Mostrando postagens com marcador apêndice. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador apêndice. Mostrar todas as postagens

sábado, 8 de janeiro de 2011

Minha estrela brilha na noite da véspera de Ano Novo

Tem quem acredite em duendes, gnomos, elfos, OVNIs, extraterrestres e até no Jornal Nacional … Já eu acredito em anjos, e dia desses topei com uma legião deles. Foi na noite do dia 30 de dezembro, quase Ano Novo, quando o Magnus, o filho de 10 anos da minha sobrinha Isabela, apresentava sintomas de apendicite, uma inflamação que se não atacada a tempo rapidamente evolui para um quadro de septicemia.

O primeiro anjo com que nos deparamos foi a médica Giovanna Andréa de Figueiredo, da Policlínica Capão Raso. Os sintomas da apendicite eram tênues, nem febre havia, no momento da consulta. Apesar disso, depois de examiná-lo ela encaminhou o Magnus para o Hospital Pequeno Príncipe, com um pedido de ecografia do abdome total.

No Pequeno Príncipe outro anjo na forma de uma recepcionista foi objetiva conosco: “o plantonista vai examinar o Magnus, mas dificilmente pedirá a ecografia hoje”. Pergunto por que e ela se faz ainda mais direta: “é que precisa chamar o médico especialista em casa para fazer o exame, e só se for uma emergência ...”

Já passava das 7 da noite, sexta-feira, véspera do 31 de dezembro. Avaliei comigo: é quase Ano Novo, o antitérmico abaixou a febre do Magnus e mascarou o quadro, o garoto parece saudável. Além disso, a Unimed paga R$ 30 pelo exame, preço de uma pizza mediana. O médico só sairá de casa para fazer a ecografia se o espírito de Hipócrates o arrastar pelas orelhas.

Avaliei rapidamente a informação e conclui que aquela moça, certamente, sabia o que estava dizendo. Sua sinceridade soou pra mim como “inside information”. Agradecemos e tratamos de procurar outro hospital ou laboratório que realizasse o exame.

Os dois que ficam próximos – X-Leme e Cetac – já haviam baixado as portas, o jeito foi tentar o Laboratório DAPI, nas Mercês, que funciona 24 horas. Chegamos lá cerca das 8 da noite, com o dia ainda claro, propiciado pelo Verão e seu horário especial. O Magnus aparentemente vendendo saúde. Eu me perguntava se ele realmente tinha alguma coisa, mas confiava no diagnóstico da médica. Além disso, minha sobrinha relatava que na noite anterior e na tarde daquele dia o menino tivera febre de quase 39 graus e passara horas se contorcendo com dor na região da barriga.

Subimos ao 1º andar, onde é requisitado aquele tipo de exame. Ali nos deparamos com uma legião de anjos na forma de cinco ou seis moças que atendiam nos guichês, aquela hora vazios. Não percebemos de imediato que se tratava de anjos, mas isso logo ficou claro quando a moça que nos atendia informou que não seria possível realizar a ecografia. Não naquela noite.

Ela ainda tentou encaixar com o especialista de plantão, mas a cota dele já estava repleta. O jeito era agendar o exame para outro dia. Nem foi preciso insistir na questão da urgência; quando minha sobrinha comentou a suspeita de apendicite, a moça começou a ligar para outros laboratórios e hospitais na tentativa de conseguir o exame imediato para o Magnus.

No segundo seguinte as demais colegas dela se aproximaram com sugestões:

- Vocês tentaram o Pequeno Príncipe?

- Estamos vindo de lá.

- Então liga pro Vitta, lá eles fazem. (disca, disca, disca e ninguém atende do outro lado da linha)

A moça que nos atendia liga para o Santa Cruz. Ficamos animados quando percebemos que confirmaram que fazem o exame. A esperança, porém, logo se desfaz, pois não atendem o convênio Unimed.

Quem não perde a esperança é a jovem. Torna a tentar o Vitta do Batel (disca, disca, disca e nada).

Os anjos do DAPI: Valéria Ayres, Mavia Fantim, Ana Elisa Borges, Ana Paula Alkimin e Sandra Cuimbra, com o supervisor Thiago Quintino. Faltou Glaucia Rute, que está em merecidas férias.
Ela se lembra do Hospital Cruz Vermelha, mas alguém se antecipa e diz que não adianta.

