quinta-feira, 18 de setembro de 2025
O problema da Comunicação do Governo Lula e a analogia do Café
Quando a indústria da torrefação decidiu mudar esse quadro, a principal tarefa foi reeducar o paladar do povo brasileiro para o café de boa qualidade, que era até então uma exclusividade dos países importadores do produto do Brasil. Estudos e pesquisas encomendadas pela ABIC (Associação Brasileira da Indústria do Café) revelavam que uma das piores bebidas era consumida pelo público carioca, que a partir de então precisava ser convencido a mudar o seu mau gosto, porém sem ser melindrado. E, assim como o carioca, os demais brasileiros também precisaram ter seu paladar reeducado para consumir uma bebida de melhor qualidade do que aquela com que estavam habituados.
O primeiro e mais importante passo foi a criação do Selo de Pureza ABIC, conferido àquelas marcas que aderissem ao programa de autorregulamentação voluntária. Essa adesão implicava aceitação de se submeter à fiscalização segundo as regras estabelecidas pelo regulamento do programa. Em troca, ostentar o Selo de Pureza ABIC na embalagem comunicava ao consumidor que se tratava de produto PURO, sem adulterações ou misturas, sendo 100% Café. O Selo ABIC, portanto, garantia a segurança dos alimentos e o respeito ao consumidor.
Mas ainda era preciso vencer o paladar acostumado com o café ruim. Paralelo a essa iniciativa, a propaganda convocou gourmets e baristas para reeducar o paladar dos brasileiros e ensinar o melhor preparo da bebida, assim como a escolha dos grãos por regiões geográficas de produção, graduação de torra etc. Foi necessário investir tempo, trabalho, conhecimento e técnicas para trazer o consumidor satisfeito com o café ruim para a nova realidade de um produto de qualidade internacional. Levou décadas para os brasileiros trocarem o cafezinho passado em pano do botequim da esquina pelas múltiplas opções de variedades de grãos e origem e ambientes agradáveis das cafeterias modernas. Mas a ABIC venceu.
Assim é a situação dos Governos do PT: antes do Lula ter sido eleito presidente em 2002, os brasileiros só conheciam más experiências de Governo. Algumas até representaram uma tentativa de colocar o Brasil no âmbito dos países fortemente industrializados - mesmo em épocas de ditadura, como os Governos de Getúlio Vargas e Ernesto Geisel -, outras retrocederam o País à condição de colônia norte-americana, embora com um falso verniz de modernidade, como os Governos de Collor, FHC, Temer e Bolsonaro. Portanto, o cidadão médio brasileiro está acostumado a Governos de baixa qualidade e tende a se contentar com isso. Um Governo altivo até assusta esse povo, como o sujeito acostumado a entrar pela porta dos fundos e que, de repente, se vê na contingência de usar a entrada principal e se sente paralisado de vergonha e pavor.
A Comunicação dos governos petistas, portanto, precisa aprender a reeducar o cidadão médio brasileiro a consumir a cidadania plena, com altivez sem afetação, com a naturalidade dos cidadãos do mundo. E essa é uma tarefa que, assim como foi o desafio de retirar o carioca da condição de bebedor do pior café do Brasil, sem contudo melindrá-lo no seu orgulho, tem que ser realizada com técnica esmerada, competência, coragem, naturalidade e, sobretudo, paciência.
O cidadão médio deve ser preparado para consumir um Governo competente. A comunicação tem essa tarefa de educar o cidadão para esse consumo, sem atacar o governo antigo com o qual ele estava acostumado e que, por não ter consciência de que o produto era ruim, consumia e atribuía a ele uma qualidade inexistente. Insistir com o povo que ele estava errado em consumir um mau governo é melindrá-lo desnecessariamente. O cidadão médio está acostumado a consumir um noticiário de conteúdo medíocre, vendido em uma embalagem bonita. Por não ter acesso a uma opção massificada de boa qualidade, o brasileiro consome essa imprensa que serve ao público OPINIÃO, em vez de INFORMAÇÃO.
A chamada imprensa alternativa com viés de esquerda - TVs de internet, canais do Youtube, portais, blogs etc -, embora com maior conteúdo de informação, também entrega ao seu público um produto em geral reativo e excessivamente improvisado e igualmente discursivo. Há exceções, com o Jornal GGN, o portal Plural, o ICL, o programa O É da Coisa, mas ainda são poucos. Já os veículos alternativos com viés de direita, além dos mesmos defeitos da imprensa tradicional, acrescentam a venda de opiniões raivosas e fake news. Ambos, contudo, têm seu público cativo e limitado.
Mas como fazer
Definir como agir é uma tarefa bem mais complexa do que diagnosticar o problema, como feito até aqui. Um bom início é apresentar a questão a profissionais da Comunicação identificados com o programa do Governo do Partido dos Trabalhadores e promover um debate franco do qual poderão surgir as diretrizes para uma Comunicação de Governo eficiente, mais proativa do que reativa.
