segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Memórias de um ex-vagabundo

--> José Ribeiro Jr.

O vagau em 1964
Ex-, sim, porque já há algum tempo decidi abandonar a vagabundagem como método de vida. E devo esclarecer que o que me moveu não foram questões morais, éticas, tampouco religiosas. Decidi eliminar o vagabundo que durante décadas existiu em mim quando me convenci de que ser vagabundo dá uma tremenda canseira...
Parece um paradoxo, mas é a mais cristalina verdade: a vagabundagem exaure o ser humano como nenhum esforço intelectual ou físico é capaz. É preciso esclarecer que com o vocábulo “vagabundo” não me refiro ao sujeito que dorme em bancos de praça ou sob marquises (não confundir com os sem-teto) e vive da caridade alheia. Não, eu me refiro àquele tipo preguiçoso, procrastinador, mas que no final das contas tem que realizar a obrigação.
É nessa diferença que está a explicação. O vagabundo que não está nem aí para a vida, esse realmente tem uma existência sossegada, sem estresse. Nada faz, mas também nada tem. Já o vagabundo sinônimo de procrastinador, esse sofre o peso da tarefa não uma, mas duas, três, cinco vezes ou mais. Tantas vezes quantas aquelas em que ele adia a realização da tarefa. E quando, finalmente, se decide a executar o trabalho que lhe cabe, sofre penosamente, bem mais do que penaria se tivesse realizado de imediato a tarefa e se livrado dela. Isto porque, ao contrário do vagabundo na acepção da palavra, o procrastinador não tem saída: mais cedo ou mais tarde ele terá que entregar o trabalho.
A memória mais remota de minha experiência como vagabundo-procrastinador deu-se mais ou menos aos 7 anos de idade, quando freqüentava o 1º ano do curso Primário, hoje chamado Ensino Fundamental. No último dia de aula antes das férias de julho, dona Gisela, minha professora, mandou como tarefa para casa realizar 50 cópias de uma lição da Cartilha. Aquela coisa de “Ivo viu a uva” e por aí. Pois bem: em vez de realizar aquela porcaria toda de uma vez e brincar à vontade o resto das férias, fui adiando, adiando, adiando até o dia 31 de julho, véspera da volta às aulas.
Nesse dia – e depois do almoço – finalmente, comecei as 50 cópias. Mal concluí a primeira, com mais 49 cópías pela frente, por conta de um temporal que se formava, acabou a luz na casa. Acendi uma vela e fui em frente, mal enxergando o papel. Nervoso, errava frequentemente, a tal ponto que a borracha já gasta se acabou. Improvisei um “apagador” com miolo de pão e borrei o caderno todo. A mesa da cozinha, sobre a qual escrevia, era de taboas justapostas e o lápis afundava nas fendas, furando o papel e aumentando o aspecto mulambento do trabalho.
Morria de medo de não conseguir concluir e ser repreendido pela megera no dia seguinte. O cérebro funcionava como internet discada: pegava e travava, pegava e travava ... Enquanto escrevia me martirizava: por que não fiz isso antes, por que não fiz logo no primeiro dia, por que meus pais não me obrigaram a fazer essa coisa de uma vez??? E imaginava saídas para me livrar daquilo: e se eu ficasse doente repentinamente(?), se a casa pegasse fogo(?), até sofrer uma morte súbita me ocorreu. Me lembrava do ano anterior, quando ainda não freqüentava a escola, e desejava que o tempo voltasse atrás.
Aqueles pensamentos negativos e inúteis me angustiavam ainda mais e tornavam a tarefa uma atividade torturante. Fiz cada uma das 50 cópias como se carregasse o meu peso em pedras às costas, caminhando num pântano, numa noite escura, debaixo de chuva torrencial. Fui terminar lá pelas 7 horas da noite, com a casa ainda às escuras, extenuado e num estado de ânimo que hoje sei o nome: depressão. Já passei dos 38 anos e ainda me recordo daquela tarde/noite como se tivesse ocorrido ontem.
Mas ainda não é tudo: durante as férias, todos os dias eu acordava pensando na tarefa e sentindo um mal-estar por saber que era um erro adiá-la e pressentir que pagaria caro por aquilo. Eu até tentava me enganar dizendo para mim mesmo que “amanhã eu faço”, mas aquilo meio que estragava o meu dia. Especialmente na última semana de férias. Se eu tivesse feito as cópias de imediato, teria gasto bem menos de meio-dia, ainda que a luz faltasse, porque o raciocínio não estaria embotado por pensamentos angustiantes e negativos. E teria 29 dias absolutamente meus para brincar, sem aquela maldita sensação diária de que “iria me ferrar”.
Mas, enfim, consegui “sair vivo do outro lado”, e como ninguém me repreendeu, nem nada de ruim me ocorreu, não aprendi a lição. E segui pela vida afora passando por situações semelhantes, torturantes, angustiantes, degradantes. Até que finalmente tomei a decisão certa de acabar com o vício da procrastinação. Mas sempre penso no que teria sido a minha vida se eu tivesse levado uma surra lá atrás e me corrigido naturalmente.

2 comentários:

  1. Menino traquina!... Molecagem de criança... Suas traquinagens só a Você mesmo a memória para apontar...
    Hoje, Homem ainda traquina!... Na convivência com os mais chegados, revelações da sua vontade de estar de férias sempre... E como é bom!!! Melhor só a Fercea que quando pequenina dizia que ao crescer queria ser uma “aposentada”!!!
    Você é hoje o vencedor de muitas lutas. Essa “contra o adiamento do que deve ser feito” é uma nova e boa batalha a ser enfrentada. Me parece bem difícil. Faz parte de um chamado “inconsciente coletivo” de um povo... o nosso povo brasileiro. Conhecido por deixar tudo para a última hora... Estamos enraizados nessa nossa história.
    Mas, como irmã mais velha, não consigo senão lembrar-me de seu fascinante sorriso que iluminou muito a nossa casa... E também é bom lembrar quantas vezes se fez e se faz presente a bom tempo em sua vida adulta! Nossos filhos (do Osmar e meus) aprenderam no colo que a sua presença os acolheu e, se dificuldades vivemos, o fato de Você estar presente em “Hora (s) Certa(s)” vivificou, salvou...
    Continue perseguindo novos ideais, nosso irmão, HOMEM PRESENTE!!!
    Maria Lúcia/Osmar Matheus em 27/02/2012

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  2. Que engraçado, li o seu escrito com uma imensa vontade de lê-lo para os meus alunos.Hoje eu disse para eles, exatamente o que vc escreveu. Me incomoda ver o marasmo que esses jovens vivem, são jovens cansados.Não conseguem acabar com o vício da procrastinação, porque não se enxergam assim, mas não são felizes, parece que lhes falta algo.Talvez um empurrão ou quem sabe uma surra? Gostei muito do seu escrito, parabéns!!!

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