sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Para aguardar o sábado de sol que se avizinha

Recomenda-se som nas alturas! (não igual agroboy de pick-up urbana).


Geraldo Vandré: entrevista ao repórter Geneton Moraes Neto

Geraldo Vandré Especial // Tudo o que o Grande Mudo da MPB disse na primeira gravação que faz para uma TV depois de décadas (Hoje, ele garante:”Não existe nada mais subversivo do que um subdesenvolvido erudito”)

ter, 21/09/10
por Geneton Moraes Neto |



Um dos mais duradouros silêncios da Música Popular Brasileira foi quebrado num fim de tarde de domingo no Clube da Aeronáutica, no Rio de Janeiro.
“Demorou uma eternidade”, mas Geraldo Vandré, o grande mudo da MPB, resolveu falar diante de uma câmera de TV.
Desde que voltou para o Brasil, no segundo semestre de 1973, depois de quatro anos e meio de exílio, Geraldo Vandré mergulhou num mutismo quase absoluto.
O compositor e cantor que entrara para a história da MPB dos anos sessenta como autor de canções como “Disparada” (em parceria de Théo de Barros) e “Pra Não Dizer que Não Falei de Flores”/Caminhando” , parecia ter se especializado em provocar  espantos em série no público.
Primeiro espanto: numa declaração feita na volta do exílio, anunciou que, a partir dali, só queria fazer “canções de amor e paz”. O Jornal do Brasil registrou outras declarações de Vandré: “Eu desejo, em primeiro lugar, integrar-me à nova realidade brasileira. Isso é um processo que demanda paciência e tranquilidade de espírito – que espero encontrar aqui, nessa nova realidade”.
Segundo espanto: ao contrário do que se esperava, não houve novas canções de “amor e paz”.  Vandré sumiu. Nada de shows, nada de entrevistas, nada de excursões. Nada, nada, nada. Recolheu-se a um país que parece ter um só habitante: o próprio Geraldo Vandré.
O Vandré pós-exílio não lembrava em nada o compositor que arrebatara o público no Festival Internacional da Canção de 1967.  Entoados por Vandré diante de um Maracanãzinho superlotado, os versos de “Caminhando” ( “vem/vamos embora/que esperar não é saber/quem sabe faz a hora/não espera acontecer”) saíram daquele palco para entrar na história: viraram uma espécie de hino de protesto contra o regime militar. Sob uma vaia de fazer tremer as estruturas do ginásio, o júri deu o prêmio à “Sabiá”, a parceria de Chico Buarque com Tom Jobim. Mas o público foi seduzido pelo tom incendiário dos versos de “Caminhando”. Pouco depois, desabava sobre o país o Ato Institucional número 5 – que dava poderes absolutos aos militares. Vandré partiu para o exílio. A música “Caminhando” foi proibida.
O terceiro espanto viria anos depois: para surpresa geral, descobriu-se que Geraldo Vandré compôs uma peça sinfônica em homenagem à FAB, a Força Aérea Brasileira. Sim, era verdade. Vandré não apenas compôs a declaração de amor à FAB como cultivou uma relação próxima com a Aeronáutica. Vive sozinho em São Paulo. Quando vem ao Rio, para visitar a mãe nonagenária, hospeda-se no hotel do Clube da Aeronáutica, nas proximidades do aeroporto Santos Dumont.

De vez em quando, faz aparições fugidias. Virou lenda. O mutismo deu origem a lendas de todo tipo. Vandré teria sido torturado na volta ao Brasil. Teria, simplesmente, “pirado”. Teria feito um acordo secreto com os militares. E assim por diante. A lenda mais estapafúrdia dizia que ele teria sido castrado !  O silêncio, claro, só servia para alimentar o mistério.  Como acontece em casos assim, a fantasia toma o lugar dos fatos.
O que há de certo é que ele foi, sim, constrangido a gravar um depoimento no Aeroporto de Brasília, em 1973. A gravação foi exibida à noite, na TV. Por onde andaria este filme ?  Fiz uma primeira busca. Voltei de mãos vazias. Vandré tem lembrança de que agentes da Polícia Federal participaram da operação. Não há registros do filme nem na Polícia Federal em Brasília nem no Arquivo Nacional. Faço uma tentativa no Centro de Documentação da Rede Globo. Nada. Com quem estará o filme  ?  O que se sabe é que uma empresa de Brasília - uma produtora que, entre outras atividades, fazia filmes para órgãos do governo – foi contratada para gravar o depoimento de Vandré, no aeroporto. O cinegrafista  escalado pela produtora para a gravação foi Evilásio Carneiro - por coincidência, trabalha hoje na Globonews. Por falar no assunto: uma dupla de documentaristas prepara atualmente um filme sobre o dono da produtora mobilizada para a gravação do depoimento – um italiano radicado na capital da República. Nome: Dino Cazzola. Em breve, novas informações.
Igualmente, as imagens de Geraldo Vandré cantando “Caminhando” no Maracanãzinho estão desaparecidas. Restou o áudio da performance. Lá, é possível ouvir o pequeno discurso que Vandré, elegantemente, fez em defesa de Chico Buarque e de Tom Jobim, crucificados pelas vaias do público. “A vida não se resume a festivais”, diz, antes de começar a cantar “Caminhando”.
Houve, obviamente, uma ruptura profunda entre o Vandré de antes e o Vandré de depois do exílio. O próprio Vandré nos deu uma explicação : disse que perdeu a motivação e a razão para cantar  porque aquele Brasil de 1973 já começava a viver um processo que ele chama de “massificação”. Num país em que a “cultura artística”  foi engolida pela “cultura massificada”,  não haveria lugar para o que ele fazia.
Depois de quatro meses de insistência, a produtora de TV Mariana Filgueiras terminou convencendo o Grande Mudo da MPB a falar. O mérito de ter derrubado o muro de silêncio que Vandré ergueu em volta de si deve ser creditado, portanto, à capacidade de insistência da produtora. É algo que ocorre com incrível frequência em TV: a responsável pelo  furo de reportagem fica nos bastidores. C´est la vie. Mas fica feito o registro.
Vandré marcou o encontro para as cinco da tarde do domingo, doze de setembro – justamente o dia em que ele completava setenta e cinco anos de idade. Nasceu em setembro de 1935 em João Pessoa, Paraíba.

O autor de pelo menos uma obra prima indiscutível – “Disparada” – escolheu o fim de tarde do domingo em que fazia aniversário para produzir um novo mistério – um, entre tantos outros que passou a cultivar desde que saiu de cena: o Grande Mudo decidiu, finalmente, que iria falar diante de uma câmera de TV. Por quê ? É provável que o fato de estar fazendo aniversário tenha pesado.
Para minha surpresa, o Grande Mudo estava solícito, falante, acessível. Aceitou sem reclamar os pedidos para caminhar no saguão do Clube de Aeronáutica diante da câmera do cinegrafista Ricardo Carvalho.
Quando a entrevista terminou, Vandré se recolheu  a um quarto do Hotel da Aeronáutica. Cinegrafista improvisado, captei a cena com minha DVCAM: Vandré se afastando em direção à escadaria que dá acesso aos quartos. Estava sozinho. Terminava assim o domingo em que completava setenta e cinco anos. Não imaginei que um dia iria testemunhar esta cena - o cantor que um dia incendiou o país com seus versos de alta combustão estava ali, solitário, no dia em que fazia aniversário, depois de ter quebrado, diante de mim, um silêncio que se estendeu por décadas.  Quem se lembra da última entrevista concedida por Vandré para uma TV ? Havia um tom ligeiramente melancólico na cena solitária protagonizada por Vandré no saguão do hotel, a caminho da ala dos hóspedes. Nada de grave. Os domingos à noite não são sempre assim ?

O que importa é que Geraldo Vandré deu sinal de vida. Eu estava lá para testemunhar a cena. Estava fazendo minha pequena parte no circo de horrores geral : “produzir memória”, não deixar que as palavras se desfaçam no vento.  Afinal, o que diabos um repórter pode fazer de útil, além de “produzir memória” ?  Pouquíssima coisa. Quase nada. Quando Vandré sumiu na penumbra do corredor do hotel,  dei por cumprida minha missão – o depoimento tinha sido devidamente colhido. É hora de passá-lo adiante. Eis o que o Grande Mudo falou no dia em que quebrou o silêncio:  
A pergunta que todos gostariam de fazer é a mais simples possível: o que foi que aconteceu com Geraldo Vandré ?
Vandré : “Ficou fora dos acontecimentos (ri). Ficou fora dos acontecimentos. Acho melhor para ele. Tenho outras coisas para fazer. Estudei leis. Quando terminei meu curso de Direito aqui no Rio e fui me dedicar a uma carreira artística, já sabia que arte é cultura inútil. Mas hoje consegui ser mais inútil do que qualquer artista. Sou advogado num tempo sem lei. Quer coisa mais inútil do que isso ? Quando entrei na escola, para estudar, era a Universidade do Distrito Federal. Quando saí, era Universidade do Estado da Guanabara. Hoje, é Uerj, no Maracanã”.
Você se animaria a fazer uma temporada comercial,em teatros ?
Vandré : “Tenho uma prioridade: fazer a minha obra de língua espanhola. É uma obra popular. Além de tudo, o que quero fazer, antes de cantar canções populares no Brasil, é terminar uma série de estudos para piano, música erudita com vistas a composição de um poema sinfônico. Porque aí já é a subversão total. Não existe nada mais subversivo do que um subdesenvolvido erudito”.
O fato de a música “Caminhando” ter se tornado uma espécie de hino de protesto provoca o quê em você hoje: orgulho ou irritação ?
Vandré: “Estou tão distante de tudo. Mas não tenho o que corrigir em nada do que fiz. Tenho muito orgulho de tudo o que fiz. Protesto é coisa de quem não tem poder. Não faço canção de protesto. Fazia música brasileira. Canções brasileiras. A história de “protesto” tem muito a ver com a alienação denominatória, é o “protest song” norte-americano, a música country. Há algumas coincidências. Não concordo com a denominação “música de protesto”. Fiz música popular brasileira”.  

