Essa entrevista com o jornalista Janio de Freitas foi feita pelo portal
Favela
247 e divulgada em 20 de Maio de 2014
. A edição é de Artur Voltolini.
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| Janio de Freitas |
Janio de Freitas, de 82 anos, um dos mais importantes jornalistas políticos
vivos do Brasil, recebeu o
Favela 247 na varanda de sua casa.
Morador do Vidigal há 29 anos, é de seu escritório repleto de livros,
revistas e jornais amarelados – e com uma incrível vista para o mar e para a
favela –, que Janio trava suas batalhas com Joaquim Barbosa e outras
figuras importantes da política nacional
em
sua coluna para o jornal Folha de São Paulo, que mantém há 31 anos
e de onde sai as análises mais coerentes e éticas do jornalismo contemporâneo.
Na entrevista Janio discorre sobre o tráfico de drogas: "Essa coisa de
pobre contra pobre é uma coisa horrorosa. Pobre armado contra pobre é algo
insuportável"; e sobre as UPPs: "A UPP sofre por causa da origem da
formação profissional do policial, que continua sendo difícil, viciada. A UPP
sofre os efeitos da sociedade que ela faz parte."
Janio diz achar ser uma "fantasia" a ideia de resolver a violência
policial com a desmilitarização da polícia, e se diz cético em relação à
regulamentação da venda de drogas: "O traficante de repente vai dizer:
'Olha, aqui eu paro porque o Mujica resolveu agora que o Estado é o dono da
maconha?'".
O jornalista ainda reconhece os avanços sociais do governo Lula, critica o
neoliberalismo do FHC e faz uma análise sobre os candidatos das eleições para
governador do Rio de Janeiro.
Uma das vozes mais lúcidas do jornalismo brasileiro, Janio critica a nova
geração: "Hoje em dia há esse fenômeno formidável no jornalismo: o
jornalista que não lê jornal", e dá dicas aos jovens jornalistas de
favelas: "Vá em
frente. Descubra o seu mundo e descubra o seu jornalismo.
Leia criticamente jornais. E ler livros é fundamental. Ter noção de história é
muito enriquecedor. Ler autores críticos é muito importante. Leia, leia, leia e
leia. O que pintar na frente, leia".
Após uma hora cravada de entrevista, Janio se despediu, precisava almoçar
para assistir a mais uma sessão do STF.
Como era o Vidigal há 29 anos?
Quando eu me mudei para cá, minha rua não tinha nem calçamento nem
iluminação. Essas casas aí não existiam [apontando para o alto do morro], aqui
ao lado havia um começo de obra. Quem arranjou o primeiro calçamento que houve
aqui foi minha mulher. Mas a iluminação pública só veio depois, também em parte
pelo esforço dela, e ainda muito precária.
Como o senhor conheceu o Vidigal?
Eu já conhecia o Vidigal quando vim pra cá. Nos prédios pequenos moraram a
Gal, o Caetano eu acho que morou – ou Caetano ou o Gil –, o Lima Duarte. No
prédio grande morava minha filha. Ela chegou um pouco depois de mim. Comigo
veio meu filho, morou aqui e depois foi para o exterior estudar por sete anos.
Quando voltou, morou um tempo nos predinhos, depois foi para uma casa aqui em
frente onde morou até recentemente.
O senhor frequenta o Vidigal?
Não, não vivo o Vidigal. Primeiro porque quando eu vim para cá, e durante
muitos anos e até há pouco tempo atrás, eu trabalhava muito. Fazia uma coluna
diária, uma coluna de informação de ponta, com uma relação muito complexa com
as fontes. Ela me tomava um tempo gigantesco. Começava muito cedo, trabalhava
em casa até mais ou menos duas horas da tarde, depois saía para a redação do
jornal e aí não tinha hora para voltar. Tanto podia vir para casa quanto ir me
encontrar com alguém para apurar alguma coisa.
