sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Molecagem de ontem e hoje

Francisco Duarte

“Esse largou os betes!” A expressão, usada por um amigo para se referir a outro amigo comum, me trouxe à memória alguns termos usados por uma garotada que hoje está na faixa dos 50 anos de idade. “Largar os betes”, para quem não sabe, significa “desistir” e é aplicada em casos em que essa desistência significa mais ou menos “entregar os pontos”.

Assim, um sujeito que largou mão de azarar uma certa garota, ante o desprezo absoluto que lhe era dedicado, certamente desistiu, mas não “largou os betes”. Agora, se amargurado pelo desprezo da fada o sujeito abdica definitivamente do mulherio e parte em busca de novas experiências, esse realmente “largou os betes”.

Prosseguindo no refrescamento da memória dos cinqüentões recordo a expressão “boas de volta”. Era usada no jogo de bola de gude, que consistia em acertar o búrico (a meta do jogo) e evitar que o adversário o acertasse. Para isto, tinha-se que acertar a bola do adversário, afastando-a do búrico.

Quando a bolinha escapava da mão, o jogador que proclamasse de imediato “boas de volta” tinha direito de refazer a jogada. Ao adversário cabia ser mais rápido e berrar “proibido boas de volta”. Hoje, alguns saudosistas usam o “boas de volta” com os filhos para cancelar alguma ordem ou decisão anunciada. Por exemplo, quando dá R$ 50 para o pentelho sair com os amigos, mas se arrepende e resolve dar só R$ 20: “boas de volta”, e toma a nota de R$ 50 do pentelho, estupefato.

Essa linguagem tinha uma variante mais sacana, repleta de malícia, que servia para zoar os companheiros. Alguns eram tão obsessivos no uso dessa linguagem que se tornavam inconvenientes. Lembro de um peão que trabalhava nas obras da Repar. Um dia ele chegou avisando ao motorista que o engenheiro o esperava na New Holland.

Acostumado com as constantes e inconvenientes pegadinhas do colega, a resposta foi um gesto típico da peonada da época: espalmou a mão, fez um movimento para trás e tascou: “basculei, peão” – e continuou conversando. Estranhando o desleixo do motorista, perguntei: você não vai buscar o engenheiro na New Holland. Só então caiu a ficha. “New Holland?? Pensei que ele tava me zoando com a história do nhola ...”
Nhola, fique claro, era um c. e duas bola (assim, no singular). Natural, portanto, que o motorista não quisesse conversa com o tipo...

Essas “gracinhas” para zoar os desavisados não eram monopólio daquela geração. Hoje em dia, depois de cair “uma pá de vez”, fiquei prevenido quando um dos meus filhos me interrompe no meio de uma preleção perguntando “quem???” – e emendando, quando eu começo a responder – “perguntou?”.

No princípio aquilo me irritava, mas hoje (quase) não caio mais. E a gracinha me fez lembrar uma pegadinha cretina muito em voga lá pelos anos 60: o tal do “quem'ti'co”. Trata-se de uma pegadinha similar ao atual “quem ... perguntou?”, só que mais sacana. Quem'ti'co – todos já devem ter imaginado – significa “quem te comeu”. E era irresistível interromper a fala chata de alguém com a pergunta: quem'ti'co? Melhor era zoar do incauto que respondia. A única resposta à altura era “eu'ti'co”, ou seja: “eu te comi”. Tudo pronunciado muito rápido: Quem'ti'co? Eu'ti'co!

Recordo outras pegadinhas: o Chunda, o Loxa, o indefectível Mário ..., mas essas ficam pra outra sessão de reminiscências.


(Em memória de Luiz Carlos Drulla, amigo que largou os betes e seguiu para outra dimensão, sem boas de volta.)

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