terça-feira, 30 de junho de 2015

O ciúme, o ciumento e o inferno do amor possessivo

Fonte: Psicólogo Luís Vasconcelos (http://luisvasconcellos.zip.net/)
Mais artigos nos endereços: http://somostodosum.ig.com.br/conteudo/categoria2.asp?aut=33&p=1

Ciúme, o inferno do pseudo-amor possessivo
Capítulo primeiro


Todo(a) ciumento(a) afasta, invalida e projeta sobre o outro suas próprias negatividades. Não demora, o outro começa a pensar em se livrar, em se separar e foi o ciumento que, com suas ações, acabou antecipando ou  precipitando isto.
O(A) ciumento(a) não é consciente nem parece entender que exatamente aquilo que ele(a) afirma ser o seu maior medo (o do abandono, o de ser trocado por outra pessoa) constitui exatamente o resultado natural de suas próprias ações sobre o outro.

O ciumento típico costuma atribuir ao companheiro o seu persistente sentimento de perda, sua permanente ameaça de rejeição, no entanto o ciumento é muito mais um rejeitador do que um rejeitado. Ele se antecipa, atuando como rejeitado antes que a possível rejeição aconteça, de modo que, se ela acontecer, ele não seja pego de surpresa, pois está preparado para a rejeição (pelo seu pensamento e sentimento negativos, pelo seu senso de ameaça que nunca descansa) já que, todo o tempo, ele espera por ela, imagina a rejeição...  Não é à toa que o ciumento acredita que faz todo o esforço para evita-la.
O ciumento tem que perceber e admitir que depois que ele entra em um transe de ciume, ele não é mais dono de si, não controla sua imaginação nem suas emoções e não é mais capaz de nada parecido com uma ação racional. O ciumento encontra-se possuído por forças inconscientes durante a crise. Isso precisa ser admitido antes que qualquer outra possibilidade de entendimento (de si mesmo)  possa ocorrer.  Este é o ponto de partida e o principal conhecimento de que um ciumento necessita: o do esclarecimento do teor e do sentido de suas crises. Geralmente, a ajuda especializada de um psicólogo é o único caminho de saída.
Vamos refletir juntos e tentar ajudar: Paradoxalmente, o(a) ciumento(a), durante seus transes,  empurra o(a) companheiro(a) para longe de si, afasta, desconfia, invalida, desconsidera os argumentos do companheiro(a) quando alguém lhe diz que está louco ou que vive imaginando coisas...  
Isto acontece porque, para o ciumento, as “fantasias negativas de rejeição” são realidades aguardando a validação dos fatos vividos.  Ou seja, ele já vive rejeitado, aguardando que os fatos vividos comprovem esta realidade, na qual ele vive.  Ele se sente como um investigador policial em busca de fatos comprobatórios, mas lhe escapa a parte emocional e inconsciente, que demonstra de modo claro e límpido o evidente preconceito nutrido em seu íntimo. 
Possuído pelo viés negativo inconsciente, ele transforma em culpado aquele que ele investiga, antes mesmo de qualquer evidência. Ele sofre e faz com que seu companheiro sofra, mas não consegue ver em seus atos, pensamentos, sentimentos e expectativas negativas a razão ou o motivo de seu sofrimento. 
Esta inconsciência de sua realidade psicológica já levou pro abismo muitos ciumentos que, em seus relacionamentos, de outro modo, poderiam produzir resultados melhores, fazendo frutificar estas relações ao invés de torna-las estéreis e negativas. 
Um ciumento típico trabalha para o próprio fracasso muito mais do que ele ou ela é capaz de admitir, mas isto nem de longe modifica os fatos vividos. Para sua própria infelicidade, o aspecto destrutivo, existente no íntimo do ciumento, é tornado inconsciente e obscurecido pelo fato de que, para este, o problema encontra-se NO OUTRO, que não é digno de confiança:
Ele(a) diz: “Ninguém é confiável, só os ingênuos se arriscam a confiar em alguém!”
Em verdade um ciumento típico não conhece algo que mereça o nome de “confiança”, sentimento este que constitui uma espécie de aposta do Ser, que a entrega ao outro, sem qualquer possibilidade de confirmação ou certeza.  Costumo dizer que se alguém entrega “confiança”, o outro pode ser neutro, atrapalhar ou ajudar, mas não depende do outro, a energia que sustenta uma “confiança,” que é positiva, vibrante e se assemelha com sentir esperança, fé, imaginando o melhor e desejando o melhor.
Vamos ensaiar uma descrição resumida sobre o processo que se passa no íntimo do ciumento dominado pelo seu medo de perder e desgastando-se  na tentativa de controlar a vida do outro  >>>
1-      O medo de perder o companheiro o leva a controlar e
2-      à vigilância e às medidas de defesa contra a liberdade do outro.
3-      A liberdade do outro se torna a maior ameaça ao sucesso no controle
4-      então, a liberdade do outro tem que ser suprimida.
5-      Depois de suprimida a liberdade do outro sobra a conclusão de que somente a submissão dele garantirá o controle.
6-      A submissão do outro nunca é completa então fica a desconfiança de que sempre que puder ele fugirá ao controle e à vigilância.
7-      Daí realinham-se os propósitos iniciais e o controle passa a ser necessário sobre os mínimos atos e momentos do outro, de modo a conseguir a certeza do resultado: o outro não se afastará, não será perdido, não me abandonará, não me trocará por outra pessoa melhor que eu!!!


O ciumento vive inconsciente do fato de que ele mesmo afasta o outro, separa o outro, pois quase nunca foi, de fato, capaz de real proximidade e amor, descontando-se claro a fase inicial da conquista. A ressonância, se existiu no fase inicial do relacionamento, criava uma atmosfera emocional e sentimental que, como energia, construía alguma  “confiança” e trazia alguma tranquilidade. 
Devido aos primeiros conflitos de opiniões ou pontos de vista, devido às primeiras brigas e questionamentos, a pseudo-confiança é aos poucos substituída pela desconfiança que sempre existiu, mas estava dormente, residual, aguardando uma oportunidade de se oferecer.
Geralmente, existiu alguma situação específica que fez ou faz o sentimento da desconfiança acordar, contudo nada obrigou ou obriga que ele persista e não desapareça nunca mais. Uma vez que algo acabe convencendo o ciumento de que ele está ameaçado de perder o companheiro, surge a necessidade do agir perante o persistente perigo, o que leva ao controle e às vezes à exigência da obrigatoriedade da presença do outro em todos os momentos e, quando isso não é possível, daí os mecanismos de controle da liberdade do outro tomam a forma de constantes telefonemas, investigações na bolsa ou carteira, leitura das mensagens armazenadas nos celulares, emails e assim por diante.
O ciumento imagina que o outro não sabe que tudo isso é jogo e que tudo isso não representa uma real preocupação amorosa com o companheiro de relação e sim, um pesado fardo de desconfiança e controle, sempre cheio de ansiedade e vazio.

Naturalmente o companheiro aceita o jogo, pois desequilibrar o ciumento é querer que o inferno se instale na relação.  Qualquer pessoa inteligente, nesta hora, evitaria o inferno, mas é assim que o ciumento acaba instalando no companheiro um censor de movimentos e de atividades pessoais: o ciumento consegue isso através de ameaças de que entrará em crise e que a relação se tornará infernal, ao que o companheiro reage reduzindo sua liberdade e tentando mostrar-se confiável, com evitações e cuidados dos mais variados tipos, tentando também controlar a crise infernal de ciumes do outro e então finge pra si mesmo, que conseguiu alguma paz, como se o inferno já não estivesse acontecendo defronte seus olhos... podendo mostrar-se de novo a qualquer momento...

