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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Da série "Histórias prosáicas"

... e é por ela ser assim tão delicada / que eu trato sempre dela muito bem!

Um dia comum em Curitiba. Frio, muito frio. Mais ou menos 10 horas da manhã. Nas imediações da Praça Ouvidor Pardinho, avisto um homem e um menino catando papéis e outros recicláveis em um carrinho mambembe que o homem empurra.


Os dois caminham na contramão pela Rua 24 de Maio; o menino, mais solto, vai à frente. Atravessa a rua para pegar uma caixa de papelão do outro lado da calçada. Coloca a caixa no carrinho e, mais adiante, recolhe algumas garrafas PET, que também ajeita no carrinho.


O menino é ágil, e pouco se pode ver de sua aparência, enfiado que está em um casaco maior do que ele e uma touca de lã preta enterrada na cabeça, quase cobrindo o rosto, que o protege do frio. Quatro ou cinco metros atrás vem o homem com o carrinho. Ele também, por vezes, larga o carrinho, atravessa a rua ou vai até um desses equipamentos à frente dos prédios, onde os moradores depositam os sacos de lixo para a coleta, e recolhe alguma coisa que valha algumas moedas na reciclagem.


Apesar do frio que faz nessa manhã de sábado curitibana, com pouco movimento na rua e a óbvia carência econômica da dupla — para não falar da carência, senão proteica, ao menos lipídica —, os dois seguem em um ritmo, digamos, animado. São ágeis e rápidos e, nesse ritmo, vão avançando pelo caminho. Já atravessaram a Avenida Iguaçu e se aproximam da Avenida Silva Jardim.


Estou observando a dupla, que me chamou a atenção, parado em frente a uma clínica e aguardando o Uber que chamei. Estou meio invisível para eles e, assim, posso observá-los sem representar um incômodo.


Nesse embalo, vem se aproximando um veículo prata que, quando vê a dupla, me dá a impressão de que diminui a velocidade e os observa. Passa lentamente, sem dar na vista, mas percebo que observa com interesse. Acompanho, com a vista, discretamente, o carro e o sujeito.


Próximo de onde estou percebo um tijolo meio desencaixado do muro que divisa a clínica da velha casa ao lado. Penso comigo: se esse sujeito for atacá-los, vou atirar esse tijolo no carro ou, se for o caso, na cabeça do cabra.


Não foi preciso. O sujeito dobrou à direita na Avenida Iguaçu e desapareceu das minhas vistas.


Parece que o homem e o menino não se deram conta do "intruso" a ameaçá-los — isso, na minha cabeça, porque o sujeito não fez qualquer gesto que sugerisse agressão; apenas reduziu a marcha e parecia observá-los com atenção.


A dupla se aproxima do ponto em que me encontro, no meio da quadra entre a Avenida Silva Jardim e a Iguaçu. Eis que, de repente, reaparece o sujeito do veículo prata. Percebo agora que apenas deu a volta na quadra e dirige o carro ostensivamente em direção à dupla, que continua sem se dar conta.


Dirige o carro para a esquerda da rua, aproximando-se de onde estão o homem, o menino e o carrinho.


Pego o tijolo e fico no aguardo do início da ação.


Vai ser hoje!


O sujeito faz descer a janela do carro, estica o braço para fora e chama o garoto, que até então parecia ignorar a presença do intruso.


O homem que o acompanha - um sujeito alto e esquálido, também encasacado com o que parece ser mais um trapo do que um casaco - está a uns cinco metros de distância do menino.


Ouço o homem do carro prata chamar o garoto, com o braço estendido para fora da janela. Só então o garoto se dá conta da presença do sujeito e se volta para ver o que é.


O tijolo está firme na minha mão, pronto para entrar em ação.


O garoto se aproxima da janela do carro e ouço o sujeito perguntar:


— Aceita?


Agucei os olhos, o ouvido e a mão.


No ato seguinte, percebo que o garoto pega algo que o sujeito do carro lhe entrega, responde alguma coisa que não consegui ouvir e se afasta.


O sujeito levanta o vidro do veículo, acelera e se vai, descendo a Rua 24 de Maio em direção ao Parolim, deixando claro que havia dado a volta na quadra exatamente para voltar e abordar a dupla.


Então, o que vem a seguir me surpreende: o garoto é uma garota — uma mulher, na verdade. Parece-me estar na faixa entre 25 e 30 anos, o tipo que se diz mignon.


Ela retira a touca e ajeita os cabelos fartos, pretos, e sorri enquanto exibe, entre os dedos da mão direita, o objeto recebido do sujeito do carro prata: uma nota de dinheiro.


O que vem a seguir é ainda mais surpreendente.


Com ares e alegria de adolescente, a mulher que pensei ser menino vai lépida até o homem — ele também da mesma faixa de idade — e exclama:


— Amor, olha, 50 reais...


Só então fico sabendo o valor da nota entregue ao "menino".


Ainda acompanhei com os olhos aquela dupla, ou melhor, aquele casal, que se tratou de forma tão amorosa, como se fossem adolescentes animados e enamorados — e talvez o fossem.


Não sei vocês, milhões que me leem agora, mas em todas as minhas relações não posso indicar exemplo melhor do que parece ser um casal feliz.


Felizes apesar da pobreza, do trabalho rude e de ganho risível, das roupas disformes, do dia chuvoso, da manhã fria, do céu cinzento, de uma Curitiba pouco afeita aos deserdados do capital, e do futuro incerto.


Alheios àquele cenário e condição adversos, aqueles carrinheiros criaram o seu próprio sol e seu céu azul. Tão concretos que aqueceram a alma de um terceiro que observava à distância, assim como a do outro personagem que, por pouco, não foi alvo de um tijolo.


Momentos e situações como esses me fazem pensar que o céu realmente existe e que não tem nada de especial; tão somente corações aquecidos trocando afetos.


Para o casal, que possivelmente jamais saberá que motivou este registro, posto a canção 'A Felicidade', de Vinícius de Moraes e Tom Jobim