Você teve uma divergência artística com os tropicalistas – entre eles, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Hoje, você ainda considera ruim a música que eles faziam na época ?
Vandré : “Com essa pergunta, eu me lembrei de uma reposta que o próprio Gil deu uma vez. Fiz uma pergunta a ele. Não me lembro qual foi. E ele disse: “Ah, faço qualquer coisa. Uma tem que dar certo”. Eu não faço qualquer coisa”.
Mas você mudou de opinião sobre os tropicalistas ou não ?
Vandré: “Parece que eles continuam na mesma. É o que me parece. Eu estou distante de tudo – não só do Tropicalismo como de tudo praticamente que se faz do Brasil”.
Em que país vive Geraldo Vandré ?
Vandré: “Vive num Brasil que não está aqui. Geraldo Vandré vive no Brasil. Eu até me atreveria a dizer que quem não vive no Brasil é a maioria dos brasileiros. A quase totalidade dos brasileiros não vive mais no Brasil. Vive num amontoado”.
Como é este Brasil de Geraldo Vandré ?
Vandré : “É o antes – de quarenta anos atrás. O país que o Brasil era quando fiz música para o Brasil não era este país de hoje. Não existia este processo de massificação. Dentro da minha própria carreira – profissionalmente falando – houve uma mudança ali no Maracanãzinho. Ali, houve a passagem do que eu fazia para um público de um teatro de setecentas ou no máximo mil e duzentas pessoas para um ginásio com trinta mil pessoas. E a televisão direto no ar. Já foi a massificação”.
O Brasil de quarenta anos atrás era melhor do que o Brasil de hoje ?
Vandré: “Eu fazia música para aquele país”.
E por que não fazer música para o Brasil de hoje ?
Vandré: “Porque o país é outro. O que existe é cultura de massa. Não é cultura artística brasileira. Não há praticamente espaço para a cultura artística. Se você considerar os outros autores, eles fazem coisas de vez em quando. Não têm uma carreira como tinham antigamente – nem Chico Buarque nem Edu Lobo, ninguém. A carreira que eles têm é uma carreira hoje muito segmentada”.
Você se considera, então, uma espécie de exilado que vive dentro do Brasil ?
Vandré: “Estou exilado até hoje. Ainda não voltei. Eu estou exilado e afastado das atividades que eu tinha até 1968 no Brasil. Eu me afastei. Não retornei”.
Por que é que você resolveu se afastar totalmente da carreira artística naquela época ?
Vandré: “Naquela época, já era assim: já era como hoje. Quando voltei, o Brasil já estava num processo de massificação em que o público para quem eu tinha escrito e para quem eu tinha composto praticamente já não existia, aquela classe média de quatro anos e meio antes. Estava muito confuso tudo.Fui esperando, fui vendo outras coisas. Isso foi de mal a pior – cada vez mais. Para você ter uma ideia: quando terminei o curso de Direito no Rio e me mudei para São Paulo, em 1961, para fazer uma carreira artística, não existia bóia-fria em São Paulo. Hoje, São Paulo é a terra do bóia-fria: todo mundo amontodo nas cidades. Vão aos campos para plantar e para colher e depois voltam para a cidades. Quando fui para São Paulo, a cidade tinha quatro milhões de habitantes. Hoje, são dezesseis milhões de amontoados. É um genocídio. Tiraram todo mundo dos campos para produzir e exportar…”
A decisão de interromper a carreira,então, foi – de certa maneira – um protesto contra o que você via como “massificação” da sociedade brasileira ?
Vandré: “Não. O que houve foi muito mais uma falta de motivo, uma falta de razão para cantar. Protesto,não: falta de razão, falta de porquê. Estou fazendo o que acho que devia fazer”.
O que é que chama a atenção do Geraldo Vandré no Brasil de hoje ? Que manifestação artística desperta interesse ?
Vandré: “A miséria aumentou. Se você pegar a letra de “Caminhando” – ” pelos campos, as fomes em grandes plantações/pelas ruas marchando indecisos cordões/ ainda fazem da flor seu mais forte refrão/ e acreditam nas flores vencendo o canhão” -, hoje é mais ainda. Hoje, as ruas estão muito mais cheias de indecisos cordões. O processo de massificação destruiu praticamente a urbe brasileira”.
Você se animaria a fazer uma canção como “Caminhando” hoje ?
Vandré:”Não existe isso. A gente nunca faz uma canção como uma outra. Aquela é uma canção. Cada uma é uma.A gente faz independentemente de animação. Quando decide fazer, faz”.

Você diria que o Brasil é um país ingrato ?
Vandré : “Não. De forma alguma. São coisas que ocorrem. Guerra é guerra.Não perdi (ri). Eu me lembrei agora de um poema muito bonito de Gonçalves Dias que aprendi com meu pai: “Não chores, meu filho, não chores/ Viver é lutar/ A vida,meu filho, é combate/é luta renhida/ que aos fracos abate e aos bravos só pode exaltar”.
Quando você se lembra hoje do Maracanãzinho inteiro cantando “Caminhando” que sentimento você tem ?
Vandré: “Aquilo foi muito bonito, muito bonito. Pena que eu não posso ver o VT. Estão guardando o VT não sei para quê.Quero ver o VT. Lá na sua estação eles devem ter. Procure lá. Consegue o VT para ver!” ( olhando para a câmera).
Você tem saudade daquela época ?
Vandré : “Saudades….Saudades…Um pouco. Mas também há tanta coisa para fazer que não dá muito tempo de sentir saudade”.
Você vive de quê hoje ? Você recebe direitos autorais ?
Vandré: “Nunca dependi de música para viver. Sou servidor público. Hoje, estou aposentado como servidor público federal”.
Você deixou de receber direitos autorais ?
Vandré: “Pagam o que querem. Não existe controle. Não existe critério. Se nós tivéssemos direito de autor, teríamos os direitos conexos, direitos de marcas, patentes, propriedade industrial. É um assunto complexo. Mas aí não seríamos subdesenvolvidos“.
Você foi o único grande nome daquela geração que não voltou aos palcos – entre eles, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque…
Vandré: “Eu não voltei. É uma boa pergunta: por que não voltei? Não mudou tudo ? Mas será que mudou ?As razões pelas quais me afastei continuam preponderantes no que que se apresenta como realidade brasileira”.
Se você fosse escrever um verbete numa enciclopédia sobre Geraldo Vandré qual seria a primeira frase ?
Vandré: “Criminoso (ri)”.
Por quê ?
Vandré : “O que você chama de governo ainda me tem como anistiado por haver cantado as canções que cantei. Fui demitido do serviço público por causa das canções. O que se apresenta como governo no Brasil até hoje cobra impostos sobre o “corpo de delito” que foram as canções que fiz. Deu para entender agora ? “.
Você foi punido pelo governo da época, perdeu o emprego público…
Vandré: “Fui demitido. Depois, retornei. Briguei, briguei, briguei..”
 Em algum momento, você foi considerado “criminoso”…
Vandré: “Fui demitido por causa da canção. E essa canção que foi mltivo de minha demissão até hoje é…Voltei por força de um despacho dado com fundamento na Lei de Anistia, como se eu fosse criminoso. Anistia é para criminoso – condenado por sentença transitada em julgado, se ele aceitar. Porque ele pode não aceitar. Aceitar a anistia significa aceitar-se criminoso, beneficiário de anistia”.
Você acha que a grande injustiça foi esta : em algum momento você ser considerado um criminoso ?
Vandré: “Injustiça não é a palavra…”
Você teria cometido um “delito de opinião” …
Vandré: “Não. Era subversão mesmo, sob certos aspectos, porque não havia nada mais para fazer naquele instante. Não me lembro. Mas as Forças Armadas, propriamente ditas, entenderam muito melhor do que a sociedade civil. Nunca tive nenhum problema com as Forças Armadas propriamente. Sempre houve uma consideração e respeito entre nós”.