O senhor percebeu um aumento no poder de compra dos moradores do
Vidigal nos últimos 10 anos?
Percebi pela quantidade de casas construídas. Em parte é bom, e em parte
lamentável porque criou-se a indústria da laje, que é uma forma covarde de
pobre explorar o pobre. Numa ocasião eu estava comprando material de construção
quando chegou um sujeito muito bem-vestido, com um tremendo de um anel de ouro,
desses que chamam a atenção. Era nordestino. Fez suas compras, encomendou umas
coisas. Quando ele saiu, o vendedor me disse: “Sabe do que ele vive? Ele compra
laje aqui, sobre ela levanta mais um andar, manda vir gente do nordeste e os
instala nessa laje. Imediatamente ele coloca a laje à venda, e os que estão ali
podem morar até que ela seja vendida. Enquanto isso ele está fazendo
outras lajes, uns quatro ou cinco segundo andares. Ele vive de explorar laje.
Resultou nisso aí [apontando para o alto do Vidigal]. Uma coisa inacreditável.
Se você vir umas fotos que eu fiz na década de 1980 desse morro, você não
acredita que seja o mesmo. Inclusive as árvores, era um beleza, árvores
imensas, lindas, foi tudo abaixo.
Quando o senhor se mudou para o Vidigal, o tráfico já estava
organizado?
Não sei dizer a você o quanto era organizado ou não. Mas não era ostensivo.
O clima de tranquilidade existia. A pessoa que veio trabalhar comigo aqui em
casa era do Vidigal, conhecia todo mundo. Lourdes me falava muito de um tal de
seu Santinho, que ela dizia que era quem mantinha a ordem. Muito antes de o
Comando Vermelho entrar.
O senhor percebeu a entrada das facções no Vidigal?
Eu não tenho muita noção de como as coisas se passaram. Mas isso de ver
homens armados demorou a acontecer. Quando eu vim pra cá não existia. A
primeira vez em que fui parado numa barricada por traficantes foi muito
desagradável, muito chocante.
Qual é a sua visão sobre as UPPs?
Eu acho que a ideia em si é muito boa, necessária. Mas não pode ser só UPP,
só polícia. Com a UPP têm que vir os demais serviços de administração pública.
Isso é absolutamente fundamental. A militarização é uma etapa. Quando o nível
de exigência dos próprios moradores aumentar, eu acho vai haver um
aumento na quantidade se serviços disponíveis. Tem de aumentar.
Como morador do Vidigal, o que o senhor vê de impactos pós-UPP?
Eu não tenho percebido nada ostensivo e intimidador como havia antes. Não
tenho notícias de que tenha o tipo de intimidação que a Lourdes, que trabalhou
muitos anos aqui comigo, passou. De vez em quando ela chegava aqui muito
triste, aborrecida, por que na véspera um grupo havia subido na laje dela e
passou a noite fumando maconha, fazendo barulho, e Lourdes não conseguia
dormir. Depois eles foram se tornando mais audaciosos ainda, entravam na casa
de Lourdes e retiravam comida da geladeira. E mais tarde, a fizeram cozinhar
para eles. E não era só com ela. Eu acho que isso, por exemplo, se não acabou, diminui.
Não só aqui, acredito que várias outras UPPs tiveram um resultado semelhante
quanto à melhoria da convivência, de certa forma ainda problemática, contudo
menos tensa do que era antes. Afinal, essa coisa de pobre contra pobre é uma
coisa horrorosa. Pobre armado contra pobre é algo insuportável.
Os policiais também são pobres.
Policial é pobre, tem a mesma origem social, econômica, ou pelo menos muito
próxima. É uma coisa muito violenta, covarde, revoltante. Por essa razão é que
a iniciativa da UPP é boa, mas há muito o que fazer para que ela produza bons
resultados. Pode não ser o esperado, mas pelo menos melhor.
