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| O Semeador, de Vincent Van Gogh, no ano da Abolição da escravatura no Brasil |
A casa onde moram é um barraco melhorado em um trecho da Rua Eugênio Parolin. Melhorado porque o casal começou a levantar paredes de alvenaria e fazer quartos, mas não pode concluir porque foi denunciado à Cohab. Resultado: teve que assinar um documento se obrigando a não fazer mais nenhuma alteração, sob pena de ter que abandonar o local. Por conta disso os “quartos” são separados por panos estendidos que isolam o espaço em que dormem o casal e a neném da outra “peça” onde ficam as crianças e os dois pré-adolescentes. Ali tem cama, tem armário, tem TV e outros bens adquiridos nas Casas Bahia com um carnê que ela paga religiosamente. Não se sabe se a casa tem banheiro, mas as crianças estão sempre asseadas, dentes escovados, roupa limpa. Demonstrações do zelo da mãe.
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| Luana e seus garotos: exemplo de cidadania |
Para se adequar à tarefa adicional a família criou uma rotina. Começa às 6 horas da manhã, quando Luana prepara as crianças e as leva à escola – dois em colégios da Prefeitura, outros dois em estabelecimento estadual. À tarde o filho mais velho freqüenta o contraturno em uma instituição religiosa, onde realiza alguns cursos que o preparam para o Programa Menor Aprendiz. Em casa ficam dormindo a neném e o filho caçula. Logo o marido chega do trabalho para dormir também. Até às 14 horas Luana faz as tarefas da casa, cuida da bebê e de Lucas, prepara o almoço e busca as crianças na escola. Então o marido acorda e assume a casa, em especial as atenções a bebê. Luana parte então para a atividade de carrinheira, na companhia de 2 filhos e do sobrinho.
O menino mais velho, de 14 anos, mesmo quando não tem o contraturno fica em casa com o pai, “porque sente vergonha” da profissão da mãe. Isso não é problema para ela, porque pressente que a conseqüência seria ele abandonar a escola para evitar a discriminação dos colegas. Não se pode condenar o menino por isto. E ela reconhece que a chance do filho está justamente na escola; fora dali, a outra oportunidade de ascensão econômica é no tráfico. Então que fique em casa ajudando o pai e fazendo as tarefas escolares. Uma demonstração de inteligência emocional impressionante. Quando cai a noite, o pai volta à atividade de vigia e então é o filho pré-adolescente que dá as atenções à pequena Rhaiana. Isso até Luana e as crianças voltarem com o carrinho carregado de papelão, garrafas PET e outros recicláveis.
Na esquina da Brigadeiro com a Vicente ela é bem conhecida de alguns moradores e de pessoas que freqüentam a área. Uma senhora para um instante e avisa que tem roupas usadas para trazer. Alguém estaciona um carro e entrega um velho patinete para os meninos. É uma festa. Outro reduz a velocidade e deixa algum trocado nas mãos das crianças em troca de um drops. Um casal pergunta se ela trouxe a lista de material escolar e de uniformes dos filhos. Ela não só trouxe como anotou no verso de cada lista o tamanho das roupas de cada um, o número do calçado, os respectivos valores e o endereço do fornecedor mais
Luana Lenita Linhares de Lima é a cara da nova classe D que ascendeu com o governo Lula. Mas não é isto que a faz especial, nem tão rara. A pobreza de recursos em que vive desde que nasceu há 30 anos não impediu que ela formasse um espírito de cidadã pouco comum, inclusive nos estratos mais bem aquinhoados da sociedade. Do pouco que ganha, a carrinheira Luana recolhe para a Previdência como contribuinte individual para ter direito aos benefícios do seguro social. Ela conhece os deveres do Estado e os cobra, indiferente ao mau atendimento dos funcionários da Prefeitura. Não aprova nem se envolve com o poder paralelo que domina a favela onde a família vive, mas sabe que ali não é a lei do Estado ausente que vige, então se enquadra. Se alguém manifesta a intenção de ir a sua casa ela adverte que não é qualquer carro que pode entrar ali; veículos brancos são mal-vindos, porque pode ser polícia ou de outro órgão repressor. Quebrar as regras do poder paralelo pode representar a perda do barraco, e ela não pode correr esse risco. Fez inscrição na Cohab para comprar a casa própria, mas quer mesmo é a regularização da propriedade no Parolin, porque ali perto estão as escolas dos filhos, o emprego do marido, o posto de saúde que socorre a família, a rota que ela cumpre diariamente para recolher seus recicláveis.
De maneira surpreendente para alguém que a sociologia política qualificaria como lúmpen, Luana está bem informada sobre todos os programas sociais do governo federal e da Prefeitura de Curitiba. E sabe como se valer deles. Recebe o reforço do Bolsa Família, aprende rudimentos da Informática no Liceu do Ofício, faz fisioterapia na bebê na unidade de saúde, possui cartão para compras no Armazém da Família... E o que mais surpreende é que ela utiliza esses recursos para impulsionar sua vida e não para acomodação. Seu nome também é consciência cidadã.
Descobrir o que faz de Luana uma cidadã tão consciente é uma tarefa que deveria interessar os cientistas sociais. Uma população de “Luanas” transformaria o País, quem sabe, em uma geração. Como tantas mulheres iguais a ela, também veio do interior tentar a vida na cidade grande. Perdeu a mãe muito cedo, foi criada pelo pai, que formou nova família e então os filhos da primeira união se dispersaram. É fiel da Igreja do Evangelho Quadrangular e com alguma freqüência refere que ela, o marido e os filhos “louvam”. Afora isto não tem qualquer traço característico dos chamados “crentes”. Não manifesta preferências políticas de nenhuma ordem e se refere a presidente Dilma com a intimidade de uma vizinha (“agora é mais, porque a Dilma aumentou o salário ...”, observou, comentando o ganho do marido). Nos cuidados que demonstra com a família e ao deixar transparecer que possui uma escala de valores nobres Luana faz lembrar a história que se ouve falar de Dona Lindu, a mãe do ex-presidente Lula. Será que o novo grande líder político nacional é um dos meninos que a ajudam na catação dos papeis? Ou será Lesslie que vai conduzir os destinos do País daqui a pouco mais de duas décadas? Parece improvável, mas também parecia há 60 anos quando dona Lindu colocou seus meninos num pau-de-arara e partiu para São Paulo.


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