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domingo, 12 de outubro de 2025

Minhas impressões sobre a Cidade de Manaus

Francisco Duarte



Quem visitar Manaus pela primeira vez deve estar preparado para encontrar uma cidade envelhecida, maltratada pelas administrações municipal e estadual, com muita sujeira nas ruas, que fedem a urina e fezes. Não era o que eu esperava encontrar na cidade que está no nosso imaginário desde os primeiros anos escolares, quando as professoras nos falam de um grandioso rio, um dos maiores do mundo, que atravessa uma floresta magnífica, de árvores mais altas do que os mais altos edifícios e que 10 homens não são suficientes para abraçar uma delas.

O saneamento da cidade é precário e não é raro encontrar esgoto escorrendo a céu aberto em áreas centrais. Ao longo de uma avenida estrutural, no lado Leste da Cidade, em um canal que separa as vias é despejado esgoto sanitário de moradias, empresas e pequenas indústrias, formando um córrego esverdeado e fétido.

Joga-se todo o tipo de lixo nas ruas (copos de plástico, garrafas pet, papel e papelão, frutas estragadas ...), mesmo em áreas em que há equipamento público para descartes. Muitos bueiros estão entupidos de resíduos a ponto de vedar as grades por onde deveria escorrer a água das chuvas. A cultura da sujeira impera, especialmente no Centro envelhecido de Manaus.

A área portuária é um pouco mais cuidada, talvez porque bastante frequentada por turistas estrangeiros que embarcam para passeios pelas águas do Amazonas. O Terminal Hidroviário não tem a sofisticação de aeroportos, está mais para rodoviárias, mas preserva um padrão razoável de limpeza e conforto - como ar condicionado - aos frequentadores. No portal de vidro de acesso ao terminal um COMUNICADO em boas dimensões avisa que os banheiros daquele ambiente público "são para uso exclusivo dos passageiros em viagens e clientes do centro comercial" e que é requerida a "apresentação do QR Code obtido com os lojistas ou bilheteria". Isso ajuda a explicar porque das ruas de Manaus emanam maus odores.

COMÉRCIO DE ZONA FRANCA

A região central da cidade é pulverizada de pequenas lojas de comércio de produtos importados. As ruas, apinhadas de lojas, vendedores e compradores se assemelham bastante a Ciudad Del Este, no Paraguai, assim como à Rua 25 de Março, em São Paulo, ou o popular bairro de Madureira, no Rio de Janeiro. Produtos eletrônicos, perfumaria, roupas, anabolizantes, quinquilharias de cozinha são algumas das mercadorias ofertadas ao público em disputa vocal pelos anunciantes.

Às 19 horas o Centro da Cidade "morre" com o fechamento das milhares de lojinhas de importados e o encerramento das também milhares de barraquinhas de frutas, roupas populares e badulaques em geral. Ruas antes apinhadas de pessoas repentinamente se tornam desertas e até o movimento de veículos cai consideravelmente. Quem caminhar pelas ruas vazias, especialmente turistas, irá se surpreender, mas nada que represente insegurança.

A propósito, a atual administração do Amazonas tem uma campanha de segurança pública curiosa, que usa o vocábulo "PAREDÃO" para transmitir a ideia de proteção às pessoas, ao mesmo tempo em que sugere uma advertência a quem pretenda cometer algum delito. O Sistema Paredão, como é denominado o programa de segurança do Governo em parceria com a Associação Comercial do Amazonas, faz a integração das câmeras de vigilância das empresas com a base da Secretaria de Segurança Pública do Estado. O compartilhamento das imagens captadas pelas câmeras privadas com aquelas dos totens estatais espalhados pelas ruas e praças de Manaus, que fazem o reconhecimento facial e veicular, reduziu significativamente as ocorrências de roubos e furtos na Capital e levou à prisão de pessoas condenadas e foragidas. Parece que funciona.

MANUTENÇÃO PRECÁRIA OU ZERO

Manaus, como já disse, é uma cidade de arquitetura e infraestrutura envelhecidas, o que não significa carência de recursos, mas desleixo da administração pública. O Estado teve um Orçamento aprovado este ano de R$ 31,4 bilhões, parte considerável proveniente do Polo Industrial de Manaus, mas também do setor Serviços, que está no topo da composição do PIB amazonense.

A propósito, a rede hoteleira, com exceção daquela instalada no Polo Industrial, está igualmente envelhecida. Às vezes, precocemente envelhecida, revelando falta de investimentos em manutenção. É verdade que essas são impressões de um viajante acostumado com a qualidade bastante razoável da infraestrutura de Turismo existente no Sul e no Sudeste, principalmente nessas duas regiões.