A UPP sofre por causa da origem da formação profissional do policial, que
continua sendo difícil, viciada. A UPP sofre os efeitos da sociedade de que ela
faz parte. Esse caso do Amarildo... Nós sabemos que há, desde o começo da UPP,
um esforço gigantesco para selecionar policiais não viciados pela ação nas
ruas. E no entanto, veja o caso do Amarildo, tem até major envolvido, tem
capitão, tenente, sargento. É a própria sociedade representada.
O senhor é a favor da desmilitarização da polícia?
Eu acho que é uma fantasia imaginar que isso vai terminar com o fim da
Polícia Militar. Não é por aí. Pura e simplesmente a nova polícia – tenha o
nome que tiver, com as armas que já estão aí, com os chefes, capitães,
comandantes, com estes delegados – vai continuar praticando a mesma violência.
Como se rompe com essa violência policial?
Rompe-se com o rigor penal sobre os praticantes de deslizes policiais. Falta
perícia? A solução é fazer a perícia. Tá faltando punir? Tem de punir. Não
adianta apenas substituir a farda por uma camisa esporte, vai continuar a mesma
coisa. O que aconteceu é que a educação não acompanhou o aumento da população.
Então temos toda uma deterioração educacional na população de uma geração que
cresceu muito mais que o processo educativo e civilizatório. Daí vem toda essa
polícia comprometida, ela própria, com o crime.
O ex-governador Sergio Cabral se reelegeu em cima do sucesso das UPPs,
e colocou a segurança pública no centro do debate eleitoral. Há uma politização
da segurança pública?
Não foi o Cabral quem trouxe essa discussão. Foi o Moreira Franco, do PMDB.
Ele se elegeu em 1986 com o seguinte tema de campanha: “Em seis meses eu acabo
com a violência no Rio de Janeiro”. Ele foi eleito com base nessa campanha. Até
a
Globo, os jornais
O Globo e
Jornal do Brasil
apoiaram intensamente sua candidatura que iria acabar com a violência, que
estava começando no Rio. E o Brizola tinha feito algo que irritou profundamente
os jornais e TVs. A polícia, antes do governo dele, entrava nas favelas matando
gente, cometendo violências. E por se opor a isso Brizola foi acusado de ter
provocado o aumento da violência. O Moreira fez a campanha em cima disso pra
derrotar o Darcy Ribeiro, candidato do Brizola. Derrotou, e trouxe um advogado
chamado Marcos Heuzi, que seria o homem do milagre da segurança pública. Em
seis meses ele iria acabar com tudo. Mas a violência cresceu brutalmente, e o
Moreira teve que despachar o Marcos Heuzi. E aí foi a degringolada total, ele
entregou a segurança pública ao Hélio Saboya, que era um advogado criminalista.
Saboya não conseguiu resolveu coisíssima nenhuma.
Qual era o plano dele?
Nenhum. O plano dele era ganhar a eleição e fazer negócio. E ele se dedicou
muito a fazer negócios, e ganhou muito dinheiro. Eu mesmo denunciei resultados
prévios de várias obras dele. Só do Metrô eu anulei cinco ou seis
concorrências, além do complexo Tabajaras. Enquanto ele ganhava dinheiro, e a
violência ficou comendo solta. E claro que a partir daí ela tomou um embalo que
dificilmente alguém seguraria.
O Renato Meirelles, do Data Popular, diz que as eleições desse ano
serão definidas pela classes C, D e E. As favelas irão definir as eleições no
Rio de Janeiro?
