RG, 28 junho 99
Meu bom Sobrinho e Amigo Chico:
Do mesmo modo que para "ouvir estrelas / é preciso amar para entendê-las" (Bilac), só vivendo e sentindo muito cada momento que nos dá a Vida é que se pode encontrar felicidade em cada um deles. Fico surpreso ao ver que muito do prazer do Poeta sempre foi meu também. A repetida lembrança dos livros já lidos, duma infância o tempo todo presente, dos passeios aos morros e às ruas antigas, que já não existem, entre velhos eucaliptos há muito mortos, os animais que eram meus amigos e meus irmãos, das Escolas primárias, das professoras, dos poucos colegas com quem faziamos camaradagem, ríamos e conversávamos sobre as coisas do mundo, da Natureza e do Universo, a experiência de plantar e ver crescer, a nostalgia de ver um vagalume e voltar àquelas noites em pijamas de flanela, que fazia a minha boa Mãe, quando a escuridão era fechada e tracejada pelos bichinhos que caçávamos para esfregar a sua luz na nossa roupa, e voltar àquelas noites cheias de estrelas cadentes, e acordar cedo e ver rolinhas e joão-de-barro andando no fundo do quintal, recordar as músicas de uma época tão antiga que em breve dela verá registro, mas ninguém mais que a tenha sentido, em cores, sons e cheiros, que são coisas de percepção individual e impossíveis de transmitir.
Seria para mim uma surpresa se o Poeta fosse um homem jovem - eu o imagino como a mim próprio, quando os tantos anos vividos nos levam a divulgar essas coisas boas e inesquecíveis, embora estivessem, elas todo o tempo aflorando em nossa mente, e as tivéssemos como um bem só nosso e vedado ao conhecimento alheio.
Algumas das experiências do Poeta ...são as minhas! Também estive numa igreja velha, vazia, nela entrei e logo saí, e não tem 1 ano voltei ao casarão abandonado, já não mais igreja, e procurei o zelador para saber da sua história, e onde hoje ela se encontrava, o seu nome, e o que se fez dos livros de registros de batismos; também entrei por caminhos fora do meu itinerário Escola-casa por pura curiosidade de exploração de novos roteiros, e quase me afoguei num riacho em cheia, aos nove anos, porque queria ver de perto o volume das águas, depois da chuva; e a beleza , que ele via saindo das rosas, eu a via fugindo das dálias, que eu achava escandalosas, aos meus sete, e cujo perfume não me dava propriamente agrado; de modo que me identifico com as lembranças e com o sentimento do Poeta para com as coisas tão simples da sua vida, e que provavelmente ele considera o seu mais precioso bem. Porque os outros, que por ventura ele possua, poderão ser vendidos ou trocados, mas um sacramento tem valor próprio e único, pertence à vida de uma pessoa tanto quanto a alma é individual e intransferível.
Mais uma vez sou grato à sua presença junto a mim, essa presença o mais das vezes não física, como agora, quando através dos olhos parados do Poeta você me reativa os verdadeiros valores desta minha vida.
Muito obrigado.
Graudo
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