Hoje, você nega que tenha sido em algum momento um antimilitarista nos anos sessenta ?
Vandré: “Nunca fui antimilitarista. Nunca assumi tal posição. Fui lá e falei o que queria dizer, numa canção que foi dita e cantada no Brasil diante de todo mundo. A canção foi cantada para os soldados, também”.
O grande equívoco sobre Geraldo Vandré foi este : achar que você era antimilitarista ?
Vandré : “Não houve, na realidade, um grande equívoco. Houve uma grande manipulação porque, quanto mais proibido, mais sucesso fazia; mais se vendia; menos conta se prestava. É uma questão muito séria”.
Qual foi a última manifestação artística que despertou o interesse e a curiosidade de Geraldo Vandré no Brasil ?
Vandré: “Passei quatro anos e meio fora do Brasil. Quando voltei, havia uma coisa muito importante que era o Movimento Armorial. Havia o Quinteto Armorial e a Orquestra Armorial. A sonoridade era muito condensada. O resultado era importante. Para mim, foi a coisa mais importante que aconteceu nos últimos tempos. Não me lembro de outra coisa que tenha ido além daquilo”.
E da produção recente, alguma coisa chamou a atenção do Geraldo Vandré ?
Vandré: “Nada. Tiririca (ri). Dizem que vai ser o deputado mais votado de São Paulo. Está bom ? “.
Você disse, numa discussão na época dos festivais: “A vida não se resume a festivais”. Hoje, tanto tempo depois dos festivais, qual é o principal interesse do Geraldo Vandré ?
Vandré : “São as outras coisas que não estão nos festivais. Minha vida funcional – de que cuidei até me aposentar; as minhas relações com a Força Aérea, o meu projeto de fazer estas gravações na América espanhola…Tenho muita coisa para fazer”.
Outro grande nome que se celebrizou como opositor do regime militar na música brasileira foi Chico Buarque de Holanda. Você acompanhou o que ele fez depois ?
Vandré: “Chico teve um caminho diferente do meu. Não chegou a parar. Produziu muito durante aquela época em que eu estava fora. Chico ficou aqui. Saiu e voltou, saiu e voltou. Passei quatro anos e meio fora. Quando voltei, fiz uma tentativa de apresentação num programa de televisão. Não vem ao caso qual, mas não gostei do que aconteceu: o jogo de pressões que se fez em volta. Recuei. Depois, passou-se um tempo. A própria Globo queria fazer um festival. Chegaram a me procurar. Não tive interesse em participar”.
O que é que a produção de Chico Buarque significa para você ?
Vandré: “Chico é uma pessoa muito talentosa, muito importante. Um grande artista”.
Você perdeu o contato com todos os seus companheiros de geração na música ?
Vandré: “Nunca fui muito enfronhado no meio artístico. Fazia minhas coisas. Voltava para minhas atividades extramusicais”.

É verdade que você ficou escondido na casa da família Guimarães Rosa antes de ir para o exílio ?
Vandré: “Eu saí de circulação. Depois que o tempo foi passando, as coisas vão ficando claras: as Forças Armadas propriamente ditas não tinham nada contra mim. Não tomaram nenhuma iniciativa contra mim. Quando fecharam o Congresso Nacional, no dia 13 de dezembro de 1968, eu estava indo para Brasília para fazer um espetáculo.Evidentemente, suspendemos o espetáculo. Vim de carro – guiando – até São Paulo. Eu estava à mão das Forças Armadas….Nunca deixei de estar. Mas claro que algo poderia acontecer: ao andar à toa pela rua, eu poderia de repente encontrar um “guardinha de trânsito” que quisesse fazer média. Há sempre alguém que quer tirar proveito de situações assim. Para evitar, saí de circulação. Durante um tempo, estive na casa de Dona Aracy (viúva de Guimarães Rosa – que tinha morrido meses antes). Fiquei lá porque, quando vinha para o Rio, como não tinha casa aqui, sempre ficava na casa de amigos e de pessoas conhecidas”.
Por que você tomou esta decisão tão drástica – de interromper uma carreira de tanto sucesso ?
Vandré: “Decidir sair do Brasil naquele ano de 1968. (N:Os mesmos agentes que prenderam Caetano Veloso e Gilberto em São Paulo,em dezembro de 1968, tentaram prender Geraldo Vandré. Mas, avisado por Dedé, à época mulher de Caetano Veloso, Geraldo Vandré conseguiu escapar a tempo)  Eu tinha uma programação para fazer fora do Brasil. Tinha um contrato com a televisão Bavária,na Alemanha, para fazer um filme sobre Geraldo Vandré. Fui fazer. Passei um ano e meio pela Europa. Depois, voltei para o Chile – para onde eu tinha ido do Brasil. Havia muitos brasileiros lá ainda. De lá, fui para o Peru. Ganhamos um festival em Lima em 1972 com uma canção que era a única não cantada em espanhol. Era cantada em “brasileiro” mesmo. O Brasil não conhece a canção.Chama-se “Pátria Amada Idolatrada, Salve, Salve – Canção terceira”.
Você se lembra da letra ?
Vandré : “Eu me lembro. É uma canção que foi feita para ser cantada por um homem e uma mulher. Existe de caso pensado – coincidentemente – uma confusão de sentimentos entre a ideia da pátria e a ideia da mulher amada.O homem canta: “Se é pra dizer-te adeus/ pra não te ver jamais/Eu – que dos filhos teus fui te querer demais-/no verso que hoje chora para me fazer capaz da dor que me devora/quero dizer-te mais/ que além de adeus/ agora eu te prometo em paz levar comigo afora o amor demais”.
E a mulher, cuja imagem se confunde com a noção da pátria, responde:
“Amado meu sempre será quem me guardou no seu cantar/ quem me levou além do céu/além dos seus/e além do mais/ amado meu/ que além de mim se dá/não se perdeu nem se perderá”.
Os dois cantam juntos um para o outro. É um contraponto”.
Você foi constrangido a gravar, em 1973, um depoimento em que negava que fosse militante político. Qual foi o peso deste depoimento na decisão de Geraldo Vandré de interromper a carreira ?
Vandré: “Nunca fui constrangido a declarar que não tive militância política. Nunca tive militância político-partidária. Nunca pertenci a nenhum partido. Nunca fui político profissional. Não fui obrigado a dizer que não era militante. Nunca fui militante político. Nesta contemporaneidade em que estamos, eu me lembrei de um professor de Filosofia que dizia: “O homem é um animal político”. Sou uma qualidade de animal político que não depende de eleição. Vamos estudar a diferença entre política e eleição ?”.
Que lembrança você guarda deste depoimento ? Você foi levado para uma sala do aeroporto de Brasília e gravou um depoimento em que – de certa maneira – renegava ….
Vandré (interrompendo) : “É um assunto que ficou muito confuso. Não me lembro exatamente. Gostaria de ver a declaração…”
Você gravou o depoimento quando voltou do Chile…
Vandré: “Gostaria de ver, porque houve montagens. Era gravação. O que foi para o ar não sei”
O depoimento criou espanto na época, porque – de certa maneira – era você negando a militância política…
Vandré: “Nunca fui militante. Se engajamento político é pertencer a um partido, nunca pertenci a nenhum. Nunca fui engajado politicamente”.
Você obrigado a gravar este depoimento ? Fazia parte do acordo para voltar para o Brasil ?
Vandré: “Queriam que eu fizesse uma declaração. Não me lembro o que foi que disse. Mas eu disse coisas que poderia dizer. O que eu disse era verdade. Não disse nada que não tenha querido dizer. A TV Globo deve ter isso. Procure lá…”
A gente procurou e não encontrou….
Vandré: “Pois é:  somem com tudo. Que loucura essa…Por quê ? Veja se acha o vt do Maracanãzinho. É o que tem Tom Jobim. É o mesmo vt. A minha parte sumiu. Por quê ? Fizeram uma retrospectiva do Festival. Botaram o Festival no Maracanãzinho- Tom,Chico, todo mundo, Cynara e Cybele. Mas,na hora de botar o Geraldo Vandré, usaram um filme feito na Alemanha, em que eu estava de barba. Não é certo”…
Talvez tenham recolhido o filme…
Vandré: “Para mim, é muito difícil acreditar que a TV Globo tenha se desfeito do filme. Não acredito. Devem estar guardando muito bem guardado”
Só para esclarecer este episódio sobre o depoimento que você gravou quando voltou do exílio : que lembrança exatamente você tem ? Quem pediu a você para gravar este depoimento ?
Vandré: “Aquelas declarações foram feitas para uma pessoa que se me apresentava como da Polícia Federal. Fiz um depoimento aqui. Depois, disseram que eu tinha de ir para Brasília. Cheguei ao Brasil no dia 14 de julho. Dois meses depois, apareço como se estivesse chegando em Brasília. Aquilo foi uma manipulação. O depoimento foi gravado antes. Gravaram-me descendo do avião em Brasília. Tudo muito manipulado. É esta a história dos vts: normalmente, temos esta doença. Estou falando aqui. O que vai ser mostrado vai ser uma seleção que a estação vai fazer. Não vai ser o que estou dizendo. Isso é muito sério”.
Para encerrar o assunto: o depoimento teve um peso na decisão de interromper a carreira ? Você ficou incomodado com aquilo ?
Vandré: “Não. Eu estava chegando e vendo como estavam a coisas.Não tinha menor noção da realidade. Tive de passar por um processo de adaptação no retorno ao Brasil”.
O grande mistério que existe sobre Geraldo Vandré durante todas essas décadas é, afinal de contas, o que aconteceu com ele depois da volta do exílio: você foi maltratado fisicamente ?
Vandré: “Não.Não”
Se você tivesse a chance hoje de se dirigir a uma plateia de jovens num festival,o que é que você diria a eles ?
Vandré: “Vamos ter de dar um tempo aí, não é ?…” (rindo)
Um “tempo” de quantos anos ?
Vandré: “Não sei. Agora, vocês vão votar para presidente, deputado, senador. Estão ocupados com outras coisas. Estou por fora”.
Que papel você acha que vai caber a Geraldo Vandré na história da música popular brasileira moderna ?
Vandré: “Nunca fiz este tipo de avaliação”.
Que papel você espera ter ? Você se acha suficientemente reconhecido ?
Vandré: “Obtive o reconhecimento que procurei e quis”.
Você em algum momento se arrepende de ter interrompido a carreira ?
Vandré: “Não. Porque raramente me arrependo das coisas que faço. Calculo bem, reflito bem, meço bem : quando faço é para ficar feito mesmo. Não existe arrependimento não”.
Para efeito de registro histórico: você, primeiro, não se considera antimilitarista…
Vandré: “Não…”
Segundo: você não foi maltratado fisicamente durante o regime militar…
Vandré: “Não…”
Terceiro: você disse o que quis no depoimento que você foi forçado a gravar quando voltou do exílio…
Vandré: “E em quarto: há o Quarto Comando Aéreo Regional…Tenho uma canção para o “exército azul”, a Força Aérea…(ri e exibe o brasão da Aeronáutica, impresso numa espécie de cartão de visita que traz, no verso, a letra de “Fabiana“). A aviação é muito bonita. A loucura é a aviação. Porque a maior loucura do homem é voar. Conhece loucura maior do que esta ? Não existe”.
Como é que surgiu a fascinação de Geraldo Vandré pela aviação ?
Vandré: “Desde pequeno, desde criança”.
Você gostaria de ter sido aviador ?
Vandré: “É. Não fui aviador militar. Não sou piloto, mas – de certa forma – sou aviador, porque me ocupo de assuntos da aviação. Uma coisa é aviador, outra é piloto. Você pode ser piloto, co-piloto, rádio navegador, mecânico de bordo, médico aviador. Há vários caminhos – não necessariamente tem de ser piloto…”.
O fato de você ter composto uma música em homenagem à Força Aérea criou um certo espanto. Hoje, você se hospeda em hotéis da Aeronáutica, como este. Nós estamos num ambiente militar…
Vandré :”Relativamente, porque este é um instituto de direito privado…”
Houve alguma mudança na postura do Geraldo Vandré ou não em relação às Forças Armadas ?
Vandré : “O que houve foi o reconhecimento de uma parte da sociedade que nunca tinha tido oportunidade de saber realmente quais eram as minhas posições”.
Em que situação Geraldo Vandré voltaria a um palco hoje ?
Vandré:”Depende de onde. Tenho uma programação na qual investo meu tempo e minhas energias : gravar um disco no exterior, num país de língua espanhola. É minha prioridade. Depois, vou ver minha programação para o Brasil. Escrevi umas trinta canções originalmente em “americano de habla hispânica”. Quero gravar num país de música espanhola, com músicos de lá. Minha prioridade comercial é esta. Para o Brasil, por ora, o projeto é a canção da Força Aérea mesmo – e um projeto sinfônico. A canção se chama Fabiana porque nasceu na FAB – em sua honra e em seu louvor”.
Você, hoje, então prefere compor peças sinfônicas ?
Vandré: “Tenho estudado música. Compus uma série de estudos para piano – aproveitando da técnica de uma jovem pianista de São Paulo. Mas a música ganhou outras dimensões. Passou a ser física e matemática. Ritmos do coração. Fica mais complicado,mas, para mim, é música”.
Você tem planos de gravar a música que você fez em homenagem à FAB ?
Vandré: “Claro. Já fizemos uma apresentação numa festa da Força Aérea em torno das comemorações da Semana da Asa, em São Paulo, com um coral de trezentos infantes. Uma coisa muito bonita. Com o tempo, vamos ver quais são alternativas que se colocam”.
Você declarou algumas vezes : “Geraldo Vandré não existe mais….”
Vandré ( interrompendo) : “Não, não declarei. Eu disse que ele não canta no Brasil comercialmente. Apresentei uma canção para a Força Aérea do Brasil. Não canto comercialmente no Brasil porque os problemas todos que tive de enfrentar resultaram de especulações comerciais: vendas clandestinas, câmbio negro, tudo isso. Quanto mais se proibia,mais se vendia. A sociedade, às vezes, tem essa doença”.
Você canta “Disparada” hoje, em casa ?
Vandré : “Não. Faz tempo que não pego num violão. Tenho de voltar a estudar”.
Que instrumento, então, você toca ? Piano ?
Vandré :”Não. Não sou pianista. Toco de improviso alguma coisa”.
Pelo menos duas músicas que você compôs são conhecidíssimas até hoje: “Disparada” e “Caminhando”.
Vandré ( interrompendo) : “Pelo menos duas…”
Se você fosse escolher uma, que música você escolheria como típica da produção de Geraldo Vandré ?
Vandré: “Disparada” é mais brasileira, tem uma forma mais consequente com a tradição das formas da música popular : a moda de viola. “Caminhando” já é mais urbana. É uma crônica da realidade. É a primeira vez que fiz uma crônica. Deu no que deu. A realidade não estava muito querendo ser…”
Retratada…A obra-prima de Geraldo Vandré qual é ?
Vandré: “Todas são iguais. Para mim, são todas iguais. Isso de obra-prima é uma questão de seleção e de predileção do público, os meios de comunicação e os chamados formadores de opinião”.
Mas você deve ter uma predileção pessoal…
Vandré: “Não tenho. É tudo igual mesmo”.
As peças sinfônicas você compõe como ?
Vandré : “As melodias, algumas harmonias…Para escrever em notas convencionais, preciso da escrita de pessoas que estão muito mais afeitas a esta tarefa do que eu.Eu levaria anos para escrever uma partitura. Jamais escreveria como alguém que faz parte de uma orquestra, lê e escreve na hora, à primeira vista. Hoje,estou dedicado a preparar um poema sinfônico cuja abertura coralística será a Fabiana, a canção que fiz para a Força Aérea”.
Você hoje se animaria a fazer um espetáculo para o público brasileiro ?
Vandré :”Não.Para o público brasileiro, só uma coisa muito especial”…
Em que situação você voltaria a se apresentar no Brasil ?
Vandré: “Chegamos a cogitar de fazer uma apresentação da Fabiana no Clube de Aeronáutica. É um dos projetos de que chegamos a nos ocupar. Mas até agora as coisas ficaram postergadas, porque o clube vai entrar em reforma. Vêm aí as Olimpíadas Militares. O clube vai ter de se adequar”.
Qual é a grande inspiração que você tem para compor essas peças sinfônicas ? O que é que motiva você a compor ?
Vandré: “Nunca dependi muito da palavra inspiração. Escolhia os temas. O fundamental para mim é a memória que tenho do que ouvia no cancioneiro popular, as músicas de desde a minha infância”.
O público brasileiro ainda vai ter chance de ver Geraldo Vandré cantando “Caminhando” e “Disparada” no palco ?
Vandré: “Isso é profecia. Não sou profeta”.
O que é que levou você a fazer uma música em homenagem à FAB, a Força Aérea Brasileira, você, que era tido nos anos sessenta como antimilitarista ?
Vandré: “Era tido. Por quem ? Isso deveria ser perguntado para os que a mim me tinham como antimilitarista.Não sou militarista. Mas também não sou anti. Todos os países soberanos do mundo têm suas forças armadas. O que é que devemos fazer com as nossas ? Entregá-las para outras pessoas ? Vamos fazer isso ? Acho que não!
Chamo de “Fabiana” porque nasceu na FAB. Costumamos dizer assim: uma servidora da FAB é “fabiana”. A letra diz : “Desde os tempos distantes de criança numa força,sem par, do pensamento teu sentido infinito e resultado do que sempre será meu sentimento/todo teu/todo amor e encantamento/vertente.resplendor e firmamento/ Como a flor do melhor entendimento/a certeza que nunca me faltou/na firmeza do teu querer bastante/seja perto ou distante é meu sustento/ De lamentos não vive o que é querente do teu ser no passado e no presente/Do futuro direi que sabem gentes de todos os rincões e continentes/que só tu saber do meu querer silente/porque só tu soubeste, enquanto infante, das luzes do luzir mais reluzente pertencer ao meu ser mais permanente”.
O refrão é, coincidentemente, um contraponto de “vem/vamos embora/ que esperar não é saber” : “Vive em tuas asas todo o meu viver/ meu sonhar marinho / todo amanhecer”.
Termina a entrevista. Já são quase sete da noite. O Grande Solitário da MPB caminha em direção à escadaria que dá acesso à ala de hóspedes do hotel que funciona no Clube da Aeronáutica. Parte sozinho. Vai em companhia do único habitante do Brasil que Geraldo Vandré criou para si: o próprio Geraldo Vandré.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Estadão censura jornalista

Liberdade de Opinião é direito exclusivo de 6 famílias: Marinho (Globo), Civitta (Veja), Mesquita (Estadão), Frias (Folha de S.Paulo), Saad (Band) e Sirotsky (uma penca de jornais e TVs no Sul).