Eu acredito que os analistas que moram na cidade do Rio de Janeiro só olham
pro Rio, como os paulistanos só olham pra São Paulo. A eleição é no estado, e a
gente não sabe como é que estão as coisas no interior. O PMDB, por exemplo, que
é um partido forte no Rio, tem agora uma divisão, algo que não houve na eleição
anterior. Tem a corrente Picciani, a ex-corrente Cabral da qual sabemos ainda
muito pouco, se ela ainda existe, se deixou de ser, e ainda se ela irá se
transformar na corrente Pezão. Até agora não vi nenhum dado que indique a sua
dimensão. O Garotinho tem muito eleitor no interior, o quanto essa corrente
Garotinho vai influir nessa eleição, eu não sei. O Crivella é muito vivo, não é
bobo não, e está trabalhando muito, e com muito dinheiro inclusive. As igrejas
evangélicas vão influir mais ainda agora do que nas eleições anteriores. O
quanto, e de que maneira, até agora eu não sei. Mas quem quiser analisar a
eleição no estado tem que parar de olhar apenas para a cidade do Rio de
Janeiro. As favelas vão decidir? Que favela? E o interior ninguém leva em
conta?
O que o senhor acha da candidatura do Lindbergh?
O PT fluminense pode ter com o Lindbergh uma oportunidade de aparecer nessa
eleição disputando o governo estadual, caso haja um empenho do Lula,
particularmente do Lula e, subsidiariamente, da Dilma.
A Dilma prefere o Pezão?
Eu não sei. Com franqueza eu acho que ela não pode falar e não pode agir
contra o Pezão, porque ela é candidata. Vai chutar o PMDB para a lua e ficar
com o risco do PT que, no Rio, tem sido um sucessivo insucesso?
O que houve com o PT carioca?
Ele se desmontou todo. Teve a oportunidade com a Benedita e chutou pro alto,
fez milhões de besteiras. O partido dividiu-se todo, desarticulou-se e focou em
pequenas disputas: a corrente Vladimir contra a corrente Gabeira, e foi se
desestruturando e caindo aos pedaços. Nunca chegou a se estruturar propriamente
no Rio de Janeiro.
O senhor acredita nessa definição de nova classe média?
Eu não acredito nos índices que determinam essa divisão entre classes:
classe C1, C3, média-média. Isso é absolutamente fajuto. Coisa de economista, e
economista está em outra, não está pensando na sociedade. Nessas denominações
eu não acredito, não adoto e não pratico. Mas é evidente que houve um ganho de
salário, um ganho de oportunidade de emprego, um ganho de pequenas iniciativas,
e isso resultou numa melhoria econômica de uma grande parte da população. E não
só do Rio, mas da população brasileira. No Nordeste, por exemplo, há
modificações sensíveis.
Quando essas mudanças se deram?
Foi durante o governo Lula. O governo Fernando Henrique foi um arrocho
desgraçado. Arrocho salarial pesado, sem obra social, apenas propaganda. A
política econômica foi inspirada por americanos, pelo Consenso de Washington e
pelo neoliberalismo. Nas sociedades latino-americanas onde o neoliberalismo
penetrou, ele penetrou cruelmente, de maneira perversa. E o FHC e o Malan são
ainda representantes políticos do neoliberalismo.
Já que estamos falando em governo FHC, me lembrei da privatização das
telecomunicações. O que o senhor achou da ocupação e reintegração do prédio da
antiga Telerj?
Eu acho muito triste despertar esperanças em pessoas pouco ou nada
informadas, incentivando-as a ocupar uma área que você já sabe que vai ser
desocupada, e na raça. Porque quando a Justiça diz “desocupa”, a polícia vai
para desocupar mesmo. Alguns grupos ficam explorando essa ingenuidade alheia ao
invés de definir um programa de trabalho, de ação permanente, de propaganda e
de luta política. Falta trabalho de base, eles ficam fazendo esses espetáculos
em que se satisfazem muito. A Sininho, por exemplo, vai lá e agita. Mas quem
apanha não é ela. Se apanhasse, saberia o que os outros sofrem por conta da
agitação que ela faz. Depois ela vai pro apartamento dela, toda elegante quando
não está agitando, mantida pelos papais. Aí bota os outros na frente, levando
porrada da polícia, para uma coisa que não tem futuro. Qual era o futuro
daquela ocupação? Os caras chagam lá e dizem: “Vai ser aqui, vai ser ali”. Você
acha que a Justiça ia permitir? Que a polícia ia deixar de ir lá? Para
conseguir aluguel social ou inscrição no Minha Casa Minha Vida não precisa
disso. É só ir um grupo para a frente da prefeitura e fazer uma fila. No terceiro
dia, eles descem e inscrevem todo mundo.
