terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Folha, um jornal na UTI

Francisco Duarte

A burrice é veneno fatal, mas que mata aos poucos. Jornais podem padecer de muitos males, exceto da burrice crônica. O Estado de São Paulo quase foi para o buraco nos anos 80, vitimado pela concorrência da Folha, que surgia como o grande e moderno jornal brasileiro. A burrice do Estado de São Paulo não estava no conteúdo do jornal - de qualidade excepcional, sempre. Estava, sim, na mentalidade de alguns velhos comandantes do veículo, conservadores a ponto da obtusidade. Negavam-se a perceber que o produto que faziam havia sido apropriado pelo grande público, que conferira ao jornal o apelido "Estadão". Essa marca - Estadão -, de um valor imaterial inestimável, era rejeitada pelos velhos Mesquita, como naúfrago que recusasse a salvação em uma tosca canoa. Publicitários abriram os olhos da nova geração que assumia o comando da empresa nos anos 80, fazendo aqueles jovens empresários verem o tesouro que tinham em mãos. O apelido "Estadão", até então "proibido" pronunciar na redação, passou a ser exibido não só na propaganda dO Estado de São Paulo, mas se tornou freqüente no texto dos repórteres, exprimindo a intimidade do jornal com as fontes das notícias. Em conteúdo e qualidade, o Estadão sempre foi superior à Folha, mas estava fadado a morrer por ignorar que seu público, mesmo conservador, sofria as influências de um mundo que se abria e se modernizava. Hoje quem definha a olhos vistos é a Folha de São Paulo, vitimada pela mesma obtusidade que levou o Estadão para a UTI, de onde quase não saiu. Há muito a Folha de São Paulo deixou de ser um jornal independente e de ter o "rabo preso com o leitor", como propagandeava. Há muito a Folha se acumpliciou com o pior da política paulista. Houve tempos de arreglos com Orestes Quércia e com Paulo Maluf. Houve tempos menos sórdidos, de arreglos com Franco Montoro, com Mario Covas. Hoje a Folha não passa de um "diário oficial" de José Serra, encobrindo toda a qualquer denúncia de corrupção e incompetência dos governos tucano e demo. O caos em que o estado e a cidade de São Paulo se transformaram em quase duas décadas de administrações do PSDB e do DEMO é atribuído pela Folha às intempéries, aos acidentes da natureza, a São Pedro, aos nordestinos que migraram para erguer a metrópole... As denúncias de superfaturamento das obras do metrô e do Rodoanel, o uso da Sabesp para fazer autopromoção do governador em todos os recantos do Brasil, as evidências de corrupção na relação dos tucanos com a multinacional Alston, viadutos que caem sobre a cabeça dos motoristas, os engarrafamentos diários que chegam a dezenas de quilômetros, a cidade que sucumbe sob as chuvas de verão, entre outras tragédias diárias, são tratadas pela Folha com leniência e uma passividade que contrastam com o tratamento que o mesmo jornal dava à ex-prefeita Marta Suplicy. Em troca dessa cordialidade, a Folha é salva pela aquisição de milhares de assinaturas feitas pelo Governo José Serra para distribuir aos professores da rede pública (o mesmo que o governador Serra faz com a editora Abril e suas revistas Veja e Nova Escola). A Folha, que nos anos 80 vendia mais de 1 milhão de exemplares aos domingos e podia ser encontrada às 7 horas da manhã nas bancas de cidades como Cascavel, no Paraná, ou Fortaleza, no Ceará, hoje vende apenas 22,5 mil exemplares diários e já não tem mais circulação em todo o território nacional. A Folha de São Paulo, que um dia exibiu editorial na primeira página dando um "Basta!" ao então presidente Fernando Collor, tornou-se um jornal que agoniza em praça pública, vitimado pelas mentiras que publica para atender o projeto político de José Serra. Perdeu o respeito pelos leitores, perdeu o respeito por seu público de centro-esquerda, perdeu o respeito por sua história recente, cunhada a partir do finalzinho dos anos 70, sob o comando e inspiração de Claudio Abramo. E reassumiu a vocação de "sabujo" da ditadura, que exerceu em plenitude nos anos mais negros do regime militar (a quem interessar, recomendo o livro "Novos Cães de Guarda"), quando emprestava suas caminhonetes para transportar militantes políticos e estudantis para os porões do Doi/Codi, de onde muitos saíram para o cemitério. A Folha está morrendo. E não haverá quem chore em seu buraco.

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