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segunda-feira, 16 de maio de 2016

A molecagem latente no espírito do Giova

O homem nasce , cresce, fica adulto, assume responsabilidades, mas o espírito moleque permanece ali latente, esperando oportunidade para dar o ar de sua graça. E o Giova não era exceção; portanto, não dá pra se falar dele sem lembrar as molecagens que ele vivia praticando ou participando.

Meu conhecimento do Giova data de 1984, quando trabalhamos (esse termo não soa bem aqui, mas vá lá) na Secretaria do Interior do então governo José Richa. Foi lá que a nossa mútua queda para a molecagem deu química, digamos assim. E a culpada foi a Cristina Mello, amiga comum, que nos apresentou.

Não arrisco relatar todas as molecagens que lá cometemos, para evitar ações judiciais; então, me limitarei às mais amenas. Mas, antes, rapidamente, preciso situar os acontecimentos e explicar o que nos motivava.

Giova sem retoques
Éramos, tanto o Giova quanto eu, jornalistas inadaptados à função de assessores de imprensa. Na Faculdade havíamos pregado tanto contra as Assessorias de Imprensa que sentíamos o peso da contradição.

Totalmente deslocados na função, nossos releases tendiam a reportagens. Tanto que tivemos a ousadia de inscrever dois trabalhos em um concurso. Um deles reportava o florescimento da Piscicultura na região Oeste do Paraná, outro explorava as expectativas de uma gente simples da localidade de Itaiacoca com a chegada, enfim, da energia elétrica, luxo que uma senhora que entrevistamos jamais havia “conhecido” em 92 anos de vida.

Faço esse registro tão somente para provar que até tentamos ser operários dedicados, mas não demorou a sucumbirmos ao clima de funcionalismo público. Digamos que resistimos dois anos e meio, mais ou menos, período que antecedeu a fase final do governo José Richa. No último ano da administração do político pé-vermelho, o Estado parou – e eu e o Giova aproveitamos para estacionar, descer e tomar um café.

Sem ter o que fazer, nossos dias eram dedicados a tramar e realizar molecagens. Vamos a alguns relatos:

A respeitável irmandade dos Alcoólicos Anônimos foi vítima do Giova. Ele descobriu o telefone do AA divulgado nas contas da Copel e passou a avisar os colegas que um certo Trivisan havia ligado e pedido para retornar.

Para quem não sabe, Trivisan era a marca de uma então conhecida “caninha”. O Giova passava o recado e ficava por perto espiando o sujeito ligar e ser xingado. Os xingamentos se tornaram mais pesados na medida em que o atendente do AA ia ficando de saco cheio com a brincadeira.

No andar de cima da Secretaria ficava a sala dos motoristas, e embora o Giova ligasse para lá avisando dos recados do “Trivisan”, não conseguia testemunhar as confusões. Um certo dia, porém, ele precisou requisitar um carro e foi até a sala dos motoristas, para voltar logo mais se rachando de rir.

No momento em que preenchia a requisição, a chefe do setor de Transporte viu no quadro de avisos o recado e cobrou do motorista: “ôoo, Geraldo, liga logo pra esse Trivisan; esse recado tá aí faz três dias!” A bronca irritou o Geraldo, que devolveu com essa: “eu não vou ligar pra esse filho da puta; ele xinga a gente!”

Quando ninguém mais caia na brincadeira, o próprio Giova passou a chamar pelo Trivisan no AA, só para responder aos xingamentos com mais gozação: “então me chama aí o 51, o Velho Barreiro, o Pitú...”

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De outra feita fomos surpreendidos no meio da noite por uma pane no carro da Secretaria quando estávamos a caminho de Cascavel, no Oeste do Paraná. Jurandir, o motorista, abriu o capô da Panorama (caminhonete da Chevrolet), mas não enxergava nada naquele breu de quase madrugada. O Giova aproveitou para zoar conosco:  apanhou a sua câmera dentro carro e avisou: presta atenção que eu vou iluminar. Com a máquina quase colada ao rosto do Jurandir, avisou: seja bem rápido, e acionou sucessivamente o flash da câmera, quase nos cegando.

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Com a ditadura militar agonizando, o povo passou da fase do medo ao deboche, e a ironia era uma “arma” contra aqueles que ainda davam sustentação direta ou indireta ao regime ditatorial. Quando deputados federais e senadores do Paraná rejeitaram a volta das eleições diretas para Presidente, a oposição divulgou os endereços pessoais desses políticos e sugeriu que a população manifestasse a eles o seu protesto. O Giova, contudo, optou pela gaiatice: usou aqueles endereços para preencher todo o tipo de formulário para contratar, em nome dos deputados e senadores traíras, assinaturas de publicações religiosas, enciclopédias, brindes, bijuterias e todo o tipo de bugiganga.   

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Finalmente, quando o senador Álvaro Dias foi eleito governador do Paraná, em 1986, em substituição a José Richa, o Giova bolou um plano para constranger o novo mandatário. 

Considerando que Dias fazia uma oposição meia-boca ao governo militar, o Giova achou que seria oportuno reatar os laços do Estado com uma das poucas ditaduras que resistiam no Cone Sul, a paraguaia de Alfredo Stroessner.

Valendo-se de seus contatos com militantes paraguaios tidos por “igrejeiros”, ele descobriu o endereço da sede do Governo do Paraguai em Assunção e redigiu um “ofício”, supostamente em nome da equipe do novo governador, convidando o general ditador Stroessner para estar presente à posse do então emedebista Álvaro Dias

Lamentavelmente, nem ele nem eu tivemos como acompanhar o desenrolar do imblógio diplomático, porque ambos pedimos demissão da Secretaria, para não dar a ninguém o gosto de nos chutar porta afora.