiteiros, esses homens bons, para dar a eles mais R$ 456 Milhões por obras feitas nos anos 80 e 90. Os empreiteiros são financiadores da campanha do vampiro que come meleca, mas todo mundo sabe que isso é apenas coincidência. Aliás, esse valor - R$ 456 milhões - deve ter um significado cabalístico para os candidatos Demos/Tucanos; eles o usam para dar sorte na eleição, deve ser isto. Afinal, foi esse mesmo valor - 456 milhões de Reais - que outro tucano, o Geraldo Alckmin (lembram dele?) deu para outros empresários às vésperas de concorrer à Presidência da República, em 2006.









E, nova coincidência, esses empreiteiros beatos também eram financiadores da campanha do tucano. Quem descobriu isso? Os competentes colaboradores do Blog do Luiz Nassif. Vejam essas notícias que a Folha de São Paulo divulgou escondidas lá pela página 40 (só pra depois o jornal poder dizer que também denunciou os ladrões do DEMO/PSDB).


24/4/2010
Empreiteiras ganham R$ 456 milhões de José Serra por construções antigas


ALENCAR IZIDORO
DA REPORTAGEM LOCAL

O governo de São Paulo firmou acordos judiciais durante a gestão José Serra (PSDB) para pagar até dezembro deste ano mais de R$ 456 milhões a cinco empreiteiras com a justificativa de quitar pendências de obras antigas, como a construção da rodovia Carvalho Pinto e a duplicação da Dom Pedro 1º. Os contratos com as empresas foram firmados entre os anos 80 e 90. A nova conta começou a ser paga nos últimos meses pelos cofres do Estado, inflada por correção e juros. O dinheiro equivale a mais de um terço do custo da obra de ampliação da marginal Tietê. É suficiente para pavimentar 650 km de estradas vicinais. Entre as cinco construtoras que já começaram a receber os depósitos, quatro também estiveram ligadas à construção do trecho sul do Rodoanel, bandeira de Serra, pré-candidato à Presidência, neste ano eleitoral e que foi entregue após ser erguido em tempo recorde.

Agora vejam o que ocorreu em 2/12/2006

São Paulo pagou R$ 456 milhões a 45 doadores de Alckmin

Empreiteiras credoras do governo paulista deram R$ 14 milhões dos R$ 62 milhões obtidos pela campanha do tucano Geraldo Alckmin

CATIA SEABRA
MATHEUS PICHONELLI
Juntas, 45 colaboradoras da campanha de Geraldo Alckmin à Presidência são destinatárias de R$ 456,1 milhões dos cofres do Palácio dos Bandeirantes apenas neste ano (2006). Cruzamento entre a prestação de contas do PSDB e a lista de fornecedores do Estado de São Paulo revela que pelo menos 45 doadoras estão entre os credores do governo estadual, comandado por Alckmin até março deste ano. Somados ao contrato para o trecho Sul do Rodoanel, o total previsto para essas empresas superaria R$ 2 bilhões.
Essas empresas -entre elas empreiteiras, bancos e fornecedoras de equipamentos de segurança- contribuíram com R$ 14.478.968 (mais de 14 milhões de reais), correspondendo a 23% dos R$ 62 milhões arrecadados pelo comitê financeiro da campanha do candidato tucano.
Além desses R$ 456,1 milhões já liquidados (cujo pagamento já foi autorizado) pelo governo do PSDB, há ainda R$ 1,546 bilhão em contratos para a construção do trecho Sul do Rodoanel. Encarregadas da obra, as construtoras Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, OAS, Mendes Júnior e Engevix estão entre os principais doadores da campanha.
A Andrade Gutierrez, por exemplo, contribuiu com R$ 1,5 milhão para a campanha de Alckmin. Neste ano, a empreiteira receberá R$ 15 milhões do Estado, segundo o orçamento registrado no Sigeo (sistema de acompanhamento dos gastos do Estado). O contrato do Rodoanel prevê R$ 492,9 milhões para a empreiteira….

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Juíza leva invertida de PM altivo

Uma desembargadora do Tribunal de Justiça de Santa Catarina bateu boca com PMs para tentar evitar a apreensão de um veículo carregado de multas não-pagas conduzido pelo filho. O caso ocorreu durante uma blitz na quinta-feira (15), em Florianópolis. Um dos policiais registrou a discussão em vídeo com um celular. A desembargadora e o bundinha do filho achavam que os PMs tinham complexo de vira-latas, mas descobriram que o Brasil que andava de quatro ficou pra trás há quase 8 anos. "Você sabe quem eu sou??? Sou desembargadora!" E o PM: "pois devia dar um exemplo melhor!" A Associação dos Magistrados, que também acha que os brasileiros ainda têm complexo de vira-latas, apoiou a atitude da juíza desqualificada. Assista o vídeo aqui:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/videocasts/ult10038u723811.shtml.

Veja, uma cópia medíocre



sexta-feira, 16 de abril de 2010

Hino Nacional com a nossa cara

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Os vídeos da entrevista do gen. Newton Cruz

Parte 1


Parte 2


Parte 3


Parte 4


Parte 5

Novas sobre a Intentona do RioCentro

Essa entrevista do general Newton Cruz (foto) foi dada ao repórter Geneton Moraes Neto e divulgada neste domingo na GloboNews. Para os mais jovens, esclareço que o general Nenton Cruz comandou a agência central do SNI em Brasília e ficou famoso por chicotear carros durante uma manifestação pelas Diretas na Esplanada dos Ministérios e por ser acusado de assassinar o jornalista-mordedor da revista Cruzeiro (espécie de Veja dos anos 60), Alexandre von Baumgarten. A propósito, esse caso inspirou o humorista Tutuca a criar aquele personagem do famoso bordão "bicha não morre, vira purpurina".

Durante a entrevista-depoimento, o general Newton Cruz fez cinco importantes revelações:

1 - O SNI soube com antecedência que uns porra-loucas do 1º Exército iam colocar a bomba no RioCentro;

2 - Depois do atentado, o chefe do SNI, general Medeiros, e o presidente João Figueiredo foram informados e mesmo assim nada fizeram para denunciar os terroristas; 

3 - Meses após a intentona do RioCentro, o mesmo grupo do DOI-CODI do 1º Exército tencionava colocar outra bomba em um local público no Rio de Janeiro. Dessa vez o general Newton Cruz foi lá e ralhou com a rapaziada, que então resolveu colocar o galho dentro;

4 - Na época da última eleição presidencial pelo Colégio Eleitoral, em 1985, o deputado Paulo Maluf pediu ao general que o SNI matasse Tancredo Neves;

5- Peteca é jogo de macho.


A seguir leia a parte da entrevista que foi disponibilizada pelo jornalista Geneton Moraes Neto.

Ou assista a entrevista completa no site da GloboNews, cujo link é este:

http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1565307-17665,00-GENERAL+NEWTON+CRUZ+REVELA+MOMENTOS+DRAMATICOS+DO+REGIME+MILITAR.html

"Os bastidores do regime militar : general Newton Cruz descreve o dia em que saiu de Brasília para o Rio para desmontar um novo atentado que militares estavam tramando depois do Riocentro
Postado por Geneton Moraes Neto em 10 de abril de 2010 às 22:16

Aos fatos : o ex-chefe da agência central do SNI e ex-comandante militar do Planalto, general Newton Cruz, nos deu detalhes de uma operação secreta que ele protagonizou para evitar que militares radicais cometessem, no Rio de Janeiro, um novo atentado, depois do que tinha ocorrido no Riocentro.

Um detalhe: o próprio Newton Cruz ficou nacionalmente conhecido como “linha-dura”. Mas, neste caso, ele atuou para  “apagar um incêndio”.  Os autores do frustrado atentado cometido no Riocentro – militares ligados ao DOI do I Exército, no Rio de Janeiro -  queriam dar uma nova demonstração de força contra a abertura política ( A entrevista completa do general foi exibida no DOSSIÊ GLOBONEWS no sábado. Vai ser reprisada neste domingo, às 17:05; na segunda, às 15:05 e na terça, às 11:05).

O general se deslocou de Brasília para o Rio, numa missão que, segundo ele, extrapolava suas atribuições, já que cabia a ele chefiar a agência central do SNI – não participar de um “empreitada” como aquela. O diálogo com dois dos homens que tramavam um novo atentado ocorreu num quarto de hotel do Leme, no Rio de Janeiro. O então chefe da agência central do SNI diz que fez uma advertência aos dois : se executassem o que estavam tramando, seriam denunciados. 

Um bastidor : quando procurei o ex-chefe da agência central do SNI para uma entrevista, duas semanas antes do natal, a primeira resposta foi “não”. Cordial ao telefone, disse que já não queria se envolver em” confusão”. Aos 85 anos, viúvo, estava na casa da filha, na zona oeste do Rio. Enfrentara problemas de saúde. A audição já não era tão boa. Agradeceu o “interesse” mas, em outras palavras, pediu que eu batesse em outra porta. Não bati. Tentei de novo uma, duas, três vezes.  Disse que ele tinha sido citado em outras entrevistas que eu tinha feito sobre o fim do regime militar. A última investida deu resultado. O general me disse :”Você é insistente !”. Respondi que sou, claro. Queria ouvi-lo. O tom firme da voz do general indicava que continuava “enérgico”. A entrevista ficou marcado para as onze da manhã de uma quarta-feira.

Houve momentos tensos. Com o calor na sala e o pequeno refletor usado pelo cinegrafista Evilásio Carneiro foram suficientes para que o general ficasse banhado de suor. A camisa ficou visivelmente molhada. A assistente de produção Rosamaria Mattos, estagiária da Globonews, fez as vezes de “maquiadora”  : precisou enxugar a testa do general “n” vezes com lenços de papel.  Houve momentos tensos, em que o general levantou a voz para marcar posições. Devolveu perguntas ao repórter. Recorreu à ironia quando achou necessário. A estagiária deve ter ficado compreensivelmente “assustada” com a entrevista. De qualquer maneira, eu estava apenas – e exclusivamente –  para perguntar, não para fazer discursos, emitir julgamentos ou me exibir diante da câmera sob as vistas  do general – que entrou para o “imaginário coletivo” como exemplo acabado do militar linha-dura. É o que tentei fazer.

