Depois de uma dezena de mudanças ao longo da vida, fiz a última em 2005. Desde então prometi à humanidade: nunca mais. Tudo começou quando escolhi a data pra fazer a mudança: 2 de novembro, Dia de Finados. Escolhi porque era feriado, mas nem me dei conta de que caia num sábado, o que dava no mesmo.
Pra economizar contratei um pequeno caminhão que fazia ponto na frente do meu trabalho. Acertei o pagamento por hora, acreditando que mataria tudo em umas 4 horas com folga.
Na noite da véspera reuni os três filhos que moram comigo e mandei cada qual encaixotar seus pertences. Esqueci que era noite de sexta-feira, dia de balada. Acabou que fiquei sozinho pra embalar minhas coisas, e o trio prometeu acordar cedo pra embalar as deles, antes do caminhão encostar, às 8 horas.
Só mesmo eu (e o Eduardo Suplicy) pra acreditar numa dessas. Às seis da manhã do dia seguinte o primeiro filho chegou em casa. O segundo chegou às 7. O terceiro telefonou às 9, avisando que “ia atrasar um pouco”. Só quem não atrasou foi o desgramado do homem do caminhão. Às 8 em ponto ele e 4 ajudantes bateram na minha porta.
Pior é que eu também não tinha embalado quase nada. Fui começar justo pela coleção de LPs. De cara deparei com o Gil de fardão na capa do primeiro disco que comprei com meu salário de boy, em 1971. Não resisti a ouvir o Domingo no Parque. Depois foi Procissão e depois o disco inteiro.
Em seguida, praga das pragas, deparei com a Nara e me lembrei da Rô, uma maldita por quem eu comia vagões e vagões de merda ao som de “Se você quer ser minha namorada ...”
Fiz a burrada de abrir uma garrafa de vinho e aí vieram a Fátima Guedes, João Nogueira, Dércio Marques ... e a lembrança da desgramada da Sônia, aquela va... Deixa pra lá. Resultado: bebi a garrafa inteira, peguei no sono ali no chão da sala mesmo, só consegui encaixotar os LPs.
Os sujeitos chegaram animados, querendo saber o que já tinha pra carregar no caminhão. Quando apontei as duas caixas de papelão com os discos deram risada. Na hora que me apresentaram a conta, no final do dia, é que eu entendi por quê.
Bom, os caras ignoraram os LPs e partiram pra desmontar coisas que não passariam pela porta, como o meu guarda-roupas e a estante da sala. E eu decidi desmontar o suporte do microondas – uma imbecilidade, porque já havia o devido suporte no apartamento novo.
Mas essa não foi a maior besteira que me acometeu. Não sei por que das quantas resolvi levar uma chave elétrica que havia mandado instalar para servir exclusivamente ao micro, que funcionava na corrente 220 volts.
Confiante na minha habilidade, não desliguei a chave geral pra fazer o desmonte. Desconectei os três fios da chave e fixei cada um no azulejo com uma tira de fita isolante. Claro que a umidade própria da cozinha logo deixou os fios soltos, balançando no ar. Apenas eu não vi.
Enquanto eu estava absorvido no desmonte da chave elétrica entrou no apartamento, sem qualquer cerimônia, o vizinho maluco do 22. Veio reclamar do barulho e ver o que estava acontecendo. Me viu na área de serviço e entrou na cozinha me xingando, como se estivesse na casa dele.
Quando se espremeu para passar pelo microondas, que eu tinha depositado no chão, encostou nos fios soltos. Deu um grito bárbaro e caiu desmaiado. Num gesto automático tentei erguê-lo e levei um coice também. Os fios estavam “colados” na bunda do velho e ao encostar nele levei uma descarga.
Finalmente desliguei a chave geral. Nisso os carregadores já estavam levantando o velho, que continuava desmaiado. Pensei que o desgramado tivesse morrido, mas ele se recobrou, só que urrava de dor. O choque havia sido tão forte que queimou a calça, a cueca e a bunda do velho. A pele tava preta e rachada, sangrando.
Os carregadores me ajudaram a botar o “lazarento” no meu carro e toquei pro pronto-socorro. Como ele não tinha condições de sentar, deixei o banco do passageiro meio deitado e pus o velho de bruços ali. Era uma cena tragicômica: o maldito com a bunda pra cima, exposta ao público, urrando de dor e me xingando.
Pra piorar, quando tive que parar num sinal vermelho, uns estudantes acharam que aquela bunda na janela era algum tipo de manifestação e socaram os vidros do carro, chutaram a lataria. Eu berrava “tô indo pro hospital, tô indo pro hospital”, mas ninguém ouvia nada.
Quando cheguei no PS pedi ajuda para tirar o velho do carro e um atendente veio com uma cadeira de rodas. Lá foi o velho de novo com a bunda pra lua e eu com a cara colada na parede com medo de encontrar algum conhecido.