O senhor é contra a ocupação de prédios desocupados por movimentos
sem-teto?
Olhe para experiência do Stédile. Ele deve ser ouvido a respeito de tudo
isso, um dos caras que mais devem ser ouvidos no Brasil, e que menos o é. O
Stédile parou de fazer invasão de fazenda à toa e mudou o discurso: “Olha,
vamos partir pra outra, a briga tem que ser outra. Não é por esse caminho”. E
ele está certo porque, as invasões fazem surgir novos Zé Rainhas - que é a
Sininho com calça de homem. O que aconteceu no pontal do Paranapanema, que era
área comandada pelo Rainha? Nada. Houve gente que sofreu pra burro ali, perdeu
o lugar onde morava, o trabalho que tinha, pra ir ocupar a fazenda de não sei
quem, e que a Justiça devolveu. A polícia de São Paulo, que é muito mais
violenta que a do Rio, foi lá e baixou o cacete pra valer. Morreu gente,
aconteceu o diabo. Morreu até criança nas invasões que o Rainha inventava no
Pontal do Paranapanema. Até que ele mesmo se picou e foi pro Espírito Santo, e
largou o pessoal lá no pepino. E não deu em nada, ninguém ali ganhou nada.
Agora veja, o trabalho do Stédile é absolutamente sensacional. Não é à toa que
não fazem propaganda do trabalho dele.
Dizem que a ocupação do prédio da Oi/Telemar não foi organizada pelo
movimento sem-teto, e muito menos pela Sininho.
Eu não disse que foi organizada por ela. Eu não sei quem foi, não estive lá.
Mas de qualquer modo, naquelas coisas lá mais pra trás, como no ato na Central,
ela estava envolvida, e acabou muito mal. Um besteirol total. Invadir a Central
do Brasil é ir contra o operário que saiu do trabalho e quer ir para casa.
Organizaram um “catracasso” para a população não pagar a tarifa.
Sim, e com que resultado? Deu no quê? Quando você age politicamente,
tem que olhar antes de tudo o resultado que você quer, definir perfeitamente o
resultado que se pretende atingir, e ver se esse resultado justifica a ação que
você vai fazer. Isso que é ação política e isso que é ação social. Ação física
social. Agora, se você não parte dessa premissa, vai dar em besteira. Ou pelo
menos a margem que dê em besteira é enorme.
Nesse ato específico morreram duas pessoas.
Morreu o cinegrafista, um senhor foi atropelado, e houve gente que apanhou
pra burro na Central do Brasil. Um monte de mulher grávida inalando gás
lacrimogênio dentro da Central sem poder sair, porque não deixavam sair, e sem
pular catraca, porque grávida não vai pular catraca. Idosa vai pular catraca?
Essa coisa é muito primária, e é esse primarismo que me incomoda. Me dá uma
imensa tristeza ver que a gente não evoluiu em termos de luta política e social
no Brasil.
A esquerda brasileira esqueceu suas tecnologias políticas?
Já se sabia pouco, e aí perdeu-se aquele pouco que se sabia. Eu acho, num
certo sentido, natural. Não houve uma transmissão de conhecimento. A ditadura
interrompeu tudo. Foi uma coisa devastadora, muito maior do que esses artigos,
documentários e os poucos livros sobre a ditadura têm dito. Foi algo
gigantesco. Acabou com a Universidade, com o Instituto Oswaldo Cruz... Nesse
período de 20 anos, a pesquisa científica foi pro brejo, atrasou 50. Um horror.
E com a imprensa? O pessoal que vinha fazendo um jornalismo mais avançado,
melhorado, inteligente, técnico. De repente ficou um buraco. As pessoas que
foram chegando não puderam recolher o conhecimento, não o receberam dos
anteriores. A mesma coisa na luta sindical.