Terminada a entrevista, a equipe desligou o equipamento. O cinegrafista, os dois técnicos e a assistente de produção desceram na frente. O general  me acompanhou até a porta do elevador. Aquele silêncio constrangido que sempre acomete os que ficam diante da porta de um elevador foi quebrado pelo general que, para minha surpresa, depois de ter se exaltado tantas vezes durante a entrevista, começou a cantar uma velha canção : “Falam de Mim”  ( a letra diz “falam de mim/mas quem fala não tem razão/ um rapaz como eu/ não merece ingratidão”). Quando cheguei à TV, recorri ao São Google, para descobrir de quem era a música. Era de um homônimo de Noel Rosa.

Vou confessar : meu primeiro pensamento foi  “ah, meu Deus do céu, se a câmera estivesse ligada aqui eu ia fazer uma imagem antológica : Newton Cruz, o general linha-dura, cantando !”.  A essa altura, o equipamento já estava desligado, no carro. Trocamos umas palavras. O general ficara satisfeito com a entrevista. Eu disse a ele o que sinceramente penso : “Como personagem jornalístico, o senhor me interessa tanto quanto, por exemplo, Luís Carlos Prestes, a quem, aliás, entrevistei várias vezes. Jornalista existe para fazer pergunta. Não faço  ”patrulhagem ideológica” nem no senhor nem em Prestes. Minha opinião pessoal não interessa. Quero sair daqui com uma notícia”.  O general me disse que nunca tinha falado tão claramente sobre a operação que fez para desmontar um novo atentado que militares tramavam no Rio. Em resumo, ele me deu uma notícia  : militares estavam tramando,sim, um novo atentado no governo Figueiredo.

Um dia depois, telefonei para checar dados. Perguntei se ele sabia o título da música que cantou para mim na porta do elevador, no fim da visita. Não, o general não sabia. Mas deve ter notado que, no fundo, o que eu queria era gravar a performance do general Newton Cruz cantando. Perguntou, sem meias palavras, se eu queria gravar ali, naquela hora, por telefone. É claro que sim. A gravação foi feita. O general “linha-dura” cantou de novo! A gravação da performance musical foi  usada no final da entrevista levada ao ar pela Globonews  :  um diálogo marcado por momentos ríspidos terminou, quem diria, com Newton Cruz cantando.

Mas o que terminou com a música tinha começado assim:
Toca o telefone na agência central do SNI, em Brasília : um agente – que estava no DOI-CODI do I Exército, no Rio de Janeiro, avisa que um grupo estava indo para o Riocentro com uma bomba

Horas antes do atentado no Riocentro, o senhor recebeu um telefonema de um militar avisando que uma bomba iria explodir lá.Por que é que o senhor não se dirigiu imediatamente para o Riocentro?

Newton Cruz: “Não,não,não,não. Meu Deus do céu. Primeiro: o Riocentro é no Rio. Eu estava em Brasília. “Imediatamente” não podia ser, nem que eu viesse de avião. Não é nada disso. Eu estava no meu gabinete de trabalho, na Agência Central do SNI. Ficava até tarde. Trabalhava feito um desesperado. Trabalhava de noite. Não tirava férias. Não fazia nada. Cheio de papel. Sempre fui muito centralizador. Sempre fui responsável, eu,pessoalmente – e também garantir  que cumpram aquilo que digo,como mando fazer. Eu estava no meu gabinete, já à noite, quando um oficial meu – da Agência Central do SNI – me disse: “Chefe, recebi um telefonema lá do Rio de Janeiro, de fulano de tal, analista de nossa agência, que disse o seguinte:  tinha ido ao DOI do I Exército para fazer contato,saber se tinha alguma novidade e se informar…”. Somos órgão de informação. Era um homem da nossa seção de operações. “Quando chegou lá, ele se assustou, porque viu um grupo reunido cuja ideia era partir para o Riocentro. E ele ficou assustado.Falou: ”Como é isso?”.  O oficial da agência do Rio de Janeiro tentou influenciar: ”Vocês não podem fazer isso, ir pra lá!”. E eles: “Mas nós vamos! ”.  A ideia desse grupo não era matar ninguém: era moda aquele negócio de bomba em banca de jornal. Era pegar uma bomba – uma bombazinha – e jogar lá fora, nas imediações. Era um ato de presença: “Nós estamos aqui.Vocês estão aí, no evento de comemoração do primeiro de maio.Nós estamos aqui!”.  Não era para matar ninguém. Era um grupinho. Não era nada comandado por ninguém de cima. Eram eles mesmos, por conta deles. 

Quando este oficial soube, se assustou: “Não podem fazer isso lá”. Faz o seguinte: “Vai, mas joga a bomba mais afastada”. Ele avisou isso.  E saiu com o grupo: foi junto, para  assegurar a bomba fora, para não incomodar ninguém, porque eles estavam com gosto de sangue na boca. Sangue,não.  Sangue nada: era jogar bomba. Eu falei: “Mas não há meio de parar?”. E ele: “Não,porque eles já saíram”. Quando eu soube, este grupo já tinha saído. E a bomba foi lançada meio afastada, na proximidade da casa de força. Não adiantava nada, porque se apagasse, o gerador daria eletricidade. Não ia incomodar ninguém. Ele agiu com a cabeça, para evitar. Muito bem. Eu não podia fazer mais nada. Paciência. Fui  para casa. Quando cheguei em casa – e liguei a televisão – é que soube da bomba que tinha explodido. O que é que foi ? Os dois que foram lá – o capitão e o sargento – por conta própria, fora daquele grupo –  para o estacionamento.E a bomba explodiu no colo do sargento. É o que houve”.

Quando soube que haveria um atentado no Rio centro, o senhor não deveria ter comunicado imediatamente até ao presidente da República ?

Newton Cruz: “Não,não,não…”

O senhor não considerou grave ?

Newton Cruz: “Falei com quem ? Com o meu chefe – o chefe do SNI,Octávio Medeiros – que tinha gabinete junto do Figueiredo. Eu – como chefe da agência central – não tinha nenhum contato direto com Figueiredo…”

Mas num situação dessas….

Newton Cruz: “Não tinha importância nenhuma…”

Poderia ter causado uma tragédia….

Newton Cruz: “Ele foi procurado por Medeiros – que disse a história a ele. Figueiredo soube o que aconteceu”.

Naquela noite ?

Newton Cruz: “Não sei se na noite. Porque a noite era de madrugada. Ou no dia seguinte, não sei. Para mim, tinha acabado. Transmiti para o meu chefe e acabou”

O senhor transmitiu para o general Octávio Medeiros antes ou depois de ver a notícia na TV?

Newton Cruz: “Depois da TV. Eu morava do lado de Medeiros. Nossa casa era junto uma da outra,na Península dos Ministros. Não podia fazer nada! Não podia fazer nada naquela hora ! Nada! Não tinha o que fazer ! Não tinha o que fazer. Não podia fazer nada! Não havia o que fazer”

O senhor se arrepende de não ter tentado fazer alguma coisa ?

Newton Cruz(levantando a voz): “Tentar o quê ?”

Telefonar para o general Medeiros para mobilizar…

Newton Cruz: “Medeiros ia fazer o quê ?”

Mobilizar alguém para interceptar…

Newton Cruz: “Interceptar quem ?”

Os militares que estavam indo para o Riocentro….

Newton Cruz: “Eles não sabiam de militar que estava indo para o Riocentro. Não sabia nem para onde eles foram. Não sabiam nem onde ia ser jogada a tal bomba. Era nas proximidades. Não sabiam onde era. Que história é essa ? É impossível. Nesta ocasião, nem celular havia….

E mais o seguinte: tempos depois, recebi a informação de que havia um grupo,no DOI, tentando fazer uma coisa parecida.Não era problema meu. Eu tinha só de informar.

O grupo ia fazer algo parecido onde ?

Newton Cruz: “Em algum lugar. Algo da mesma natureza”

Uma bomba num local público ?

Newton Cruz: “É….Não sei onde”.

O senhor deve saber. Não quer dizer ?

Newton Cruz: “Estou dizendo que não sei. Estou contando. Não conto pela metade. Conto tudo que sei. Quando conto, conto o que sei. Quando não quero contar, não falo. Então, falei: “Não é possível! Isso não pode!”.

Pela primeira vez, saí de minha função dentro do SNI:  “Vou pessoalmente acabar com isso!”.Pedi à agência do Rio um encontro com dois elementos do DOI-CODI. Fui ao Rio de Janeiro e me encontrei num hotel “.


Onde foi ?

Newton Cruz: “O hotel ficava no Leme. Eu me encontrei com um tenente da Polícia Militar e um sargento (do Exército). Falei: ”Aconteceu isso assim assim em relação ao Riocentro. Eu tive informações de que vocês estão pensando em coisa parecida. Vou dizer uma coisa a vocês:  vão lá e digam aos seus companheiros que vocês estiveram comigo e se acontecer qualquer coisa parecida com isso eu vou denunciar!”  (levanta a voz). Digam a eles!”.  Nâo houve mais nada. Acabou com bomba. Isso ninguém sabe”.
O general guardou silêncio sobre a reunião ocorrida num quarto de hotel no Leme, no Rio de Janeiro, com dois militares que estavam tramando o novo ataque

O senhor chegou a  produzir algum documento escrito sobre esta ameaça de um novo atentado no Rio ?

Newton Cruz: “Não.Nunca falei sobre isso”

Chegou a produzir algum documento internamente no SNI ?