Enquanto se evita a crise de insegurança do ciumento o problema permanece intocado, no entanto, infelizmente, de nada serve que o companheiro do ciumento faça todo tipo de esforço e pague com sua própria liberdade,  mesmo assim o problema do ciumento (e sua desconfiança) permanece exatamente o mesmo, intocado, pronto para ser repetido, seus mecanismos de controle, suas cenas de emoções negativas e tudo o mais que constitui aqui o que chamo de inferno do pseudo-amor possessivo.
O companheiro do ciumento faria grande favor a ele se agisse de modo livre e não se preocupasse com o que o outro pensa, já que ele pensa sempre coisas negativas e não tem o menor respeito pela alteridade e sinceridade do outro. Não compactuar com o ciumento é, em verdade, a única chance de ajuda-lo.
Dar testemunho de si mesmo, fazer relatórios verificáveis sobre onde esteve e com quem esteve só deveria servir para a descoberta de que o ciumento vive muito sózinho, pois o testemunho do outro nunca tem valor, o outro não é ouvido e seus testemunhos são sempre recebidos como atitudes e expressões de alguém muito suspeito, não importando se o parceiro é ou não é merecedor disto. Um ciumento típico invalidade o testemunho do outro insistentemente.
   Quando alguém aceita ser possuído por outra pessoa e abdica de seus direitos humanos e à liberdade de movimento, de ação e de expressão então, é claro, estará tudo em paz a partir deste ponto.  Lamento dizer que a chance disso funcionar é de 0%. 
Um ciumento típico precisa de ajuda especializada e alguém envolvido emocionalmente com ele, provavelmente, não servirá de ajuda ou mesmo pode dificultar ainda mais a situação, que já é bastante confusa, conforme me esforcei em descrever aqui.

 O ciumento pode prometer não ter mais crises e, no entanto, não conseguir ter qualquer controle sobre suas crises e é humilhante para UM TÍPICO CONTROLADOR descobrir-se controlado (por suas fantasias negativas).  Mas esta descoberta, quando acontece, costuma ser uma grande motivação para uma cura acontecer.

O ciumento não se imagina como um criador.  Muito menos ele está consciente do fato de que ele origina suas imaginações negativas.  Ele não se vê como autor daquilo mesmo que ele imagina.
Sob o ponto de vista do ciumento, o desapego nunca existe, o gosto por ver o outro feliz por estar fazendo ou vivendo aquilo que deseja (e lhe dá prazer) não é experimentado, o ciumento não conhece este tipo de prazer, seu medo é tamanho, que a simples exposição à possibilidade da liberdade e prazer do outro traz nuvens negras e pesadas para o “céu” do ciumento, os alarmes dão sinal vermelho e os bombeiros internos correm para “apagar o incêndio,” motivado por alarmes falsos, no mais das vezes. 
Pior do que um ciumento típico funcionar deste modo tão inseguro é o companheiro do ciumento ser alguém que não suporta viver sem alguém que o ccontrole, o possua, o queira sempre sob sua supervisão e atenção. Cria-se aí um contrato emocional estremamente intenso e negativo, porém os envolvidos não percebem isso como negativo e a ilusão de que isto seja alguma forma de amor ou modo de demonstrar que o outro importa e tem valor para si obscurece a verdadeira natureza do vínculo, que é negativa... Se assim não fosse, o alvo do ciumento quebraria o contrato e procuraria exercer o seu direito inalienável à liberdade e prazer. Se não houvesse uma contrapartida do alvo de ciume, ele não iria corresponder ao ciumento e fazer o jogo esperado por aquele, não, ele claramente colocaria um fim a este jogo e iria cuidar da própria vida. 
Para algo assim acontecer, o companheiro do ciumento teve que evoluir além e apesar dos esforços do ciumento para que ele não se liberte, para que não se afaste, para que não se torne independente e dono de si mesmo.
Caso o companheiro do ciumento pague o preço de correr atrás de seu valor e sentido na vida, verá que, na verdade, para o ciumento ele nunca existiu de fato, só existiu o “outro” que ele fantasiou e ele não conheceu a pessoa que com ele está, de modo algum. 
Pois é, ser alguém tipicamente ciumento afasta, separa, quebra vínculos, enfraquece os elos de união, empobrece os sentimentos como o amor, o respeito, a consideração pelo bem estar do outro, que, ao ciumento não importa, nem é sua preocupação ou seu objetivo, pois um ciumento típico nem mesmo tem o outro como foco de seus pensamentos e atenções, seu único foco está em si mesmo, todo ciumento típico é um tremendo egoísta e egocêntrico e nunca se arrepende disto, nunca pede perdão por isso, finge estar cheio de razão e se sente justificado naquilo que faz e provoca sobre o outro. 

Felizmente, nem todos os ciumentos se encaixam completamente neste quadro negativo extremo. O meu exagero aqui é proposital e deve-se ao fato de necessitar estabelecer um modelo que permita pensar na questão.  Não sei o grau de negatividade que cada relacionamento pode estar atingindo, então exagero de modo a mostrar o que será se piorar... Portanto há salvação para aqueles que lutem e usem suas consciências para evoluir e aprender para além do seu problema de insegurança e controle.
Vou chamar aqui de “ciumento típico” aquele que não admite precisar aprender algo e superar seus problemas. Um ciumento típico é totalmente cego para as conseqüências do que é e faz no relacionamento e quem devia denunciar este triste estado das coisas não o faz possivelmente por estar também perdido de si mesmo, por razões outras e complementares, mas ainda assim perdido igualmente em um relacionamento que acaba ficando sem graça, rotineiro e sem sentido em breve espaço de tempo, sobrando apenas obrigações e deveres de um para com o outro. 

Todo mundo, não demora, se queixa do estado das coisas, mas o que quase sempre ninguém faz é olhar para o lado psicológico de si mesmo, quase ninguém age para alterar o estado de coisas em seu íntimo e daí todo mundo reclama do outro, dos outros, da outra,  mas todo mundo continua fazendo exatamente aquilo que provoca o sofrimento, a separação ou uma vida “sem graça,” estruturada na insegurança íntima e na carência individual dos envolvidos.

O inferno do Pseudo-amor possessivo CAP II
A interdependência entre o Controlado e seu Controlador
cap II – continuação de “O Inferno do Pseudo-Amor Possessivo”.

Esta reflexão visa abordar o ponto de vista do companheiro(a) do ciumento, que geralmente se descreve apenas como uma “vítima” do ciúme alheio.   Em verdade, ambos estão em um tipo de contrato, pois assim como
1- um típico controlador precisa de alguém do tipo “controlável”,
2- alguém que se aceita controlado precisa de alguém que seja controlador, um comandante que exerça este tipo de função...
Então, quando pensamos que todo relacionamento é invariavelmente construído por contratos e, no mais das vezes, contratos inconscientemente estabelecidos, então o ciumento e o alvo do ciúme vivem sob algo assim como um contrato. 
São carências que se complementam e que somadas criam o inferno no relacionamento.  Neste caso, assim como em muitos outros tipos de complementariedade, algoz e vítima se confundem para quem consegue perceber como atuam as Polaridades na vida humana e relacional.
O(A) companheiro(a) do ciumento pode ser alguém que também teme ser abandonado, mas age de modo passivo e submisso diante deste fato, enquanto que o ciumento típico é ativo e age sobre o outro para controla-lo e mante-lo sob seus domínios.
Estas polaridades – a Ativa e a Passiva – surgem como uma complementação e compensação entre os dois.
As pessoas são atraídas para seus opostos em uma busca de tornarem-se completas, ao menos buscam isso e quanto a isso não resta dúvida.
Em realidade, temos que nos render ao fato de que, nos casais humanos de todo tipo, existem também os “contratos negativos” e existem relacionamentos com bases em aspectos nada saudáveis dos envolvidos.

Um relacionamento maduro pressupõe o desenvolvimento de cada um, como individuo completo e independente, para além de suas histórias familiares e na superação de seus “passados vividos.”
Muito importante lembrar: O outro, (o(a) companheiro(a), merece que vc o(a) encontre, a ELE(A), e não aos fantasmas do seu passado projetados nele(a).
Um ciumento típico tem uma história e nela ele foi – com alta probabilidade – “passado pra trás”, rejeitado e se sente invalidado.  Um ciumento típico está tão dominado por seus sentimentos de rejeição, que nem mesmo tem o outro como foco de seus pensamentos e atenções, seu único foco está em si mesmo.  Pois é... ser alguém tipicamente ciumento afasta, separa, quebra vínculos, enfraquece os elos de união, empobrece os sentimentos como o amor, o respeito, a consideração pelo bem estar do outro, que, ao ciumento não parece importar, tão preso que está aos seus ameaçadores medos de perda, rejeição e abandono.  