Por quê?
Porque ficou um buraco. Foram afastados. Eu fiquei anos e anos sem poder
trabalhar em jornal. E
fui me virando. Por dez anos trabalhei com produção de livros, gráfica.
O que o senhor acha da mídia independente que está surgindo nas
favelas?
Acho muito bom. Despertar interesse por informação é mais importante do que
supor que já está informando. Isso porque, até você chegar a produzir a
informação que leva à melhoria de nível cultural, de reflexão, de convívio e de
aprendizado social, demora. Não é de um dia para o outro. E não é que demore só
para o leitor não. Demora também para quem produz jornalismo, leva tempo até
entender qual é seu público, como é que esse público elabora uma notícia. Isso
tudo se perdeu no jornalismo brasileiro. E os que estão fazendo esse jornalismo
independente, não comercial, também sentem falta disso. Mas não falta algo
importante: o interesse do leitor por obter informação, o gosto de saber as
coisas, o gosto de ser informado. E isso é fundamental.
O senhor acredita que essa mídia independente das favelas pode alterar
a visão estereotipada que a imprensa tem dos territórios populares?
Ela pode começar a pautar a imprensa, mudar a relação de poder. Em certo
sentido ela já tem alguma influência. Mas o que se passa nos meios de
comunicação brasileiros – televisão, rádio, jornal e revista –, não é só
em relação à favela. Veja
O Globo, que é esse poderosíssimo jornal do
Rio de Janeiro. Se você assistir a um jogo de futebol, e no dia seguinte você
for ver as notas que o repórter do Globo dá aos jogadores, você fica besta.
Como ele pode dar nota sete para um cara que errou todos os passes? Ele é apenas
um garoto que está sentado lá - na redação ou na frente das câmeras da TV-
falando como se fosse doutor em futebol há 30 anos, uma experiência
fantástica! Começou anteontem, tem de dois a quatro anos de jornal, e de
futebol não tem nada. É a mesma coisa que se passa com o assunto favela, com o
assunto violência urbana ou com economia. Se você parar pra pensar nesse
caso da compra de Pasadena pela Petrobrás, o besteirol que sai a respeito disso
é uma coisa inacreditável. E a Polícia Federal deita e rola explorando essa
garotada. Essa turma que não estuda nada, não lê nada. Hoje em dia há esse
fenômeno formidável no jornalismo: o jornalista que não lê jornal. É uma coisa
inacreditável como eles se repetem. Quantas vezes você não vê n’O Globo de hoje
uma noticia que já saiu ontem, como se fosse algo novo? E vira manchete de
página interna!
O jornal impresso está acabando?
Não acredito nisso. Quem acreditou nos EUA está caindo do cavalo. A tiragem
lá aumentou 3% no ano passado. Se você pensar que em uma grande quantidade de
jornais estaduais americanos seus donos deixaram de investir, embarcados nessa
onda de que o jornal impresso vai acabar, e ainda assim a média de crescimento
foi de 3%, você pode deduzir com facilidade que há um grupo de jornais e
uma linha de jornalismo que cresceu expressivamente.
Mas dá pra comparar a credibilidade do The New Tork Times
com a do O Globo?
Dá, porque o nível do leitor também acompanha essa diferença. Para comparar
o
New York Times com
O Globo, temos que comparar os leitores
dos dois em relação de confiabilidade. É a classe média brasileira. Vá ao
Grajaú e fale mal d’
O Globo pra ver se você sai de lá
incólume.
Qual dica o senhor dá para um jovem jornalista de favela?
Eu só diria a ele: Vá em
frente. Descubra o seu mundo e descubra o seu jornalismo.
