quarta-feira, 24 de abril de 2024

O embarque da FEB

Fernando Campelo Duarte

Eu havia pertencido à Polícia e lá deixara bons amigos. Moço de 18 anos, saído de Colégio Marista, filho único, dificuldades e tropeços da vida de meu pai, pequeno varejista do comércio do Rio de Janeiro, e uma amizade de família com os Nobre fizeram-me da noite para o dia o investigador 1129 da Delegacia Regional de Segurança Política e Social, na Polícia Civil do mato-grossense Filinto Müller.

Disse que havia pertencido à Polícia, pois dela saíra a pedidos, cinco meses após entrar, para conservar a mamãe viva alguns anos mais, que tanto a desgastava e preocupava ver o filho que com sacrifícios educara, às voltas com as vicissitudes e os perigos sem glória de mero agente da autoridade.

E porque fizera um concurso no DASP e esperava nomeação para ser o burocrata que ainda sou hoje 20 anos depois, saíra eu da Polícia e lá deixara companheiros dos "0 Hora", das "campanas", das diligências perigosas nas madrugadas dos subúrbios cariocas.

Um dia, já Escriturário do Ministério da Educação e Saúde, já em plena guerra que então abalava o mundo, eis que pelos amigos da Polícia fui dos poucos sabedores do embarque da FEB, do 1º primeiro escalão dos que primeiro se foram como Expedicionários para voltarem sofridos mas gloriosos como Pracinhas.

E aí começa a estória, a estória que só hoje posso contar e que tanto tempo me calei, por assim ser preciso. Manhã bem cedo, bem informado de hora e local para lá me dirigi; claro que não era, não sou e espero em Deus que jamais seja espião, mormente contra a Pátria. Apenas movia-me a curiosidade de participar de algo histórico como o embarque de meus irmãos de geração, que os invejava tanto, pois fora recusado por deficiência física para o serviço ativo do Exército.

Fui de bonde até onde ele foi, da Ponte dos Marinheiros até o Santo Cristo, e daí, a pé até o Cais do Porto, onde estava o grande navio americano que levaria a FEB.

Esperava encontrar meus amigos da Polícia e junto deles, no meio deles, participar anônimo da segurança do grandioso embarque. Mas ai de mim, algo imprevisível aconteceu: os homens da Polícia que vedavam o ingresso no cais, na avenida Rodrigues Alves e já a alguns exitantes e curiosos prendiam, eram todos estranhos, todos de má cotadura, gente vinda não sei de onde, talvez da Polícia Especial. E então, para não ser preso por suspeito e tal coisa eu sabia como doía nos idos do Estado Novo, dei de pronto meia volta, sem sequer olhar para trás, que até a imagem bíblica da mulher de Lhot me veio à mente e não queria levar bala nem virar estátua de sal.

Apressei o passo e voltei rápido pela rua de onde viera e de súbito deparei com uma placa branca no portal de uma casa, que logo passou a ser para mim a tábua de salvação. Rezavam os dizeres da placa, se ainda me lembro: Ministério da Educação e Saúde. Departamento Nacional de Saúde - Serviço de Saúde dos Portos.

Ali estava a minha salvação e cumpria aproveitá-la.

Ingressei no casarão velhote, e moço que era, solteiro, bem vestido no S120 que me dava o luxo de ter, perguntei logo ao primeiro que encontrei pelo Chefe, se estava e quem era. Aí esse primeiro chamou um segundo e outros mais vieram e não sei porque cargas d’água, acredito que por nervoso, pois por presunção juro que não foi, ao saber por todos aqueles quem era o Chefe e que não estava, disse-lhes  que era do Gabinete do Ministro e que estava em inspeção.

Foi um corre-corre danado, todo mundo se arrumando, todo mundo trabalhando e o mais graduado solícito, prestimoso me atendendo.

Tive que ver mapas e relatórios, ouvir desculpas e pedidos, queixas e reclamações, a esta altura já tomando cafezinho feito às pressas, com cuidado para o Oficial de Gabinete do ministro Capanema. 

Fiz promessas evasivas de providências que se impunham, fiquei sabendo de tudo sobre a saúde dos Portos, sobre a desrratização dos porões de navios, sobre os perigos da peste bubônica e um milhão de coisas outras.

Lá fora, no Caís, a FEB embarcava e eu suava a cântaros, às voltas com a encrenca em que me metera na ânsia de escapar de uma outra pior.

Afinal todos ouvidos, todos satisfeitos e preocupados com o Chefe que ainda não chegara, após ouvir um pedido especial de promoção feito pelo contínuo, despedi-me dizendo que deixara o carro à distância por causa do embarque da FEB e saí a passos compassados até dobrar a esquina.

Aí quase corri e quando dei por mim estava sentado, de regresso no primeiro banco de bonde que alcançara no Largo de Santo Cristo. Respirei aliviado e prometi a mim mesmo guardar segredo, que só hoje, 20 anos após revelo de nunca ter sido Oficial de Gabinete de Ministro e sim apenas um Escriturário, e do Serviço de Documentação, que era diretamente subordinado ao Gabinete do Ministro.

Curitiba, 12 de agosto de 1964.

Fernando Campelo Duarte

Serviço do Acordo de Classificação do Estado do Paraná

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