O Brasil sempre foi um dos maiores produtores mundiais de café. Contudo, até
meados dos anos 1980, os brasileiros ingeriam uma bebida preparada com grãos de
baixa qualidade, com misturas que iam da cevada ao estrume seco, e sem o aprumo
das técnicas de graduação de torra e moagem. Os grãos de melhor qualidade eram
reservados à exportação, aqui ficava o rejeito. Assim era o café que os
brasileiros conheciam, consumiam e gostavam.
Quando a indústria da torrefação
decidiu mudar esse quadro, a principal tarefa foi reeducar o paladar do povo
brasileiro para o café de boa qualidade, que era até então uma exclusividade dos países importadores do produto do Brasil. Estudos e pesquisas encomendadas
pela ABIC (Associação Brasileira da Indústria do Café) revelavam que uma das
piores bebidas era consumida pelo público carioca, que a partir de então
precisava ser convencido a mudar o seu mau gosto, porém sem ser melindrado. E, assim como o carioca, os demais brasileiros também precisaram ter seu paladar reeducado para consumir uma bebida de melhor qualidade do que aquela com que estavam habituados.
O primeiro e mais importante passo foi a criação do Selo de Pureza ABIC, conferido àquelas marcas que aderissem ao programa de autorregulamentação voluntária. Essa adesão implicava aceitação de se submeter à fiscalização segundo as regras estabelecidas pelo regulamento do programa. Em troca, ostentar o Selo de Pureza ABIC na embalagem comunicava ao consumidor que se tratava de produto PURO, sem adulterações ou misturas, sendo 100% Café. O Selo ABIC, portanto, garantia a segurança dos alimentos e o respeito ao consumidor.
Mas ainda era preciso vencer o paladar acostumado com o café ruim. Paralelo a essa iniciativa, a propaganda convocou gourmets e baristas para
reeducar o paladar dos brasileiros e ensinar o melhor preparo da bebida, assim
como a escolha dos grãos por regiões geográficas de produção, graduação de torra etc. Foi necessário investir tempo, trabalho, conhecimento e técnicas para trazer o consumidor satisfeito com o café ruim para a nova realidade de um
produto de qualidade internacional. Levou décadas para os brasileiros trocarem o cafezinho passado em pano do botequim da esquina pelas múltiplas opções de
variedades de grãos e origem e ambientes agradáveis das cafeterias modernas. Mas a ABIC venceu.
Assim é a situação dos Governos do PT: antes do Lula ter sido
eleito presidente em 2002, os brasileiros só conheciam más experiências de
Governo. Algumas até representaram uma tentativa de colocar o Brasil no âmbito
dos países fortemente industrializados - mesmo em épocas de ditadura, como os
Governos de Getúlio Vargas e Ernesto Geisel -, outras retrocederam o País à
condição de colônia norte-americana, embora com um falso verniz de modernidade,
como os Governos de Collor, FHC, Temer e Bolsonaro. Portanto, o cidadão médio brasileiro está acostumado a Governos de baixa qualidade e tende a se contentar com isso. Um Governo altivo até assusta esse povo, como o sujeito acostumado a entrar pela porta dos fundos e que, de repente, se vê na contingência de usar a entrada principal e se sente paralisado de vergonha e pavor.
A Comunicação dos governos petistas, portanto, precisa aprender a reeducar o cidadão médio brasileiro a consumir a cidadania plena, com altivez sem afetação, com a naturalidade dos cidadãos do mundo. E essa é uma tarefa que, assim como foi o desafio de retirar o carioca da condição de bebedor do pior café do Brasil, sem contudo melindrá-lo no seu orgulho, tem que ser realizada com técnica esmerada, competência, coragem, naturalidade e, sobretudo, paciência.
O cidadão médio deve ser preparado para consumir um Governo competente. A comunicação tem essa tarefa de educar o cidadão para esse consumo, sem atacar o governo antigo com o qual ele estava acostumado e que, por não ter consciência de que o produto era ruim, consumia e atribuía a ele uma qualidade inexistente. Insistir com o povo que ele estava errado em consumir um mau governo é melindrá-lo desnecessariamente.
O cidadão médio está acostumado a consumir um noticiário de conteúdo medíocre,
vendido em uma embalagem bonita. Por não ter acesso a uma opção massificada de
boa qualidade, o brasileiro consome essa imprensa que serve ao público OPINIÃO,
em vez de INFORMAÇÃO.
A chamada imprensa alternativa com viés de esquerda - TVs
de internet, canais do Youtube, portais, blogs etc -, embora com maior conteúdo
de informação, também entrega ao seu público um produto em geral reativo e
excessivamente improvisado e igualmente discursivo. Há exceções, com o Jornal GGN, o portal Plural, o ICL, o programa O É da Coisa, mas ainda são poucos. Já os veículos alternativos com viés de direita, além dos mesmos defeitos da imprensa tradicional, acrescentam a venda de opiniões raivosas e fake news. Ambos, contudo, têm seu público cativo e limitado.
Mas como fazer
Definir como agir é uma tarefa bem mais complexa do que diagnosticar
o problema, como feito até aqui. Um bom início é apresentar a questão a
profissionais da Comunicação identificados com o programa do Governo do Partido
dos Trabalhadores e promover um debate franco do qual poderão surgir as
diretrizes para uma Comunicação de Governo eficiente, mais proativa do que
reativa.
Alguns indicativos
. Informação não é discurso político
. Não ter vergonha
de ser Governo
. Não flertar com populismo barato (ex: aceitar greves oportunistas, passar pano para apoiador corrupto, esconder números, pedir desculpas exageradas e /ou falsas, tergiversar com temas como a Segurança Pública, Incompetência, Ineficiência, o funcionário público indolente etc.)
. Dar mensagens claras por meio de ações
. Combater a má Política, os maus políticos com ações, não com discursos
. Enfrentar as causas impopulares sem muita fala ou passando insegurança (lições d'O Principe).
. Não se importar com as críticas vazias da mídia, mas não temer e enfrentar a mídia tendenciosa com firmeza sem perder a serenidade.
O desenvolvimento da solução é trabalho não para especialistas, mas para bons profissionais de IMPRENSA com vivência não apenas em veículos de mídia, mas
também em competentes Assessorias de Imprensa e dispostos a enfrentar desafios e inovar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário