domingo, 1 de março de 2026

A indústria brasileira odeia o consumidor

Zé Ribeiro Jr

Será que só acontece comigo, ou vocês também têm essa sensação de que todo o produto que a gente gosta a indústria tira de linha ou estraga? Não sei vocês, mas comigo tem acontecido exatamente isso. Comecei a prestar atenção nesse comportamento da indústria após me frustrar inúmeras vezes ao tentar repetir a compra de um bem qualquer que havia me agradado. Houve vezes até que comprei logo duas unidades de uma colônia pós-barba, por exemplo, por ter a certeza de que o fabricante (Eudora), ao saber que o produto era do meu agrado (One Man), encerraria a produção, o que de fato aconteceu. Hoje uso um creme pós-barba do Boticário (Azulen), que não é exatamente a minha preferência, mas é o que sobrou.

Estou escrevendo e me lembrando de outros produtos, como um carro, por exemplo, que não é o tipo de bem que se possa (eu pelo menos) adquirir dois só pra se garantir. Pois em 2014 comprei um HB 20 sedan, 1.6 cilindradas, na cor cinza chumbo, com estofamento em tecido mesclando azul e preto, tudo enfim do meu agrado. Foi uma das minhas melhores compras, o carro desempenha bem, é confortável, seguro, com bom espaço interno e no porta-malas, e sobretudo um design bonito, moderno, elegante.

O carro já tem 11 anos de uso, está com 140 mil KM rodados, ainda funciona perfeitamente, mas já poderia ter sido trocado por um modelo mais novo. E já teria feito isso há pelo menos 5 anos, se a Hyundai não houvesse 'defecado' no desenvolvimento dos modelos mais recentes. O que era um carro bonito foi convertido em uma mistura de Fiesta 1998 com Fiat Panorama. A cilindrada foi reduzida para 1.0 turbo (tipo um Fiat Uno 1989).

O desenhista projetista que mudou as linhas do veículo, assim como o marqueteiro que aprovou a mudança para pior, em vez do PPR deveriam ter recebido o bilhete azul, o que provavelmente não ocorreu. Conheço inúmeros ex-donos de HB20 que não só deixaram o modelo para trás como também abandonaram a marca.

E as roupas? Nesse  campo os exemplos são fartos. Nos anos em que vestia terno era costume renovar anualmente um pequeno estoque de cinco ou seis camisas sociais da marca Dudalina. Caimento, tecido e acabamentos perfeitos, e o que mais apreciava era a gola com botões, que mantinham a gravata no lugar. Aposto que um belo dia os herdeiros de Seu Duda e Dona Lina estudando os relatórios perceberam que os clientes estavam felizes e deram a ordem: "acaba com esses botões na gola, não quero ver ninguém aqui satisfeito".



Os mocassins estilo italiano, com solado de couro que eu comprava às pencas na Samello, foram outro produto retirado do mercado. Os Sá e os Mello devem ter pensado: "o que esses babacas estão pensando??? Acaba; não fabrica mais mocassins. Vão ser elegantes noutra freguesia, aqui não".

Os jeans são outro capítulo. Eu já tinha perdido as esperanças de encontrar os antigos e bons jeans Lee e Lewis, que não deformavam nos joelhos nem tinham aquele ar de carroceiro de Butiatuvinha, que o brim usado atualmente pelas duas marcas dá às calças. Foi então que, meio por acaso, descobri um jeans que me agradou; tinha uma marca que eu desconhecia, mas logo me tornei consumidor: Dzarm Jeans (descobri mais tarde que era uma marca mais top da catarinense Hering). Consegui comprar três modelos, e foi só. Esses foram mais radicais: fecharam a fábrica e as lojas da marca. No Brasil inteiro.

Ainda sobre jeans, a bermuda Lewis era um clássico a ser comprado todo o verão. Mas foi só o fabricante perceber que era do agrado do povo para ele encerrar a produção: "VSF, estão pensando que estamos aqui para agradar vocês???"

A catarinense Hering produzia uma camisa polo amarela estonada que não devia nada à similar da Lacoste e era a cara do Verão brasileiro; só consegui comprar uma única vez, na loja de Camboriu, no início dos anos 2000, quando o balneário ainda não tinha sido invadido pela extrema direita de emprego público. Até parece que estou vendo os irmãos Bruno e Hermann Hering descendo pra área dos modernos teares e baixando a ordem: "vón si fudê, nón faiz mais essas postas; o povo que compre as porcaria da China do véio da Havan".


Nos supermercados a cena se repete: procuro a gasosa Gengibirra e só encontro Limão, Abacaxi, Framboesa. Centenas de unidades, nenhuma Gengibirra. Vou pra outra loja, de outra rede, e tudo a mesma coisa. - Ah, deve ser porque a Gengibirra vende muito, sai rápido. Sim, é isso mesmo, mas se sabem que vende muito, por que não aumentam as compras? Desconfio que supermercadista pensa que é mãe dos consumidores: - Vocês sabem quantas crianças na África dariam tudo pra ter uma gasosa de Abacaxi? Enquanto não terminar o estoque de Limão, Abacaxi, Framboesa ninguém aqui vai beber Gengibirra.

Uma coisa que eu tenho até receio de tornar público é a minha preferência pelo assento do corredor, seja em viagens de avião ou de ônibus. Meu receio é de que as empresas de transporte aéreo e rodoviário, ao saberem dessa minha preferência, mancomunadas com os fabricantes de aeronaves e carrocerias, dêem um jeito de acabar com os assentos de corredor só pra me ferrar. São capazes de colocar uma porta ao lado de cada fileira pra me obrigar a optar entre janela e meio. Além é claro, de ganharem mais um assento para vender aos passageiros. Auguro que os projetistas da Boeing e da MarcoPolo não leiam essa postagem pra não ter ideia. Os demais fabricantes podem ler à vontade; já cagaram nos produtos mesmo.

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