Alguns indicativos
. Informação não é discurso político
. Não ter vergonha de ser Governo
. Não flertar com populismo barato (ex: aceitar greves oportunistas, passar pano para apoiador corrupto, esconder números, pedir desculpas exageradas e /ou falsas, tergiversar com temas como a Segurança Pública, Incompetência, Ineficiência, o funcionário público indolente etc.)
. Dar mensagens claras por meio de ações
. Combater a má Política, os maus políticos com ações, não com discursos
. Enfrentar as causas impopulares sem muita fala ou passando insegurança (lições d'O Principe).
. Não se importar com as críticas vazias da mídia, mas não temer e enfrentar a mídia tendenciosa com firmeza sem perder a serenidade.
O desenvolvimento da solução é trabalho não para especialistas, mas para bons profissionais de IMPRENSA com vivência não apenas em veículos de mídia, mas também em competentes Assessorias de Imprensa e dispostos a enfrentar desafios e inovar.
domingo, 11 de dezembro de 2022
Reflexões sobre a esquerda brasileira
Antes de mais nada, necessário esclarecer que esta análise data de 2017, antes, portanto, da eleição de Jair Bolsonaro para destruição do Brasil. Desde então, a nossa esquerda despertou parcialmente, mas precisa amadurecer muito mais. Se essa análise puder contribuir para melhorar a ação de petistas e de outras forças democráticas, então vale a pena torná-la pública.
"Antes de perder o governo com o impeachment da presidente Dilma Rousseff, nós perdemos a guerra da comunicação. Senão, vejamos:
Vamos deixar de lado a incapacidade da presidente Dilma para exercer a autoridade frente a empresários e agentes do Estado que a desrespeitaram aberta e grosseiramente, como se viu na abertura da Copa do Mundo e na colocação de sua foto no alvo de tiro em um stand da Polícia Federal, para ficar apenas nesses dois casos exemplares.
Vamos nos ater apenas à questão da Comunicação. Não me refiro aqui às propagandas do Governo, à comunicação institucional, à fartura de dinheiro dada aos jornais, portais, rádios e TVs que diariamente omitiam boas notícias do governo e criavam ou davam divulgação a fake news contra a presidente, o Governo e o PT.
Aqui me refiro apenas à nossa comunicação informal, à “briga de torcidas”, como gosto de dizer, para ilustrar como se dá o convencimento do público não-engajado. Essa gente que não está nem aí para partidos, para políticos, para propostas e projetos de governo, algo assim como o baixo clero da população, que é aquele que em geral decide qualquer eleição. Ao menos no Brasil.
E como é que esse pessoal decide? Pelo movimento de manada, tangido para o lado que mais levantar a voz, com maior eficácia, com maior poder de produzir estragos no adversário.
Esse contingente, que de maneira grosseira calculo seja em torno de 60% da população com Título de Eleitor (pelo menos), funciona como fiel da balança em eleições, assim como em posicionamentos em geral. É gente propensa a ser convencida, ao contrário daquelas parcelas à direita e à esquerda, cada qual com cerca de 20% do eleitorado, gente com ideologia, convicção de posições e projetos de poder. Já a massa intermediária, sem ideologia definida, oscila ora para a direita, ora para a esquerda conforme a força de convencimento de cada um desses dois lados. E esse convencimento não se faz em cima de propostas e projetos, mas da desconstrução do adversário.
E nesse quesito nós da esquerda fomos de um primarismo que dói. Antes de me alongar, vamos estabelecer aqui uma premissa (ou axioma): se temos dois candidatos oponentes, o que irá se destacar para essa massa de 60% do eleitorado não é aquele com a melhor proposta, a melhor ideia, as melhores intenções, mas aquele que mostrar à torcida que confere maior valor a quem o escolher.
O candidato precisa parecer jovem, arrojado, vigoroso, belo, destemido, ousado, charmoso, líder inconteste, rápido de raciocínio, irônico na medida certa, agressivo na medida certa. Outras “qualidades” essenciais, mas que não podem ser diretamente associadas à imagem do candidato, são a capacidade de dissimulação para driblar evidências, a violência para coagir os contrários e um caráter maleável para baixar o nível da disputa e atribuir essa ação ao adversário.
Não quero dizer que para vencer a eleição os candidatos precisem necessariamente ter esse perfil abjeto. O que é preciso é conhecer essa realidade, saber identificá-la naquele que se enquadra nesse perfil e ter a capacidade estratégica para se contrapor a essas artimanhas e artifícios.
Dito isso, temos que o PT, nos anos mais recentes, fez exatamente o contrário disso.
Comecemos pelo apodo que a direita pespegou na esquerda: “pão com mortadela”. Queiramos ou não, a designação é ofensiva, pois sugere que os esquerdistas são “pobres”. Não é que ser pobre seja algo vergonhoso; o que interessa aqui é o sentido dado à palavra, levando em conta o senso comum da população. Ser pobre não é apenas não possuir bens materiais, mas, no senso comum, é ser medíocre, menor, ignorante, de mau gosto, intelectualmente tosco, grosseiro nos modos e maneiras, alguém digno de ser enjeitado, portanto.
