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domingo, 24 de maio de 2026

O Ouvidor de Histórias - O elo perdido

Se você tem uma boa história para contar eu quero ouvi-la. E se você concordar, quero recontá-la aqui, com pinceladas de fantasia. Os nomes dos personagens podem ser fictícios* ou não; você decide.

A história que inaugura esta série fala de um (re)atamento de laços familiares e uma percepção que ajudou o caminho de aproximação.


O Ouvidor de Histórias

Jairo Mangabeira* é gay.Tem 34 anos e vive com um namorado três anos mais velho em uma moderna capital brasileira. Nasceu no interior, filho de mãe solteira, criado pelos avós e uma tia. Jairo não conviveu com o pai biológico, um homem casado e com outra família formada. Também nunca viu o pai, mas sabe seu nome. E quando teve idade suficiente para decidir as coisas por si ficou sabendo pelo Google que seu pai é engenheiro civil e toca uma construtora de médio porte. Jairo entendeu aí a sua tendência às Ciências Exatas.



Na universidade iniciou o Curso de Geologia, que logo (no 2º ano) trocou pela Engenharia Mecânica, em que se graduou há quase 7 anos. O filho de mãe solteira, criado pelos avós, gente simples de origem rural, apenas alfabetizados, se tornou o primeiro da família a ter um diploma de curso superior. Jairo é o orgulho da família. O avô já ficou prosa no dia em que, em uma festa no emprego do neto, ouvir chamarem o Doutor Jairo. Na segunda-feira, mesmo sem precisar, foi à barbearia só para contar à roda de amigos que lá fazem ponto que o neto é Doutor Jairo.

Na capital, Jairo é apenas Jairo, o moço bem-sucedido no trabalho, que mora num apartamento bacana, financiado no Itaú/Unibanco, dono de um chamativo Citroen azul e que nos finais de semana usa a bicicleta para fazer longas estiradas, em geral com um grupo de outros ciclistas. A mais recente os levou à Fazenda Santo Antonio de Pádua, município há 52 quilômetros, onde há diversas quedas d'água.

Os porteiros do prédio sabem que Jairo é casado com Douglas* e os dois fazem muitas compras pela internet; diariamente chegam pacotes da Mercado Livre, Amazon, OLX e inúmeros fast foods. Jairo e Douglas pensam em adotar duas crianças, mas essa é uma ideia ainda bastante abstrata, superficial. Não têm cachorros nem gatos. Gostariam de ter um cão, mas acham que isso os prenderia muito em casa. Quando houver crianças na casa, é possível.

Faz uma semana. Jairo cismou de investigar a vida da família do pai desconhecido. O "velho" também deixou o interior e vive na capital. O endereço, uma casa térrea, confortável, não é longe do apartamento de Jairo e Douglas. No Linkedin, Jairo vê mais informações da outra família. O velho engenheiro civil tem mulher e três filhos.

No Facebook e no Instagram, Jairo pela primeira vez vê a face de seu ascendente desconhecido. Procura traços de parecença, os olhos grandes, o nariz um pouco mais pronunciado, as discretas entradas no cabelo. Não tem tendência à calvície - comemora.

Até aqui é mera curiosidade, não pensa em fazer contato com quem nunca tomou a iniciativa. Isso em termos - pensa -, porque sabe meio por cima que chegavam contribuições frequentes de alguém, durante a sua infância e adolescência. Lembra-se de que os avós pagavam a mensalidade da faculdade de Engenharia com essas contribuições.

Olhou fotos da mulher daquele que era seu pai. A senhora deveria ter pouco mais de 70 anos. Guardava traços de beleza; deve ter sido moça bonita na juventude. Fotografias em festas, na praia, em viagens com o marido e os filhos, irmãos de Jairo. Dois irmãos homens e uma irmã. Tentou buscar semelhanças, mas não teve sucesso. Só a cor da pele e dos cabelos eram as mesmas.

Já ouvira falar que tinha irmãos, mas era a primeira vez que os via. Voltou inúmeras vezes ao Instagram de cada um. Ali descobriu que a irmã tinha namorado e o irmão que parecia ser o mais velho dos três também tinha uma namorada. O terceiro irmão, que tinha ares de ser o caçula, jogava tênis e praticava natação. O irmão mais velho, engenheiro civil como o pai, parecia fazer musculação, assim como a irmã. Parecia o protótipo da família feliz.

Jairo tinha um sentimento estranho: via aquelas pessoas como sua família ao mesmo tempo em que se sentia um estranho em relação a eles. Achava que o sentimento escondia medo da reação dos irmãos, do pai, da senhora distinta que talvez até tivesse absorvido a infidelidade do marido. Era melhor deixar as coisas quietas como estão. 37 anos é muito tempo para criar laços assim sem mais, pensava.

Até o dia em que prestou maior atenção às imagens e postagens do irmão mais jovem e percebeu que o meio irmão também era gay. Aquela revelação representou o que faltava para tomar coragem e buscar contato com a família. Não imaginava que seria tão bem recebido pelos meio-irmãos, que desconheciam completamente a sua existência. Ali se iniciava uma nova história da vida daqueles jovens. As fotos do quarteto postadas nas redes sociais apresentando o novo membro da família não deixavam dúvida sobre o bom desenlace dessa história: "Éramos três e somos quatro!" - exclamava a legenda em letras maiúsculas, não deixando dúvida sobre a espontaneidade dos sorrisos estampados no rosto dos três rapazes, que se abraçavam e à sua irmã.