Graças ao Lula
e ao PT, o Brasil não se meteu nesse buraco. Esse artigo é do
DEMo/tucano Mendonça 'no limite da irresponsabilidade' de Barros. A
Folha da Província de São Paulo divulgou escondido na contracapa do caderno Mercado, edição de
sexta-feira. Leitura essencial para quem consome informação, não
ideologia.
O livre-comércio pode ser um instrumento para acelerar o crescimento, mas nunca uma panaceia
Em janeiro de 1994 entrava em vigor, depois de anos de discussões
políticas, um ambicioso tratado de livre-comércio entre os EUA, o Canadá
e o México. Recebida com grande otimismo à época, principalmente na
sociedade mexicana, essa experiência deveria levar a um processo de
enriquecimento mútuo pelo canal do incremento comercial entre esses
países.
Muitos observadores apontavam esse caminho como o mais natural para
outras economias na América Latina, principalmente o Brasil. Criava-se
uma grande utopia entre os defensores do liberalismo econômico como
principal e mais eficiente via para trazer o progresso para as economias
menos desenvolvidas.
O sucesso retumbante das nações mediterrâneas e da Irlanda no espaço
comum europeu, naquele início da última década do século passado,
reforçava as expectativas e as apostas para o Nafta (North American Free Trade Agreement).
Passados hoje 20 anos do início dessa experiência, os resultados mostram
que o grande sucesso obtido inicialmente no comércio na região não
resistiu ao passar do tempo e às mudanças institucionais que ocorrem
inexoravelmente em um mundo complexo como o que vivemos. Por isso
amarras institucionais muito rígidas, em acordos como o Nafta, acabam por se transformar em elementos de desestabilização e de decepções.
Por exemplo, o aparecimento da China, como o grande parceiro industrial
dos Estados Unidos nos anos seguintes, ofuscou o dinamismo inicial e a
experiência foi perdendo progressivamente a força que seus criadores
previam ser perene.
Neste início de 2014, o comér- cio dentro do Nafta
voltou ao mesmo patamar que existia antes de 1994. As transações entre
seus três membros representam os mesmos 40% de seu comércio total, como
era em 1994.
Para o leitor ter uma ideia, no caso da União Europeia esse valor é
superior a 60%. Por outro lado, os resultados do acordo, como indutor do
desenvolvimento no Mé- xico, também apontam para um grande fracasso. A
relação entre o PIB per capita do México e dos Estados Unidos é hoje a
mesma que existia em 1994.
Tratando essa experiência --que se esperava revolucionária--, o jornal
inglês "Financial Times" descreve os resultados medíocres em uma
manchete que traz o tradicional humor inglês em sua essência: "México e Nafta aos 20 anos: o que deu errado para um dos Três Amigos""?
Nós, brasileiros, também vivemos esse período em que acordos de livre-comércio, como o Nafta,
eram apresentados como panaceia para os países emergentes, em busca de
um status mais avançado de desenvolvimento. Durante muito tempo fomos
assediados pelos norte-americanos para assinar um grande acordo regional
com a grande democracia do norte do continente.
Hoje esse sonho foi deixado de lado por falta de entusiastas e porque a
política externa dos governos do PT tem outras prioridades geopolíticas.
Mas mergulhamos de cabeça --e coração-- na utopia do Mercosul como uma
verdadeira zona de livre-comércio.
Felizmente, as regras e as amarras criadas no Mercosul refletiam --e
refletem-- muito mais o espíri- to macunaímico latino do que a dureza do
espírito anglo-saxão --ou germânico-- do Nafta e da União Europeia. O Mercosul é hoje um amontoado de regras não cumpridas e em acelerado processo de decadência.
Sempre fui cético em relação à criação de zonas muito amplas e complexas
de livre-comércio por uma razão muito simples: países e regiões são
organismos que sofrem mudanças muito complexas ao longo do tempo, e
arranjos rígidos como o Nafta
e a União Europeia não conseguem se adaptar a elas com a velocidade
necessária para evitar tensões deletérias em sua estrutura funcional.
Dentro da minha opção mais realista sobre as economias de mercado,
prefiro os acordos bilaterais, e mesmo assim com portas de saída bem
definidas em caso de necessidade.
O livre-comércio entre países, com regras realistas e funcionais, pode
ser um instrumento a mais para acelerar o crescimento, mas nunca uma
panaceia.
lcmb2@terra.com.br
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 70, engenheiro e economista, é
economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e
ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso). Escreve
às sextas-feiras, a cada 14 dias, nesta coluna.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizcarlosmendonca/2014/02/1415547-nafta-fracasso-de-uma-utopia.shtml
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