José Ribeiro Jr., publisher do The Vila Biscaia Post
Talvez nenhum povo seja tão influenciável pela Rede Globo como o carioca. A grande maioria dos cariocas vive em cidades e bairros envelhecidos, maltratados por dezenas de anos de administrações incompetentes e corruptas, distantes muitas horas de seus locais de trabalho e de estudo, sem um bom restaurante, uma boa livraria, uma boa casa de shows, um bom cinema por perto. Com ruas esburacadas, calçadas arrebentadas, lixo espalhado por quintais baldios onde pastam cavalos (!), trânsito absolutamente caótico e ônibus caindo aos pedaços, apesar de tudo isso, todo bom carioca acredita piamente que a sua rua, seu bairro, sua cidade são iguais àquelas mostradas nas novelas globais das 7 horas e de depois do Jornal Nacional. Mesmo quem vive em bairros como Copacabana, em kitinetes de 20 metros quadrados, com pelo menos seis delas por andar, em prédios de 20 andares, construídos na década de 50 se convence de que sua moradia é tal e qual os espaçosos apartamentos de cobertura, com 2 mil metros quadrados de área privativa, nas áreas nobres de Ipanema, Leblon e na Barra. A mesma ilusão faz o carioca se ver como "alguém a frente de seu tempo", politicamente avançado, aberto a novas idéias e tendências. A realidade, contudo, mostra um povo altamente conservador, absolutamente despolitizado, presa fácil dos políticos mais atrasados e malandros. Em que outro lugar do mundo políticos como Moreira Franco, casal Garotinho, Índio da Costa, Cesar Maia, Carlos Lacerda, Chagas Freitas seriam endeusados? Qual outro povo tão pobre e explorado compartilharia a mesma visão de sociedade dos ultra elitistas Arnaldo Jabor, Danusa Leão, Diogo Mainardi?
Desde que o Rio de Janeiro deixou de ser a Capital da República, com o advento de Brasília, o carioca vive a fantasia de que o Rio ainda é importante, que o carioca dita a moda e os costumes para todo o resto do País, quiça do mundo. Não se dá conta de que só ele, e apenas ele, ainda acredita nessa fantasia que lhe é vendida por seu guru inabalável, a Rede Globo. O carioca vive no Estado mais belo do Brasil, o mais alegre, com a melhores praias, um sol maravilhoso, com pequenos restaurantes de qualidade internacional, bibliotecas, teatros e museus espetaculares etc etc etc. Mas a imensa maioria dos cariocas que vivem no Rio só usufruem dessas vantagens pela tela da Rede Globo. Pergunte a um carioca qualquer quando foi a última vez que esteve no Teatro Municipal? Na Biblioteca Nacional? No Museu da Quinta da Boa Vista ou no Villa Lobos? No restaurante Albamar? Não se surpreenda se 90% não souberem sequer do que se trata. A imensa maioria dos cariocas, quando muito, já foi uma vez ao Canecão, Sambódromo, Maracanã, ao Porcão... A tão decantada "alta cultura" que o carioca - especialmente o da Zona Sul - gosta de vender como um atributo de sua vida, do seu dia-a-dia, não passa das páginas de quadrinhos de jornais fuleiros como Extra, O Dia, O Globo. A suposta "fina ironia" que faria parte indissociável da personalidade do carioca tem a dimensão das piadas (?) de programas decadentes e sem graça como Casseta e Planeta, Zorra Total, Turma do Didi, entre outras peças que ficariam melhor caracterizadas como "fúnebres". A vida do carioca é tão divertida quanto esses programas, ou as piadas do Pasquim (ainda existe???) Para compensar a vidinha mais ou menos que se acostumou a levar, a Rede Globo induz o carioca a consumir, sem a mais leve reflexão, rios de cerveja de baixíssima qualidade e churrasco gaúcho, num ambiente de 40 graus. Já houve tempo, nos anos 70, em que o carioca embarcou na moda recomendada a ele pela Rede Globo de beber vinho tinto gelado a qualquer hora do dia, sob o sol escaldante. De uma hora para outra proliferaram em todo o Rio de Janeiro botecos de vinho, os mais vagabundos que se possa imaginar, onde se