Newton Cruz: “Não.Porque, se eu fizesse, estaria sendo falso em relação aos dois que falaram comigo”.

Por que é que só agora o senhor decidiu fazer esta revelação ?

Newton Cruz: “Já falei na intimidade”.

Não: publicamente….

Newton Cruz: “Porque saiu agora. Não sei por quê. Ah, por quê ? Porque agora falei, de repente…”.

Quanto tempo depois do Riocentro haveria este outro atentado ?

Newton Cruz: “Eu estava na agência central do SNI até 1983. Se o atentado foi em 1981, foi logo depois…”

Como é que esta informação de que haveria um novo RioCentro chegou ao senhor ?

Newton Cruz: “Não vou dizer a você! Pronto. Porque acho que, profissionalmente, não posso dizer”

Mas é uma revelação grave que o senhor faz:  a de que poderia haver um outro Riocentro no governo Figueiredo.

Newton Cruz: “Eu resolvi o fato. Falei do fato. Não posso falar sobre informante. Você, jornalista, fala o que um informante diz a você pedindo sigilo ?”

Não.

Newton Cruz: “Permita-me ser igual a você!”.

O senhor comunicou este fato ao presidente Figueiredo ?

Newton Cruz: “Com Medeiros (chefe do SNI), falei de minha ida ao Rio. Eu ia ao Rio e não vou dizer a meu chefe ? Eu disse!”.

Que cuidados o senhor tomou na hora de ter esta conversa no hotel ?

Newton Cruz: “Nenhum. Entrei no quarto, já preparado,sentei lá. Pedi um uísque para mim e um uísque para os informantes e conversei com eles. Pronto”.

Que reação esses dois oficiais tiveram quando o senhor disse que eles não poderiam cometer este ato ?

Newton Cruz :” Você pode tirar sua conclusão porque depois nunca mais houve bomba em lugar nenhum”.

Mas eles contraargumentaram ?

Newton Cruz: “Não. Ficaram quietinhos. Fiz cara feia para eles, certamente. Ficaram com medo de minha cara…”.

Que sensação o senhor tem  por ter evitado este outro atentado ? É de alívio ?

Newton Cruz: “Fiquei feliz da vida, claro. Achei que tinha um propósito – e o propósito foi cumprido. Fiquei feliz da vida. A pergunta acho que não tem sentido ( irônico): ah, fiquei triste….Queria que acontecesse…Ora…”

domingo, 11 de abril de 2010

A fala da mineira guerreira

10/04/2010 - 19:57

O discurso de Dilma no lançamento da candidatura à Presidência

Companheiros e Companheiras do ABC.
Estou aqui hoje e quero aproveitar este momento para me identificar com maior clareza. Os da oposição precisam dizer quem são. Vocês sabem quem eu sou, e vão saber ainda mais. O que eu fiz, o que planejo fazer e, uma coisa muito importante, o que eu não faço de jeito nenhum. Por isso gostaria de dizer que:
1 Eu não fujo quando a situação fica difícil. Eu não tenho medo da luta. Posso apanhar, sofrer, ser maltratada, mas estou sempre firme com minhas convicções. Em cada época da minha vida, fiz o que fiz por acreditar no que fazia. Só segui o que a minha alma e o meu coração mandavam. Nunca me submeti. Nunca abandonei o barco.
2 Eu não sou de esmorecer. Vocês não me verão entregando os pontos, desistindo, jogando a toalha. Vou lutar até o fim por aquilo em que acredito. Estarei velhinha, ao lado dos meus netos, mas lutando sempre pelos meus princípios. Por um País desenvolvido com oportunidades para todos, com renda e mobilidade social, soberano e democrático;
3 Eu não apelo. Vocês não verão Dilma Rousseff usando métodos desonestos e eticamente condenáveis para ganhar ou vencer. Não me verão usando mercenários para caluniar e difamar adversários. Não me verão fazendo ou permitindo que meus seguidores cometam ataques pessoais a ninguém. Minhas críticas serão duras, mas serão políticas e civilizadas. Mesmo que eu seja alvo de ataques difamantes.
4 Eu não traio o povo brasileiro. Tudo o que eu fiz em política sempre foi em defesa do povo brasileiro. Eu nunca traí os interesses e os direitos do povo. E nunca trairei. Vocês não me verão por aí pedindo que esqueçam o que afirmei ou escrevi. O povo brasleiro é a minha bússola. A eles dedico meu maior esforço. É por eles que qualquer sacrifício vale a pena.
5 Eu não entrego o meu país. Tenham certeza de que nunca, jamais me verão tomando decisões ou assumindo posições que signifiquem a entrega das riquezas nacionais a quem quer que seja. Não vou destruir o estado, diminuindo seu papel a ponto de tornar-se omisso e inexistente. Não permitirei, se tiver forças para isto, que o patrimônio nacional, representado por suas riquezas naturais e suas empresas públicas, seja dilapidado e partido em pedaços . O estado deve estar a serviço do interesse nacional e da emancipação do povo brasileiro.
6 Eu respeito os movimenos sociais. Esteja onde estiver, respeitarei sempre os movimentos sociais, o movimento sindical, as organizações independentes do povo. Farei isso porque entendo que os movimentos sociais são a base de uma sociedade verdadeiramente democrática. Defendo com unhas e dentes a democracia representativa e vejo nela uma das mais importantes conquistas da humanidade. Tendo passado tudo o que passei justamente pela falta de liberdade e por estar lutando pela liberdade, valorizo e defenderei a democracia. Defendo também que democracia é voto, é opinião. Mas democracia é também conquista de direitos e oportunidades. É participação, é distribuição de renda, é divisão de poder. A democracia que desrespeita os movimentos sociais fica comprometida e precisa mudar para não definhar. O que estamos fazendo no governo Lula e continuaremos fazendo é garantir que todos sejam ouvidos.
Democrata que se preza não agride os movimentos sociais. Não trata grevistas como caso de polícia. Não bate em manifestantes que estejam lutando pacificamente pelos seus interesses legítimos.
Companheiras e companheiros,
Aquele país triste, da estagnação e do desemprego, ficou pra trás. O povo brasileiro não quer esse passado de volta.
Acabou o tempo dos exterminadores de emprego, dos exterminadores de futuro. O tempo agora é dos criadores de emprego, dos criadores de futuro.
Porque, hoje, o Brasil é um país que sabe o quer, sabe aonde quer chegar e conhece o caminho. É o caminho que Lula nos mostrou e por ele vamos prosseguir. Avançando.
Com a força do povo e a graça de Deus.

terça-feira, 6 de abril de 2010

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Retrato nu e cru da elite brasileira

A jornalista Mônica Bergamo (Folha de São Paulo) expôs com toda a crueza o retrato na elite brasileira na pessoa da "primeira-dama" de São Paulo, Deuza Goldman, esposa do vice de José Serra, o ex-comunista Alberto Goldman, que assumiu no dia 1º de abril. O trabalho da Bergamo só é comparável à lendária entrevista das páginas amarelas da Veja com a socialite Narcisa Tamborindeguy, publicada em 1998. A propósito, postarei essa entrevista aqui oportunamente, para tonificar o fígado de todo mundo. Aguardem. Por ora, deliciem-se com essa Deuza.

Como uma deuza

Mônica Bergamo

A nova primeira-dama de SP, Deuzeni Goldman, 58, a Deuza, que toma posse na terça, cuida de filhos, netos e enteados, escolhe as roupas do marido, faz dança, piano, inglês, ginástica e -ufa!- medita duas vezes por dia para relaxar.

Deuza Goldman em seu apartamento, em Higienópolis

Faltam duas horas para que o helicóptero do governo de São Paulo levante voo levando Deuzeni Goldman, a Deuza, pelos céus da cidade rumo a sua mais nova missão: estar ao lado do marido no cargo de primeira-dama de São Paulo.

Sua antecessora, Monica Serra, é morena. Deuza é loira. Monica é tímida; Deuza, exuberante. A mulher continuou morando em sua casa, em Pinheiros, e Serra foi sozinho para o Palácio dos Bandeirantes. Já Deuza e Alberto Goldman, que assume o governo na terça, são "grudados. A gente ainda namora no cinema". "São 32 anos de casados, acredita? Nem eu acredito que estou há tanto tempo com esse meu maridinho."

Deuza se senta à mesa para o almoço em seu apartamento, em Higienópolis. "Então, eu tava te falando... eu tava numa fase bem mãezona. Faz cinco anos que tô aposentada [é ex-decoradora], pra curtir a vida, os filhos. Faço dança de salão, piano, inglês, tenho professora de ginástica três vezes por semana. Sempre fiz mil coisas. Vou ter que me reorganizar."

Ela interrompe: "Paula... tá aparecendo a alça do sutiã vermelho, filha." Aos 31 anos, a jovem, que veio de Londres, onde mora, se arruma para ir com a mãe à cerimônia, no Bandeirantes, em que Serra se despedirá do governo. "Sou virginiana, perfeccionista", diz Deuza.

Ela cataloga as fotografias de família por assuntos ("Eu e Meu Amor", "Amigas", "Crianças"), datas "e até o nome da rua em que a gente estava", diz Paula. Divide as roupas em armários por décadas: anos 70, 80 e 90. O Le Lis Blanc de seda que veste para a despedida de Serra "tem cinco anos", diz. A bolsa, Dior, "mais de 20. Tenho várias. Comprei quando não custavam essa fortuna". "Ela tem um brechó em casa", afirma Paula. E escolhe as roupas que o marido usa.

Deuza derruba suco de uva na mesa. "Nervosa? Não, eu estou até calma! Eu agora faço meditação duas vezes por dia." Quem ensinou a ela a técnica foi o enteado, André. "Cada sessão tem 20 minutos." Olhos fechados, Deuza passa as mãos em várias partes do corpo enquanto explica: "Você pensa nos cabelos, relaxa. Pensa nas orelhas, relaxa. No dorso... até que não percebe mais o corpo. Aí, pensa numa paisagem bonita e "fica" lá. Tem gente que até levita!". Deuza não chega a tanto. Mas está "mais relaxada".