Pois bem, entreguei o velho aos cuidados dos médicos e já ia voltando pra minha mudança quando quase me meto em outra confusão. Contei que a bunda tinha sido queimada no microondas e o médico imediatamente chamou a segurança, achando que eu estava fazendo experimentos com o sujeito. Felizmente o miserável estava lúcido e esclareceu o que tinha ocorrido. Cai fora antes que ele retomasse os xingamentos.
Voltei pro apartamento achando que a mudança estava bem encaminhada e me deparei com os carregadores e meus filhos escarrapachados no sofá da sala assistindo o desenho do pica-pau. Um deles era tão folgado que havia pegado uma lata de cerveja da geladeira. Quando me viu, rapidamente explicou que meu filho tinha autorizado. Na outra ponta do sofá o mané confirmava com a cabeça.
Tomei a lata quase vazia da mão do sujeito, joguei no chão e distribui um esporro geral. Quando me acalmei eles explicaram que o baú do pequeno caminhão já estava cheio e me esperavam para ir ao novo apartamento, que estava fechado e as chaves comigo. Lá fui eu com cara de tacho oferecer cerveja pra todo mundo.
Já era umas 11 e meia da manhã quando chegamos na nova morada. Botei o carro na garagem e fui pedir ao porteiro para desativar o motor e deixar o portão livre. O sujeito era um crente, e desses chatos. Fechou a Bíblia que estava lendo, pegou uma chave pra desativar o motor do portão e foi logo me advertindo:
- A síndica avisou o sr. que tem que interromper a mudança ao meio-dia e só pode retomar às 2 horas?
Eu perguntei: “pra quê?”
Com aquela cara de Flanders ele me explicou:
- É que na hora do almoço tem que deixar o elevador livre pras pessoas não se atrasarem.
A minha temperatura subiu: “sua anta, hoje é sábado e ainda por cima feriado. Quem é que tem pressa pra voltar pro trabalho?” O sujeito não gostou do “sua anta”, mas fez que não ouviu e insistiu:
- Ao meio-dia tem que parar, são ordens da síndica.
Eu engrossei: “vai chamar essa síndica”. E ele:
- Ela tá viajando.
Eu emendei: “olha, eu não vou parar coisa nenhuma, se alguém reclamar, manda falar comigo”.
Recomendei aos carregadores: “não segurem o elevador, se alguém precisar usar, dêem a preferência, e vamos trabalhar”.
O “Flanders”, vendo que eu não arredava o pé, saiu com essa:
- Se eu for demitido por sua causa o sr. vai ter que me arrumar outro emprego ...
Vi logo que o santarrão não ia me dar sossego, mas aí tive uma idéia. Deixei passar uns 10 minutos pra ele acalmar, voltei à portaria e perguntei: “você já foi pegar a Bíblia autografada pelo Edir Macedo que tão distribuindo na Igreja Universal?” Os olhinhos do sujeito brilharam.
- Onde?
“Ali na 7 de Setembro”, respondi, indicando a sede da Universal. E emendei: “vá lá, a síndica e a maioria dos moradores está viajando, eu tomo conta da portaria. Se alguém perguntar eu digo que você se sentiu mal e foi à farmácia”.
Se ele pedisse eu até dava o dinheiro pro ônibus, mas ele nem pensou nisso. Malandro, assentiu:
- Eu tô mesmo precisando comprar uns comprimidos pra dor de cabeça. Até as duas horas eu volto.
E se mandou.
Sosseguei. Finalmente vou continuar essa mudança.
Os carregadores já tinham tirado tudo do caminhão e colocado na calçada. Enquanto dois deles, ajudados pelos meus filhos, levavam as coisas para cima, o motorista voltou ao apartamento velho buscar o resto.
Eu finalmente me dei uma folga e fiquei me dividindo entre cuidar da portaria e vigiar a mobília na calçada. Nem precisava, porque a rua estava vazia. O movimento se resumia a uma ou outra moradora dos prédios vizinhos, que saia pra dar uma volta com o cachorro. Quando isso acontecia eu aproveitava para dar uma conferida e ir reconhecendo o terreno.
Estava me sentindo até feliz: brilhava um belo sol, fazia um calor gostoso, eu ali de bermuda e havaianas, sem camisa, contente com a compra do apartamento, vistoriando o mulherio com aquele ar de macho novo no rebanho.
Estava ali devaneando quando fui subitamente arrancado para a realidade por uma voz que parecia um comando militar:
-Ei, você!
Me virei e avistei numa janela do segundo andar um sujeito de uns 60 anos, cabelos brancos impecavelmente penteados, de camisa fechada até o colarinho naquele bruta calor. Tomado de surpresa perguntei: “o que é?” O sujeito devolveu, irritado:
- O que é, não! Me chame de senhor”. E foi emendando (aos berros):
- Vá vestir uma roupa decente, se quer ficar na frente do prédio!
Era o que me faltava. A moça do cachorro vinha voltando, eu querendo puxar uma conversa e o cabeça branca me chamando a atenção como se eu fosse um recruta dele. Minha paciência já tinha ido toda embora. Olhei bem pro sujeito, ergui a mão direita destacando o “pai de todos” e larguei: “vá à merda!”