Quinta, 7 de outubro de 2010 

Bob Fernandes, no Terra Magazine

A psicanalista Maria Rita Kehl foi demitida pelo Jornal O Estado de S. Paulo depois de ter escrito, no último sábado (2), artigo sobre a “desqualificação” dos votos dos pobres. O texto, intitulado “Dois pesos…”, gerou grande repercussão na internet e mídias sociais nos últimos dias. Nesta quinta-feira (7), ela falou a Terra Magazine sobre as consequências do seu artigo e o motivo de sua demissão:
- Fui demitida pelo jornal o Estado de S. Paulo pelo que consideraram um “delito” de opinião (…) Como é que um jornal que anuncia estar sob censura, pode demitir alguém só porque a opinião da pessoa é diferente da sua?"

Leia abaixo a entrevista.

Terra Magazine – Maria Rita, você escreveu um artigo no jornal O Estado de S.Paulo que levou a uma grande polêmica, em especial na internet, nas mídias sociais nos últimos dias. Em resumo, sobre a desqualificação dos votos dos pobres. Ao que se diz, o artigo teria provocado conseqüências para você…
Maria Rita Kehl – E provocou, sim…
- Quais?
- Fui demitida pelo jornal O Estado de S.Paulo pelo que consideraram um “delito” de opinião.
- Quando?
- Fui comunicada ontem (quarta-feira, 6).
- E por qual motivo?
- O argumento é que eles estavam examinando o comportamento, as reações ao que escrevi e escrevia, e que, por causa da repercussão (na internet), a situação se tornou intolerável, insustentável, não me lembro bem que expressão usaram.
- Você chegou a argumentar algo?
- Eu disse que a repercussão mostrava, revelava que, se tinha quem não gostasse do que escrevo, tinha também quem goste. Se tem leitores que são desfavoráveis, tem leitores que são a favor, o que é bom, saudável…
- Que sentimento fica para você?
- É tudo tão absurdo…a imprensa que reclama, que alega ter o governo intenções de censura, de autoritarismo..
- Você concorda com essa tese?
- Não, acho que o presidente Lula e seus ministros cometem um erro estratégico quando criticam, quando se queixam da imprensa, da mídia, um erro porque isso, nesse ambiente eleitoral pode soar autoritário, mas eu não conheço nenhuma medida, nenhuma ação concreta, nunca ouvi falar de nenhuma ação concreta para cercear a imprensa. Não me refiro a debates, frases soltas, falo em ação concreta, concretizada. Não conheço nenhuma, e, por outro lado..
- …Por outro lado…?
- Por outro lado a imprensa que tem seus interesses econômicos, partidários, demite alguém, demite a mim, pelo que considera um “delito” de opinião. Acho absurdo, não concordo, que o dono do Maranhão (Senador José Sarney) consiga impor a medida que impôs ao jornal Estado de S.Paulo, mas como pode esse mesmo jornal demitir alguém apenas porque expos uma opinião? Como é que um jornal que está, que anuncia estar sob censura, pode demitir alguém só porque a opinião da pessoa é diferente da sua?
- Você imagina que isso tenha algo a ver com as eleições?
- Acho que sim. Isso se agravou com a eleição pois, pelo que eles me alegam agora, já havia descontentamento com minhas análises, minhas opiniões políticas.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Vida inteligente na TV aberta

Quem gosta da boa música brasileira tem que assistir um programão na TV Brasil (canais 3, 9 ou 14): Samba na Gamboa, com Diogo Nogueira (herdeiro do bom e saudoso João Nogueira). Às terças-feiras, 22 horas (por aí). Esta semana, quem estava lá eram o "samba-funkeiro" Ivo Meirelles e a "bate-lata" Fernanda Abreu. Programação excepcional em uma TV aberta (coisa mais rara que nota de três reais!) A TV Brasil é a nova emissora estatal brasileira, espécie de BBC (inglesa). Depois do vídeo com a Fernanda Abreu/Ivo Meirelles, segue outro de um programa anterior, que teve a participação de Martinho da Vila.

Primeiro vamos de Fernanda Abreu/Ivo ...




... e agora de Martinho da Vila

Três minutos de história contemporânea

Falha de S. Paulo censura humorista.
Liberdade de Expressão em risco!

Censura eu, Folha!

 
Na semana passada, uma forte crise nostálgica atingiu a família Frias. Podia ser saudade dos anos 80, época em que a Folha de S. Paulo era chamado de "jornal das Diretas" e tido como um legítimo aliado das lutas democráticas. Mas não. A Folha sentiu saudade foi dos bons e velhos anos 70. E não era vontade de usar costeletas, vestir calças boca-de-sino e dançar Staying Alive. Era a saudade da rigidez viril dos anos de ditadura, quando a Folha era uma maria-caserna tão próxima dos generais que emprestava seus carros para as ações de tortura e morte de "inimigos do regime" praticadas pelos paramilitares da Operação Bandeirantes. 

Em 30 de setembro, o jornal conseguiu uma liminar que obrigava os irmãos Lino e Mario Bocchini a tirar do ar o conteúdo da Falha de S. Paulo, um site de humor que tirava um barato do indisfarçável viés pró-tucano que aterrissou com mais força do que nunca na Barão de Limeira dos últimos tempos. Os dois foram obrigados a remover do ar todo o conteúdo do site, sob pena de pagar multa diária de R$ 1.000. Segundo Lino, a empresa nem chegou a enviar uma notificação extrajudicial ou um pedido por e-mail: já foi logo apelando para o processo. Assim, a seco, sem KY nem piedade.

video

— É chocante a hipocrisia da Folha. Se isso não é censura e um atentado inaceitável à liberdade de expressão, juro que não sabemos o que é. Chega a ser cômico: o mesmo jornal que faz dezenas de editoriais acusando o governo de censura e bradando indignado por ‘liberdade de expressão’ comete esse ato violento de censura — afirmava o site, no seu último comunicado. Que também teve de sair do ar, neste final de semana, porque ate o domínio falhadesaopaulo.com.br acabou congelado no Registro.br por conta da decisão judicial. 

A Folha não teve a menor vergonha de apelar para a censura. A advogada do jornal, Taís Gasparian, alegou que a intenção não era censurar o site, mas impedir o uso indevido da marca Folha de S. Paulo. Para o Portal Imprensa, a advogada deu a entender que ainda foi boazinha, pois podia ter pedido multa diária de R$ 100 mil.

Taís Gasparian é a mesma advogada que defendeu o direito da Folha de S. Paulo de publicar fotos do Raí pelado no vestiário do São Paulo ou o direito do colunista José Simao de afirmar que Juliana Paes tinha a bunda grande e não era casta. Na época em que o Macaco Simão foi vítima de censura judicial por conta destas "afirmações polêmicas", Dona Taís disse na própria Folha que a decisão do juiz tratava
"o humor como ilícito e, no fim das
contas, é a mesma coisa que censura".
Entendeu? Olha só, Lino, Dona Taís já deixou pronta a linha de defesa que vocês podem usar. É só copiar as mesmas alegações que a Folha usou em casos semelhantes — quando era vítima, e não autora, de censura. A mesma Folha que transforma qualquer reclamação de Lula sobre a imprensa em ameaça à liberdade de expressão, mas se cala quando reclamações semelhantes, ou até piores, partem de José Serra.

Mas a Folha vai ter muito trabalho se quiser censurar a internet. Sem consultar os responsáveis pela Falha de S. Paulo, o Boteco Sujo recorreu ao cache do Google e encheu esse post de imagens do site censurado. O Mundo Cane, do mano Gio Mendes, vai fazer a mesma coisa. E um outro site já fez um espelho de todos os posts proibidos do Falha.

Você tem blog, Tumbrl, Orkut, Facebook, o escambau? Vai lá, faça a mesma coisa. Vamos nos apropriar indevidamente da Folha e denunciar o "jornal das Diretas" que virou censor. Dona Taís vai ter muito trabalho para conseguir censurar a todos.

Censura pode vir de onde menos se espera. Por isso, todo cuidado é pouco. A dita é branda? É, mas trisca pra ver se não fica dura.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A mídia manipula. Ou não(?), como diria Caetana Velosa

Vejam a notícia a seguir e reflitam: se Cuba fizesse o mesmo com um terrorista, a mídia diria que era atentado à liberdade. Pergunto: alguém acha que o governo dos EUA está errado em condenar um terrorista à prisão perpétua?


Autor de tentativa de atentado em NY recebe prisão perpétua

Juíza afirma que sentença busca proteger população de novos crimes de Faisal Shahzad e de "outros que possam seguir seus passos"

05/10/2010 12:12
O americano de origem paquistanesa Faisal Shahzad, 30 anos, foi condenado nesta terça-feira à prisão perpétua, ao ser considerado culpado de uma tentativa de atentado na Times Square, em Nova York, em maio.
Faisal Shahzad já havia se declarado culpado à Justiça em junho por dez acusações, entre elas as de tentar usar uma arma de destruição em massa e praticar atos de terrorismo.