Ela conta que está escrevendo um livro. "Eu tenho muita coisa pra contar, né? São 32 anos [com o marido]. Vai se chamar "História e Estórias", e o subtítulo é... ai, gente, é tão pitoresco... mas não consigo me lembrar!". E Paula: "Cê já escreveu muita coisa? Queima esse livro, mãe!". Por quê? "Ah, sei lá, agora tem campanha eleitoral... vai ter espião petista em tudo quanto é lugar."

Nascida em Tupã, interior de SP, ela é a mais velha de três irmãos. A mãe , Deuza, e o pai, Zenite, juntaram os nomes e a chamaram Deuzeni. Depois de fazer o clássico e o magistério, Deuza se mudou para a capital. Tinha 18 anos.

Em 1972, aos 20, conheceu Goldman. Ele tinha 34, já era deputado e sócio de uma construtora. "Eu era secretária da secretária dele", diz Deuza. "Ele já tinha, assim, um casamento bem falido, né?". E os dois começaram a namorar. "Ficamos seis anos nesse chove, não molha." Até que Goldman decidiu se separar. "Ele sempre disse pra mim que eu nunca fui a causa, e sim a consequência [da separação da primeira mulher, Sara]."

Mas Deuza continuava "naquela indecisão." "Eu era uma menina superjovem, tinha um monte de paqueras que me assediavam. Ele era mais velho, já tinha três filhos (Cláudio, Marcelo e André), era político, judeu. Tinha tudo para dar errado." "E ainda quebrou!", diz Paula. Deuza explica: "Quando a gente se casou, ele fechou a construtora. Eu era secretária, fazia o Imposto de Renda dele, sabia de tudo o que tinha. Nunca me impressionei. Eu sempre brinco que conheci o Alberto rico e casei com ele pobre."

Deuza interrompe a conversa, preocupada com perguntas pessoais: "Como sou loira, tenho cabelão, as pessoas acham que eu sou uma dondoca, um nada. E eu não sou isso". A cunhada Antonieta Spargoli, a Toty, diz: "A Deuza não tem culpa de ser alta, magra e loira". Fez apenas uma plástica, suave, no rosto, há muitos anos.

A primeira-dama explica que tem "um lado intelectual muito forte." Assina várias revistas (além das semanais de informação, "Casa Claudia" e "Vogue") e está lendo "três livros ao mesmo tempo" -um deles, "Os Homens que Não Amavam as Mulheres", do sueco Stieg Larsson. Gostou "demais" da biografia de Hillary Clinton -em especial quando ela conta que perdoou as traições do marido, Bill Clinton, "por amor".

"Tenho aversão. Mas não quero falar sobre isso", diz Deuza quando questionada sobre o governo Lula. "O Serra não gosta", explica. "Falo o que penso", mas, na posição em que está, precisa "ser cuidadosa". Sobre primeiras-damas, diz apenas que "a Ruth Cardoso, sim, foi um modelo. Discreta, atuante, eficiente".

Crítica de programas como o Bolsa Família, ela diz acreditar que os projetos do Fundo de Solidariedade, que comandará, têm outro caráter. "O Bolsa Família dá dinheiro mensal para a pessoa se acomodar. A campanha do agasalho é emergencial, para a pessoa não passar frio."

Depois da despedida de Serra, Deuza volta para Higienópolis, onde o casal continuará morando mesmo depois da posse. No carro, fala dos planos. "Mil amigas já estão me ligando." São mulheres de deputados, de secretários, que "querem ajudar e não sabem como. Vou mobilizar todo esse pessoal". Seu principal projeto é revitalizar o parque da Água Branca, onde fica a sede do Fundo. Ela quer incrementar o paisagismo e catalogar todas as árvores, colocando placas para que as crianças possam identificá-las. "O parque tem história, meus filhos iam lá quando eram pequenos", diz.

Já em casa, Deuza se prepara para jantar fora com o marido e os dois filhos do casal, Paula e Flávio. Se deixarem, o governador só vai a restaurantes como a pizzaria Speranza, no Bixiga, e o Filé do Moraes. Mas, em casa, quem manda é a primeira-dama. Ou melhor, "toda a família manda nele", segundo Paula. Deuza considera que os três filhos mais velhos e as três netas de Goldman, "na realidade, são meus também, entendeu?".
 
A família agora tem várias coisas para resolver. Um dos filhos de Goldman, por exemplo, vendeu o carro "para não poluir o mundo". E, embora a lei determine, não quer andar de ônibus com um segurança na cola.

O celular toca. É um dos enteados, André. "Que pena que você não veio com a gente [na despedida de Serra], meu amor!", diz Deuza. Na posse, na terça, afirma ela, ninguém pode faltar. "O papai quer todo mundo lá. Vem aqui que eu boto uma gravata em você.

domingo, 4 de abril de 2010

Para quem não viu: TV doada pelo CQC some na Prefeitura de Barueri (SP)

Veja a reação do prefeito serrista de Barueri (SP) ao flagra que o CQC aplicou nele, ladrãozinho de uma TV de plasma doada pelo Programa a uma escola da comunidade. Veja a cara de pau do melhor amigo do vampiro que come meleca.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Para a Semana Santa: Chora Fátima Guedes

Fátima Guedes é para poucos - uma pena. Além de ser uma intérprete de primeiríssima linha, é compositora do nível de Aldir Blanc, Paulo Cesar Pinheiro, Chico Buarque, Paulinho da Viola... Carioca do subúrbio, ali para os lados da Tijuca, Fátima Guedes canta as coisas bonitas e simples, pelas quais a vida vale a pena. Para marcar a Semana Santa que começa, lá vai "Chora Brasileira", composição da Fátima Guedes na voz da autora e também na (igualmente sensacional) de Nana Caymi. É dos anos 80, mas eterna.

domingo, 28 de março de 2010

Reminiscências no exílio

Esse texto é do meu pai, Fernando Campelo Duarte. Poderia se chamar "Reminiscências de um carioca no exílio", mas saiu como "Ode ao Bonde". Foi escrito em 1964, quando ele já vivia em Curitiba. Na época, a Prefeitura do Rio estava encerrando as linhas dos últimos bondes na Cidade Maravilhosa, e o "exilado" certamente sentiu o golpe.

Com exceção das duas irmãs mais novas, os demais filhos passeamos de bonde com os nossos pais pela velha São Sebastião. Era divertido. Quem tiver oportunidade não deixe de vislumbrar a Lapa de cima dos famosos Arcos (foto) a bordo do bondinho de Santa Tereza, o único que restou no Rio de Janeiro. Sai da velha Lapa (Estação Carioca), perto do prédio da Petrobras, e vai ao Alto da Boa Vista e ao Sumaré. Vale a pena.

A mana Maria Lucia tem outros textos do pai, que postarei oportunamente.


Ode ao Bonde

Fernando Campelo Duarte (1920-1981)

Era noite. Na quietude sossegada da minha casa num *bairro pobre de Curitiba, recordava-me do meu distante e amado Rio de Janeiro. E, então, como se fôra um filme, um filme em retrospecto do meu passado, vi-me a recordar os meus tempos de infância e de moço em minha terra natal. Lembrei-me dos passeios que meu **pai e eu fazíamos de bonde e aí então foi que senti o desaparecimento desses veículos, da paisagem atual do Rio de Janeiro moderno.

E, por incrível que pareça, senti imensamente como se fôra algo de assim tão profundamente se sentir que as contingências dinâmicas das imposições do que se chama progresso houvessem decretado a morte dos bondes que fizeram parte integrante da minha infância e juventude.

E o filme prosseguia e as visões se sucediam... Recordei-me dos reboques, uns abertos, outros de plataforma fechada; dos trilhos reluzindo pelo perpassar constante do tráfego; dos bondes de 2ª classe, os “taiobas”, nos quais se pagava um tostão para ir da Tijuca à Praça Tiradentes. Lembrei-me dos letreiros, mais tarde acrescidos com números – MUDA-65-Andaraí-Leopoldo-71-Uruguai-Engenho Novo-Penha-91 – e muitos e muitos outros.

Jardim Leblon, o bonde que mais gostava de viajar nos passeios dos domingos. Ia pela Praia do Flamengo, ganhava Botafogo, Largo dos Leões, Jardim Botânico e, do Jóquei Clube em diante, em linha singela, por entre o mato, como se fôra trem, buscava os areais do Leblon então nascente, para afinal atingir a circular de retorno no Bar 20, de Ipanema.

Bondes da minha juventude, que estudantes gostávamos de pegar andando, de descer andando; dos carnavais gostosos do Rio de Janeiro.

E na seqüência das recordações, em que nem tudo eram figuras materiais do passado, veio à minha lembrança a figura humana do ***motorneiro, dos condutores, fiscais e despachantes. Gente zelosa e dedicada de um exército particular, quase todos lusos, alegres e chistosos, mas cônscios de seus deveres e pontuais em suas obrigações.

Que noção de responsabilidade! Que dignidade tinham os motorneiros dos meus bondes do Rio. Quantas freadas bruscas, retrocessos e limpa-trilhos descidos para salvar crianças e animais que passavam à frente dos elétricos.

Bondes da minha terra, vocês não existem mais. Em vez do ruído gritante de suas loucas disparadas nas madrugadas do meu Rio de Janeiro, há apenas agora na cidade moderna uma quietude fria de cidade sem alma.

Tudo é rápido, apressado, inhumano, ninguém se conhece, ninguém ama ninguém e assim não há mais lugar para você, meu velho bonde. Você, bonde, fazia amigos os seus passageiros; era o palco ideal das grandezas humanas, nas rotineiras viagens diárias de uma cidade que trabalha, nas horas agradáveis de uma cidade que se diverte.