E quem vive sofrendo por isto na relação com o outro faz o que? Bem, o “outro lado da moeda”  podem haver conflitos de outro tipo, porém complementares.
Cria-se aí um contrato emocional extremamente intenso e negativo, porém os envolvidos nem sempre percebem isso como negativo e a ilusão de que isto seja alguma forma de amor ou algum modo de demonstrar que o outro tem valor para si, obscurece a verdadeira natureza do vínculo, que é negativa...
Fazer os casais conscientizarem esta complementariedade é o primeiro passo na terapia de casais com este tipo de desequilíbrio.

Caso o companheiro do ciumento pague o preço de correr atrás de seu valor e sentido na vida, verá que, na verdade, para o ciumento, ele nunca existiu de fato, só existiu aquele(a) “outro(a)” que o ciumento construiu com suas fantasias de rejeição e abandono. Na prática, ninguém erra muito se concluir que o ciumento não conhece muito bem a pessoa que com ele está – demonstrando isto especialmente no auge de suas crises de insegurança e rejeição.

Mas é justamente aí que reside o problema e a solução, pois o ciumento se vê atraído e apaixonado - para sua própria desgraça e sofrimento – por alguém que não suporte ficar ou existir sozinho e, aí, fecha-se um círculo vicioso que estreita e aperta os nós que prendem um ao outro. 
Pior do que um ciumento desejar
1-   alguém sem vida própria e
2-   que ele possa controlar é
3-   alguém entender, isto que o ciumento faz,  como expressão de que se importa e que ama o alvo de seu ciúme...
Em verdade, a Insegurança de perder o outro os une, mas o(a) companheiro(a) do ciumento geralmente não é alguém possessivo no sentido literal, ele pode ser alguém que mantém o domínio sobre o outro de modo passivo, desapercebido, através de jogos dissimuladores. Daí, por conta de suas próprias inseguranças, ainda que ele(a) não procure controlar (explicitamente) a vida do outro, o resultado é que ele vive cheio de temores de perder, temores da solidão e talvez se guie pelo ditado : “ruim com ele(a), pior sem ele(a)”.  Talvez passe por sua cabeça os pensamentos: “Se não tenho de fato uma companhia, um companheiro(a), pelo menos tenho alguém ao meu lado e que parece dar importância a mim”.

O(a) companheiro(a) de um ciumento típico tem também um tipo de missão psicológica para ser cumprida, pois ele(a) sofrerá muito diante da verdade: ele(a) tem que se render ao fato de que já está sozinho, se sente só e desacompanhado, ao lado de alguém que só tem olhos para seu próprio umbigo e só se importa consigo mesmo e com os próprios temores, que nunca cessam.  A atenção redobrada que um ciumento típico promove sobre o outro, parece servir também para construir, para o alvo do ciúme, uma sensação/ilusão do tipo: "alguém se importa muito comigo" ou então "sou importante para alguém".
Não por acaso, é justamente de uma real solidão, que o(a) companheiro(a) de um ciumento típico pode estar fugindo.
Cada qual tem motivos diferentes para viver neste contrato, o ciumento é ativo e não quer perder. Seu companheiro(a) pode ser, p.ex., alguém muito carente de atenção... 
Há problemas e estes são solucionáveis e existem conflitos, estes são insolúveis. Vou chamar aqui de “conflito insolúvel" aquele construído por aquelas pessoas que não admitem estar nele e preferem aparentar não necessitar ajuda para superar seus problemas... Infelizmente, estas pessoas existem em ambos os lados de um “conflito insolúvel”.  Os conflitos deste tipo se baseiam em complementariedades típicas... Para um controlador, um controlado; para um possessivo um possuído; para um ativo, um passivo...  
O meu exagero é aqui proposital e deve-se ao fato de que não posso saber o grau de negatividade que cada pessoa pode estar nutrindo,. No mínimo, a descrição deste quadro conflitivo, deve servir como advertência...
Um ciumento típico é totalmente cego para as conseqüências do que entrega e do que provoca no relacionamento e quem devia denunciar este triste estado das coisas geralmente não o faz, possivelmente por estar também perdido de si mesmo, por razões outras e complementares, mas ainda assim igualmente perdido em um relacionamento.  Muitas vezes esta sensação vem após breve espaço de tempo, sobrando apenas obrigações e deveres de um para com o outro. 

Em nenhum sentido o quadro aqui descrito é uma coincidência e sim fruto da ação de Polaridades no momento em que se construiu inconscientemente o contrato.

Quando, na terapia, um casal começa a desanuviar sua vida de relação e tomar consciência do que se passa entre eles, acaba por descobrir a natureza do jogo no qual ambos estão envolvidos e a compreensão assim atingida começa a fazer a diferença. Então vemos que os sentimentos positivos existiam, porém estavam obscurecidos e vencidos pelos conflitos. 

As pessoas encontram no relacionamento não apenas a satisfação sexual, emocional ou material, mas buscam a possibilidade de viver um equilíbrio e harmonia com o outro.  No entanto, isso tem uma exigência psicológica: faz-se necessário o desenvolvimento de uma consciência de si mesmo.  Sem Consciência de si próprios não há esperança de atingir e realizar suas possibilidades e talentos pessoais. Portanto, há salvação para aqueles que lutem e usem suas consciências para evoluir e aprender para além do seu problema de insegurança e controle.

Ciúme e desconfiança sob um ponto de vista psicológico
Acesse o conteúdo completo em: http://www.stum.com.br/conteudo/c.asp?id=2327&onde=1
Ciúme e desconfiança sob um ponto de vista psicológico
Acesse o conteúdo completo em: http://www.stum.com.br/conteudo/c.asp?id=2327&onde=1
Ciúme e desconfiança sob um ponto de vista psicológico
Acesse o conteúdo completo em: http://www.stum.com.br/conteudo/c.asp?id=2327&onde=1

Mensagem para o dia

"Não demonstra suficiente virtude quem, no tempo da adversidade ou de qualquer tribulação, se entrega ao desespero, concebendo e nutrindo pensamentos indignos da confiança que Me é devida". (Imitação de Cristo)

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Que mentira que lorota boa!

Luiz Gonzaga

Dei u'a carrera num cabra qui mexeu c'a Maroquinha
Cumeçou na Mata Grande e acabou na Lagoinha!
Curri mais de sete légua, carregado cumo eu vinha
Pois trazia na cabeça um balaio cheio de galinha

Oh, oh, oh! (2x) Qui mintira qui lorota boa (2x)

Certa noite muito escura atirei de brincadeira
Espaiei dezesseis chumbo cum a minha atiradeira
No momento ia passando quinze patos no terreiro
Qui cairam fulminado, oi qui tiro mais certeiro

Oh, oh, oh! (2x)
Qui mintira qui lorota boa (2x)

Uma coisa aqui no Rio qui me chamou atenção
Foi ver a facilidade qui se toma condução
Todo mundo confortave, seja em trem ou lotação
E os tais de trocadores, qui amáveis que eles são

Oh, oh, oh! (2x)
Qui mintira qui lorota boa (2x)
Vou contar agora um caso qui astur dia assucedeu
Minha sogra tá de prova que tal fato aconteceu
Uma cobra venenosa viu a véia e mordeu
Mais inveis da minha sogra foi a cobra que morreu

Oh, oh, oh! (2x)
Qui mintira qui lorota boa (2x)
O meu primo Zé Potoca mente tanto qui faiz dó
Me contou qui pegou água, inrolô e deu um nó
Qui mintira mais danada, qui conversa mais à toa
Dá nó n'água né pussive, é lorota e das boa

Oh, oh, oh! (2x)
Qui mintira qui lorota boa (2x)

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Otário nunca mais estaciona em vaga para deficiente


sexta-feira, 19 de junho de 2015

Pra refrescar a memória do juiz(?) Sérgio Moro e de FHC


No ano 2000, assessores do então ministro José Serra, da Saúde, foram flagrados cobrando propina de US$ 500 mil para autorizar a venda no Brasil do Glivec, medicamento da Novartis usado no combate à leucemia. O dinheiro seria usado na campanha presidencial de José Serra. Nada foi investigado, graças ao engavetador-geral da República de FHC. (fonte: revista Veja)


