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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Uma aventura na Serra do Mar

Francisco Duarte

Era o ano de 1968 e havia uma pedra no caminho. Não tinha nada a ver com a poesia de Drummond, nenhum significado metafórico. Era apenas uma pedra – e que pedra! – que eu resolvi colocar na linha do trem pra descarrilhar o bichão. Ergui o granito com certa dificuldade e dispus sobre o trilho. Fiquei imaginando o trem saltando da linha, campo afora.

Apesar de não passar de um PDB (piá-de-bosta) eu tinha certo know-how no assunto, adquirido em tentativas de descarrilhar um bonde que fazia a Estrada da Pedra de Guaratiba, no Rio de Janeiro. Na época, eu e alguns primos acreditávamos ser possível tirar o bonde da linha untando os trilhos com aquela gosma que envolve os bagos da jaca. O plano era executado em uma acentuada curva em declive, para aproveitar a força da gravidade. Mas apesar da nossa engenharia, para o bem dos passageiros, nunca fomos bem-sucedidos nessa empreitada.

Minha breve carreira de descarrilhador, aqui no Paraná, ocorreu lá pros lados de Roça Nova, na Serra do Mar, na velha estrada construída no século retrasado pelo engenheiro Antônio Pereira Rebouças Filho e 9 mil brasileiros anônimos. Era uma tarde de domingo e eu, mais meu irmão Fernando Wagner e o amigo Tebé havíamos passado o final de semana no Véu de Noiva e voltávamos a pé para Curitiba, margeando a linha férrea.

É bom que eu esclareça que os companheiros não me viram realizar a obra. Só contei a eles depois que o alvo da minha sabotagem passou em direção ao Litoral. – “Vou descarrilhar esse daí”, apontei, contando da pedra. Os dois deram um salto: “o quê??!! Tá maluco??!!”

Comecei a me dar conta do tamanho da besteira que eu tinha feito quando passamos pela Estação Roça Nova e um funcionário da RFFSA veio ao nosso encontro avisar que uma composição inteira quase tinha descarrilhado. Aquilo me provocou um calafrio na espinha e a forte impressão de que “ia dar merda”.

Tratamos rapidamente de cair fora dali. Mais ou menos um quilômetro adiante, ouvimos o barulho de outro trem se aproximando e nos escondemos na mata, antes de sermos avistados. Foi uma medida apropriada, porque em cima de um dos vagões vigiava um segurança armado com um fuzil militar. Só que não adiantou muito, porque pouco adiante, numa curva antes do túnel de Banhados, fomos surpreendidos por uma locomotiva cheia de seguranças. Nem deu tempo de correr.

Claro que negamos a autoria da sabotagem e, para nossa surpresa, os sujeitos acreditaram, especialmente o maquinista, que ficou nosso amigo e segurou a meganha. A partir daí a coisa virou festa: ganhamos uma carona pra Curitiba e na LOCOMOTIVA!! Quantos garotos já viveram uma aventura dessas, viajar na locomotiva?! Não precisa dizer que mexemos com todas as mulheres que avistamos pelo caminho: “gostoooooosa!” – e dá-lhe apito do trem.

A farra durou até o cruzamento da Avenida Afonso Camargo, quase chegando na antiga Estação Ferroviária, onde hoje é o Shopping Estação. Ali fomos parados por uma Rural Willys da Rede, atravessada na linha férrea, ocupada por três brutamontes, que nos levaram presos para o prédio da administração, na Ponte Preta. O chefe da segurança queria nos interrogar. O sujeito era um boçal, da altura de um bujão de gás e a largura de uma van. Fechou-se conosco em uma sala e começou a berrar, parecia que ia nos dar porrada.

Quando o clima estava ficando quente demais chegou “seu” Campelo, nosso pai. Pra minha suprema humilhação, ele perguntou ao meu irmão e ao Tebé se haviam colocado a pedra. Ambos negaram. Então ele me apontou e falou pro meganha: “esse eu sei que não foi”. Aí quem queria me dar porrada eram meu irmão e o Tebé.

Acabamos fichados na Rede, e a partir desse dia foi proibido caminhar pela via férrea. Só muitos anos depois fui compreender que havíamos sido tomados por terroristas, afinal, o ano era 1968 e vivíamos em plena ditadura militar. Creio que isto me confere o status de perseguido da ditadura, um ex-preso político, quase um Fernando Gabeira. Só não vou requerer indenização de perseguido político em respeito à memória do meu pai, Fernando Campelo Duarte, que morreu acreditando na minha inocência. Bom homem.

(O autor é jornalista e ex-sabotador dissimulado)