Você era o bairro que chegava ao centro, era o comércio, era o borburinho do centro que adentrava os bairros.

Bonde da minha infância, da minha juventude, dos meus tempos de estudante, de policial, de funcionário, de namorado, de carnavalesco, de carioca, você hoje é apenas saudade, barulho doce que ecoa sereno nas recordações gostosas do ontem que hoje não mais pode voltar.

(Escrito em 11/08/1964, com caneta tinteiro, em papel timbrado do Ministério da Agricultura – ****Serviço do Acordo de Classificação no Estado do Paraná)

*Vila Isabel
**José Ribeiro Duarte Júnior
***Condutor do bonde
****Onde o autor exercia a função de secretário-geral
(foto) Fernando Campelo Duarte em 1966, na formatura de Segundo Grau da primogênita Maria Lucia Madeira Duarte

sábado, 27 de março de 2010

Aniversário de duas grandes figuras

Nosso irmão Fernando Wagner, que nos deixou em 3 de dezembro passado, faria hoje 58 anos. Outro figuraço do dia 27 de março é Renato Russo, eterno Legião Urbana, que completaria 50 anos neste sábado. Vamos recordá-los com música.

Wagner gostava de Roberta Miranda e a sua "De igual pra igual". Contava que a autora havia composto para falar da relação com um delegado de Polícia de São Paulo, de quem teria sido amante. Seria o delegado Fleury, de má lembrança. Não sei de onde ele tinha essa informação.

A canção e sua letra são daquelas de fazer um sucessão na zona, local que nós, que hoje estamos na faixa dos cinqüentinha, freqüentávamos com a assiduidade de beatas à missa dominical. Coisa dos anos 70, tempos pré-Aids, quando fazíamos happy hour (nem se usava essa expressão) no Embrulha Noite (Parolim), na Albertina (Rua Westphalen), no 4 Bicos (Uberaba?), na Otília (Cristo Rei) e diversos outros.

Dia de aniversário é bom para lembrar os companheiros com os quais um dia fomos a uma dessas casas de alegria. Começando pelo Wagner, seguindo com Alvino, Maneco, Chicão, Tonhão, Ney, Gusto, Joca, Cesar, Antoninho, Gilberto, Drula, Zeca Fonseca, Osmar dos Santos, Jackson, Levy, Luiz Sottomaior e outros mais que não me recordo. Para essa turma toda, em especial à memória do Wagner, Roberta Miranda!




Celebremos também a memória de Renato Russo (1960-1996), em cuja companhia não tivemos a oportunidade de ir às casas noturnas e vê-lo soltar o vozeirão. Dele, "Giz", sua preferida, com a qual celebramos também a lembrança das meninas da noite dos nossos 20 anos, muitas delas hoje respeitáveis senhoras de meia idade. Que guardem boas lembranças de nós!

quarta-feira, 24 de março de 2010

Garagem de carros antigos

O cara é muito bom no manejo de ferramentas informatizadas de design e as usa para criar modelos de carros que nunca existiram. Quer ver? Que tal um Simca Chambord conversível como esse da foto? Ou um Simca coupê? Os dois modelos só existem no traço de Dan Palatnik, ilustrador e artista gráfico entusiasta de carros antigos e de Design do Século XX, como ele se apresenta em seu Blog A Garagem Digital de Dan Palatnik - Clássicos em 3D.
 








Querem mais: que tal esse mosaico de rádios antigos? Saudades do rádio do vovô, hein?!

 

quinta-feira, 18 de março de 2010

Lula-lá! Um jingle na mente e no coração de muita gente

"Valeu a espera", proclamava profeticamente o jingle da campanha de Lula em 1989. Mal sabíamos que a espera iria se alongar um pouco mais, até 2002. Mas, de fato, valeu a espera! Nossos filhos, então com 4, com 5 anos cantavam conosco o Lula-lá e brandiam no ar as bandeiras vermelhas. Tudo mundo contagiado pela melodia e os versos que propunham nenhum MEDO DE SER FELIZ! Quem viveu não esquece nunca mais.

Então vamos lá: aumente o som, empunhe a bandeira vermelha, coloque a velha camiseta ainda suja de araruta, escolha uma boa cachaça mineira (Anísio Santiago) e solte a voz: Lula-lá, brilha uma entrela ...


Criatividade contra a Aids

quarta-feira, 17 de março de 2010

Ciro Gomes, próximo governador de São Paulo, dá entrevista ao Sócrates

Nãoooooo!!! O apedeuta de 9 dedos nos envergonhou. De novo!

Ouça o relato da correspondente da BBC no Oriente Médio, Guila Flint, sobre a visita de Lula a Israel. Veja como o apedeuta de nove dedos nos envergonhou! Que saudades daquele poliglota, chamoso e elegante FHC, aquele sim nos honrava aos homens bons quando proclamava alto e bom som: yes, man!, of course, mister! Se não tomarmos cuidado, aquela terrorista Dilma vai nos envergonhar internacionamente também. Só o que faltava, sermos comandados por uma mulher! E ainda por cima com a ousadia de não ser simpática com os homens bons. Basta de tanta vergonha: eu quero Serra, não importa que ele coma meleca.
Agora morra de vergonha ouvindo a gravação.

terça-feira, 16 de março de 2010

Manual da Dona Maria, por OFF

Observações importantes: a parte grifada são observações do Luiz Nassif. OFF significa desligado. Ou Octavinho Frias Filho.


Do Blog de Luiz Nassif (http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/)
16/03/2010 - 08:19

Manual de como analisar a diplomacia

Luiz Nassif
Aqui no Blog tem havido discussões acerbas sobre a estratégia diplomática brasileira. Comentaristas antenados com a objetividade rude da diplomacia americana têm trazido críticas importantes – para serem analisadas e discutidas. Na outra ponta, analistas defendendo a estratégia do Itamarati. No pano de fundo, o novo papel do Brasil no mundo, a disputa com os Estados Unidos na influência sobre a América Latina, o novo protagonismo nas grandes discussões comerciais e os limites da realpolitik.
Enfim, tema dos mais relevantes, que exige enorme poder de análise, conhecimento histórico sobre o papel da diplomacia, reflexos sobre a posição do Brasil no mundo nas próximas décadas, tendo em vista o novo protagonismo do país.
Mas na mídia, discutir o tema obedece a um manual simplificador. Há como que templates que são preenchidos por conteúdo capturado aqui e ali, sem a preocupação de alinhavar um pensamento lógico. É uma soma de chavões e adjetivos, de pequenos truques retóricos para passar ao leitor a ilusão de que o autor domina o tema analisado. É o famoso “manual da dona Maria”, de tentativa de aplicação do senso comum nas grandes formulações complexas.
É o caso da análise que Otávio Frias Filho faz da diplomacia brasileira em seu jornal, peça preciosa para analisar o manual “como discutir na mídia sem dominar o assunto” (minhas observações sublinhadas).
Aliás, a prova de que não lê sequer seu próprio jornal está na própria página com seu artigo. Na dobra abaixo, a matéria: “Prestígio universal permite a Brasil ser mediador, diz premiê palestino”, entrevista com o premiê palestino.

Da Folha

Uma política ingênua e errática

Definir algo como ingênuo confere ao polemista uma suposta superioridade intelectual, por tratar toda a formulação a ser combatida como algo intuitivo, primário em relação ao nível profundo de pensamento do crítico. (LN)


Na nossa diplomacia, cheia de distorções seletivas, a questão dos direitos humanos deixa de ter qualquer valor no trato com inimigos de Washington, os quais adulamos
OTAVIO FRIAS FILHO
DIRETOR DE REDAÇÃO
Durante muito tempo, a política externa brasileira foi negligenciada no debate público. Como ocorre em toda nação continental, a agenda interna sempre esmagou a externa, efeito acentuado, em nosso caso, pelo discreto relevo internacional do país. Aos poucos, esse quadro começa a mudar.
Talvez seja nossa inexperiência no palco do mundo, combinada à afoiteza do governo Lula em projetar a todo custo o peso geopolítico que o país já alcançou, o que nos leva a cometer equívocos em cascata e enveredar por um caminho temerário.

O paradoxo do Otavinho: “projetar a todo custo o peso geopolítico que o país já alcançou” pressupõe que esse peso seria alcançado inercialmente, sem que houvesse a necessidade de projetá-lo a todo custo. Ou seja, o país alcançou esse peso por obra da natureza ou pela mão divina, não pela ação diplomática.(LN)


Veja-se, por exemplo, o caso do Irã. Ao que tudo indica, a elite dirigente daquele país (incluída a facção oposicionista) acredita que possuir armas nucleares seja um imperativo de segurança nacional. Não é absurdo que pense assim. Os americanos promovem atualmente duas guerras de invasão nos países que fazem fronteira com o Irã a oeste (Iraque) e a leste (Afeganistão). A menos de mil quilômetros de seus limites territoriais, a distância entre São Paulo e Brasília, o Irã tem cinco vizinhos inamistosos e dotados de capacidade militar nuclear: Paquistão, Índia, China, Rússia e Israel.
Se essa premissa for aceita, nada deterá o Irã (exceto, talvez, um desesperado ataque preventivo de Israel). O mais provável é que Israel e Irã convivam no futuro sob o “equilíbrio do terror nuclear”, o mesmo mecanismo que deteve Estados Unidos e União Soviética no passado e detém os arqui-inimigos Índia e Paquistão hoje. O que o Brasil tem a ganhar ao se imiscuir em problema que não é diretamente seu, numa conjuntura geograficamente remota e comercialmente pouco importante para nós?

Apesar da diplomacia brasileira ser considerada, inclusive em Israel, um dos novos agentes mediadores no mundo, apesar do crescimento constante das exportações para o Oriente Médio, das possibilidades de parcerias tecnológicas com Israel, apesar do Brasil estar sendo considerado potência emergente, OFF considera a região pouco importante para o país. Faz parte do manual da dona Maria: não se meta em assuntos que não lhe digam respeito.(LN)

Os Estados Unidos influem e se intrometem nos conflitos do Oriente Médio não para pavonear seu peso mundial, como parecem supor nosso simplório presidente e seu trêfego chanceler.