Pergunto se o Hospital Cajuru não faria o exame. Elas me dizem que só se o Magnus for atendido como emergência, no pronto socorro. O mesmo no Evangélico.

De volta ao telefone a moça liga para a Clínica Sugisawa. Ficamos animados novamente; eu mesmo já fiz uma ecografia da bexiga lá, marcada às 8 horas da noite. Eles atendem 24 horas. Mas de novo a frustração: precisa agendar o exame.

Outra moça recomenda o Hospital São Vicente, no centro da cidade, ao lado de onde eu trabalho. Estamos quase indo para lá quando outra garota volta a lembrar o Hospital Nossa Senhora das Graças, nas Mercês. Ela já havia recomendado antes, mas agora veio com uma informação fundamental: “o Dr. Eduardo Meister está de plantão lá, e ele mandará fazer o exame, com certeza”. As demais moças confirmam em coro: podem ir lá que o Dr. Eduardo fará a ecografia. A primeira reafirma: “acabei de confirmar que ele está de plantão; peçam para que o Magnus seja atendido por ele”.

Animados, agradecemos a boa vontade das jovens, desejamos bom Ano Novo a todas e nos mandamos para o Nossa Senhora das Graças, que fica a poucas quadras do DAPI. Na saída comento com minha sobrinha: até agora estamos com uma sorte danada!

As ruas de Curitiba estão quase vazias; quem não viajou para passar o Ano Novo na praia, a esta hora está enfurnado em casa vendo TV. Nesses dias entre o Natal e o Ano Novo a metrópole parece aquelas cidades fantasmas que a gente vê em filmes. Mais “morta” mesmo só na noite de Natal, quando é possível até andar pelado pelas ruas sem ser importunado. Eu mesmo já testei essa hipótese no Natal de 1997, quando caminhei nu em pêlo no meio da Rua Marechal Deodoro, do prédio da Receita Federal até a Praça Zacarias sem ser incomodado.

Mas voltando ao que interessa, no Hospital Nossa Senhora das Graças nos deparamos com dois outros anjos, o tal Dr. Eduardo e o enfermeiro Clodomiro. Exatamente como a moça do DAPI havia previsto, após examinar o Magnus o médico mandou chamar a especialista em casa para realizar a bendita ecografia de abdome total. Enquanto aguardávamos ela chegar, o enfermeiro colheu sangue para outros exames. Afora a agulha da seringa, que era a única coisa que o Magnus temia, ele parecia vendendo saúde, todo feliz na sala de espera do consultório.

Passados alguns minutos o enfermeiro Clodomiro volta a nos procurar com o resultado dos exames. Acostumados a ter que correr atrás de enfermeiros e médicos para apressá-los a realizar o seu trabalho, eu e minha sobrinha ficamos surpresos. Chega a médica para a ecografia e o enfermeiro leva o Magnus com ele, para logo retornar com o moleque e o resultado do exame. Entre uma consulta e outra o Dr. Eduardo nos aborda na sala de espera: a ecografia não foi conclusiva, mas os indicativos no sangue são de infecção e temos ainda o fato do garoto ter tido febre de 39 graus e manifestar dor quando é apalpada a região do apêndice. Vamos internar e operar amanhã cedo.

Tomada de surpresa e com dó do menino, minha sobrinha inquire o médico com uma questão “a la Dona Maria”.

- E se eu, que sou a mãe, não quiser internar o Magnus hoje o que pode acontecer?

O médico deu a resposta que eu já imaginava:

- Morrer!

Minha sobrinha caiu em si e viu que precisava acatar a recomendação do médico, mas aí quem desesperou foi o Magnus, que abriu a boca. O médico ficou desconcertado:

- Eu tive que dizer, a senhora perguntou ...

Quando conseguiu acalmar o Magnus, o médico me passou os papéis para providenciar a internação. Deixei o garoto sob os cuidados da mãe e do enfermeiro e fui para o setor de internamento. Quando achava que já tinha nos acontecido tudo de bom, outra surpresa: a atendente é uma jovem simpática e bem-humorada. Me pede que aguarde, pois há outros três internamentos para providenciar, antes de me atender.