A falta de uma manutenção mais frequente não explica totalmente a deterioração precoce da infraestrutura da cidade e dos equipamentos públicos; aparentemente, há uma baixa qualidade dos materiais utilizados nas construções. Isto se percebe, por exemplo, no Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, totalmente reformado e modernizado na preparação do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Notadamente, a estrutura metálica do aeródromo de Manaus é de qualidade bastante inferior àquela de outros aeroportos reformados na mesma época, como o Affonso Pena, na Região Metropolitana de Curitiba, ou o Aluízio Alves, em São Gonçalo do Amarante, na vizinhança de Natal/RN. Desleixo, corrupção, incompetência???? Essa é uma pergunta sem resposta.

QUESTÃO CULTURAL

Independente disso, a frágil estrutura de saneamento, a falta de uma política de urbanização, a precarização dos serviços públicos, tudo isso somado à cultura de boa parte da população manauara que parece ter naturalizado o péssimo estado de limpeza e conservação das vias públicas compõem o retrato das áreas centrais de Manaus. Esse quadro não é exclusivo de Manaus, frise-se; as periferias de São Paulo e do Rio de Janeiro, por exemplo, diferem pouco ou nada da área mais antiga de Manaus. Mesmo na chamada "área nobre" como a Ponta Negra, a bonita praia fluvial manauara, a baixa qualidade dos materiais dos equipamentos públicos empresta um aspecto envelhecido a estruturas como o anfiteatro ao ar livre, construído à beira do Rio Negro.


São dois exemplos - o Anfiteatro e o Aeroporto - demonstrativos de que os administradores públicos do Amazonas tratam mal indistintamente tanto os ricos como os pobres. E isso contrasta com a alta qualidade e bom gosto daqueles que construíram o internacionalmente famoso Teatro Amazonas, uma das maravilhas brasileiras.

HERANÇA DOS BARÕES DO LATEX E VIDA NOTURNA

 

Considerado um dos maiores símbolos da "Belle Époque" no Brasil, o Teatro Amazonas foi inaugurado em 1896, no auge do ciclo da borracha, construído com os recursos financeiros gerados pela extração do látex das seringueiras. O Teatro é aberto a visitações guiadas, mas também apresenta uma programação eclética que vai da música clássica a apresentações de grupos populares. Também é palco de festivais que já são tradição na agenda cultural de Manaus (Festival Amazonas de Ópera, Festival Amazonas de Teatro e Festival Amazonas de Jazz).

As luxuosas e de bom gosto instalações do Teatro Amazonas são testemunhas do luxo e riqueza que imperavam na época áurea dos seringais: dos lustres que iluminam os ambientes, ao mármore das escadarias e colunas, passando pelas cadeiras originais da plateia e dos camarotes, assim como os espelhos de cristal, quase tudo veio importado da Europa. A madeira e a arte brasileira estão presentes no piso do Salão Nobre, que exibe um mosaico de cores formado por pequenas peças geométricas feitas em jacarandá e pau-amarelo, madeiras nobres brasileiras. A pintura que ilustra o teto do Salão Nobre é uma obra do artista italiano Domenico de Angelis, intitulada "A glorificação das Bellas Artes da Amazônia".

À frente do Teatro abre-se uma ampla praça, com barzinhos e restaurantes dividindo espaço com a majestosa Igreja de São Sebastião, contemporânea da construção do Teatro. O local (Largo São Sebastião) é bastante frequentado, especialmente à noite, quando o calor de Manaus dá uma mínima trégua. É um dos pontos do centro de Manaus em que há vida noturna.

Outra coisa que chama a atenção em Manaus é a pintura de elementos característicos da Amazônia na fachada de grandes prédios públicos, como o edifício do Ministério da Fazenda, onde uma criança indígena descansa apoiada em um tronco de árvore pendente sobre o Rio Amazonas. Outras edificações exibem elementos da fauna e do folclore amazônico, ilustrações que distinguem as construções em meio à "floresta de concreto".

INDÚSTRIA DA FÉ

Na minha curta passagem por Manaus não consegui visitar o MUSA, assim denominado o Museu da Amazônia, que fica a cerca de 15 quilômetros do Centro de Manaus e onde o visitante pode optar por fazer os percursos por conta própria ou com um guia. Elegi a quarta-feira, véspera da viagem de retorno, para conhecer aquela atração sem saber que este é o dia dedicado à manutenção daquele espaço. (Também não fui ver o famoso encontro das águas (Rio Amazonas e Rio Negro), menos por falta de oportunidade do que por ser pouco afeito a navegações. Me bastei com as imagens disponíveis na Web).

Frustrada a visita àquele museu ao ar livre, optei por retornar ao hotel de ônibus e assim apreciar melhor o trajeto. O transporte coletivo não contrasta com a cidade em geral, isto é, os ônibus são igualmente velhos e mal cuidados, mas a curta viagem valeu a pena pela experiência de viver um pouco do dia a dia do trabalhador manauara. A propósito, o povo de Manaus é amistoso e gentil em todas as situações e compartilha com os visitantes o desagrado pela má administração pública da cidade.