A moça atravessou a calçada e entrou rapidamente no edifício ao lado. Acompanhei com o olhar pra ver se ela se voltava, mas nada. Por um instante até esqueci do panaca do segundo andar. Ele é que não se esqueceu de mim, e mal me virei ele estava do meu lado me intimando:
- Seu moleque, me respeite, quem você pensa que é?!
Naquele momento parece que fui inspirado por alguém que gosta de mim lá em cima. Saquei no ato (aos berros): “se você tá querendo saber quem eu sou, sou promotor de Justiça”.
Não sei de onde eu tirei essa. O mais próximo que cheguei do Ministério Público foi uma vez que repassei um e-mail pornográfico para a minha lista de contatos e, por um desses mistérios da Web, acabou indo também para o Procurador-Geral do Estado, que me chamou em seu gabinete para explicações. Disse-lhe que eu, como cursilhista, também tinha ficado surpreso e indignado com aquilo. Ele entendeu.
Mas voltando ao bronco cabeça branca, quando ouviu eu dizer que era “promotor de Justiça” ficou lívido, me pediu desculpas pelo mal entendido, foi logo me dando as boas-vindas ao prédio e se apresentando: era o vice-síndico. Trocamos gentilezas como se há dois minutos ele não tivesse me chamado de “moleque” e eu não lhe tivesse “mostrado o dedo do meio”, como dizem meus filhos.
Estávamos os dois ali trocando mesuras quando avistei o porteiro que eu mandara pegar Bíblia autografada pelo Edir Macedo. Ele vinha bufando, com cara de “poucos amigos”. Antes que ele abrisse a boca o cabeça branca foi saudando: “seu Lindolfo, já deu as boas-vindas aqui ao doutor?” O porteiro ficou desarmado: “já..., já conheci, sim, até avisei que eu ia comprar um melhoral pra dor de cabeça ... “ – e saiu de fininho.
Tratei logo de me livrar do cabeça branca e acabar com aquela mudança, antes que acontecesse mais alguma coisa.
Quando os carregadores depositaram a última mobília no apartamento eram 18 horas! - seis horas a mais do que eu havia previsto. Fiz o cheque, dei uma lata de cerveja pra cada um, agradeci e finalmente fechei a porta pra descansar.
Mal me estirei no sofá atravessado na sala, tocou o celular. Número desconhecido, quem será? Era do pronto socorro, eu tinha esquecido o velho lá. Toquei pro hospital e quando cheguei, mais uma surpresa: tinha uma conta de quase R$ 500 pra eu pagar pelo remendo na bunda do velho. Preenchi o cheque, enquanto o desgramado gemia de dor e me xingava.
Descarreguei o “lazarento” no apartamento dele e fiz uma promessa solene à humanidade: mudança, nunca mais!
PremiaçãoEsta crônica, divulgada inicialmente no Blog Balaio do Kotscho, ganhou o "prêmio Ricardo Kotscho de elogio", o que muito me orgulha. Para não passar por mentiroso, colo mais abaixo o comentário publicado pelo blogueiro no dia 30/8/2009. Quem preferir, pode conferir direto da fonte, bastando clicar no seguinte link: http://colunistas.ig.com.br/ricardokotscho/2009/08/30/as-agruras-de-um-cliente-falando-com-o-sistema-da-net/
"Semana atípica
Às voltas com a mudança de apartamento, tema de dois posts esta semana, fiquei sem assunto e sem tempo para o Balaio, mas mesmo assim não posso me queixar. Mais do que a quantidade de comentários, que se mantevce dentro da média, apesar das poucas atualizações, o que me deixou mais contente foi a qualidade das mensagens enviadas, com depoimentos fantásticos sobre mudanças de casa e de vida.
No começo do Balaio, eu pedi para não fazer moderação _ não apenas porque não pretendia censurar ninguém e queria deixar a área de comentários livre para cada um escrever o que bem entendesse, mas também porque não queria passar o dia inteiro escravo do computador;. Quando me pediram, no início deste ano, para fazer moderação e eliminar os comentários ofensivos de meia dúzia de cachorros loucos, pensei apenas no trabalho que iria me dar, mas não tinha outro jeito.
Pois posso garantir a vocês hoje que ler o que vocês escrevem me dá tanto prazer como publicar um post novo. Não são poucas as vezes em que os leitores não apenas complementam o que escrevi, como enviam textos priomorosos, melhores do que o original do blogueiro.
Foi o que aconteceu esta semana dezenas de vezes, mas recomendo especialmente a leitura de dois deles: a crônica “Minha derradeira mudança”, de José Ribeiro Júnior, enviada às 2:09 de sexta-feira, e os vários textos sobre o tema enviados por Salete Cesconeto de Arruda, o primeiro deles às 23:53 da quinta.
Se continuar assim, daqui a pouco posso só dar o tema e voces mesmos desenvolvem, escrevem o resto…"