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quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Angústia II (Conto)

BR-116, 23 de dezembro de 1979.

Estou voltando para onde não há nada à minha espera. Este café à beira de estrada adia uns parcos minutos o meu destino e só faz aumentar a tensão que me põe um trem sobre o peito. Estou retornando a um lugar que nunca foi meu e que nada me identifica. Sou nada neste ônibus que divido com outros seres vazios de sonhos. Ainda 1600 quilômetros me separam do que julgo seja o meu destino final, e essa espera tortura meus pensamentos mágicos. Uma angústia filha da puta me acompanha, como uma sombra da qual não consigo me ver livre. Esse ambiente aquecido e ruidoso me soa um oásis nesse campo de neve, que cai lá fora sem cessar. Isso daqui é um útero aquecido artificialmente, que abriga alguns por alguns instantes. Logo todos serão devolvidos à sua angústia silenciosa fora daqui. Se me dão opção, permaneço, não embarco, tomo mais um café e outro e outro... na esperança de me transmutar a dezenas de milhares de quilômetros daqui, para uma terra de um ar quente que me inflou os pulmões por vez primeira. Olho a minha volta e diviso aquela que serve as mesas: – Donde a alegria que expressa no olhar??!! Só há tristeza, frio, umidade e solidão aqui em torno! Observo a janela; lá fora, a lotação estacionada é a representação da desesperança. Que se vá sem mim! (Me ocorre uma canção: “chove lá fora / e aqui tá tanto frio”) Por um momento penso que gostaria de ser ela; me sentir seguro, feliz como ela aparenta ser, alheia a esse espaço deprimente. (Mera divagação ..., se eu fosse ela queria mais era morrer!) A canção insiste: “Me chama, me chama, me chama...”

Zé Ribeiro Jr, 2020