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quarta-feira, 15 de julho de 2015

Algumas brasileiras ainda não chegaram a 1915


Capistrano de Abreu
Quando estamos para eleger a primeira mulher Presidente da República do Brasil considero oportuno divulgar trecho de uma carta que escreveu o diplomata Martim Francisco Lafayette de Andrada ao amigo Capistrano de Abreu – grande historiado brasileiro e nosso tio-avô – em março de 1917. Martim escrevia de Bordeaux, França, e falava, entre outras coisas, da admirável conquista que as mulheres estavam realizando: a igualdade de direitos com o sexo masculino. O mundo, então, vivia a Primeira Guerra Mundial. É incrível como hoje, decorridos quase 100 anos, muitas mulheres brasileiras ainda acreditam que uma mulher não pode ocupar a Presidência da República.

“A mulher; leiteira que, na pré-história, dentro da caverna, se conservava ao lado da cria, enquanto o macho, em defensiva à entrada, vibrava a lasca de árvore e despedia a pedra, espada e artilharia primitivas; enquanto os vizinhos (os neutros) aguardavam dentre os resultados do combate a partilha da carne do vencido: a mulher, na Europa inteira, está a revelar idoneidade para todos os labores que eram, por decisão do homem, privilégio do mais forte, como tal se ele avaliando.

A aptidão da mulher para todos os trabalhos, que outrora lhe estiveram defesos, é hoje verdade incontestada. Sua superioridade analítica justifica as previdentes asserções de Stuart Mill; sua lida é mais delicada, mais honesta que a do homem.

Professora, médica, enfermeira, farmacêutica, hoteleira, guarda-livros, telefonista, mecânica, advogada, tudo isso e mais é a mulher na França; tudo menos eleitora e homem. Uma, jovem diplomada em Letras e em Direito, está trabalhando no Subsecretariado de Finanças: é a porta da governação que se abre ao feminismo.

Encerrado o grande conflito, acreditas que a mulher, desistindo de valor adquirido como capital humano, restitua ao marido mutilado ou ao irmão ensurdecido o emprego em que bem os substituiu? Resultante dum imprevisto metabolismo social, teremos a luta dos sexos sucedendo à das classes? Não exageremos os receios. Caso rivalidades apareçam, brandas interferências policiais renormalizarão a polissecular e inevitável convivência; e o mundo continuará a ser o mundo sob o influxo da mais justa e oportuna conquista de civilização: igualdade de direitos”.

Uma curiosidade - Em 11 de setembro de 1927, um mês após a morte de Capistrano, seus amigos fundaram a Sociedade Capistrano de Abreu, mas cometeram um ato que com a maior certeza do mundo desagradou o velho historiador cearense. Foi o seguinte: obtiveram a mudança do nome da rua onde ficava a casa de seu mestre, em Botafogo, chamada Travessa Honorina, para Rua Capistrano de Abreu. Honorina, para quem não sabe, era o nome da filha de Capistrano.