Fantástico! Celso Amorim foi um dos atores centrais de todos os grandes eventos diplomáticos dos últimos anos. Como tal, está exposto a críticas – algumas muito bem fundamentadas, colocadas por comentaristas aqui do Blog. Lula virou ator político global. Merecem, no mínimo, crítica de gente grande. E o OFF, do alto da sua proficiência, trata um como “simplório” e outro como “trêfego”. Na próxima, emitirá o julgamento definitivo sobre personagens analisados: “bobo”, “feio” e “sujo.(LN)

Os EUA estão atolados até o pescoço na região porque sua economia é dependente do petróleo local (não é o caso da nossa) e sua comunidade judaica exerce peso desproporcional nas eleições americanas (diferente de novo do Brasil, onde comunidades de origem judaica e árabe têm expressão equilibrada e convivem de fato).
Não existe razão de política externa para que nossa atitude perante a complexa, quase insolúvel, contenda entre israelenses e palestinos seja outra que não uma equidistância comedida, sempre favorável à não violência e à negociação direta entre as partes.

A diplomacia brasileira é recebida de braços abertos em Israel, com exceção de um chanceler desequilibrado, Liberman. É recebida de braços abertos no Irã. Se isso não for “equidistância comedida”, o que seria? A cobertura editorial da Folha, talvez.(LN)

Retomar esse contato direto, aliás, é hoje o ponto crucial naquele conturbado trecho do globo. Nossa “diplomacia do futebol” tem pouco a fazer ali, exceto passar ridículo.

O que significa esse “retomar o contato direto”, tratado como “ponto crucial” daquele conturbado trecho do globo? E o que tem a ver a “diplomacia” do futebol” com isso? Parece ter sido montado no “gerador de lerolero”. Parece a dona Maria mediando brigas de vizinhos: deixem os dois resolverem por si só e ninguém se meta que não é problema nosso. OFF conseguiu ignorar o  conceito histórico  de mediação diplomática.(LN)


Numa entrevista recente, o novo embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, disse algo significativo, o que é inusitado entre diplomatas. Referindo-se às relações entre nossos dois países, constatou que “vamos começar a nos esbarrar por aí”. Shannon aludia ao fato de que o aumento do peso econômico e comercial do Brasil aumenta sua influência externa, irradia seus interesses e o expõe a crescentes áreas de atrito com outros países relevantes, desde logo os próprios Estados Unidos.

No começo do artigo, OFF diz que Oriente Médio está fora do raio de interesses do Brasil. Aqui, cita um diplomata para quem o aumento do peso econômico e comercial torna o país um player global. Para um player global o raio de interesse é o mundo. Nesse tipo de análise copia e cola, não se cuidou de costurar as partes coladas com o mesmo fio lógico. Se o Brasil aspira ser player global, se essa posição é admitida pelo próprio embaixador norte-americano, porque o conflito do Oriente Médio, que é tema diplomático global, não deveria ser tratado pela diplomacia brasileira? Há outras razões para tanto, mas OFF não as menciona por não saber elaborar sobre o tema.(LN)


Em outras palavras, não precisamos buscar sarnas para nos coçar, elas virão natural e infelizmente como decorrência de nossa projeção maior na geopolítica mundial. Logo teremos de enfrentar decisões realmente difíceis.

Também da série “os conselhos de dona Maria”. Uma conclusão que ninguém tinha pensado: para ser ator global basta o país ficar parado aguardando que as decisões difíceis cheguem naturalmente – e “infelizmente” (!). Qual seria o nome dessa nova diplomacia defendida por OFF? Provavelmente, “a diplomacia do protagonismo inercial“.(LN)

É provável, por exemplo, que o Brasil venha a ser um dos cinco entes soberanos a predominar no planeta antes de meados do século, junto com a China, os Estados Unidos, a Índia e a Europa. Continuaremos a ser o único a prescindir de armas nucleares como recurso dissuasivo? O ex-ministro Rubens Ricupero tem uma bela argumentação em defesa dessa originalidade, talvez até como contribuição da cultura brasileira ao futuro dos povos.

Como diria minhas caçulas: e… Aliás a contribuição da cultura brasileira ao futuro dos povos é justamente o que foi denominado de “a diplomacia do futebol”. OFF não se dá conta sequer dessa obviedade. Aliás, “entes soberanos”  parecem mais divindades do Santo Daime.(LN)


Mesmo no âmbito de uma perspectiva pacifista, porém, que é da nossa tradição, abdicar de arma atômica implica como contrapartida a obrigação de dotar o país de recursos militares convencionais muito mais onerosos e destrutivos do que o aparato atual. São questões graves como essa que merecem debate profundo, mais que nossa ingênua, felizmente inócua, aparição no Oriente Médio ou nossa desastrada e igualmente inócua ingerência nos assuntos internos de Honduras.

Um dos argumentos mais simplistas da cartilha de “como discutir sem argumentar” é o das falsas opções. Não pode falar isso porque é mais importante falar aquilo, sendo que “isso” e “aquilo” não são conflitantes entre si. Para o raciocínio dar certo, faz-se de conta ser impossível tratar das duas coisas ao mesmo tempo. Aliás, ao defender a autodeterminação dos países – embora não tenha jamais avalizado experiências nucleares no Irã – a diplomacia brasileira está seguindo a lógica de pensar justamente o Brasil grande e os óbices diplomáticos que serão colocados mais à frente pelas potências atuais – como ocorre em todo processo histórico de emergência de novas potências.(LN)

Toda política externa deve combinar o interesse egoísta do próprio país com um elenco de valores universais (essencialmente, respeito aos direitos humanos e à autodeterminação dos povos). Ela será tanto mais sólida e respeitável quanto mais os dois aspectos se harmonizarem sem grande contradição. O que estamos fazendo é uma política errática, cheia de distorções seletivas, de modo que a questão dos direitos humanos, por exemplo, deixa de ter qualquer valor no trato com inimigos de Washington, os quais adulamos para sermos vistos como “independentes”.

Que tal OFF analisar com a profundidade que lhe é peculiar esse paradoxo: se um país comete delitos contra direitos humanos (primeiro ponto do manuel OFF de diplomacia externa), como interferir em sua política sem desrespeitar a autodeterminação dos povos (segundo ponto do manuel OFF de diplomacia externa)? E que tal analisar os valores de direitos humanos à luz de suas considerações sobre a ditabranda? (LN)


Vamos confrontar os Estados Unidos, sim, e cada vez mais. Mas vamos fazê-lo quando for relevante para o Brasil, não para realizar as fantasias ideológicas da militância que aplaude o presidente Lula e seu chanceler Celso Amorim, o qual errou mais uma vez quando se filiou no ano passado ao PT. Chanceler não deveria ter partido. Parodiando Clemenceau (1841-1929), a diplomacia é assunto sério demais para ser relegado a diplomatas e a ideólogos partidários.

Outro ponto do manual de discussões inúteis: citar sempre um pensador, de preferência com a data de nascimento e morte para passar a impressão de que buscou dados precisos. Mesmo que a paródia turve o sentido da frase original. Clemenceau dizia que a guerra é importante demais para ser conduzida por militares, porque era apenas uma extensão da… política diplomática.(LN)

