José Ribeiro Jr
Vejo muitas pessoas falando mal do Comunismo sem ter a menor noção do que seja um país sob o regime comunista. Muitos até confundem Fascismo com Comunismo e emitem opiniões eivadas de preconceito como se fossem verdades divinas sopradas aos seus ouvidos por anjos celestiais.
Pois eu vivi alguns anos em um país comunista e asseguro que foi uma das melhores experiências que pude conhecer.
O País tinham uma população numericamente acima da média de outras nações e, sob o aspecto econômico, poderia se considerar um país pobre, não miserável. Um país de pequena classe média, digamos.
A administração tinha seus problemas e deficiências, como ocorre em todo e qualquer país, e seus administradores igualmente tinham os defeitos e as virtudes dos governantes em geral. O que os diferenciava era talvez o que se possa chamar de sabedoria salomônica, que era mais ou menos a filosofia que vigia no país.
Como a população era numerosa e os recursos limitados, tudo era disponibilizado com parcimônia a fim de que aqueles que tinham maior poder não se apropriassem do máximo possível, em prejuízo do resto do povo. O PIB, no caso, era repartido por igual a toda a população e as partes entregues a cada um.
Essa intervenção do Governo era a responsável por uma certa justiça aplicada à sociedade, uma vez que buscava compensar as diferenças impostas pela condição humana e fazia com que nenhum habitante ficasse em posição desfavorecida em relação a outros. É verdade que nem todos aprovavam, mas era da lei e tinham que aceitar.
As políticas de Educação e Saúde eram prioridade no país e, esses bens, acessíveis a toda a população. A aquisição do conhecimento, a garantia de alimentação suficiente e saudável, a proteção à saúde e a garantia de moradia eram direitos universais no país. A condição de país pobre inviabilizava o aceso a luxos, mas todos recebiam o necessário e essencial.
A população era estimulada a adquirir conhecimentos por meio do estudo regular. A frequência à escola era condição tão natural que naturalizava o fato de ser obrigatória. Tanto quanto o estudo formal, a população tinha acesso a livros, enciclopédias, revistas, filmes, passeios e outras formas de cultura.
O credo comunista era a religião oficial do país, e a população recebia informações e também formação a respeito das práticas, tradições, dogmas etc da fé comunista, assim como era levada a participar das cerimônias dominicais do partido. Funcionava como uma base de formação psicológica e intelectual para a população, que não tinha obrigação de adotá-las para a sua vida. Isto ficava claro na medida em que cada cidadão ou cidadã formava a sua noção de livre arbítrio.
Coisas corriqueiras em outros países, como festejos natalinos, no país comunista eram mais ou menos entendidos como "luxo". Se a economia do país ia bem, as comemorações e trocas de presentes ocorriam; em anos de economia fraca, as datas festivas simplesmente passavam.
Bem antes de os governos do PT terem criado ferramentas como o Bolsa Família para garantir condições mínimas de vida digna a crianças, idosos e famílias mais pobres, o governo do país comunista já adotava instrumentos semelhantes para socorrer aqueles que precisavam de algum apoio extra para viver.
Nenhum tipo de racismo ou classismo, ou qualquer outra forma de preconceito era estimulada pelos dirigentes do país.
Parte dos impostos recolhidos da população era destinada a atender as necessidades básicas de quem eventualmente atravessasse dificuldades, e com isto evitava-se que crianças tivessem o seu desenvolvimento físico e intelectual prejudicado pela subnutrição, ou ficassem sem-teto, sem escola, sem a cobertura básica de saúde etc. Quem ficasse desempregado no país, por exemplo, tinha a sua família protegida pelo Governo até conseguir se recolocar no mercado.
É curioso que o governo comunista já tinha algumas práticas que posteriormente vieram a ser adotadas pelos governos dos presidentes Lula e Dilma, como ajudar países vizinhos a se desenvolverem ou dar apoio àqueles que atravessavam dificuldades circunstanciais. (a propósito, quando a União Européia foi criada, países mais ricos como Alemanha e Inglaterra destinaram valores bilionários a Portugal para retirar o país do atraso e não desequilibrar a CE. A mesma política, embora envolvendo valores significativamente menores, foi aplicada por Lula e Dilma em relação a países do Mercosul e outros países-irmãos das Américas do Sul e Central e da África.)
Voltando ao país comunista, nações limítrofes ou não, pouco desenvolvidas ou vitimadas por tragédias naturais recebiam diversos tipos de ajuda, inclusive financeira aplicada a projetos que significassem desenvolvimento econômico e social ao país. Mesmo no caso de dirigentes irresponsáveis que torravam a riqueza nacional fora do seu território, impondo agruras às sua populações, os países vizinhos eram socorridos pelo governo comunista, que não deixava aqueles povos estrangeiros passarem fome e os amparava até que eles ganhassem condição de caminhar pelos próprios pés.
Pude testemunhar esses países circunstancialmente socorridos pelo vizinho comunista crescerem, se recuperarem e não dependerem mais da ajuda momentânea, sem a qual teriam ficado estagnados e tornado a condição de miserabilidade um círculo vicioso para as gerações futuras.
Outra caracterítica do país comunista em que passei alguns anos era a abertura plena a estrangeiros que precisassem ser acolhidos; as portas do país sempre estiveram abertas àqueles que buscassem asilo momentâneo, e o estrangeiro adquiria idênticos direitos aos dos naturais.
Há diversos outros exemplos que poderia mencionar aqui de boas práticas de solidariedade, desprendimento, respeito e aceitação dos diferentes, tolerância e harmonia com outras nações, exercício de cidadania, responsabilidade com as obrigações de Estado, compromisso com o desenvolvimento do País, respeito absoluto a questões internas de outros países, valorização do trabalho e do lazer etc etc etc. Enfim, tive a sorte de viver no país comunista durante os anos de constituição dos alicerces da minha formação.
O "País Comunista" em que vivi era a casa dos meus pais, os mais competentes administradores "comunistas" que conheci: seu Campelo e dona Ecéa.