Esta postagem reproduz o conteúdo de um paper produzido em 2023/2024 para orientar estudos sobre os resultados das eleições municipais daquele ano. Decidi torná-lo público em razão da repetição do fenômeno nas eleições legislativas na Argentina.
José Ribeiro Jr, publisher do The Villa Biscaia Post
O principal fenômeno nas eleições municipais de 2024 provavelmente não tenha a ver com um suposto crescimento da direita ou o também suposto encurtamento da esquerda. Tampouco é um fenômeno que surgiu apenas no pleito atual; já estava presente nos mais recentes pleitos, sinalizando um crescente desinteresse pelas eleições. Então, o elemento "novo", que definiu direta ou indiretamente o resultado das urnas, pelo menos nas grandes capitais, foram a ABSTINÊNCIA - principalmente - e o VOTO EM BRANCO de cerca de 1/3 dos eleitores.
Esse fenômeno ocorreu tanto no primeiro como no segundo turno, em diferentes capitais, como Curitiba e São Paulo, talvez evidenciando uma nacionalização dessa tendência. A questão é estudar o que motivou esse procedimento e o que levou a isto.
Uma hipótese é o descrédito da população com o sistema político e com as autoridades em si.
Seria importante identificar ideologicamente esse um terço que virou as costas aos candidatos. Talvez por coincidência, esse é o mesmo tamanho daquele contingente que nas eleições em geral flutua entre a esquerda e a direita, pendendo para o lado que se mostrar mais capaz de lhe acrescentar valor.
Se assim for, são pessoas que olham nos candidatos valores como coerência e credibilidade. Aqueles assim identificados são aceitos, sendo de esquerda ou de direita, porque passam a ideia de que suas escolhas, ainda que contrárias aos interesses imediatos de seu eleitores, são as possíveis naquele momento, ou as mais adequadas. Passam a ideia de que não agem por interesses menores, ou particulares, em geral escusos. Por não identificar esses valores nos candidatos com maiores chances de serem eleitos, esse tipo de eleitor não aceitou se associar nem ao candidato da direita, nem ao da esquerda.
O ocorrido na disputa em São Paulo dá força a essa hipótese. Uma parcela do 1/3 que preferiu se abster ou votar em branco em vez de destinar o voto à dupla Guilherme Boulos/Martha pode ter na lembrança o Boulos e a Martha de 2013, quando - um movido por ambição, a outra por despeito - uniram-se à extrema direita para tentar destruir o PT e a então presidente Dilma Rousseff.
Vale recordar: em um dos melhores momento de todos os tempos do Brasil, em 2013, Guilherme Boulos liderou o movimento "Não vai ter Copa", que descambou em quebra-quebra em todo o País, incentivado por provocadores da extrema direita e turbinado pela velha mídia - Jornal Nacional e revista Veja à frente.
Se alguém havia esquecido dessa página negra do candidato do PSOL, o neoextremista de direita, Aldo Rebelo, tratou de lembrar ao produzir um vídeo usado pela campanha adversária no qual sentenciava, arremedando Boulos contra a Copa do Mundo no Brasil: "Não vai ter Boulos".
Martha ex-Suplicy não fez menos. Tomada de ódio contra Dilma Rousseff, Martha aliou-se ao então vice-presidente Michel Temer em um golpe de traição contra a presidenta, que resultou no impeachment sem crime de responsabilidade. Então deputada, Martha não apenas votou a favor da derrubada de um governo escolhido democraticamente pela maioria da população; ela cassou o mandato da primeira e única mulher que chegou à Presidência do Brasil e entregou o poder a um homem sem votos e tampouco méritos para ocupar essa posição. E não foi só: feminista de carteirinha, Martha justificou a ausência absoluta de mulheres na equipe ministerial de Michel Temer, fato que considerou natural.
Não foi a primeira pisada de bola feia da ex-petista. Quando tentava a reeleição à Prefeitura de São Paulo, em disputa com o então quase desconhecido Gilberto Kassab, para quem perdeu, mesmo sendo reconhecida como "melhor prefeita de São Paulo de todos os tempos", Martha sugeriu de maneira dissimulada que o adversário era homossexual.
Ela reagia a uma campanha difamatória nas redes sociais que pregava o voto em Kassab e se valia da posição da então prefeita em defesa dos direitos dos homossexuais para "demonizá-la" perante eleitores ultraconservadores. Tais páginas, se não tinham autorização de Kassab, também não eram renegadas por ele, supostamente também homossexual.
Questionado por Martha se era casado, tinha filhos..., Kassab não precisou responder, tampouco se defender, o que o desgastaria; a mídia contrária a Martha tratou de atacá-la, acusando-a de ser homofóbica, e os movimentos LGBTQIA+ , sempre defendidos pela ex-prefeita, engrossaram os ataques. Poupado da exposição negativa por uma "imprensa amiga", Kassab derrotou Martha nas urnas e se consolidou como um dos principais líderes partidários nacionais.
Em Curitiba, onde os candidatos de direita predominaram, esse 1/3 que não votou ou optou por votar em branco pode ter agido por se sentir enganado pelos principais nomes de extrema direita que os apoiavam: o ex-presidente Jair Bolsonaro e o ex-juiz, atual senador Sergio Moro.
Tanto Bolsonaro como Moro possuem seguidores ideológicos de extrema direita, que os apoiam de maneira cega. Esses possivelmente se dividiram entre os candidatos Eduardo Pimentel e Cristina Graeml, especialmente ela. Eleitores de centro-esquerda e de esquerda possivelmente deram o seu voto em segundo turno a Pimentel (não por ele, mas para evitar a vitória dela).
Entre os que viraram as costas aos dois candidatos de direita, certamente estão uns poucos militantes da extrema esquerda, que julgam com isso "marcar posição". Fora esses poucos, o grosso da parcela que não compareceu às urnas ou anulou optando pelo voto em branco possivelmente é composto pelos desiludidos de Bolsonaro e Moro.
Outrora, o ex-presidente militarista recebeu votos desse contingente em razão da agressiva campanha de mídia contra o PT e Lula. Mas o seu desastrado governo e sua constante agressão à Democracia e às leis fizeram abrir os olhos desse público.
O mesmo ocorreu em relação ao ex-juiz, cujas atitudes reveladas pela Vaza Jato e o fim da blindagem que a velha mídia lhe concedia expuseram o seu caráter ambicioso e carreirista aos olhos desse público conservador.
O que pode ser feito
O aqui exposto não tem suporte científico; trata-se apenas de uma tentativa de interpretar o fenômeno abstinência a partir de um olhar sobre o diversificado noticiário das eleições de 2024 e das manifestações sobre o tema nas redes sociais, em especial o X (ex-Twitter), WhatsApp e Facebook. A análise empírica deveria ser complementada com uma pesquisa com esse público, para identificar suas razões.
Trabalhando sem a confirmação por pesquisa, considerando ser verdade o quadro descrito, cabe às forças de esquerda e centro esquerda conquistar ao menos uma parte significativa desse público conservador para obter sucesso nas próximas eleições de 2026. Para isto, a Comunicação deve ter um caráter de ESCLARECIMENTO, não apenas informativo.