(Para Minas Gerais, minha terrinha, sobretudo com Helena e Clarinha)
"Espírito de Minas, me visita, e sobre a confusão desta cidade, onde voz e buzina se confundem, lança teu claro raio ordenador" (Carlos Drummond, em Prece de Mineiro no Rio)
Há sete anos, um sonho do tamanho de Minas vinha sendo gestado no peito. Sete anos de uma ausência que não é esquecimento, mas uma espera paciente, como a do ferro nas entranhas da terra. O desejo não era apenas de chão, era de sangue e de infância, de levar Helena e Clarinha para que seus pés sentissem a textura e o calor da nossa "terrinha".
No dia 10 de julho de 2026, quando o relógio mal marcava cinco da manhã, nós partimos de Curitiba. Edemir, Fercea, Clarinha, Helena e eu. Fomos rumo ao sol nascente, em direção ao abraço que as Gerais nos guardavam.
Chegamos! E Belo Horizonte nos acolheu com aquele calor que só os de casa sabem dar. Serginho, Jane e Dida abriram as portas e os braços, dissipando o cansaço da estrada.
O Sabor da Província e das Lembranças
No dia seguinte, a manhã já nasceu com cheiro de pão de queijo e café fresco. Na casa de Jane e Sérgio, ao redor da mesa com Jô e Rodrigo, reatamos os laços com a hospitalidade.
A Pampulha nos viu passar, com sua igrejinha que é curva e oração, e Dida se juntou à comitiva. Depois, a Praça da Liberdade, com suas palmeiras imperiais, e um café tardio no CCBB, onde a cultura e a conversa se misturaram.
A noite foi uma festa de sabores na casa de Flávio e Ondina. Entre as primas, rimos e comemos as delícias da terra — com destaque absoluto para aquele saboroso caldo de mandioca preparado pela Ondina. Um abraço em forma de alimento, "gostosura demais da conta", diríamos nós!
O Churrasco dos Vinte Primos
No dia 12, o ponto de encontro foi a casa de Dida e Rodrigo. Os pais dele, Ângela e Clodomiro, vieram com a amorosa deferência de quem sabe que família é território sagrado.
O churrasco reuniu o clã: vinte pessoas. O barulho de copos, risos, o aroma da carne na brasa e o sotaque amigo. Mas a maior alegria veio antes do almoço: a emoção do encontro com Luciana, Julinha — ainda um segredo abençoado guardado no ventre — e Dan.
Voltamos para a casa da Jane para dormir, com o peito cheio de afeto.
A Rota para Bom Despacho
No dia 13, Chico chegou a BH, completando o círculo. Tomamos café e rumamos para Bom Despacho em dois carros. Edemir e família, Jane, Sônia, Chico e eu.
Lá, os primos nos esperavam em um lugar especial onde almoçamos. Mas o coração bateu mais forte depois: a chegada à casa da tia Jacira. Ah, o encontro! A emoção de vê-la feliz, simplesmente por estarmos ali, compartilhando a presença e a vida.
Depois, na casa de Miroka e Paulo, vivemos o indescritível. A emoção que as palavras custam a traduzir, a certeza de que somos feitos da mesma raiz. Gratidão, família! Nessa noite, a dispersão foi o repouso merecido. Chico, Helena e eu fomos para o acolhedor apartamento da Celeste e Fercea, Edemir e Clarinha foram para o apartamento de Claudio e Luda, de onde partiriam para Curitiba logo cedo, às seis da manhã do dia 14, sentindo sabores agridoces de despedida e afeto!
Este dia 14 amanheceu com a partida de parte da nossa comitiva. Voltei para a casa da tia Jacira, mas uma dor forte no joelho direito me levou à Santa Casa. Com a dedicação e o amparo do Chico, da Helena e das primas, fui liberada quase ao cair da noite.
Dormimos no apartamento da Celeste numa noite tranquila antes da inevitável despedida. Deixamos em Bom Despacho um tanto de nós — coração, lágrimas e alma — especialmente com nossa tia Jacira, que já passa dos 96 anos de sabedoria e luz. Mas levamos nos corações uma gratidão inefável por tudo.
De volta a BH no carro da Jane — com Jane, Sônia, Chico, Helena e eu —, o reencontro continuou. Consegui rever os primos, filhos dos tios Irene e Mário, reunindo quase todas as suas famílias (uma verdadeira bênção conseguir isso em um único fim de semana!). Revi os filhos dos tios Raymundo e Dirce, com um carinho especial a Flávio e Ondina. Encontrei ainda o primo Tovinho (filho dos tios Ilza e Cristóvam) e a prima Lourdes (filha dos tios Antônio e Belchiorina).
A vocês todos, que nos deram o mais precioso de todos os presentes — o tempo de amorosidade —, a nossa eterna gratidão.
A Viagem que Não Termina
No dia 15, às nove da noite, saímos da casa da amada Jane rumo à rodoviária. Chico, Helena e eu embarcamos no ônibus leito para São Paulo, nos despedindo da nossa anfitriã-mor com o peito apertureiro de saudade.
A viagem física terminou na estrada, mas o rastro de Minas permanece. Como no verso drummondiano de que o amor é grande e cabe nesta janela sobre a serra, a nossa terra não é apenas um lugar no mapa: é esse abraço retomado que nos refaz por dentro.