Foto: © AP Faisal Shahzad

A juíza Miriam Goldman Cedarbaum disse que a pena é importante para "proteger as pessoas de outros crimes de Faisal e de outros que possam querer seguir seu passos".
Se dirigindo à Corte Federal de Manhattan, onde recebeu a sentença, Shahzad assumiu uma postura desafiadora.
"Preparem-se, porque a guerra com os muçulmanos apenas começou", disse o réu. "A derrota dos Estados Unidos é iminente e acontecera em breve."
Durante pronunciamento antes da sentença, Shahzad disse ainda que não se arrependia do ataque. A juíza o interrompeu e perguntou se, ao se tornar cidadão americano, ele não havia jurado fidelidade aos Estados Unidos.
"Jurei, mas estava mentindo", respondeu ele. "Então você cometeu perjúrio", rebateu a juíza.
O explosivo na Times Square foi descoberto na noite de 1º de maio, um sábado, quando o local estava lotado de turistas. Um vendedor percebeu fumaça saindo de um veículo Nissan Pathfinder, que havia sido abandonado com o motor ligado e as luzes de emergência piscando. A polícia desativou a bomba que, por não explodir, preservou evidências cruciais que levaram os investigadores a Faisal Shahzad. Ele foi preso 56 horas depois, quando já estava a bordo de um avião que voaria para o Oriente Médio.
O paquistanês viveu nos Estados Unidos durante grande parte da última década e conseguiu a cidadania americana em 2009. Ele teria voltado recentemente de uma viagem de cinco meses ao Paquistão, onde mora sua mulher.
Nos Estados Unidos, ele morava em um bairro de classe média em Bridgeport, a maior cidade do Estado de Connecticut. Ele se formou em Informática na Universidade de Bridgeport em 2000, e completou uma pós-graduação em Administração na mesma faculdade em 2005.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A imprensa critica mas não aceita críticas

Os criadores deste vídeo, que faz uma paródia de anúncio da Folha de São Paulo, foram censurados pela justiça de São Paulo, a pedido do jornal, por fazerem críticas à baixa qualidade e tendenciosidade do diário paulistano. O juiz arbitrou multa de R$ 1 mil por dia, caso mantivessem no ar o site "Falha de São Paulo". Como se vê, a imprensa acha que a liberdade de expressão é direito exclusivo das famílias Frias (Folha), Civitta (Veja), Marinho (Globo), Mesquita (Estadão) e Tanure (uma penca de jornais e TVs).
 

Democracia e união para construir o futuro


DILMA ROUSSEFF
ESPECIAL PARA A FOLHA
O Brasil dará neste domingo mais uma demonstração da nossa vitalidade democrática. O mundo nos observa na expectativa de confirmar a extraordinária evolução do país nos últimos anos.
Somos hoje capazes de vencer o desafio do crescimento sustentado, inclusive ambientalmente, e de combater a desigualdade, promovendo distribuição de renda e justiça social.
Realizadas com ampla liberdade e garantias plenas para milhares de candidatos e 136 milhões de eleitores, as eleições reafirmam a característica mais notável do novo Brasil que está surgindo.
Trata-se do fato de que, em nosso país, as grandes transformações econômicas, sociais e políticas transcorrem no mais absoluto processo democrático. Democracia é um valor que nos distingue e nos qualifica no cenário internacional.
A conquista da democracia e seu constante aperfeiçoamento relacionam-se diretamente aos avanços do país nos últimos anos. É profundamente democrática, por exemplo, a ascensão à cidadania de 28 milhões de brasileiros que saíram da miséria, no governo do presidente Lula, graças ao crescimento econômico e a programas sociais abrangentes e eficazes, como o Bolsa Família, o Luz Para Todos e o Minha Casa, Minha Vida.
Nossa política econômica é pautada por um sentido inequívoco de inclusão -desde a valorização do salário até a multiplicação da oferta de crédito, além da retomada do investimento proporcionada pelo PAC.
Adotando medidas que incentivam a produção e o acesso ao consumo, conseguimos impulsionar o mercado interno em nova e poderosa dinâmica, além de revigorar o comércio internacional e multiplicar as exportações.
Do ponto de vista social, do olhar que caracteriza nosso projeto para o país, o resultado dessa política foi a criação de 14,5 milhões de empregos com carteira assinada, com a ascensão de 36 milhões à classe média -uma nova classe média, que incorpora ao mundo do trabalho e da geração de renda cidadãos de fato e de direitos.
Estamos alcançando um novo patamar dos direitos fundamentais, em que a noção de liberdade ultrapassa a justa possibilidade de reivindicar e se concretiza no direito de viver com dignidade, para mais livremente participar da vida social.
Esta evolução é revigorada cotidianamente na convivência das instituições republicanas com o exercício amplo e irrestrito da liberdade de expressão e manifestação. Por meio de suas organizações, de uma imprensa livre e de meios de comunicação e informação instantâneos, a sociedade se manifesta, influencia, critica e corrige. A inteligência é livre neste país.
Só o processo democrático seria capaz de operar transformação tão profunda, em espaço de tempo relativamente curto, num país marcado por séculos de injustiça e exclusão. Só a democracia, exercida no respeito à Constituição e ao Estado de Direito, permitirá consolidar e fazer avançar o processo de mudanças que fez do Brasil um país amado por seu povo e respeitado no mundo.
Quando a vontade soberana da maioria se pronunciar, será nosso dever unir o país, com os olhos no futuro.
Temos a oportunidade histórica de construir uma nação para 190 milhões e para os que virão depois. Reduzir o resultado eleitoral ao triunfo de uns sobre outros em nada contribuirá para essa conquista.
Contados os votos, seja quem for o vencedor, será hora de somar forças, na convivência democrática, para fazer do Brasil um país ainda melhor e mais justo, governado para todos, como é hoje, e com oportunidades para todos.


DILMA ROUSSEFF , ex-ministra de Minas e Energia e ex-chefe da Casa Civil, é candidata à Presidência da República pela Coligação Para o Brasil Seguir Mudando.

domingo, 3 de outubro de 2010

O carioca nu

José Ribeiro Jr., publisher do The Vila Biscaia Post

Talvez nenhum povo seja tão influenciável pela Rede Globo como o carioca. A grande maioria dos cariocas vive em cidades e bairros envelhecidos, maltratados por dezenas de anos de administrações incompetentes e corruptas, distantes muitas horas de seus locais de trabalho e de estudo, sem um bom restaurante, uma boa livraria, uma boa casa de shows, um bom cinema por perto. Com ruas esburacadas, calçadas arrebentadas, lixo espalhado por quintais baldios onde pastam cavalos (!), trânsito absolutamente caótico e ônibus caindo aos pedaços, apesar de tudo isso, todo bom carioca acredita piamente que a sua rua, seu bairro, sua cidade são iguais àquelas mostradas nas novelas globais das 7 horas e de depois do Jornal Nacional. Mesmo quem vive em bairros como Copacabana, em kitinetes de 20 metros quadrados, com pelo menos seis delas por andar, em prédios de 20 andares, construídos na década de 50 se convence de que sua moradia é tal e qual os espaçosos apartamentos de cobertura, com 2 mil metros quadrados de área privativa, nas áreas nobres de Ipanema, Leblon e na Barra. A mesma ilusão faz o carioca se ver como "alguém a frente de seu tempo", politicamente avançado, aberto a novas idéias e tendências. A realidade, contudo, mostra um povo altamente conservador, absolutamente despolitizado, presa fácil dos políticos mais atrasados e malandros. Em que outro lugar do mundo políticos como Moreira Franco, casal Garotinho, Índio da Costa, Cesar Maia, Carlos Lacerda, Chagas Freitas seriam endeusados? Qual outro povo tão pobre e explorado compartilharia a mesma visão de sociedade dos ultra elitistas Arnaldo Jabor, Danusa Leão, Diogo Mainardi?

