terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O tucano saudoso

Obra imortal do Visconde Zé da Silva Brasileiro

Ah que saudades que eu tenho
Do governo Fernando Henrique
Nosso ex-presidente mais chique
Homem instruído e tolerante
Exceto com a corrupção
Cujo combate levou adiante
Com ousadia, destemor e convicção

Ah que saudades que eu tenho
Daqueles tucanos geniais
Que privatizaram as estatais
Fazendo tudo direitinho
Sem roubar sequer um centavinho

Como sou grato àqueles Varões de Plutarco
Que fizeram da privatização da Vale um marco
Então comemorado alegremente
Enquanto os compradores, coitados
Totalmente ludibriados e enganados
Até hoje se arrependem amargamente!

Ah que saudades que eu tenho
Daquele governo de vestais
Em que não se roubava jamais
Mesmo no Congresso
A única preocupação era o progresso
Não existia troca-troca
Os congressistas tudo votavam
Sem receber nada em troca
E ninguém jamais foi acusado
De qualquer malfeitoria
Enquanto o país avançava
Num clima de paz, progresso e harmonia
Com o povo sempre a festejar
Só a imprensa se desesperava
Sem nada de mal pra falar…

Ah que saudades que eu tenho
Daquela época de ouro
Em que vigiava o tesouro
O inesquecível Dr. Geraldo Brindeiro
Um valente procurador
E intransigente justiceiro
Que angariou então justa fama
Levando os corruptos a viver um drama
Obrigados a tirar férias coletivas
Durante toda a era tucana!

Foi um drama coletivo
Coisa triste de se ver
Milhares de corruptos coçando o saco
Sem ter nada pra fazer
Antes tão ativos e risonhos
Agora deprimidos e tristonhos
Proibidos de roubar

Não encontravam razões para viver
Mergulhados em crises existenciais
Ausentes das manchetes dos jornais
Lamentando sua falta de sorte
Pois um corrupto que se preza
À inatividade prefere a morte

Os corruptos viviam em grande tédio
E em grave crise de abstinência
Aguardando com impaciência
Numa tristeza de lascar
A chegada de novos tempos
Quando então, sem contratempos
Pudessem voltar a roubar!

Com o fim da era tucana
Tendo os gatos ido embora
Dos ratos era chegada a hora
Os corruptos enfim recuperaram
A alegria de viver
E em grandes festas comemoraram
A sua volta ao poder

Ah que saudade que eu tenho daquele tempo
Em que o Fernando de tudo cuidava
E como o Farol de Alexandria
Ele, generoso, nos apontava
O caminho da paz e da harmonia

Ah que saudades que eu tenho!
Daqueles pobres acomodados
Tão tranquilos, tão sossegados
Que além de saber votar
Ainda reconheciam o seu lugar

Hoje está tudo diferente
Qualquer um pensa que é gente
E só quer saber de reivindicar
Tem “sem casa”, “sem terra” e agora, suprema perfídia!
Ousam criticar até nossa impoluta mídia
Tão isenta, democrática e plural
Inventando um movimento dos “sem mídia”
Pra tirar a mídia do seu pedestal!

Ah que saudades que eu tenho
Daquele mundo perfeito
Em que o povo votava direito
Hoje a situação está de chorar
Chegamos até ao extremo
De fazer aliança com os demos
Pra ensinar de novo o povo a votar!

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