Da Folha

Prestígio universal permite a Brasil ser mediador, diz premiê palestino

Em entrevista à Folha, Fayad afirma que “Estado palestino está pronto” e que esse fato em breve vai ficar óbvio para o mundo a despeito de paz com Israel
MARCELO NINIO
ENVIADO ESPECIAL A RAMALLAH
O premiê palestino, Salam Fayad, está à frente de uma revolução silenciosa. Nos três anos desde que assumiu o cargo, Fayad, 58, tem sido o motor de uma lenta mas persistente transformação da imagem da Autoridade Nacional Palestina (ANP). De entidade corrupta e ineficiente para embrião institucional de um país. Economista internacionalmente respeitado, com passagens pelo Banco Mundial e FMI (Fundo Monetário Internacional), Fayad nunca portou uma pistola. Suas armas são a eficiência, a responsabilidade e a transparência.
Em entrevista exclusiva à Folha, Fayad, que hoje se reunirá com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Belém, explicou porque ainda crê em seu plano de estabelecer um Estado palestino até 2011.
FOLHA – Diante de tantos percalços, ainda é possível um Estado palestino em 2011?
SALAM FAYAD – Sim, é possível. Estamos construindo nossas instituições e seguindo padrões internacionais de gestão financeira que muitos países não têm. Mas para isso precisamos de um processo político capaz de terminar a ocupação. Esse processo não começou agora, mas nos anos 90. Deveria terminar em maio de 1999. Os temas já foram extensamente negociados. O que é considerado um desfecho aceitável para as negociações é mais que conhecido a esta altura. Mas a comunidade internacional precisa se esforçar muito mais para colocar fim à ocupação israelense.
FOLHA – Falta mais esforço dos Estados Unidos?
FAYAD – Não há dúvida de que para que esse processo seja bem-sucedido, os EUA terão de ter um papel dominante, por todo o longo envolvimento do país na região. Mas isso não significa que bastam os EUA. Nos últimos anos houve uma ampliação da mediação, com o envolvimento do Quarteto (EUA, União Europeia, Rússia e ONU). Foi criada uma sensação de parceria internacional, o que é um avanço. Mas essas não são as únicas potências mundiais que têm interesse em paz no Oriente Médio. O equilíbrio de poder mundial mudou e continua mudando. O Japão, por exemplo, é uma grande potência e não faz parte do Quarteto. China, Índia e Brasil tampouco. Quem discute o peso político e econômico do Brasil no mundo hoje?
FOLHA – Que tipo de papel o Brasil pode ter nesse processo?
FAYAD – O Brasil goza de prestígio universal e afeição imediata. É um atributo único, que pode ser extremamente importante numa negociação. Tenho imenso respeito pelo que o presidente Lula fez em seu país. A ampliação do processo de mediação é necessária para refletir a nova ordem mundial, e o peso do Brasil não pode ser ignorado. É claro que não falo de uma mediação conduzida somente pelo Brasil, porque aí estaríamos voltando às mesmas limitações de um processo só com os EUA. Mas numa negociação multilateral a participação do Brasil seria de grande ajuda.
FOLHA – Digamos que houvesse uma guinada dramática e o acordo de paz com Israel fosse assinado amanhã. O Estado palestino estaria pronto?
FAYAD – O Estado palestino está pronto. E esse fato vai ficar tão óbvio para o mundo que em breve será impossível negá-lo. Nossa ideia é criar uma massa crítica de mudanças positivas que tornará fácil convencer a comunidade de nações que os palestinos têm, de fato, algo que parece um Estado em funcionamento. Se a ocupação não terminar até lá, nossa convicção é que haverá tanta pressão para que o processo político produza esse resultado que ele acontecerá. Nossa independência será um dia que toda a humanidade celebrará, e a comunidade de nações estará com os palestinos.
FOLHA – Alegações de corrupção sempre marcaram a administração palestina. É um obstáculo?
FAYAD – Pela primeira vez os doadores começaram a transferir dinheiro diretamente para nós, o que indica a confiança que eles têm em nosso sistema. Não é segredo que rumores de corrupção e desvios acompanham a Autoridade Nacional Palestina. A realidade é que houve uma significativa evolução na forma de administração da ANP e na construção de instituições. O Ministério das Finanças funciona muito bem, seguindo os mais altos padrões internacionais. O fato de sermos capazes de publicar com absoluta regularidade todo dia 15 do mês um relatório financeiro sobre o mês anterior mostra não só nossa abertura, mas também a capacidade administrativa de tornar possível essa transparência. O problema é que a percepção de corrupção pode ser tão ruim como a própria corrupção. Estamos tentando mudar isso sendo agressivamente abertos.
FOLHA – O sr. acredita no premiê israelense quando ele diz apoiar o estabelecimento do Estado palestino?
FAYAD – A questão é de que país ele está falando. Se for país formado por restos, em que Israel mantém o controle, não aceitaremos. Queremos um Estado que emerja em todos os territórios ocupados por Israel em 1967. E sim, com Jerusalém Oriental como capital.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Ciro Gomes solta o verbo em entrevista à Folha de São Paulo


PT paulista é um desastre, e é isso que favorece a eficiência medíocre do PSDB, diz Ciro


MALU DELGADO
enviada especial da Folha ao Rio, 15/03/2010

O deputado federal e ex-ministro Ciro Gomes (PSB), 52, é popular no Rio de Janeiro. Num táxi, discute com o motorista a filiação de Romário ao PSB e escuta, atento, a recomendação de lançar Zico, "que nem precisaria de campanha". Com a verve nordestina típica e uma a truculência à mídia arrefecida --ou dominada depois de disputar duas campanhas à Presidência--, um Ciro Gomes "mais sereno", como ele se auto-classifica, falou à Folha sobre a sucessão presidencial e em São Paulo.
A tal serenidade não impede Ciro de ser ácido. Ele admite que sua candidatura ao governo de São Paulo seria artificial. Defende que o PT e o PSB lancem no Estado dois candidatos ao governo. Só mesmo "se o mundo se acabar" e não tiver outro jeito, ele encararia a sucessão paulista. O PSDB paulista, afirma, amarga uma eficiência medíocre e o PT, dispara, "é um desastre" no Estado, por conta da crise de credibilidade após o escândalo do mensalão e do caso dossiê em 2006 --quando petistas negociaram a compra de um dossiê contra políticos do PSDB em meio à sucessão.
Com 12% das intenções de voto na última pesquisa Datafolha, Ciro se mantém candidato a Presidência e diz que age "em sintonia com Lula e com a direção do PSB". Afirma que só ele teria condições, se eleito, de propor um diálogo entre o PSDB e o PT, a saída política para o país. E faz uma certa profecia: a pré-candidata do PT, Dilma Rousseff, cometerá algum erro na campanha, pois é a mais vulnerável e inexperiente entre os candidatos.

Ao final da entrevista, com o gravador já desligado e cercado por correligionários do PSB num hotel no Rio, Ciro confessa que se não for candidato à Presidência e nem disputar o governo de São Paulo, deixará a política.

Abaixo, os principais trechos da conversa:

Folha - O sr. afirmou na semana passada que São Paulo não precisa do sr. São Paulo precisa de quem?
Ciro Gomes - Fulanizar a política é algo ridículo no Brasil. São Paulo precisa de um projeto porque a eficiência medíocre do PSDB deu o que tinha que dar. Os indicadores de violência estão crescendo, o transporte está colapsando, a educação de São Paulo é uma das piores do país. Agora, como o PT é um desastre, lá em São Paulo especialmente, eles têm essa eficiência medíocre posta em relevo.
Folha - Por que o sr. considera o PT um desastre em São Paulo?
Ciro Gomes - Por tudo o que aconteceu. Eu lamento, mas há uma lista toda, a nominata quase inteira com problema. Estou falando do desastre de confiabilidade, de confiança da população a ponto de o próprio PT, na minha opinião corretamente, pretender lançar um candidato jovem lá, para fazer nome. Os principais quadros do partido [o PT], por essa ou aquela outra, justa ou injustamente, entraram num problema. Não é brincadeira não, rapaz. José Dirceu, Genoino, Mercadante, Marta, João Paulo... Não é brinquedo não. Praticamente isso é a lista inteira.
"Minha intenção é ser
candidato à Presidência" 

Folha - O PT pretendia lançar o sr. no Estado.
Ciro Gomes - Eu fico muito honrado, distinguido com isso, mas veja bem: não é tão artificial essa solução não?
Folha - Então se o sr. for candidato ao governo de São Paulo será uma solução artificial?
Ciro Gomes - A minha candidatura naturalmente é artificial. Agora, o que eu posso fazer, eu poderia fazer --e tinha que ser sincero e franco com a população de São Paulo --era dizer: eu não faço rotina aqui, mas acumulei uma experiência de grande sucesso na administração pública, e essa experiência eu me disponho a colocar a serviço de São Paulo. Não é minha pretensão. Todo mundo sabe e eu repito que minha intenção é ser candidato à Presidência.
Folha - Mencionando um ditado dito pelo sr., "quem quer pegar galinha não diz xô!".
Ciro Gomes - Eu não estou dizendo xô para ninguém. Eu apenas quero ser sincero, porque não posso parecer indeciso --e eu não estou. Nem posso atrapalhar a responsabilidade dos meus companheiros do PT, do PSB, que têm uma candidatura que pretende ser apresentada lá, que é do Paulo Skaf. É tão remota e exótica essa possibilidade que ninguém tem que esperar por mim. Amanhã, se no limite o meu papel for essencial, se não for eu não dá certo, o mundo se acaba, o projeto brasileiro corre risco, e tal, nesta circustância é evidente que eu iria. Mas não creio.
Folha - O sr. trabalha por alianças do Paulo Skaf com o PT, por exemplo? O sr. vê possibilidade de uma chapa Aloizio Mercadante e Skaf?
Ciro Gomes - Eu não veto, não atrapalho, não opino contra, mas acho que a melhor opção é o PT ter o seu candidato e nós o nosso.
Folha - Circulam avaliações no meio político e uma delas é que o sr. está numa orquestração com o presidente Lula, agindo conforme interesses do Planalto para impedir que José Serra cresça. Seus movimentos são feitos em consonância com o presidente?
Ciro Gomes - Todos os movimentos que eu faço são em absoluta consonância com a direção do meu partido, o PSB, e com o presidente Lula.
Folha - Interessa ao presidente que o sr. se coloque neste momento candidato à Presidência?
Ciro Gomes - Se interessa a ele ou não eu não sei, mas até o presente momento tudo o que eu fiz está em absoluta sintonia com ele e com a direção do meu partido.
Folha - O sr. diz que é o único a ter liberdade para fazer críticas ao governo do presidente Lula, sejam políticas ou econômicas. Esse debate sobre o papel do Estado, com viés anti-privatização, é equivocado?
Ciro Gomes - Não, a questão não é que esteja equivocado. Embora o Serra tenha sido capaz de quebrar patentes no Ministério da Saúde na questão do coquetel anti-aids (...), ele chega em São Paulo privatiza a conta da prefeitura, hospeda num banco privado. E em seguida bota a Nossa Caixa para vender, um dos últimos ativos que São Paulo tem. Em relação à Dilma eu tenho a vivência que ela não tem.
"A economia moderna é mista: Estado e empresa"

Folha - Mas qual é a sua posição sobre privatização e o papel do Estado?
Ciro Gomes - Isso tudo é baboseira ideológica. No mundo inteiro a experiência empírica demonstra, inclusive com a crise recente nos EUA, que o Estado não é máximo, nem mínimo, nem grande, nem pequeno. É o necessário. É o seguinte: a lei do menor esforço. Quem faz melhor, mais rápido e mais barato é quem vai fazer. É o Estado fazendo o que for necessário fazer. Às vezes é Estado regulador, às vezes tem que ser empresário. Não quer dizer que temos que cair no estatismo, na ineficiência, abrir mão de mecanismos modernos de privatização, parcerias público-privada, concessões. Não. A economia moderna é mista, mas a responsabilidade pela dinâmica estratégica de um país é do Estado.
Folha - O sr. sempre menciona eventuais problemas de governabilidade do futuro presidente, seja ele quem for, dado que ninguém terá o capital político e altíssima popularidade de Lula, que de certa forma faz com que ele transite bem no Congresso.
Ciro Gomes - Mais que transitar. Ele suporta, sem perder legitimidade. O que é um fenômeno absolutamente raro. Só ele. Não conheço nenhum outro. Nem Juscelino [Kubitischek]. Se a coalizão for essa, com o protagonismo desta banda do PMDB que manda no país sem dúvida [haverá crise de governabilidade]. O DEM é muito melhor que o PMDB neste instante. Uma questão é um escândalo, no qual todos nós estamos vulneráveis a ter um companheiro que vai entrar numa dessa. Todos nós. Isso é da política. O problema é que no PMDB, não o coletivo, mas a banda hegemônica, faz desta linguagem o seu instrumento central de luta.
Folha - E como se governa o Brasil com a atual condição de representatividade e o atual sistema político?
Ciro Gomes - É uma ilusão de ótica que a prostração moral do PT está passando para o país. O problema da situação política da Dilma é que ela fica com a boca travada. Ela não pode falar isso para ninguém. Como o Serra também não pode. Eu posso. Eu posso fazer avançar a bancada do PSB, do PC do B, do PDT, pensando em flancos ideológicos. E posso fortalecer entendimentos com o lado decente e republicano do PMDB e o lado que tem espírito público do PSDB, que é imenso (...) Não tenho problema nenhum em fazer alianças. Imagino governar o Brasil assim: eu encerraria a violenta, paroquial e provinciana radicalização que opõe PSDB e PT. Convocarei um entendimento nacional entre os dois partidos, PT e PSDB, e convocaria todos os outros partidos para influir, me poria como magistrado. Essa é a saída para o país avançar e diminuir a importância de setores clientelistas, fisiológicos, atrasados, corruptos (...) Os brucutus reacionários eles dizem: se for o Serra ou a Dilma tá tudo bem. O que o mercado não quer é o Ciro. O que Wall Street não quer é o Ciro.
Folha - Fazendo uma revisão história de 2002, o mercado ainda teme sua candidatura?
Ciro Gomes - Teme, mas é injusto. Eu não sou uma invenção. Eu já fui ministro da Fazenda. Eu fui muito bom para a economia brasileira pelos resultados. O país cresceu 5,3%, tivemos superávit primário de 5% do PIB, inflação zero. Agora, tive algumas questões. Fiz a intervenção do Banespa e do Banerj. Fiz a abertura comercial que dissolveu vários cartéis. Tudo bem, a vida é dura. Eu não vou vender a minha alma para ser presidente do Brasil.
"Precisamos resolver essa equação do dinheiro com a política"

Folha - O preço que o sr. paga pode ser inclusive ter dificuldades de financiamento da sua campanha, um fantasma que circunda todas as campanhas. Como o sr. financiará a sua?
Ciro Gomes - Nós precisamos resolver essa equação do dinheiro com a política. Na democracia representativa, dinheiro é uma essencialidade. E a nossa moral vigente, a ética católica dominante, meio que abomina isso. E aí como a realidade se impõe, você vai na clandestinidade, e mistura ladrão e safado com empresários que não aceitam doar para a sua campanha, mas aceitam doar anonimamente para o partido. Eu advogo o financiamento público de campanha. Advogo mais: a estatização das campanhas, que é uma ideia que jamais vai passar. O TSE conseguiria padronizar as campanhas, equalizaria as linguagens. Vou fazer uma caricatura, porque é mais complexo, mas teria um estúdio e tudo mundo só gravaria lá.
Folha - E como o sr. viabilizará sua campanha?
Ciro Gomes - Vou lá pedir dinheiro. É o momento mais desagradável de todos. Nas minhas campanhas eu sempre me protegi. Eu não tenho uma só pessoa. Eu normalmente faço a lista dos contribuintes prováveis e possíveis, e monto uma equipe. E nunca vai um só, normalmente vão dois, fazer em meu nome. Quem financiou 100% minha campanha de deputado federal foi a indústria siderúrgica brasileira.
Folha - Há forte especulação no meio político em São Paulo em torno da filiação do Paulo Skaf no PSB, de que ele teria entrado no partido para financiar campanhas.
Ciro Gomes - Isso é uma completa ilusão. Nenhum indivíduo, nenhum, nem o Eike Batista aguenta financiar campanha individualmente. O Skaf está muito longe de ser um Eike Batista. Ele é um pequeno empresário, a rigor.
"O pecador a gente perdoa, mas o pecado do pregador é imperdoável" 

Folha - O PT teria que tomar um cuidado especial com essa questão do financiamento nesta campanha, pelos escândalos recentes?
Ciro Gomes - Tem. Todos nós temos, mas o PT mais que ninguém. Um vetor essencial da história do PT é o moralismo. Aí o pecado do pecador a gente perdoa, mas o pecado do pregador é imperdoável.
Folha - Neste contexto não é um equívoco político escolher um tesoureiro, o João Vaccari Netto, que esteja supostamente ligado ao caso Bancoop, ainda que não tenha nenhuma prova ou sentença?
Ciro Gomes - Eu não estou suficientemente informado do assunto e acho odiento que alguém pague por uma culpa não demonstrada.
"O Serra erra menos porque é protegido pela grande mídia" 
Folha - O sr. já sofreu uma oscilação fortíssima nas pesquisas em 2002. Todos os políticos não estão sujeitos a isso?
Ciro Gomes - Sim, isso eu acho. Acho que a Dilma cometerá um erro, porque nenhum de nós escapou. O Lula cometeu, eu cometi, o Serra, o Alckmin cometeu. Ela cometerá. Tomara que não. E vai oscilar. Ela é um pouco mais vulnerável, claro. Porque na medida em que você erra, você aprende. O Lula aprendeu para caramba, não é verdade? Eu aprendi muito. O Serra erra menos porque é protegido pela grande mídia.
Folha - A sua liberdade para criticar o presidente Lula não pode lhe trazer problemas? Ou traz votos?
Ciro Gomes - Criticar o Lula tira voto. E eu não critico o Lula, mas não é porque tira votos. Todo mundo sabe que eu tenho imensa afinidade com ele. Agora, eu tenho mais amor, mais paixão, mais compromisso com o Brasil.
Folha - O sr. foi irônico ao chamá-lo de santo, por exemplo.
Ciro Gomes - Eu não fiz isso. Eu disse que para mim ele não é um santo. Ele é um grande líder político, extraordinário. Sou amigo dele desde 1989. E no governo tivemos uma relação extraordinária. É uma pessoa pela qual tenho imenso carinho, admiração, respeito. E daí?
Folha - Se criticá-lo tira votos, então podemos esperar uma campanha em que todos vão poupar Lula?
Ciro Gomes - O Serra que é o capitão da oposição, especialista em câmbio, adora bajular exportador, não fala nada. As contas externas do Brasil se acabando e quem fala sou eu. O Banco Central guiado pela estupidez do tal PIB potencial e quem fala é o Delfim Neto. Então agora estão nesta disputa ridícula de inauguração, se pode inaugurar maquete, anunciar edital. Pelo amor de deus! Ou eu estou ficando muito cego, ou está na hora de sair da política.
Folha - O país está imerso numa cegueira afetado pela alta popularidade de Lula?
Ciro Gomes - Está numa brutal cegueira, mas não pela popularidade, que é um legítimo prêmio a um governante que tem feito muito bem ao país. O problema é da vulgaridade dos políticos e dos seus dispositivos de mídia.
"Quando foi que a direita brasileira teve qualquer apego aos direitos humanos?"

Folha - A política externa do Brasil está no rumo correto? Pergunto-lhe em função das últimas polêmicas sobre o relacionamento do governo brasileiro com Cuba e Irã.
Ciro Gomes - Estrategicamente o governo brasileiro está muito correto. Somos contra a intervenção em assuntos domésticos, seja de quem for, somos pela solução pacífica dos conflitos, e advogamos uma ordem mundial multipolar. Tudo o que o Lula faz guarda coerência com esses princípios. Nós consideramos que o embargo norte-americano a Cuba --e não é o governo Lula, eu estou falando --é a causa de todos os abusos que hoje ainda temos que assistir em Cuba. O embargo, essa coisa anacrônica, prepotente, e injusta dos americanos, que inacreditavelmente continua com o governo Obama, justifica a atitude defensiva de Cuba. O país está acossado por um inimigo externo iminente, a maior potência do planeta. Eu acho odiento o crime político. Mas, o embargo dá ao governo de Cuba a faculdade de dizer que aquilo não é crime de opinião, mas sabotagem, espionagem, serviço ao inimigo externo. Essa é a questão que tem que ser posta em perspectiva. De qualquer forma, não é o Brasil que vai resolver isso. O Brasil deu asilo ao [Alfredo] Stroessner, no que acho que fez muito bem. Isso tira da moral dessa gente, da direita truculenta, esse papo. Quando foi que a direita brasileira teve qualquer apego aos direitos humanos? Que dia? Em que circunstância internacional ou internacional? Esse papo furado é só para quem não tem memória. E o Irã: deixa os americanos fazerem uma aventura militar no Irã para você ver o que vai acontecer com o planeta. O Irã não é o Iraque. O Brasil não é a favor que o Irã desenvolva artefato nuclear. O Brasil tem uma posição contra armamento nuclear no mundo. Ele não é ingênuo. Queremos que o mundo se desarme.

Conheça a metodologia do PIG (Partido da Imprensa Golpista)


Copiado do Blog do Professor Ariovaldo de Almeida Prado (http://hariprado.ning.com/)

PIG - Partido da Imprensa Golpista: teminologia criada pelo jornalista Paulo Henrique Amorim para identificar jornais, revistas e TVs de baixa qualidade, irmanados no projeto de dar um golpe de Estado para derrubar o presidente Lula e entregar o poder ao PSDB/DEMO, nas pessoas dos governadores José Serra (tucano de SP) e Arruda (Demo de Brasília, atualmente preso).