Desde que o Rio de Janeiro deixou de ser a Capital da República, com o advento de Brasília, o carioca vive a fantasia de que o Rio ainda é importante, que o carioca dita a moda e os costumes para todo o resto do País, quiça do mundo. Não se dá conta de que só ele, e apenas ele, ainda acredita nessa fantasia que lhe é vendida por seu guru inabalável, a Rede Globo. O carioca vive no Estado mais belo do Brasil, o mais alegre, com a melhores praias, um sol maravilhoso, com pequenos restaurantes de qualidade internacional, bibliotecas, teatros e museus espetaculares etc etc etc. Mas a imensa maioria dos cariocas que vivem no Rio só usufruem dessas vantagens pela tela da Rede Globo. Pergunte a um carioca qualquer quando foi a última vez que esteve no Teatro Municipal? Na Biblioteca Nacional? No Museu da Quinta da Boa Vista ou no Villa Lobos? No restaurante Albamar? Não se surpreenda se 90% não souberem sequer do que se trata. A imensa maioria dos cariocas, quando muito, já foi uma vez ao Canecão, Sambódromo, Maracanã, ao Porcão... A tão decantada "alta cultura" que o carioca - especialmente o da Zona Sul - gosta de vender como um atributo de sua vida, do seu dia-a-dia, não passa das páginas de quadrinhos de jornais fuleiros como Extra, O Dia, O Globo. A suposta "fina ironia" que faria parte indissociável da personalidade do carioca tem a dimensão das piadas (?) de programas decadentes e sem graça como Casseta e Planeta, Zorra Total, Turma do Didi, entre outras peças que ficariam melhor caracterizadas como "fúnebres". A vida do carioca é tão divertida quanto esses programas, ou as piadas do Pasquim (ainda existe???) Para compensar a vidinha mais ou menos que se acostumou a levar, a Rede Globo induz o carioca a consumir, sem a mais leve reflexão, rios de cerveja de baixíssima qualidade e churrasco gaúcho, num ambiente de 40 graus. Já houve tempo, nos anos 70, em que o carioca embarcou na moda recomendada a ele pela Rede Globo de beber vinho tinto gelado a qualquer hora do dia, sob o sol escaldante. De uma hora para outra proliferaram em todo o Rio de Janeiro botecos de vinho, os mais vagabundos que se possa imaginar, onde se podia sorver, em copo de compota, um tinto despejado de garrafão de 5 litros. Nos mesmos anos 70, milhares de senhoras cariocas de inteligência discreta e soberba exuberante passaram, de uma hora para outra, a proclamar que a regra para adquirir cultura era assistir telejornais e ler revistas e jornais. Foi a época de ouro das assinaturas de Veja e Nova e do Círculo do Livro. Vem daí a fome insaciável que os cariocas têm de consumir informações superficiais e escandalosas, como as que lhes servem os telejornais popularescos (ou seja, todos), para terem assunto em mesa de bar, na repartição, no cafezinho da empresa, nas reuniões familiares, nos churrascos na laje, entre outros eventos sociais. O carioca considera fundamental parecer "estar por dentro", independente do que isto venha a significar. A propósito dessa ânsia de se sentir "inserido no contexto", para usar um expressão que já esteve na boca de 9 entre 10 cariocas, recordo uma vez, nos distantes anos 70, em que um colega me questionou sobre a melhor banda internacional do momento e, ante minha ignorância, pontificou: "fale que é o Santana, que você estará por dentro". O carioca é assim: pra que refletir, se a Globo entrega pronto tudo o que o carioca precisa para parecer "estar por dentro?" Agora, o novo prato feito que a Globo serve ao carioca para ele parecer que "está por dentro" é o "Marinasso", a tal onda verde de Marina Silva. Não que a Globo acredite nela, ou sequer apoie as suas propostas para o Meio Ambiente. Ao contrário, a Globo considera Marina Silva uma radical, eco-chata e atrasada. Mas, nesse momento, votar em Marina Silva significa a única possibilidade de levar José Serra, o candidato da Globo, para o segundo turno. Faltam 6 dias para as eleições e Marina Silva tem menos da metade das intenções de voto de José Serra. Portanto, ainda que ela cresça de maneira exponencial, quem irá disputar um eventual segundo turno com a Dilma é José Serra. Se houvesse a mínima possibilidade de que Marina e não Serra passasse para o segundo turno, a Globo desengavetaria as muitas denúncias de corrupção no Ministério do Meio Ambiente, inclusive envolvendo o marido da ex-ministra, o "dono" de várias ONGs ambientalistas, Fábio Vaz de Lima. Em 2005, o marido de Marina Silva foi acusado pela Polícia Federal de vender madeiras nobres, como mogno, que haviam sido apreendidas de desmatadores. Nem a Veja, nem a Globo irão lembrar agora essas e outras denúncias de corrupção envolvendo o círculo íntimo de Marina Silva. Assim, a Globo vai vendendo mais um modismo para os cariocas, para que não se dêem conta de que o Rio vem regredindo desde os anos 60, justamente por que o que prevalece no Estado são os interesses da Rede Globo. E os cariocas embarcam sem questionamento, como embarcaram em inúmeros outros modismos que a Globo, conforme as suas conveniências, vai lhes impondo. Não faz muito tempo - creio que todo mundo está lembrado disso - a Globo fez todo carioca repetir como um papagaio a fala "discernimento". Usar essa palavra conferia àquele que a proferia um certo ar de "intelectualidade". Não é uma maravilha? Não precisa estudar, não precisa ler, não precisa perder tempo em busca de saber, dispensa escola, livros, professores, não precisa sequer refletir: basta enfiar uma  palavra bonita e sonora no meio de uma frase banal. Tipo assim: "tem que ter discernimento!" Pronto: o sujeito se sente um douto e, melhor que tudo, "por dentro". Portanto, em 2010, dizer que vai votar em Marina Silva é sinônimo de "ser inteligente", tão inteligente a ponto de terceirizar a capacidade de reflexão para a Rede Globo. Mas para quem já achou "o fino da moda" e demonstração de "inteligência" beber vinho vagabundo em copo de compota e proferir pomposamente "tem que ter discernimento" não chega a surpreender.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Como fica agora o pastor metrossexual Patolino Piragibe Jr???

Carta do presidente do Conselho Nacional de Pastores do Brasil

CARTA ABERTA À NAÇÃO BRASILEIRA

Na condição de Presidente do Conselho Nacional de Pastores do Brasil – CNPB; Presidente Nacional das Assembléias de Deus Ministério de Madureira; de Deputado Federal e homem de Deus compromissado com a verdade, sinto-me no dever de respeitosamente esclarecer:

1) Com relação à boataria cruel e mentirosa que permeia os meios de comunicação, principalmente a internet com intuito irresponsável de difamar e plantar dúvidas concernente à candidatura de Dilma Rousseff, tenho a dizer que em momento algum a afirmação "nem Cristo impede ...", saiu dos lábios da senhora Dilma Rousseff, sendo portanto, mera ficção e sórdida mentira da parte desses autores.

2) Em reunião no dia 24 de julho próximo passado, na Sede Nacional das Assembléias de Deus no Brasil em Brasilia-DF, na presença de mais de 3.000 (três mil) pastores e líderes de todos os Estados do Brasil e Distrito Federal e, com a participação de 14 denominações evangélicas mais representativas do segmento religioso do país foi firmado um compromisso público de que todos os temas que envolvam conceitos de fé e princípios ético-religiosos serão sempre de iniciativa do poder legislativo – Congresso Nacional – e nunca por iniciativa do poder executivo; sendo esta candidatura a única a se comprometer de forma expressa e pública com estes princípios. Afirmou inclusive a candidata Dilma Rousseff, ser defensora da valorização da vida, da família e dos seus conceitos fundamentais.

3) Portanto, tudo que passar disso é mera invenção e mentira de pessoas descompromissadas com a verdade.

Reitero neste momento a nossa posição de apoio total e irreversível à candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República Federativa do Brasil, com a certeza de que estamos no rumo certo do sucesso, do desenvolvimento, da melhoria de vida das pessoas, da valorização da família, dos princípios éticos cristãos, sendo estes inequivocamente a base para a vitória que todos queremos os quais são defendidos reiteradamente por Dilma Rousseff.

Atenciosamente,
Bispo Doutor Manoel Ferreira

http://www.conamad.com.br/portals/13/cartaanacaobrasileira.pdf

A Verdade é Libertadora!

Em desespero, na reta final das eleições, as campanhas de José Serra e Marina Silva espalham boatos de que Dilma é o capeta. Quem acredita merece mesmo ser enganado, pois que não sabe que a Verdade Liberta.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O “Bolsa Esmola” está tirando as crianças das ruas pra escola

O Programa Bolsa Família, debochadamente chamado pelos Demos/Tucanos de “bolsa esmola”, tirou milhares de crianças nordestinas e nortistas das margens das BRs 116 e 101 e as colocou nas salas de aula.

Isto não é propaganda do Governo Lula – pelo menos não aquela que ouriça toda a vice-procuradora do TSE Sandra Cureau –, mas relato de alguém acostumado a trafegar por aquelas bandas desde 1980, o caminhoneiro Tevino, como é chamado pelos familiares e amigos.
Tevino, a bordo do Mercedes 2425 seminovo

Também não é a única transformação que o motorista observou, especialmente a partir de 5 anos para cá. “As cidades cresceram, os negócios aumentaram, até as casas melhoraram de aparência, tudo está mais limpo, mais bonito” – conta, entusiasmado.

Tevino tem 53 anos, é casado com Dinha e tem três filhos (Adriana, Isabel e Bene). Paranaense de Ribeirão Claro e criado em Santo Antonio da Platina, ele trocou o Norte Velho por Curitiba depois que a geada negra de 1975 arrasou os cafezais.

Na capital foi trabalhar como porteiro num condomínio fechado em Santa Felicidade (Vila Romana), onde sua mulher era diarista. Logo viu que aquilo não tinha futuro e trocou a portaria monótona pela agitada vida na estrada.

Nessa labuta, se acostumou a ver centenas de crianças perambulando em meio aos caminhões, tapando buracos a troco de tostões nas estradas, especialmente da Bahia para cima. As maiorezinhas – 12, 13, 15 anos –, muitas se prostituiam – ele conta. Era resultado da falta de trabalho e da ausência de perspectivas para 3/4 da população brasileira.

Hoje – testemunha o caminhoneiro – as estradas estão consertadas e, quando se entra nas cidades, o que se vê são multidões de crianças uniformizadas indo ou vindo da aula. Na avaliação do caminhoneiro, isso é resultado visível do Bolsa Família.