Nesse trajeto me chamou a atenção o grande número de igrejas evangélicas no Amazonas, muitas das quais lado a lado, o que deve gerar uma disputa renhida por fieis e dízimos. Quando cheguei ao número 37 desisti, para não me perder nessa conta. (Em pé no coletivo, a dois passos de onde me sentei, um pregador passou todo o trajeto conclamando os passageiros a amarmos a Deus, e parecia desagradado comigo por não responder "amém" às dezenas de "glória a Deus" com que entremeava a sua fala.)

Mais tarde, buscando complementar informações no Google, li que o número de igrejas evangélicas em Manaus chegava a cerca de 8,5 mil congregações em 2024, de acordo com a Ordem dos Ministros Evangélicos do Amazonas.

A MESA E AS ÁGUAS DA AMAZÔNIA

A comida é um dos pontos altos de Manaus. Os pratos com peixes da Amazônia, como tambaqui e pirarucu, especialmente estes, preparados com receitas variadas são servidos na maioria dos restaurantes, dos populares aos sofisticados. Para quem, como eu, não aprecia tanto os pescados há opções como carne de sol com queijo coalho, acompanhada de farofa de banana da terra, purê de macaxeira e salada de palmito de pupunha. A banana da terra, também chamada banana pacovã é ingrediente de diversos pratos, sejam doces ou salgados, como o escondidinho de tambaqui com essa banana especial. Para arrematar, sucos de taperebá (ou cajá), cupuaçu, graviola, acerola, manga, goiaba - estes os mais comuns.

Na véspera da minha despedida de Manaus fui finalmente conhecer a famosa Ponta Negra, praia fluvial às margens do Rio Negro, que fica a cerca de 15 quilômetros do centro da cidade. Parece outra Manaus: avenidas largas, bem iluminadas e sinalizadas, amplas calçadas com as mesmas pedras portuguesas da decoração de Copacabana, ciclovias, equipamentos urbanos, mirantes que dão para o Rio Negro, projeto de paisagismo e outras belezas comuns nos grandes centros.

 

O Calçadão da Ponta Negra é um convite à caminhada, especialmente ao amanhecer e ao entardecer - meu caso. Depois de conhecer razoavelmente a área em que se localiza o Anfiteatro ao ar livre, caminhar pelas areias em meio a banhistas e guarda-sóis, decidi percorrer a pé parte do caminho de retorno, pelo menos até o Shopping Ponta Negra. O início do percurso se deu em meio ao som ensurdecedor de milhares de periquitos que se recolhiam para o anoitecer nas copas das dezenas de árvores que ornamentam o calçadão. Mal sabia eu que aquela agitação próximo das 17 horas, com o sol ainda bastante presente, prenunciava temporal. Logo as nuvens apagaram o sol, as primeiras gotas se precipitaram enquanto eu prosseguia na caminhada, deixando para trás abrigos de ônibus e pontos de venda de água de côco e refrigerantes. Minha aposta em um breve chuvisco se converteu em uma hora cheia de chuva intensa, ao cabo da qual eu havia caminhado 1,5 quilômetros e me encontrava completamente encharcado. Quando finalmente a chuva cedeu, desvesti a camiseta para torcê-la e usá-la como uma toalha. A bermuda permaneceu encharcada, mas me sentei em um banco de concreto, descalcei o tênis e a meia e torci ambos. Assim, mais ou menos aprumado, adentrei o Shopping Ponta Negra e a primeira loja de calçados que encontrei para comprar um substituto ao All Star cinza azulado, acabado. Impossibilitado, por óbvio, de experimentar o novo calçado peguei um de numeração 41, paguei e chamei um Uber para voltar ao hotel. Na manhã seguinte, faltando 5 horas para o vôo que me levaria de volta a São Paulo, precisei voltar ao Shopping Ponta Negra para trocar o calçado por uma numeração maior. Bati na porta da loja - àquela hora (8:00) ainda fechada - e expliquei a minha situação. Os vendedores foram compreensivos e me livraram de viajar de Havaianas.

Assim encerrei a minha curta (uma semana) e boa estadia em Manaus, de onde levo saudades e boas recordações. Até a chuva torrencial que me apanhou nas calçadas da Ponta Negra foi providencial, pois me proporcionou um banho indireto nas águas amazônicas.

Para encerrar, preciso registrar uma certa impressão de que o meu velho, ensopado e encardido All Star deixado no quarto do Hotel Saint Paul me dirigiu um olhar de abandono no instante em que, à porta do quarto, fazia a última inspeção para não esquecer nada. É um tanto envergonhado que confesso que dei adeus a ele, agradeci pelos bons momentos que compartilhamos e encomendei-o aos cuidados da santa Cássia Eller para encontrar um novo parceiro e não acabar em uma sarjeta do Centro de Manaus. Fechei a porta e parti com o coração apertado. Deve ser coisa do Espírito da Floresta.