domingo, 6 de abril de 2025

Solidão (1992)

Noite Estrelada, obra de Vincent Van Gogh

Quase zero hora. Fecha o programa em que vinha trabalhando, encerra o login, desliga a máquina. Àquela hora restam poucos gatos pingados na Redação. Se despede com um aceno, sem balbuciar palavra e sai, descendo os três lances de escada que conduzem para fora do prédio. A rua, a essa hora e no meio da semana, costuma estar quase vazia. A noite está quente, boa para se caminhar. E é o que faz. Podia tomar um táxi, um ônibus para voltar à casa. Mas para quê? Caminha pela rua vazia quase roçando o tapume da obra de um grande edifício que está sendo erguido nas imediações. Sente conforto com a sensação de desaparecer, ser absorvido por aquelas paredes, como numa passagem imaginária para outra dimensão qualquer. Pensa na vida. Tem quase 40 anos. A família está em vias de se dissolver, como de fato ocorrerá. Os dias que virão serão uma incógnita e, de certa forma, isso o estimula mais do que o atormenta. Atravessa uma rua um pouco mais movimentada, olha para dentro dos carros, se fixa nos casais – a essa hora não há crianças acompanhando os pais. Se sente nostálgico de uma situação que ainda irá viver, mais sozinho ainda do que está agora. Continua o caminho; até a casa são cerca de 4 quilômetros e meio, um trajeto que deve percorrer em cerca de uma hora. Contorna uma praça, passa por pessoas que aguardam ônibus em um ponto. Evita o olhar das pessoas, receia encontrar alguém conhecido. Essa possibilidade é praticamente nula, mas o desejo de evitar contato persiste como se o risco fosse real e iminente. Toma uma rua em forte aclive, agora numa direção mais definida rumo à casa. Vence os cerca de mil metros até o topo do trajeto, a partir de onde a rua se converte em um longo declive, como que para compensar o gasto de energia do trecho anterior. Tem a atenção voltada para um ambiente iluminado, um bar aberto àquela hora. Estranhamente sente vontade de entrar. Não mais que meia dúzia de notívagos bebem cerveja e assistem algo numa velha TV suspensa. Há muito tempo, desde que a crise se instalou na sua vida, não sente fome. Mesmo assim, para justificar a presença ali, pede um sanduiche e algo para beber. O ambiente lhe é absolutamente estranho e isto propicia um relativo conforto emocional: ninguém ali conhece os problemas que ele vive. Momentaneamente se sente bem; há meses, talvez um ano, não experimentava essa sensação. Os presentes não estranham a presença do estranho, aliás, são praticamente indiferentes a ele – é mais um que prefere a rua à casa, à noite. Cada qual tem seus motivos. Termina o sanduiche e a bebida, paga a despesa e volta ao seu caminho. Ainda faltam uns 2 quilômetros para chegar em casa, já deve ser quase uma hora da manhã, a noite está clara, quente e aquele homem que caminha só consegue por breves minutos desaparecer no mundo. Até chegar em casa, onde todos já dormem e onde adentrará o seu quarto, tomará um banho e se deitará para dormir por algumas horas. Se tiver sorte, não irá sonhar. Amanhã será outro dia, e pode ser que nesse novo dia aconteça algo que traga a vida perdida que ele quer de volta. Mas pressente que não acontecerá. Ele ainda não sabe, mas não faltam muitos amanheceres para o sol voltar a brilhar para ele. Até lá, seguirá só; ele só e seus pensamentos.

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