Mas não é apenas esse programa; os investimentos em obras e na agricultura familiar no Nordeste e no Norte do Brasil criaram empregos e renda para milhões de pessoas. O caminhoneiro sente isso na sua atividade, quando busca novo frete para fazer o caminho de volta ao Sul. O que antes era quase uma loteria, agora ficou fácil: há frete sobrando e com bom preço, conta.

Isso explica a espera de mais de dois meses para a entrega de caminhões novos nas concessionárias. Por conta dessa demora, o próprio Tevino, que este ano conseguiu financiar o seu próprio caminhão, acabou optando por um usado, de 2007.

Como o veículo precisava de alguns reparos, o caminhoneiro ficou três semanas em casa, e essa parada providencial foi que permitiu essa entrevista. Ela estava combinada fazia um ano, desde que sua mulher, Dinha, comentara com o repórter as impressões do marido nas viagens ao novo Nordeste.

Orgulho de brasileiro

A Bahia não é mais só côco e axé, pelo que o caminhoneiro Tevino conta. Nas viagens de volta à casa ele carrega frutas e legumes de cidades do interior baiano para abastecer São Paulo e o Paraná.

Na viagem mais recente, trouxe um carregamento de mangas para o Ceasa paranaense. Frutas da propriedade de Dona Lourdes, que há poucos anos seria cliente potencial do Bolsa Família. Hoje, o que ela produz deu até para comprar uma caminhonete para facilitar a locomoção entre a propriedade e os mercados mais próximos. A produtora de mangas, mãe de 8 filhos, é um exemplo desse novo Brasil. Orgulhosa com a ascensão recente, ela brinca: “hoje não sou mais Lourdes, sou Dona Lourdes!”

A produtora é de Juazeiro da Bahia, cidade que floresceu com o trabalho de centenas de agricultores apoiados pelo governo Lula. “Aquele povo ganhou auto-estima, e isso ninguém mais tira deles”, conta o paranaense Altevino. Por isso quem quiser arrumar briga na região é só falar mal do presidente Lula, vai avisando.

Pergunto se essa é uma impressão dele, ou se as pessoas comentam a respeito. Ele conta que o povo nordestino reconhece, sim, que Lula foi o primeiro a fazer alguma coisa por aquela gente.
Procuro ser mais direto: mas isso vai se transformar em votos? (Essa conversa com o caminhoneiro Tevino ocorreu antes do início da propaganda eleitoral, quando Serra e Dilma tinham 39% e 38%, respectivamente). “Quem não votar na candidata dele é um ingrato”, responde o caminhoneiro, sem mencionar o nome da ex-ministra Dilma Roussef. Na verdade, quando falou com o repórter, o paranaense Tevino ainda não tinha gravado o nome da presidenciável. Só o que ele sabia na época era que “essa mulher é a candidata do Lula”. Informação suficiente para ele não ter a menor dúvida de que seria dela o seu voto para Presidente.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Olha a turma do José Serra aí, gente!!!



Extraído do Blog Josias de Souza

O vídeo acima, levado ao Youtube nesta terça (21), aponta para a existência de um novo mensalão, dessa vez no governo DEMO/Tucano do Mato Grosso do Sul. A peça foi gravada em 12 de junho pelo secretário de Governo do município de Dourados, Eleandro Passaia.

Ele usou uma câmera escondida. Em primeiro plano, aparece nas imagens o deputado estadual Ary Rigo (PSDB), primeiro-secretário da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul.

Sem saber que estava sendo filmado, o tucano Rigo discorre sobre um esquema de rateio de verbas. Conta que parte do dinheiro repassado pelo governo estadual para o custeio do legislativo era “devolvido” ao governador André Puccinelli (PMDB).

Há mais: repassava dinheiro também para deputados. Há pior: em troca de proteção, distribuía mesadas a autoridades do Judiciário e do Ministério Público do Estado. A certa altura, o deputado tucano reclama de uma mudança que fez minguar o caixa disponível para a partilha.

“Pra você ter ideia, nós devolvíamos R$ 2 milhões em dinheiro pro André [Puccinelli], R$ 900 [mil] nós dávamos pros desembargadores do Tribunal de Jutiça e R$ 300 [mil] pro Ministério Público. Cortou tudo. Nós vamos devolver R$ 6 milhões pro governo”.

O aumento da “devolução” fez minguar o montante supostamente destinado ao mensalão. Ouça-se Ary Rigo: “Lá na Assembléia, nenhum deputado ganhava menos de R$ 120 mil. Agora, os deputados vão ter que se contentar com R$ 42 [mil]”.

Há na Assembléia de Mato Grosso do Sul 24 deputados, dos quais 20 integram a bancada que dá suporte à gestão de Puccinelli. Em notícia veiculada na edição da Folha desta quarta (22), os repórteres Sílvia Frias e Graciliano Rocha contam o seguinte:

1.  Eleandro Passaia, o secretário de Dourados que gravou, na surdina, o deputado Ary Rigo, agia sob orientação da Polícia Federal.

2. O vídeo exposto lá no alto é apenas um pedaço da cinemateca. Além de reuniões com políticos, gravou-se o pagamento de propina ao prefeito de Dourados.

3. O prefeito se chama Ari Artuzi. Antes das investigações, estava filiado ao PDT. Foi expulso.

4. As fitas do secretário Passaia deram origem à Operação Uragano. Foram presos, em 1º de setembro, o prefeito, secretários e vereadores de Dourados.

Repare que, no início da gravação lá do alto, Rigo menciona uma reunião que manteve com um assessor de um certo “Londres”.

Vem a ser o deputado estadual Londres Machado (PR), ex-presidente da Assembléia. Rigo conta que também participou do encontro um personagem chamado “Claudionor”. Seria o desembargador Claudionor Abss Duarte, do Tribunal de Justiça do Estado.

Pois bem. Ary Rigo relata que, durante a reunião, foi informado, pelo telefone, sobre um “zumzum” de que “o Artuzi vai ser preso”. Referia-se a Ari Artuzi, o prefeito de Dourados. Seria detido em junho, antes da deflagração da operação da PF.

“Há meia hora atrás ia [ser preso], agora não vai mais”, diz o deputado Rigo no vídeo. Ele repete que o desembargador Claudionor tomava parte da reunião.

Noutro trecho da conversa, Ary Rigo queixa-se do prefeito Artuzi, que não lhe seria grato pelo esforço que empreendera para socorrê-lo.

“O André [Puccinelli] tá puto com ele. Sabe por quê? Por que ele dizia que eu e o André queríamos foder ele, quando nós tiramos ele da cadeia pô. Ah, para com isso pô. Você dá R$ 300 mil por mês no Ministério Público, seguramos tudo. [...] E ele dizendo que eu e o André estávamos fodendo ele. Você acha que é fácil?”

Ouvido sobre a encrenca, nesta terça (21), o governador Puccinelli, que concorre à reeleição, deu de ombros: "Não vi [o vídeo] nem estou preocupado. Pergunte para o Rigo".

Ary Rigo, o deputado que foi gravado sem saber, falou por meio do advogado, Carlos Marques. Disse que a distribuição de verbas mencionada por seu cliente na conversa de junho não se refere a propina. Seriam repasses institucionais da Assembléia.

"Eles, da Assembléia, estão economizando e repassando para o governo. Os repasses eram institucionais", disse o advogado.

E quanto à mesada dos deputados? "Ele se referiu a quanto custa o gabinete do deputado, salário, verbas de gabinete, verba indenizatória. Ele não sacava o dinheiro e dava. Não existe isso".

Em nota, o Tribunal de Justiça afirmou que os repasses recebidos do governo do Estado são previstos em lei, contabilizados e publicados no ‘Diário da Justiça’ e no Portal da Transparência da instituição.

No texto, assinado pelo desembargador Paulo Alfeu Puccinelli, o tribunal informa qie "interpelará judicialmente o denunciante, para que a verdade seja esclarecida com transparência e rapidez".

Enquanto o Ministério Público se preocupa com o Tiririca ...

Geraldo Alckmin é o que leva o paletó no braço.
Ney Santos, ligado ao PCC (abraçado com Geraldo Alckmin), é candidato a deputado federal pelo Estado de São Paulo. Mais uma contribuição Demo/Tucana para o progresso do Brasil. Enquanto isso, o Ministério Público (pra quê o MP foi criado mesmo?!) se preocupa com o Tiririca. E pastores metrossexuais e fundamentalistas querem colocar na cadeia mulheres estupradas que optarem pelo aborto legal.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Cara de quem recebeu notícia ruim

O candidato Beto Richa estava hoje, no horário de almoço, no antigo restaurante Bologna e exibia uma cara de preocupação jamais vista naquele rosto. O motivo, talvez, esteja na pesquisa Vox Populi a ser divulgada na quarta-feira. É o se depreende do pedido de impugnação da pesquisa, que o tucano fez ao TRE. Ou pode ser tensão emocional pelo debate de logo mais, na RIC TV, no qual se espera outro "pega" entre o "tio cowboy e o sobrinho playboy", como os caracterizou tão bem o candidato do PSol.


Em homenagem aos dois candidatos, seu Madruga canta um clássico da Legião Urbana: Faroeste Caboclo:

Sensacional debate na Globo/Folha