podia sorver, em copo de compota, um tinto despejado de garrafão de 5 litros. Nos mesmos anos 70, milhares de senhoras cariocas de inteligência discreta e soberba exuberante passaram, de uma hora para outra, a proclamar que a regra para adquirir cultura era assistir telejornais e ler revistas e jornais. Foi a época de ouro das assinaturas de Veja e Nova e do Círculo do Livro. Vem daí a fome insaciável que os cariocas têm de consumir informações superficiais e escandalosas, como as que lhes servem os telejornais popularescos (ou seja, todos), para terem assunto em mesa de bar, na repartição, no cafezinho da empresa, nas reuniões familiares, nos churrascos na laje, entre outros eventos sociais. O carioca considera fundamental parecer "estar por dentro", independente do que isto venha a significar. A propósito dessa ânsia de se sentir "inserido no contexto", para usar um expressão que já esteve na boca de 9 entre 10 cariocas, recordo uma vez, nos distantes anos 70, em que um colega me questionou sobre a melhor banda internacional do momento e, ante minha ignorância, pontificou: "fale que é o Santana, que você estará por dentro". O carioca é assim: pra que refletir, se a Globo entrega pronto tudo o que o carioca precisa para parecer "estar por dentro?" Agora, o novo prato feito que a Globo serve ao carioca para ele parecer que "está por dentro" é o "Marinasso", a tal onda verde de Marina Silva. Não que a Globo acredite nela, ou sequer apoie as suas propostas para o Meio Ambiente. Ao contrário, a Globo considera Marina Silva uma radical, eco-chata e atrasada. Mas, nesse momento, votar em Marina Silva significa a única possibilidade de levar José Serra, o candidato da Globo, para o segundo turno. Faltam 6 dias para as eleições e Marina Silva tem menos da metade das intenções de voto de José Serra. Portanto, ainda que ela cresça de maneira exponencial, quem irá disputar um eventual segundo turno com a Dilma é José Serra. Se houvesse a mínima possibilidade de que Marina e não Serra passasse para o segundo turno, a Globo desengavetaria as muitas denúncias de corrupção no Ministério do Meio Ambiente, inclusive envolvendo o marido da ex-ministra, o "dono" de várias ONGs ambientalistas, Fábio Vaz de Lima. Em 2005, o marido de Marina Silva foi acusado pela Polícia Federal de vender madeiras nobres, como mogno, que haviam sido apreendidas de desmatadores. Nem a Veja, nem a Globo irão lembrar agora essas e outras denúncias de corrupção envolvendo o círculo íntimo de Marina Silva. Assim, a Globo vai vendendo mais um modismo para os cariocas, para que não se dêem conta de que o Rio vem regredindo desde os anos 60, justamente por que o que prevalece no Estado são os interesses da Rede Globo. E os cariocas embarcam sem questionamento, como embarcaram em inúmeros outros modismos que a Globo, conforme as suas conveniências, vai lhes impondo. Não faz muito tempo - creio que todo mundo está lembrado disso - a Globo fez todo carioca repetir como um papagaio a fala "discernimento". Usar essa palavra conferia àquele que a proferia um certo ar de "intelectualidade". Não é uma maravilha? Não precisa estudar, não precisa ler, não precisa perder tempo em busca de saber, dispensa escola, livros, professores, não precisa sequer refletir: basta enfiar uma palavra bonita e sonora no meio de uma frase banal. Tipo assim: "tem que ter discernimento!" Pronto: o sujeito se sente um douto e, melhor que tudo, "por dentro". Portanto, em 2010, dizer que vai votar em Marina Silva é sinônimo de "ser inteligente", tão inteligente a ponto de terceirizar a capacidade de reflexão para a Rede Globo. Mas para quem já achou "o fino da moda" e demonstração de "inteligência" beber vinho vagabundo em copo de compota e proferir pomposamente "tem que ter discernimento" não chega a surpreender.
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