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domingo, 11 de dezembro de 2022

O evangelismo de resultado

As igrejas evangélicas neopentecostais que atuam no Brasil devem o seu sucesso à exploração de um nicho de mercado, por elas descoberto. Trata-se da venda do perdão divino ao “rebotalho”.  De onde saiu isso? Da observação pura e simples (à espera de que sociólogos se debrucem sobre o assunto). Explica-se: as Igrejas Católica e as Protestantes tradicionais sempre “venderam” o perdão divino para os ricos e poderosos: reis despóticos, banqueiros usurários, chefes de Estado corruptos e genocidas, fazendeiros escravagistas e assassinos, financistas corruptos de toda ordem, herdeiros de grandes fortunas deformados morais etc etc etc.


O que as evangélicas neopentecostais que atuam no Brasil descobriram é que a venda do perdão divino ao rebotalho era uma oportunidade de negócio inexplorada; o “rebotalho” representava uma imensa fatia de mercado, que era desprezada pelos dois principais expoentes da fé cristã.


E então abraçaram com avidez esse nicho, representado por traficantes de drogas e armas, assaltantes de bancos, matadores de aluguel, doleiros, estelionatários, contrabandistas, fraudadores, falsificadores, mercadores do sexo, estupradores, pedófilos, praticantes de furtos em geral, golpistas de toda ordem, funcionários públicos corrompidos, vendedores de pareceres e sentenças, assassinos de ocasião, gente que vive de pequenos expedientes etc etc etc.


São crimes em que os agentes não têm pruridos de sujar as mãos – ao contrário da pseudoelite, que delega a execução dos crimes mais bárbaros (e paga migalhas por isso) justamente ao rebotalho da sociedade, que vive ainda num estágio de barbárie intelectual, social, sanitária, moral e em tudo o mais.


As neopentecostais perceberam que nesse nicho – pela enorme quantidade de agentes – circulavam grandes somas. E se fosse aplicado a ele algumas regras, organização e estrutura seria possível fazer render muito mais. E onde há mais dinheiro, pela lógica direta das neopentecostais, há muito mais dízimo!


Foi o que fizeram; ajudaram a profissionalizar as atividades criminosas do “rebotalho”, grupo social que, hoje, pelo nível de sofisticação das práticas alcançado, já não cabe mais no adjetivo substantivado.


A retribuição financeira que os agentes criminosos desse nicho de mercado dão às igrejas neopentecostais se expressa nos palácios por elas erguidos nas principais capitais brasileiras, na ostentação de riqueza de seus líderes (embarcações de luxo, aviões e helicópteros com que se deslocam pelo mundo, mansões e fazendas etc).


Um dado bastante ilustrativo dessa venda e compra do perdão divino foi a descoberta da doação de R$ 100 mil de um traficante ao pastor Silas Malafaia, ocorrida há não muito tempo. Essa transação só se tornou conhecida do público porque caiu nas malhas da Polícia Federal. Não fosse isso, seria contabilizada naturalmente como “pagamento de dízimo” (ou algo parecido) à igreja de Malafaia, que se justificou com o argumento malandro de que “não pergunto de onde vem o dinheiro das doações que recebo”.


O perdão divino, nos casos dos crimes praticados pelo “rebotalho”, se assemelha, por exemplo, à remissão que empresários e banqueiros fraudulentos sempre buscaram em padres católicos e em líderes religiosos protestantes para cauterizar suas consciências ante o desemprego, a miséria, as mortes causadas por suas fraudes.


Mas há um outro viés a ser estudado, e que decorre da migração de comunidades antes chamadas “macumbeiras” para o evangelhismo neopentecostal. É o recurso à proteção divina para o corpo, que, diferente do que ocorre com os criminosos da pseusdoelite, sofre uma exposição direta no exercício da prática criminosa.


Antepassados desse grupo social recorriam às divindades da Umbanda, especialmente, para ter o “corpo fechado” em situações de troca de tiros com a polícia, ou eventualmente com as suas vítimas, mas também com adversários no mercado do crime. Hoje, antes de embarcarem em SUVs, armados com escopetas e munição pesada para dinamitar caixas de agências bancárias, interceptar carros fortes, transportar drogas e armas, executar pessoas como a juíza Patrícia Acioli, os criminosos dão-se as mãos, cerram os olhos, elevam o pensamento e clamam pela proteção de Nosso Senhor Jesus Cristo na missão que têm a cumprir.


Parte do butim vai para as mãos de pastores na forma de dízimo, em agradecimento ao “corpo fechado” pelo deus que derrubou as muralhas de Jericó.