Tudo bem, a recepção daquele hospital é um ambiente agradável, à meia luz, com poltronas confortáveis onde larguei meu corpo cansado para me ocupar exclusivamente com uma grande tela de TV. Já passava da meia-noite e aquele ambiente era propício ao sono, mas antes que ele aparecesse a moça chamou meu nome. Não havia se passado 15 minutos. Ou seja: ela fez três internamentos em menos tempo do que os meus filhos levam com o chuveiro aberto.

Cheia de bom-humor ela pegou os papéis que o médico me dera, mais a carteirinha da Unimed e me fez as perguntas necessárias para fechar a operação. Perguntei se a mãe do Magnus poderia passar a noite no hospital e ela me respondeu: “claro, a mãe fica com o filho”. Mas não foi só isso: como não havia nenhuma enfermaria disponível, a mãe e o Magnus seriam acomodados em um quarto, até desocupar uma vaga.

Não era possível tanta boa sorte, justo comigo que nunca me dei bem nem em quermesse de igreja. (A propósito, recentemente fui arrastado para um bingo paroquial pela minha filha, que estava de olho num microondas. Minha cartela era tão pé frio quanto eu, mas quando chegou a vez do microondas, para surpresa geral, minha sorte mudou e fui o primeiro a gritar bingo. Só que não fui o único, duas malditas bingueiras profissionais também haviam fechado a cartela. A coisa foi decidida pelo sorteio da pedra maior, e eu, claro, tirei a pedra 3.)

Fechado esse parêntese, eu não podia acreditar que estava com aquela sorte toda. Se naquela hora eu encontrasse alguma lotérica aberta teria feito uma aposta na Mega-Sena da Virada, e em vez de quatro ganhadores teriam sido cinco.

Enfim, voltei ao consultório com os papéis do internamento e os entreguei ao enfermeiro Clodomiro, que já estava com o Magnus acomodado em uma cadeira de rodas para levá-lo ao quarto. Agradeci, me despedi da minha sobrinha e do Magnus, desejei-lhes boa-noite e fui-me embora para casa com aquela sensação de que a sorte, essa ingrata, finalmente sorria para mim.

Às 10 horas da manhã seguinte liguei para o celular da minha sobrinha para saber notícias do Magnus. Naquele exato momento ele estava saindo da sala de cirurgia e sendo levado para o quarto, ainda meio zonzo da anestesia e livre da apendicite. No dia seguinte receberia alta. O único inconveniente, se é que se pode dizer assim, foi ter passado a virada do ano no hospital.

Realmente me considerei, enfim, bafejado pela sorte. Minha estrela brilhava!

Mas que estrela, que sorte, que nada; a verdade é que encontramos profissionais interessados, com surpreendente iniciativa, aquela gente que está na profissão certa e que é capaz de fazer a diferença. Gente que está sempre ascendendo na escala profissional, porque não só é inteligente e competente, como está disposta a fazer o que tem que ser feito. A Dra. Giovanna, o Dr. Eduardo podiam ter despachado o Magnus com uma receita de anti-inflamatório (como outros fizeram com o avô do garoto, por três vezes, antes dele ter o apêndice supurado). A atendente do Pequeno Príncipe podia ter nos enrolado, acenando com falsas esperanças. As recepcionistas do DAPI podiam permanecer nos seus guichês, talvez jogando paciência. Clodomiro e a jovem médica que saiu do conforto da casa para fazer a ecografia poderiam ter-se omitido. Mas cada um desses profissionais realizou aquilo que nos treinamentos corporativos é denominado “fazer o quilômetro extra”. E assim, graças a esses anjos de carne, osso e neurônios ativos, essa história do Magnus teve um final feliz.

E felicidade é o mínimo que eu e a família do Magnus podemos desejar a esses profissionais que tornaram a nossa passagem de ano tão especial.

Antes de encerrar, um esclarecimento necessário: aquela história do Natal de 1997 é invenção minha, só para segurar o leitor. Não vão tentar andar pelados na rua que serão presos.

Feliz 2011 a todos!

Francisco Duarte