Em resposta, a esquerda usou a palavra “coxinha”, simpática até no uso do diminutivo. A palavra coxinha não induz a nada negativo, ao contrário: do banqueiro Andre Esteves, do BTG Pactual, ao gari que coleta o lixo em um conjunto da faixa 1 do Minha Casa Minha Vida, todos apreciam uma coxinha bem preparada. “Xingar” alguém de coxinha sugere expressar “data vênia” antes de dizer que o adversário não é gentil... E isso dito em resposta a um adversário que nos chama de “ladrão, corno, veado, filho da puta”, entre outros adjetivos.
Poderia citar inúmeros exemplos, como a forma com que os senadores do PT e do PCdoB trataram o senador Anastasia quando o ex-governador mineiro aceitou cumprir o papel ignominioso de elaborar o parecer previamente acertado que recomendou o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Para não me alongar, digo que só faltou os senadores Gleisi Hoffmann, Vanessa Grazziotin e Lindbergh Farias, em vez de aproveitarem a oportunidade para denunciar ao vivo, na TV, o papel baixo e imoral que o senador mineiro aceitou cumprir, só faltou eles elogiarem a virilidade do político mineiro, aliado de Aécio Neves. Fazendo um chiste, digo que dava a impressão de que ao elogiarem o currículo de mestre constitucionalista de Anastasia os petistas e a comunista piscavam para ele como a dizer: “tô te elogiando, hein?!; você vai reconhecer a inocência da Dilma, né?!”
Outro exemplo, sem me estender, foi o termo “República de Curitiba” usado para criticar a milícia montada em torno da operação Lava-Jato. O termo remonta aos episódios que levaram o presidente Getúlio Vargas ao suicídio e, mais recente, à passagem de uma quadrilha de Alagoas no poder federal.
No caso de Getúlio, o termo assume um caráter bastante positivo e remete a supostos atos de bravura e de defesa da moralidade pública atribuídos a jovens oficiais da Aeronáutica emprenhados de ouvido pela verve de um Carlos Lacerda. Basta conhecer um pouco da História contemporânea para saber que o termo “República do Galeão” não confere qualquer peso negativo à “República de Curitiba”.
Já a “República de Alagoas”, referência aos bárbaros levados ao Planalto por Fernando Collor, poderia, sim, emprestar um caráter eminentemente negativo à outra “República” ..., se ela fosse, digamos, de Goiás ou do Maranhão, por exemplo, mas jamais de uma cidade como Curitiba, tida e havida como “civilizada” (sem demérito ao estados citados, mas a seus políticos mais notórios. O risível desempenho de Álvaro Dias no debate da Globo é um episódio à parte).
Será possível que não ocorreu a ninguém pespegar na turma da Lava Jato o apodo “Milícia de Curitiba”?
Para não me alongar muito, lembro outros exemplos toscos: o discurso da esquerda rescende a naftalina. Chamar políticos corruptos de “golpistas” é o mesmo que xingar um agressor feroz de “seu feio!” Outra palavra – entreguista – soa até uma coisa meio gay (sem preconceitos). Estamos falando principalmente para quem tem entre 15 e 40 anos e adotamos termos e linguagem toscas usados pelos nossos avós nos anos 50 e início dos 60! Ou seja: há mais de meio século!!!
Isso sem falar no conteúdo do discurso; os jovens de hoje, muitos deles “doidos” para se encostar num emprego público ou numa estatal estão nem aí para a privatização da Petrobras, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, ou até da própria mãe, se isso significar o aceno de acesso a um IPhone, um “carro completo com banco de couro” (mesmo com dez anos de uso), uma selfie numa academia ...
Faria mais efeito propor um auxilio-IPhone para a garotada, como aquele dinheiro milionário distribuído a juízes e promotores com ou sem casa, apartamento, mansão etc.
Para finalizar, a esquerda foi pródiga também em produzir discursos frouxos e toscos, embora tratados pela mídia reverente até como “inteligente”. Foi o caso da “crítica” do senador Roberto Requião ao ato desvairado do então juiz Sergio Moro, em viagem de lazer a Portugal, quando do habeas corpus concedido pelo único juiz do TRF 4 (os demais pertencem ao TRF de 4) ao presidente Lula: “cabe ao juiz Sérgio Moro tomar bom vinho, comer bacalhau”, escreveu no Twitter o senador que o eleitorado do Paraná, acertadamente, aposentou da política. Afinal, se é essa a capacidade de crítica do senador, diante da evidente, grosseira e indevida interferência de um juiz de piso em determinação de um desembargador de segunda instância, uma coluna social em jornal do interior lhe será muito mais adequado do que a Câmara Alta."