Leia criticamente jornais. E ler livro é fundamental. Ter noção de história é
muito enriquecedor. Ler autores críticos é muito importante. Leia, leia, leia e
leia. O que pintar na frente, leia. E depois você faz a seleção do tipo de
coisa que mais te interessa, e vá em frente. Faça o seu jornalismo. E veja o que nele
tem melhorado, o que não tem melhorado. O auto-aprendizado em jornalismo é
muito importante. Reler e analisar o que você fez. Ouvir o que alguém possa
dizer a respeito do que você escreveu. Isso nos orienta.
O senhor é a favor da descriminalização e regulamentação da venda de
drogas?
Eu acho esse tema dificílimo, e não tenho uma posição definida. Eu vejo
vantagens possíveis e prováveis desvantagens em proporções pelo menos iguais.
Então eu não sei que tipo de projeto pode sair disso.
Muitos pesquisadores dizem que o ônus da guerra às drogas é maior que o
ônus do consumo de drogas em si.
Ninguém sabe calcular esse ônus, é um chute, ninguém tem como avaliar. Como alguém
vai saber a quantidade de usuários de drogas no Brasil, um país com 200 milhões
de habitantes? Pesquisa científica é igual pesquisa eleitoral, ouve duas mil
pessoas... E o consumidor vai responder com honestidade a esse tipo de
pergunta?
O senhor teme que com a descriminalização aumente o número de pessoas
viciadas?
Não, não é isso. É que você vai criar mais um mercado capitalista,
propriamente instituído capitalistamente. E não vai acabar com o outro mercado
não, o outro simplesmente vai baixar o preço, na medida que precisar baixar o
preço. Como a margem para os intermediários e produtores é muito grande, e a
quantidade de pessoas que não querem entrar no mercado formal de trabalho
porque acham que podem viver, pobremente, mas viver sem se aporrinhar com
trabalho, carteira e horário é gigantesca num país de 200 milhões de
habitantes, e com as condições sociais do Brasil, no meu ponto de vista, o
mercado paralelo vai continuar. Pode resolver um problema aqui, outro ali. Um
problema de maior conflito com traficante em algum lugar, mas no geral vai
continuar, porque os intermediários e os produtores vão continuar.
No Uruguai, o Mujica quer que o Estado tenha o controle da produção e
venda de maconha.
Ele acha que vai ter controle. Até agora não se sabe se vai ter. E eu
pessoalmente não acredito que vá. O traficante de repente vai dizer: “Olha,
aqui eu paro porque o Mujica resolveu agora que o Estado é o dono da maconha?”.
O intermediário vai dizer: “agora perdemos a boca do Uruguai, vamos pra
Taiwan?”. É não conhecer o animal humano.
O senhor é otimista em relação ao futuro do Brasil?
Eu sou cético em relação a tudo, não só ao Brasil, mas ao animal humano.
Eu tenho uma impressão, pode ser romântica, de que a geração que virá
depois da inclusão social do governo Lula, das cotas raciais e sociais e do
Prouni já vai nascer com livros em
casa. E essa geração, que receberá o dinheiro do Pré-Sal para
educação, será incrível, e que talvez ela consiga transformar até o Congresso.
O senhor não divide essa visão otimista?
Não. Tomara que você a mantenha, e sobretudo tomara que a realidade
justifique o seu otimismo e não o meu ceticismo. Mas eu acho que o Brasil ao
mesmo tempo que evolui em vários sentidos, se degrada em outros. A corrupção, por
exemplo. Hoje fala-se sempre dos governos. As oposições falam muito dos
governos. E os meios de comunicação, se esses governos não são conservadores -
sejam estaduais, municipais ou federais – se encarregam de depositar
nesses governos todas as responsabilidades por tudo que seja de errado e de
ruim. Mas a verdade é que a corrupção varre esse país de cima a baixo. O Brasil
está completamente minado pela corrupção. Ninguém sabe a dimensão que isso tem
nem a que isso vai levar, mas certamente essa corrupção não leva a nada que
preste.
Essa corrupção me parece estrutural, como se muda esse quadro?
É uma boa pergunta, para a qual seu otimismo deve dar a resposta. Porque meu
ceticismo não responde não.