VEJA, 22/10/2001 O baú do lobista
O maior lobista de Brasília denuncia extorsão no Ministério da Saúde e sua agenda, apreendida, revela subornos e esquemas
Policarpo Junior
Bia Parreiras
O empresário Nelson Tanure: informações sobre Caixas de campanha, moedas podres e testa-de-ferro num banco. "Não vou comentar nada"
No dia 10 de outubro passado, uma equipe de policiais invadiu, com autorização judicial, o escritório do maior lobista de Brasília, Alexandre Paes dos Santos, dono de um plantel de trinta clientes de primeiríssima linha, todos multinacionais. Os policiais revistaram gavetas, abriram armários e, como o lobista perdera a chave de um cofre, arrombaram-no com uma furadeira, onde só encontraram maços de dinheiro. Saíram carregando uma Caixa de papelão com treze microcassetes, dezenove fitas de vídeo, dois gravadores, dois aparelhos próprios para gravar conversas telefônicas, um punhado de documentos e o mais precioso de tudo: a agenda pessoal do lobista. Falta examinar parte do material apreendido, mas a agenda já foi esmiuçada. Homem meticuloso e organizado, APS, como é conhecido, anotava tudo ali com sua caligrafia miúda: encontros sigilosos, resumo de conversas, esboços de estratégias, planos de ataque, fraquezas dos inimigos e até intrigas de alcova. É a primeira vez que os segredos de um lobista tão poderoso em Brasília vêm a público. E são revelações de arrepiar.
No dia 5 de abril passado, seus apontamentos sugerem o pagamento de suborno. APS anota que o processo contra sua cliente, a White Martins, no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), requeria uma defesa "tecnicamente muito bem elaborada, pois seria temerário não aplicar a multa", e acrescenta que a multa não pode ser cancelada para "não levantar dúvida sobre o Cade e a empresa". Mais adiante, chega a escrever que a tal multa deve ser de "mais ou menos 30 milhões de reais". Encerra os comentários afirmando que "o custo para a empresa perante o Cade será baixo, mais ou menos 100.000". Custo? Como se sabe, o Cade e seus conselheiros não cobram taxas por julgamento de processo. O processo da White Martins, de número 0800-022579/97-05, trocou de conselheiro e até hoje não foi julgado pelo Cade.
No dia 16 de fevereiro, as anotações sugerem sabotagem e superfaturamento em Furnas, uma das maiores do setor elétrico do país. Diz que a companhia encomendará, em caráter de urgência, dois transformadores à multinacional Asea Brown Boveri (ABB). Escreve que a operação foi feita às pressas, que os equipamentos explodiram, provavelmente em razão de "uma sabotagem". Em seguida, diz que uma empresa forneceria o mesmo transformador por 1,5 milhão de dólares, enquanto o da "ABB é quase o triplo". Furnas comprou, em regime de urgência e sem licitação, dois transformadores, ao custo total de 7 milhões de dólares, da suíça ABB. "Os transformadores antigos deram um defeito", informa a assessoria de Furnas.
No mesmo dia 16 de fevereiro, APS observa que existe um "esquema" em Furnas, estatal presidida pelo ex-ministro Luiz Carlos Santos. "Existe a suspeita muito forte de que o doutor Luiz Pardo leva os valores e os mesmos não chegam na sua totalidade às mãos de quem de direito. Existe um esquema Luiz Pardo." Luiz Pardo é diretor comercial da ABB, uma fornecedora de Furnas. Procurado por VEJA, Pardo mandou dizer que não comentaria o assunto. O curioso é que, entre os clientes de APS, inclui-se a própria ABB. Esse detalhe pode emprestar credibilidade à suspeita do lobista da existência de um "esquema", na medida em que seria descabido que anotasse na agenda calúnias sobre seu cliente.
"Trastevere, 21 horas" –Os segredos de APS caíram nas mãos da polícia em razão de um caso de extorsão. No início de setembro, APS confidenciou a uma amiga jornalista que tinha em seu poder uma fita gravada na qual assessores do ministro da Saúde, José Serra, extorquiam dinheiro do executivo de uma indústria farmacêutica. Em troca da propina, destinada a financiar a campanha presidencial de Serra, a empresa seria autorizada a vender um de seus medicamentos no país. A jornalista contou a história a um assessor de Serra, que a relatou ao ministro, que chamou a polícia, que invadiu o bunker do lobista. A tal fita, se existe, não foi encontrada. Acuado, o lobista se apressou em dizer que foi mal interpretado. Disse que não falou em fita, não a tem em seu poder, não sabe se existe extorsão no ministério nem teve intenção de chantagear ninguém. "Queria apenas alertar sobre boatos de uma suposta tentativa de achaque", diz ele. Na sexta-feira, porém, em entrevista a VEJA, o lobista resolveu contar tudo o que sabe.
Diz que, no dia 14 de agosto passado, o checo Andreas Strakos, presidente no Brasil da Novartis, o maior laboratório farmacêutico do mundo, esteve em Brasília. APS encontrou Strakos no hotel Bonaparte, de onde o levou até um restaurante de comida italiana, o Trastevere. Strakos jantou com dois assessores de Serra, que condicionaram a comercialização do Glivec, medicamento da Novartis usado no combate à leucemia, a uma contribuição financeira para a campanha do ministro. No dia seguinte ao jantar, do qual APS diz que não participou, Strakos esteve no escritório do lobista. Contou que fora achacado pelos assessores. Qual o valor do achaque? APS não diz, mas seus amigos mais próximos contam que ouviram falar em 500.000 dólares. Um dos assessores identificados é Renilson Rehem, secretário de Assistência à Saúde. Ele se mostra injuriado com a acusação e diz que jamais esteve no Trastevere. Andreas Strakos também descartou qualquer possibilidade de ter participado do jantar no restaurante italiano.
Confrontado por VEJA com a informação de que esteve em Brasília no dia 14 de agosto – chegou a bordo do vôo 5186, da Rio-Sul, procedente de São Paulo, e desembarcou às 20h27 –, Strakos voltou atrás e admitiu que esteve na capital naquele dia e também reconheceu que jantou no Trastevere. Com quem? Com um amigo que ele se recusa a identificar. Na semana passada, depois que o caso veio a público, APS conta que recebeu vários telefonemas de Strakos, nos quais o executivo lhe pedia que negasse a história para a imprensa e combinaram romper o contrato de ambos. O rompimento aconteceu na terça-feira, mas ambos concordaram em colocar uma data retroativa, de 2 de outubro, para não dar na vista. APS então cedeu ao pedido de Strakos durante toda a semana, negando a história, mas na sexta-feira decidiu contar. Um dado reforça sua versão de que o jantar pode mesmo ter acontecido. Na agenda do lobista apreendida pela polícia está registrado o seguinte com referência ao dia 14 de agosto: "Andreas – 19h30. Jantar com dr. Renilson. Trastevere. 21 horas".
Lista de inimigos Com sugestões de caixinhas, esquemas, chantagem, superfaturamento e suborno, os segredos de APS mostram que sua atuação vai além da atividade normal de um lobista, de fazer contatos, abrir portas e gerar influência. Num papel timbrado da Câmara dos Deputados, por exemplo, ele descreve todo o organograma dos inimigos do banco Opportunity, que há três anos trava uma guerra fratricida com a TIW, operadora canadense, pelo controle de duas telefônicas, a Telemig Celular e a Tele Norte Celular. Na anotação, o lobista sugere que a TIW conta com a simpatia de um naco poderosíssimo do governo. Mas o maior amigo da TIW está fora do governo, segundo as anotações: é o empresário Nelson Tanure. Em seus rascunhos, o lobista informa que Tanure, dono do Jornal do Brasil, foi Caixa de campanha do ex-senador Jader Barbalho e do senador Gilberto Mestrinho, de quem conseguiu arrancar facilidades junto à Zona Franca de Manaus. Tanure ainda aparece como financiador das campanhas do senador Bernardo Cabral, do deputado José Carlos da Fonseca Junior, ex-assessor do ministro Pedro Malan, e de Luiz Paulo Velloso Lucas.
"É absurdo. Faz mais de dez anos que não troco palavra com Tanure. Isso é mentira", reage Cabral. Se o organograma de APS estiver correto, o empresário Nelson Tanure já foi, ou tentou ser, uma porção de coisas diferentes. Diz que Tanure vitaminava seus negócios com a ajuda dos fundos de pensão. Que atuou no mercado de moedas podres usando informações privilegiadas do Banco Central, que recebia diretamente da presidência e da diretoria de fiscalização. Diz, ainda, que Tanure é sócio oculto de um banco carioca, o Fator, no qual usa como seu testa-de-ferro o economista João Maia, ex-assessor de Zélia Cardoso de Mello. "Não vou comentar nada", Tanure mandou dizer a VEJA. Com escritórios em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Miami, APS é um lobista de sucesso. Entre seus clientes, dos quais não cobra menos de 20.000 reais por mês, incluem-se gigantes como Johnson & Johnson, Carrefour e Pirelli. Em Brasília, circula com desenvoltura pelo Congresso. Tem até crachá de livre trânsito na Câmara. Foi presente do deputado Arnaldo Faria de Sá, do PPB paulista. "Ele é meu amigo", diz o deputado. De fato, não há dúvida de que APS tem muitos amigos – e informações escaldantes.
Com reportagem de Malu Gaspar

