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segunda-feira, 27 de julho de 2026

O Ouvidor de Histórias - Podia estar roubando ...

Se você tem uma boa história para contar eu quero ouvi-la. E se você concordar, quero recontá-la aqui, com pinceladas de fantasia. Os nomes dos personagens podem ser fictícios ou não; você decide.

Essa história eu ouvi de um motorista de táxi no Rio de Janeiro, lá por 2012/2013. Ficou na minha memória e agora compartilho com vocês. O título saiu um tanto aleatório, tem a ver com aquela coisa do sujeito que pede um troco e diz:"eu podia estar roubando etc". Não é o caso do nosso personagem. Quem sabe, por uma dessas coincidências da vida, esse registro chega ao conhecimento dele e se reconhece no relato. Oxalá assim o seja.   


O Ouvidor de Histórias
Na era pré-Uber, chamo um táxi para me levar ao Santos Dumont. O trajeto desde o finalzinho da Barra, quase Recreio dos Bandeirantes, até o aeroporto no Aterro do Flamengo é longo e, com esse trânsito de início da manhã, vai levar bem uma hora e meia, pelo menos. O motorista é falante, e geralmente isso é uma vantagem para quem se interessa em ouvir histórias. E a do Otávio Guedes* — o taxista, não o homônimo jornalista da GloboNews — parece boa.

Nascido e criado na Rocinha, hoje mora em uma comunidade (nova nomenclatura para as antigas favelas) que ele menciona, mas eu desconheço. Mora razoavelmente bem, pelo que deixa transparecer ao ver um toldo em uma loja de materiais de construção e comentar que comprou um igual para cobrir a piscina que mandou fazer em casa.

Me conta que a mulher é professora e tem uma "pequena escola particular"; o casal tem uma filha em fase de alfabetização. Dá a entender que são uma família bem ajustada, digamos assim. O carro que ele dirige é alugado de um terceiro, para quem paga uma diária. O táxi, na verdade, é um bico que Otávio Guedes arrumou enquanto está de licença do emprego de motorista do transporte de valores. Conta que teve um pequeno incidente no ombro e foi afastado pelo seguro-saúde, mas, como se sente bem, está aproveitando para fazer um dinheiro a mais.

Fico curioso sobre a atividade de transporte de valores e ele me conta que atua com uma equipe armada e que diariamente recebe um roteiro para recolher os valores e levá-los ao ponto central da empresa. Responde a uma curiosidade minha e diz que nunca teve nenhum episódio de assalto. Esperto, confidencia que, por conta própria, descumpre o roteiro prévio que a empresa lhe determina. Deixa claro que é uma medida de segurança que adota para evitar cair em alguma armadilha. Receia que algum comparsa de assaltantes entregue o roteiro aos colegas de quadrilha. Pergunto se a empresa não controla o cumprimento dos roteiros, e ele responde que sim, e que mais de uma vez foi chamado à atenção, mas diz, rindo, que o que conta é a segurança dele e dos companheiros. Vai mais além: relata que diariamente, antes de saírem à rua, reúne os dois seguranças armados que o acompanham, fazem uma oração pedindo a proteção de seus anjos e santos e passa a instrução: "Se ocorrer um assalto, não reagiremos; não vamos morrer para defender dinheiro" — resume.

Penso que eles estão certos.

Me conta que os amigos de infância e adolescência na Rocinha ou estão na prisão ou morreram. Fala de um amigo que ganhou muito dinheiro com atividades do crime — que não especifica — e lamenta que esse amigo tenha sido morto em confronto com a polícia. Gostava do amigo e conta que, depois que ele entrou na vida do crime, não tiveram muito mais contato e que, nas poucas oportunidades em que se encontraram, tentava convencê-lo a mudar de vida. Lembra que outros colegas, ao contrário, aproveitavam a boa vida que a amizade com o amigo bandido rico lhes proporcionava. Cita as festas, a piscina construída na casa edificada na favela, as bebidas, as drogas, as mulheres... E diz ter sido rude com amigos que se aproveitavam da boa vida proporcionada pelo parceiro rico, indiferentes ao destino quase certo que o aguardava, como acabou se confirmando.

Otávio Guedes é evidentemente alguém inteligente e bem articulado. Pergunto se fez algum curso técnico ou profissionalizante. Não apenas fez, como ganhou dinheiro transmitindo o conhecimento a outros.

— Como foi? — pergunto.

Me conta que na época das privatizações da telefonia no Brasil as empresas que adquiriram as estatais passaram a terceirizar tarefas que antes eram executadas por funcionários próprios. Um dia leu essa notícia em um jornal qualquer e, com essa ideia na cabeça, lhe chamou a atenção um carro com uma escada sobre o teto. Foi perguntar ao motorista e ficou sabendo que a Telemar — que havia comprado a companhia telefônica do Rio de Janeiro, a antiga Telerj — contratava terceiros para instalar as redes de internet e telefone nas residências e empresas. Quis saber como o sujeito aprendera a fazer as tais ligações e recebeu a indicação de uma dessas "escolas" particulares que começavam a aparecer para treinar os interessados. Matriculou-se, fez o breve curso, financiou a compra de um Fiat Uno, instalou a escada no teto, credenciou-se na Telemar e entrou no negócio de telefonia e internet. Saiu-se tão bem no cursinho que foi convidado a dar aulas aos novos alunos, e assim conjugou as duas atividades. Isso foi antes de entrar para o serviço de transporte de valores.

Volto à história sobre a origem na favela e questiono como ele conseguiu não se contaminar com o crime organizado ou as milícias, e a resposta é um antigo ensinamento de vida.

— Ouvi meus pais — diz, dando ênfase especialmente ao pai, já falecido.

O velho — conta — criou os filhos com a seguinte orientação: "Sigam o caminho certo, não façam nada que envergonhe os seus pais e estudem sempre, porque só se sai da pobreza pelo estudo."

Parece simples; certamente todo mundo já deve ter ouvido alguém se referir a esse tipo de orientação para a vida. Contudo, a eficiência, ou não, desse conselho depende de uma circunstância singular: precisa, necessariamente, vir acompanhada do exemplo pessoal. No caso do meu interlocutor eventual em uma viagem de táxi - se é verdadeiro o relato que me fez no percurso do Recreio ao Santos Dumont - o exemplo dos pais não conflitou com a recomendação passada à prole.

Enfim, chegamos ao Santos Dumont e eu me despeço de Otávio Guedes desejando que ele se recupere logo do problema no ombro e retorne a conduzir sua pequena equipe de transporte de valores. Sempre com sabedoria e segurança, com a consciência de que, se o dinheiro vier a trocar de mãos, que assim o seja: sem tiros, sem risco de vida. Ele não usou a expressão, mas eu intuí o que quis dizer: "O dinheiro que se dane; é a Vida o que importa."