sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Um cara de atitude

Francisco Duarte

Quando completei 17 anos, um vizinho que trabalhava numa editora me arranjou emprego de office-boy. Foi meu primeiro contato com o mundo do trabalho e foi ali que conheci o Camelo. Tínhamos a mesma idade e os mesmos ideais, que eram matar o trabalho no cinema e comer pizza com vitamina de morango na Savóia. Era o que a gente podia fazer com o dinheiro que a firma nos dava para o ônibus.

Pois foi no convívio com esse personagem que aprendi a maior parte das coisas importantes que trago na bagagem, como a maneira correta de reagir a um fora sem perder a pose ou como assumir um olhar de paisagem ao causar um desastre de dimensões ciclópicas. Isso pra citar as mais úteis.

Muito do meu estrondoso sucesso profissional, financeiro e amoroso é devido ao que eu aprendi só observando o Camelo. Sim, porque o Camelo não era pessoa de falar, mas de agir. Em linguagem atual, ele era o que se pode chamar de um “cara de atitude”.

E foi com esse espírito despachado que o Camelo resolveu um problema que muito me irritava. Se tratava do Correio, que colocava um monte de correspondência errada na Caixa Postal da firma, me obrigando a separar o que não era nosso e devolver para ser redistribuído.

Na terceira vez que a coisa se repetiu o Camelo interveio. Pegou aquele monte de cartas, levou para casa, abriu uma a uma, se inteirou dos assuntos e começou a despachar.

Eram ofícios trocados entre prefeituras e órgãos do governo do Estado. Coisas como a formalização de pedidos de obras e verbas, encaminhamento de assuntos administrativos, complementação de informações necessárias à aprovação de projetos e coisas do gênero.

Matuto que era, certamente ignorava que violação de correspondência configurava crime, com pesadas penas. E nessa ignorância passou a interagir com os correspondentes na mais absoluta leviandade.

Conforme o conteúdo dos ofícios, ele redigia as respostas, dirigindo-se aos signatários e com o cuidado de fazer referência ao número do ofício original. Tudo para fazer crer que se tratava de fato de uma resposta do órgão público ao qual a missiva se destinava.

Passando-se pelos destinatários dos ofícios, não apenas “aprovou” pedidos de obras e verbas como ofertou o dobro dos valores solicitados.

Acusou o recebimento de informações e pediu uma série de outras, as mais estapafúrdias que se possa imaginar.

Devolveu prestações de contas com pedido de comissão de 10% para aprová-las.

Convocou prefeitos e secretários municipais para reuniões com autoridades na capital e agendou visitas de autoridades do governo às prefeituras.

Alocou servidores que solicitavam transferência em cemitérios, lixões, depósitos de materiais inservíveis...

Sem meias palavras, condicionou a aprovação de projetos à concessão de emprego nas administrações municipais a seus parentes, amigos e amantes.

Achando que a confusão era pouca, fez acréscimos nos ofícios, embutindo comentários de ordem pessoal no espaço em branco entre a última frase e a assinatura do remetente.

Como se fosse uma continuação dos assuntos tratados, insinuou-se, propôs jantares e idas a motéis, pediu e ofereceu propinas, fez observações desairosas às chefias dos órgãos, usou termos chulos, mandou recados a secretárias, fez perguntas íntimas aos destinatários, pintou e bordou, como se dizia em tempos idos.

Quem lesse teria a impressão de que era uma parte picante do ofício.

Por fim as cartas eram colocadas em novos envelopes, endereçadas aos remetentes originais e despachadas no Correio. Quem as recebesse julgaria serem das fontes oficiais. E pelas respostas inusitadas, é certo que provocariam sentimentos de euforia, mas também de muita indignação.

É provável que tenham gerado inquéritos administrativos, processos disciplinares, xingamentos, troca de sopapos, divórcios. Hoje, certamente teriam resultado em alguma CPI.

Mas é lícito supor também que alguém talvez tenha recebido uma comissão, um agrado, uma oferta de emprego, uma cantada sem saber exatamente a razão.

A única coisa que o Camelo lamentava era não ter como presenciar as confusões.

No fim tudo acabou bem. O pessoal do Correio parou de misturar as correspondências da firma, me poupando do trabalho de devolvê-las e, ao Camelo, de despachá-las. Só gostaria de saber por onde anda o Camelo e em que confusões ele anda metido. Se alguém tiver qualquer notícia, por favor, escreva para a Redação.

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