Cai na real, gente!


Vão pra Cuba, norte-americanos!

O Governo comunista, marxista dos Estados Unidos taxa em até 40% os mais ricos. Felizmente, o Brasil é um país que repudia o comunismo malvado e ateu e não permite que o maldoso governo petista da presidente Dilma Rousseff cobre imposto dos milionários. Nós, da classe média e pobres, estamos muito felizes em pagar mais impostos para que os ricos e milionários não sejam incomodados.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

E o Cristo nessa história?

Os cristãos evangélicos promovem o capiroto em tudo o que fazem e falam. Os cristãos católicos de direita se alimentam do ódio e do medo que nutrem pelo alemão Karl Marx. Pelo jeito, para essas duas correntes do Cristianismo, Jesus Cristo é ninguém.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Angústia (1978)















Agora ouve mais alto
Como a clamar aos montes
Já sobre nós assobia
Gelando a alma e o sangue

Em meu corpo ainda corre
O sangue original
As veias saltam de ódio
O ódio frio e mortal

Cada veia é um conduto
Do fel que ódio em mim gera
E nesta combustão interna
Corroendo pouco a pouco
Tudo aos poucos degenera

Espinhas brotam no rosto
Espinhos brotam na alma
O corpo explode em vazios
De restos apodrecidos, empedernidos

O impulso ...
O controle ...
A calma.

A força da Vagina: Bucepower Gang É a Nova Geração de Feminismo no Tumblr

Fonte: http://www.vice.com/pt_br/read/a-bucepower-gang-a-nova-geracao-de-feminismo-no-tumblr
Repórter

http://bucepowergang.tumblr.com/

"Queremos todas vocês", repete Lay Moretti, rapper de Osasco e criadora da Bucepower Gang, um Tumblr para mulheres anônimas postarem nudes e "selfies de ass" com a função de estimular a discussão a respeito da liberação sexual da mulher na sociedade. Com a ambiciosa proposta de agregar o máximo de meninas possível (dá para falar facilmente com elas pelo e-mail que está na página), a gangue oferece uma forma muito mais acolhedora no feminismo sem nenhum tipo de filtro estético ou acadêmico.
A existência do Bucepower se deve a um dos maiores responsáveis pelo alcance que o feminismo atingiu na internet, o Tumblr. Sim, ele mesmo: nosso depósito favorito de gifs de gatinhos e de pornografia amadora. Lá se trata de uns dos poucos lugares que cederam espaço para mulheres de diversas origens contarem sobre seus problemas, permitindo que milhares e milhares de garotas aprendessem sobre empoderamento e opressões de gênero. "O Tumblr é uma ferramenta foda para mim", explica Lay, "uso faz muito tempo e acho que ele tem um poder grande de fazer a gente se expressar e se colocar no mundo por meio de textos e imagens."
Gif e fotos por Guilherme Santana.
A gangue apareceu para dar entrevista na forma de cinco garotas na faixa dos seus 20 e poucos anos – e com cabelos tão maravilhosos que fiquei com vontade de sair da entrevista e jogar dois litros de tinta turquesa no meu cabelo castanho. São mulheres que estão nos rolês mais legais (quando digo legal, estou falando de rolês que vão além da Rua Augusta), demoram mais de uma hora para voltar pra casa, se fodem, pagam contas, mas que, apesar disso, dificilmente são chamadas para dar suas opiniões no meio feminista virtual.
A Lay me fala que muitas vezes se viu de fora desse movimento justamente por ele ser quase 100% acadêmico e suas integrantes se esquecerem de que é preciso muito mais do que uma boa lista de livros para atrair mais mulheres para a causa (especialmente as que passam metade do dia longe da internet trabalhando, estudando ou fazendo os dois). Já a Cris desabafa que se decepcionou tanto com a militância virtual que hoje não se considera feminista. "Na verdade, sou feminista da minha maneira. Porque, se o feminismo for o que essas pessoas falam na internet, prefiro não ser chamada assim."
Elas não estão erradas. O feminismo da década de 2010 está cada vez mais se tornando um textão do Facebook ou uma eterna discussão sobre o nada, enquanto os verdadeiros inimigos estão conquistando mais território. "As mulheres não alimentam umas às outras, e estamos todas no mesmo barco e na mesma situação. Da mesma forma que eu sou tirada de puta, a mulher do meu lado também vai ser tirada assim", diz Lay.
"Essa desunião entre as mulheres é algo imposto para o privilégio do homem. Por exemplo, tive essa vivência do cara ficar com duas minas, e aí uma vai brigar com a outra por causa disso. Quem deveria levar intimão é o cara. Ele tem de tremer", frisa Tutti, uma rapper que você provavelmente não gostaria de pisar no calo.
Sim, nós estamos no mesmo barco, mas é evidente que isso não implica que o sofrimento da mulher branca não seja equiparável ao da mulher negra, o qual também não se compara ao de uma mulher transexual. Porém, ainda assim, a luta é a mesma quando o controle do corpo feminino e das suas escolhas sexuais é ainda tema para o político homem bater boca.
Essas cinco garotas de diferentes origens, formas, cores e vivências sacaram a falta de representação feminista na internet (e nos rolês da vida real) e como isso nos faz sentir sozinhas e excluídas, mesmo que sejamos unidas pelas experiências negativas que nos fazem definir o que é ser mulher. "Às vezes, a menina que é oprimida quer fazer isso com a próxima, e assim por diante. É um círculo vicioso", destaca Cris.
Dentro da periferia e das rodinhas do hip-hop, as meninas cansaram de ouvir que são putas por serem confiantes ou que mulher não tem espaço no microfone, porque não tem capacidade de mandar uma caneta boa. "Às vezes, a maior ofensa não vem por inbox: ela vem por um comentário em uma roda, com várias pessoas apontando para você. Você precisa ter isso na sua cabeça para debater e desconstruir isso", explica Tutti. Assim, elas tiveram de primeiro se impor sozinhas e, depois, procurar reforços para lidar com a opressão.
"Pessoas como Dina Di abriram nosso caminho e mostraram a nossa força feminina no rap. Agora, não vejo outras mulheres da nossa cena dando um big up para as outras. É só tiração de onda, uma zoando com a outra. Ontem, uma cantava 'A porra da buceta é minha', e hoje canta só para falar mal de mulher", frisa Lay.
A tentativa de se buscar sororidade em um rolê que, diga-se de passagem, há muito tempo é bastante branco, classe média e pouco empático com mulheres que buscam a liberação sexual e a reapropriação de seus corpos, é um dos grandes desafios do coletivo. Tutti afirma que a gangue aceita qualquer mulher a fim de agregar algum aprendizado e que "cada mulher tem uma realidade diferente. Eu sou negra, portanto trago vivências e prioridades diferentes do que [as vivências e prioridades] de uma mulher branca. Mas não queremos pregar que uma é maior que a outra. Queremos que todas se entendam. É um lance meio 'Eu sou preta e passo por tal coisa, e você é branca e passa por isso e isso. Vamos nos ajudar então?'".
E, com tanta história de suicídio e vidas acabadas por causa do revenge porn, talvez a proposta de se criar uma página de mulher pelada possa parecer um pouco esquisita de início. Inclusive, as meninas contam que muito homem ainda passa mal com a quantidade de menina conhecida que aparece pelada por lá, mas que a existência do Tumblr é importante para garantir a sanidade mental das meninas. "A página é para expor para as mulheres que você pode mostrar seu corpo e sua sexualidade. Mas, no particular, é um espaço onde as mulheres possam se conhecer, trocar vivências e desabafar coisas pesadíssimas", conta Cris.
A Janna teve no ano passado uma foto sua compartilhada por um ex em um grupo de 50 pessoas no WhatsApp. Um dos integrantes do grupo era seu namorado da época. "Achava que isso nunca iria acontecer comigo. Acabei até saindo dos dois empregos que eu estava na época por causa disso. Sofri muito, ouvi as minas me zoarem. Umas vieram me bater na rua. Hoje, posso dizer que amo meu corpo e que o Bucepower me mudou e me ensinou a aprender a me aceitar – e foda-se se eu quero mostrar meu corpo."
Lay acrescenta uma observação sobre a história da sua amiga: "Cara você não é foda porque tem uma foto minha pelada. Eu posto minhas fotos peladas no Tumblr porque quero. Então, grande bosta. Coloca uma foto do seu pau aí pra gente ver o que acontece."
Já a Barone revela que fazer parte do Bucepower foi uma arma poderosa para acabar com a insegurança que tinha sobre seu corpo e também propagar esse pensamento para a próxima. "Não tenho esse apoio da minha família em casa. Só escuto que sou gorda, que preciso perder barriga, que meu rosto é lindo, mas [que] preciso perder a barriga, que homem só quer gorda para transar", desabafa. "Fui tão oprimida pelo meu corpo, mas aprendi com as meninas que temos de passar esse conhecimento para a próxima mulher em vez de rachá-la."
Embora a página tenha pouco tempo de existência, o rolê do Bucepower já quase transcende a seara virtual. Todas relatam em tom orgulhoso que já foram abordadas por muitas garotas muito felizes em ter achado um lugar no qual ser sexual e gostar de usar o corpo como forma de expressão é uma vantagem, e não um problema. "As selfies são terapêuticas. Você presta mais atenção no seu corpo: você o entende, você se aceita", ratifica Cris.
"Não estamos aqui para criar personagens virtuais. Somos uma nova geração de feministas que vêm da rua, vindas do gueto. Somos periféricas, feministas, negras e brancas que vêm da favela", exclama Tutti.
Da esquerda pra direta: Barone, Lay, Tutti, Janna e Cris.
Para o horror das sinhás e dos casa-grandes da vida, é da favela que vem a resistência. "As mulheres estão se ajudando mais dentro das comunidades periféricas por meio de conversas, debates e atividades destinadas a mulheres que são carentes de informação e poder monetário", conta. E se tem uma coisa que a militância autocentrada virtual falhou em compreender (e que as meninas do Buce captaram perfeitamente), é que representatividade no rolê é muito mais complexo do que um post bonito de blog.
"E os homens?", eu pergunto. As meninas soltam uma risada meio exausta, e, como eu imaginava, contam que eles são os que ficaram mais assustados com o Tumblr. "Já aconteceu de um cara virar para uma das Buces e falar que já comeu fulana, fulana e fulana. E ela respondeu 'Bom, então quem foi comido foi você, e não elas, né?", conta Lay. É, pessoal, os caras passam muito mal mesmo.
"Homem é assim. Vê uma mulher gostosa, vê pornô, mas não aceita de maneira alguma que a mulher próxima dele seja assim", critica Cris.
Antes de desligar o meu gravador, Lay conclui o nosso longo papo feminista convocando todas as mulheres que estiverem interessadas em fazer parte do grupo. "A mulher não tem de se vitimizar, temos de ser power. Não vamos disputar likes, meninas – vamos botar na bunda dos caras."
Saí da entrevista com a grande certeza de que uma mulher empoderada é mais perigosa que uma arma carregada. Agora, tente imaginar uma gangue.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Reflexões sobre o Governo do PT (parte I)

José Ribeiro Jr. Publisher do The Vila Biscaia Post

São levantadas algumas questões importantes, mas meramente como constatação, não como diagnóstico. Sem diagnóstico correto, não se combate a doença, certo?

Sem pretensões, relaciono alguns pontos a meu ver importantes:

1)      Questão tributária – os governos Lula e Dilma não avançaram na criação de impostos sobre a renda para compensar a redução da carga sobre o consumo não apenas por culpa da oposição atrasada, de direita etc, mas por culpa especialmente das bancadas petistas. Estas repetem as mesmas práticas de DEMO, PSDB, PPS etc ao se tornarem gigolôs de propostas populistas com intuito meramente de eleição e re-eleição ad-infinitum. A base política petista da Dilma não está comprometida com políticas de Estado, mas com questões paroquiais. Por isso a presidente não consegue realizar reformas fundamentais, além de sofrer desgaste desnecessário para vetar iniciativas cartoriais que deveriam ser barradas no espaço do legislativo;

2)      A questão do BNDES usado como alavanca dos investimentos produtivos. O capitalista brasileiro é fundamentalmente um medíocre e se o governo não realizar os investimentos de peso, o Brasil vira um Paraguai. É notório que o empresário brasileiro não chegou sequer ao estágio do Fordismo, porque foi preciso um retirante nordestino para ensinar à Fiesp aquilo que Henry Ford intuiu na década de 30: que o sonho de todo norte-americano era possuir um veículo automotivo. A questão é fundamentalmente cultural, e ela ainda está localizada naquilo que o presidente Geisel apontava como exemplo do atraso tecnológico do Brasil: enquanto a Inglaterra implantava siderúrgicas e dava um salto de qualidade na metalurgia, o acomodado capitalista brasileiro vivia da exploração de aluguel! Que capitalismo é este que até hoje não conseguiu produzir um veículo nacional?! (até a Coréia tem a sua indústria automotiva) Que capitalismo é este que não consegue produzir etanol a preços que não sejam extorsivos? Que capitalismo é este incapaz de criar uma bandeira nacional de cartão de débito e crédito, tendo à mão um mercado consumidor espetacular? Foi preciso o presidente Lula determinar à Caixa e ao BB a criação da bandeira Elo! Como explicar que o Itaú, que se orgulha de operar quase no “estado da arte”, não viu essa oportunidade, ou viu mas optou pela acomodação de pagar royalties e lucros às bandeiras internacionais? É exatamente esse atraso cultural o responsável pelo Governo se transformar em investidor em vez de exercer o papel correto de indutor dos investimentos. O preço que o Governo paga para não deixar o País andar de ré é justamente o surgimento de setores controlados por cartéis, com seus serviços de péssima qualidade e seus preços extorsivos, como citado no artigo (telefonia, aviação, produção de etanol etc). Nossa elite industrial continua tão tosca quanto no Século XVIII e essa situação não será revertida enquanto não surgir uma nova geração de capitalistas empreendedores 

3)      A questão dos salários (EM BREVE)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O que acontece com Dilma Rousseff?

José Ribeiro Jr. Publisher do The Vila Biscaia Post
A presidente Dilma Rousseff é a pessoa mais honrada que ocupou o Palácio do Planalto. Não a única, mas certamente aquela que mais se notabilizou pelo atributo das “mãos absolutamente limpas”. Mas, então, por que Dilma é alvo de tantos ataques e tanto ódio, mais até do que o ex-presidente Lula?

Primeira Presidenta do Brasil
Afora o fato de ser mulher e sofrer preconceito até e especialmente das mulheres mais do que dos homens, Dilma tem problemas, sim.Vamos, então, tentar identificá-los, começando pelo que nos parece o principal: a veia Brizolista.

Tal qual Leonel Brizola, Dilma, ao que se sabe, tem dificuldade de conviver com gente que tem opinião própria e personalidade forte. Vai daí ela não cria sucessor, ao contrário de Lula.Dilma parece que facilmente se deixa levar por puxa-sacos que só a incensam; pessoas que se aproximam dela para aproveitar as vantagens do poder.
A imprensa brasileira é cega e incompetente, porque ainda não percebeu a existência de uma “república gaúcha” no entorno da Dilma.Gente que vende seus pitacos muito bem embalados, porém marcados por lugares-comuns, para a presidente. E se remuneram muito bem com dinheiro público, que justificam como sendo “bem-havido”.

Os incompetentes que rodeiam Dilma não vêem e não a levam a ver que seu problema não é de comunicação (pode ser em parte), mas de gestão.Dilma é cheia de boas intenções, mas parece não levar em conta que seus projetos não conseguem ter sucesso porque são bombardeados pela oposição e a mídia.Sem a mínima reação do governo.

Veja-se o exemplo da energia: Dilma fez a coisa certa ao propor a antecipação da renovação de contratos com as geradoras, mas nada fez quando as três empresas administradas por DEMOs/Tucanos se recusaram participar e passaram a sabotar o seu projeto.

Dilma não tinha um plano B (nem se preocupou em elaborar um) para enfrentar as sabotagens e as reações contrárias. Resultado: a idéia de reduzir a conta de luz virou forte aumento das tarifas, depois de uma pequena redução inicial.

A mesma situação se repete em diversas frentes: o projeto de transposição do Rio São Francisco, as hidrelétricas na região amazônica, o combate à corrupção, controle da inflação, as obras para exploração do Pré-Sal, a melhoria da Educação, a articulação política ...

Dilma só acordou efetivamente para esses problemas em junho de 2013, quando o país pegou fogo com as manifestações evidentemente orquestradas de fora do Brasil. Mas tão logo elas arrefeceram, voltou a dormir novamente.

E só acordou de novo em 2014, e mesmo assim apenas por ter sido alvo da mais sórdida campanha eleitoral de que se tem conhecimento. Graças à força e dedicação da militância ela conseguiu se reeleger, mas saiu das urnas enfraquecida e terá muitas dificuldades para governar.

A tão necessária Cidadania

A veia Brizolista de Dilma é o seu ponto fraco, aquele que pode botar tudo a perder. Por veia Brizolista entenda-se a tendência que Dilma tem a tratar o povo pobre como “coitadinho” e não exigir a contrapartida à política de compensações que governo do PT cria para esse contingente.

Essa atitude não cria cidadania, nem torna as pessoas conscientes. Ao contrário, esse público é presa fácil das oposições ao simples acenar de alguma vantagem que soe maior ou adicional àquela que o governo Dilma lhes entrega.

Veja-se o exemplo do Programa Minha Casa Minha Vida voltado à faixa de renda de até R$ 1,6 mil. Apesar das prestações serem mínimas, na faixa de R$ 50, boa parte dos beneficiários não as paga. A inadimplência nessa faixa chega a 20%.

Outros vendem ou alugam as casas que deveriam servir para dar a essas comunidades as condições mínimas de vida digna e servir de trampolim para outras conquistas, como Educação, Saúde, Trabalho...E os imóveis somente são retomados quando há denúncias veiculadas na mídia; não há um procedimento sistemático de fiscalização (ou canais para a população denunciar) do uso e ocupação desses imóveis.

Situação semelhante ocorre no Programa Bolsa Família, em que as fraudes somente são combatidas quando chegam denúncias à mídia.Dilma não percebe que essas questões, muito antes de envolverem aspectos da moral burguesa – que ela repudia –, dizem respeito à Cidadania. Aquela Cidadania tão necessária para a construção de um país moderno e de uma classe média consciente e crítica, não meramente papagaia de telejornal como ocorre hoje.

Caso Petrobras


Esse caso é exemplar da forma como Dilma ataca os problemas. Desde 2011, pelo menos, a corrupção na Petrobras está sendo combatida pelo governo, que colocou no comando da empresa uma pessoa de confiança, Graça Foster. Contudo, pouco ou nada foi feito nesse período para conter o roubo na estatal e para responsabilizar os corruptos.

Em depoimento à CPI da Petrobras, no ano de 2014, Graça Foster revelou sua inação e complacência com os colegas corruptos. Reconheceu a roubalheira, mas suas providências para sanar o problema foram transferir os ladrões de diretoria, enviá-los para o exterior etc.

Nesse ritmo, o corporativismo de Graça Foster e a inação da presidente Dilma vão acabar por desmoralizar a honestidade.

Tão grave quanto a corrupção é a incompetência e a ineficiência no trato da coisa pública. Mas nem uma coisa, nem outra resultaram punições na estatal. Ao contrário, os funcionários incompetentes que fizeram o projeto da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, que só a parte da terraplenagem representou 40% do valor total da obra, certamente receberam seus bônus de desempenho, promoções, aumentos etc. Quando deveriam ter sido demitidos, perder bônus e gratificações, sofrer repreensões, ser cobrados duramente por sua ineficiência etc.

Os diretores flagrados roubando deveriam ter sido denunciados à Polícia Federal, sofrer processos da Petrobras para ressarcimento dos valores roubados, ser demitidos por justa causa, receber punições que valessem como exemplo a todos os demais.

Mas nada disso aconteceu. Ao contrário, quem assistiu os depoimentos de Graça Foster à CPI a viu falando com carinho do ex-diretor Paulo Roberto Costa, que admite ter roubado mais US$ 100 milhões da estatal, e elogiando a cúmplice do ex-diretor corrupto, Venina Velosa.

Dilma não tem o comando do combate à corrupção


Por incompetência do ministro da Justiça, Eduardo Cardozo, que não manda na Polícia Federal, Dilma fica com todo o ônus do combate à corrupção e nenhum bônus.Embora não impeça, nem atrapalhe o trabalho da Polícia Federal, ao contrário do que fazia o ex-presidente FHC, Dilma não tem o reconhecimento popular do combate à corrupção.

No imaginário popular, alimentado propositadamente pela mídia, os que combatem a corrupção são o Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal.

E o mais grave é que esse mérito não fica com a parte boa dessas instituições, mas justamente com a parte podre, aquela que atua para encobrir a corrupção quando ela envolve seus aliados das oposições, aquela que omite provas, senta em cima de processos até os prazos prescreverem ou o povo esquecer.

Aqueles agentes públicos que vazam para a mídia o menor indício de envolvimento de agentes do governo nos malfeitos, negando-lhes o direito ao contraditório e praticando os chamados “assassinatos de reputação”.(continua)

sábado, 20 de dezembro de 2014

O sangue nordestino está no nosso DNA



Trecho da apresentação e recital do cantor Lirinha, durante o II Congresso Internacional do Livro, Leitura e Literatura no Sertão - Clisertão 2014. O evento é uma realização do Governo do Estado de Pernambuco, através da Secult-PE, Fundarpe, Universidade de Pernambuco, em parceira com a Prefeitura de Petrolina.
www.clisertao2014.com

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Adeus ao magnífico Chaves (El Chavo del Ocho)

Roberto Gómez Bolaños, o imortal criador do personagem Chaves e demais personagens do seriado mais famoso das TVs mexicana e brasileira, morreu no dia 28 de novembro de 2014, em Cancún, México, aos 85 anos de idade. Deixou órfãos milhões de homens e mulheres que mantêm vivas interiormente as crianças que um dia foram.


(Fonte: portal da revista Veja)

Memória

Morre o mexicano Roberto Bolaños, o eterno Chaves

Responsável por um fenômeno televisivo que arrebatou legiões de fãs em toda a América Latina, humorista estava com a saúde fragilizada nos últimos anos

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Roberto Gómez Bolaños
Roberto Gómez Bolaños - Divulgação
Criador de um fenômeno televisivo que, a partir do México, se espalhou pelo continente e conquistou legiões de fãs em toda a América Latina, o humorista mexicano Roberto Gomez Bolaños, autor e intérprete dos personagens Chaves e Chapolin, morreu nesta sexta-feira, aos 85 anos. Com a saúde fragilizada há mais de uma década, Bolaños passou os seus últimos anos em uma cadeira de rodas, lutando contra problemas respiratórios e complicações de diabetes. Nesta sexta-feira, ele sofreu uma parada cardíaca.

A morte de Bolaños deixa órfã uma geração de fãs brasileiros que cresceu assistindo aos episódios de Chaves, a sua principal criação, reprisados exaustivamente pelo SBT ao longo das últimas três décadas. Um grupo de admiradores fiel que, ignorando todas as limitações técnicas da produção, sempre garantiu ótimos resultados de audiência ao programa mexicano – e sempre mostrou um impressionante poder de mobilização a cada ameaça de cancelamento das exibições do seriado, com campanhas fora e dentro das redes sociais. Nesta sexta, com a notícia da morte do humorista, a direção do SBT estuda levar ao ar um especial para homenageá-lo.

Acervo Digital de VEJA:
Sem querer querendo, humorístico vira santo milagreiro do SBT
Entrevista com Roberto Bolaños: 'Chaves é uma criança com fome'

Razão de tanto carinho, a história do garoto orfão que "sem querer querendo" inferniza a vida da vizinhança caiu nas graças do público apostando em piadas ingênuas e sem apelação: um exemplo claro do tipo de humor que Bolaños pregava. "Quando sobram piadas chulas, é porque falta talento", afirmou o mexicano em entrevista a VEJA em 1999. Mesmo não sendo um adepto do politicamente correto – como as pancadas de Seu Madruga em Chaves deixam claro –, Bolanõs fugia do humor preconceituoso nos seus roteiros. "Sempre evitei fazer piadas com raças, religiões, opções sexuais e mulheres. Aliás, nos meus programas as meninas sempre são mais inteligentes. No Chaves, era a Chiquinha quem arquitetava os planos mirabolantes", comentou.
EFE
Debilitado, Roberto Bolaños usava cadeira de rodas
Pequeno Shakespeare - Antes de se tornar o criador – e o rosto – de Chaves, porém, Bolaños já havia construído uma sólida trajetória artística em seu país. Versátil, o mexicano trabalhou desde jovem nas mais diversas mídias: foi roteirista de programas de rádio, peças de teatro, esquetes de televisão e filmes no cinema – muitas vezes assumindo também o papel de ator. Tal habilidade rendeu ao multifacetado artista o apelido de Chespirito – "pequeno Shakespeare" –, alcunha pela qual ficaria conhecido no México até o fim da carreira, encerrada hoje.

A fama internacional, no entanto, só chegaria mesmo a partir dos anos 1970, com a criação de seus dois personagens mais famosos: o presunçoso herói Chapolin Colorado e o ingênuo Chaves. Dono de uma marreta biônica de plástico e de "anteninhas de vinil" sensitivas, Chapolin é uma divertida sátira dos infalíveis super-heróis dos quadrinhos americanos. A série colecionou um enorme número de fãs e conquistou o seu próprio status cult – camisetas com o emblema do personagem são um ícone pop até hoje –, mas seu alcance jamais superou o da outra criação de Bolaños.

A turma de ‘Chaves’ antes e depois do programa

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'Los Supergenios de la Mesa Cuadrada'

O programa de 1968 reunia os atores Rubén Aguirre (Professor Girafales), Roberto Bolaños (Doutor Chapatín), Ramón Valdés (Ingeniebrio Ramón Valdés) e María Antonieta de las Nieves (como ela mesma e apresentadora). Em tom bem-humorado, os personagens comentavam notícias do momento, intercaladas por esquetes divertidos.
Fenômeno latino - Exibido em mais de cem países ao longo de quatro décadas, Chaves desembarcou no Brasil quase por acaso. A série era parte de um pacotão de programas do canal mexicano Televisa comprado por Silvio Santos para turbinar a programação do ainda jovem SBT. Foi o início de uma bem sucedida parceria. Por quase trinta anos ininterruptos, Chaves foi uma das principais atrações – e curingas – da emissora, cobrindo qualquer buraco que surgisse na grade, e invariavelmente dobrando a audiência da faixa. No auge do sucesso, o humorístico cansou de dar surras na Globo, roubando o primeiro lugar no Ibope e deixando diretores do canal carioca temerosos por seus empregos.

Embora também tenha conquistado fãs em outras partes do mundo, foi na América Latina que a principal obra de Bolanõs ganhou contornos de fenômeno cultural – a ponto de ser comparada pela revista Forbes ao revolucionário Simon Bolivar por seu poder unificador no continente. Para o humorista, os índices de pobreza da região ajudavam a explicar o grande apelo do personagem entre os latino-americanos. "O Chaves é uma criança que não cresce porque não come. O personagem faz sucesso em qualquer lugar do planeta onde haja fome", disse ele na entrevista a VEJA.
Reprodução
Bolanõs abraça Maria Antonieta de las Nieves, a Chiquinha: disputas judiciais abalaram amizade com ex-colegas

​Triângulo amoroso - A exibição original de Chaves no México durou de 1971 a 1980 – terminou, portanto, anos antes de o programa sequer começar a ser veiculado no Brasil. Após esse período, o seriado sobreviveu até 1992 como esquete dentro do programa de Chespirito na Televisa, chegando ao fim por causa da idade avançada de Bolaños, então com 63 anos. Muito antes disso, no entanto, o humorístico já havia sofrido baixas em seu elenco – a primeira delas por causa de um inesperado triângulo amoroso entre Chaves, Dona Florinda e Quico. Ou melhor, entre Bolaños, a atriz Florinda Meza e o ator Carlos Villagrán.

Namorada de Villagrán durante anos, Meza trocou o parceiro pelo intérprete de Chaves em 1977. Logo depois, Villagrán anunciou sua saída do programa para seguir carreira-solo. A rusga entre os ex-colegas, porém, não terminou por aí e acabou se desdobrando em uma disputa judicial pelo personagem de Quico. Por causa da briga, Villagrán passou a se apresentar alterando a grafia do nome para "Kiko". Mostrando que o tempo não aplacou a animosidade entre eles, o ator acusou Bolaños em 2011 de não lhe pagar os direitos devidos pelo faturamento do programa. "Tudo quem leva é o Roberto, que é multimilionário", alfinetou.
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Atriz Florinda Meza, a Dona Florinda do 'Chaves' aos 22 anos
"Tinha 22 anos quando entrou no programa Chespirito. Era loira por motivos de trabalho", Roberto Bolaños. - Reprodução/ Twitter/VEJA

Conflito semelhante envolveu a intérprete de Chiquinha, Maria Antonieta de Las Nieves, que se desentendeu com Bolaños em 1994 e travou por mais de uma década uma batalha pelos direitos de uso da personagem. As disputas nos tribunais desgastaram a relação entre Bolaños e os ex-colegas e o criador de Chaves nunca mais retomou a amizade com a dupla. "Ele não atende meus telefonemas nem meus convites. Se não quer, não posso obrigá-lo a ser meu amigo", lamentou Maria Antonieta em entrevista ao site de VEJA em 2013.

O relacionamento com Florinda Meza, porém, rendeu frutos duradouros. Descrita por Bolaños como "uma dessas mulheres que passam de uma em uma e os homens seguem de três em três", a atriz, vinte anos mais nova do que ele, foi sua companheira por mais de trinta anos – nos últimos deles fazendo também o papel de assessora e enfermeira do marido já debilitado.

Perguntado muitas vezes sobre a razão do estrondoso êxito de sua principal obra, Bolaños tinha uma explicação simples – e surpreendentemente satisfatória – na ponta da língua: "Chaves sempre defendeu valores familiares como honestidade e compaixão, e as pessoas se identificam com ele por causa disso".

Personalidades dão adeus a Roberto Bolaños

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Edgar Vivar (o Seu Barriga de 'Chaves'), no Twitter

“Roberto, você não se foi, permanece em meu coração e no coração de muitos que você fez felizes. Adeus, Chavinho, até sempre.”