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quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Abstenções, a campeã de votos

Esta postagem reproduz o conteúdo de um paper produzido em 2023/2024 para orientar estudos sobre os resultados das eleições municipais daquele ano. Decidi torná-lo público em razão da repetição do fenômeno nas eleições legislativas na Argentina.

José Ribeiro Jr, publisher do The Villa Biscaia Post

O principal fenômeno nas eleições municipais de 2024 provavelmente não tenha a ver com um suposto crescimento da direita ou o também suposto encurtamento da esquerda. Tampouco é um fenômeno que surgiu apenas no pleito atual; já estava presente nos mais recentes pleitos, sinalizando um crescente desinteresse pelas eleições. Então, o elemento "novo", que definiu direta ou indiretamente o resultado das urnas, pelo menos nas grandes capitais, foram a ABSTINÊNCIA - principalmente - e o VOTO EM BRANCO de cerca de 1/3 dos eleitores.

Esse fenômeno ocorreu tanto no primeiro como no segundo turno, em diferentes capitais, como Curitiba e São Paulo, talvez evidenciando uma nacionalização dessa tendência. A questão é estudar o que motivou esse procedimento e o que levou a isto.

Uma hipótese é o descrédito da população com o sistema político e com as autoridades em si.

Seria importante identificar ideologicamente esse um terço que virou as costas aos candidatos. Talvez por coincidência, esse é o mesmo tamanho daquele contingente que nas eleições em geral flutua entre a esquerda e a direita, pendendo para o lado que se mostrar mais capaz de lhe acrescentar valor.

Se assim for, são pessoas que olham nos candidatos valores como coerência e credibilidade. Aqueles assim identificados são aceitos, sendo de esquerda ou de direita, porque passam a ideia de que suas escolhas, ainda que contrárias aos interesses imediatos de seu eleitores, são as possíveis naquele momento, ou as mais adequadas. Passam a ideia de que não agem por interesses menores, ou particulares, em geral escusos. Por não identificar esses valores nos candidatos com maiores chances de serem eleitos, esse tipo de eleitor não aceitou se associar nem ao candidato da direita, nem ao da esquerda.

O ocorrido na disputa em São Paulo dá força a essa hipótese. Uma parcela do 1/3 que preferiu se abster ou votar em branco em vez de destinar o voto à dupla Guilherme Boulos/Martha pode ter na lembrança o Boulos e a Martha de 2013, quando - um movido por ambição, a outra por despeito - uniram-se à extrema direita para tentar destruir o PT e a então presidente Dilma Rousseff.

Vale recordar: em um dos melhores momento de todos os tempos do Brasil, em 2013, Guilherme Boulos liderou o movimento "Não vai ter Copa", que descambou em quebra-quebra em todo o País, incentivado por provocadores da extrema direita e turbinado pela velha mídia - Jornal Nacional e revista Veja à frente.

Se alguém havia esquecido dessa página negra do candidato do PSOL, o neoextremista de direita, Aldo Rebelo, tratou de lembrar ao produzir um vídeo usado pela campanha adversária no qual sentenciava, arremedando Boulos contra a Copa do Mundo no Brasil: "Não vai ter Boulos".

Martha ex-Suplicy não fez menos. Tomada de ódio contra Dilma Rousseff, Martha aliou-se ao então vice-presidente Michel Temer em um golpe de traição contra a presidenta, que resultou no impeachment sem crime de responsabilidade. Então deputada, Martha não apenas votou a favor da derrubada de um governo escolhido democraticamente pela maioria da população; ela cassou o mandato da primeira e única mulher que chegou à Presidência do Brasil e entregou o poder a um homem sem votos e tampouco méritos para ocupar essa posição. E não foi só: feminista de carteirinha, Martha justificou a ausência absoluta de mulheres na equipe ministerial de Michel Temer, fato que considerou natural.

Não foi a primeira pisada de bola feia da ex-petista. Quando tentava a reeleição à Prefeitura de São Paulo, em disputa com o então quase desconhecido Gilberto Kassab, para quem perdeu, mesmo sendo reconhecida como "melhor prefeita de São Paulo de todos os tempos", Martha sugeriu de maneira dissimulada que o adversário era homossexual.

Ela reagia a uma campanha difamatória nas redes sociais que pregava o voto em Kassab e se valia da posição da então prefeita em defesa dos direitos dos homossexuais para "demonizá-la" perante eleitores ultraconservadores. Tais páginas, se não tinham autorização de Kassab, também não eram renegadas por ele, supostamente também homossexual.

Questionado por Martha se era casado, tinha filhos..., Kassab não precisou responder, tampouco se defender, o que o desgastaria; a mídia contrária a Martha tratou de atacá-la, acusando-a de ser homofóbica, e os movimentos LGBTQIA+ , sempre defendidos pela ex-prefeita, engrossaram os ataques. Poupado da exposição negativa por uma "imprensa amiga", Kassab derrotou Martha nas urnas e se consolidou como um dos principais líderes partidários nacionais.

Em Curitiba, onde os candidatos de direita predominaram, esse 1/3 que não votou ou optou por votar em branco pode ter agido por se sentir enganado pelos principais nomes de extrema direita que os apoiavam: o ex-presidente Jair Bolsonaro e o ex-juiz, atual senador Sergio Moro.

Tanto Bolsonaro como Moro possuem seguidores ideológicos de extrema direita, que os apoiam de maneira cega. Esses possivelmente se dividiram entre os candidatos Eduardo Pimentel e Cristina Graeml, especialmente ela. Eleitores de centro-esquerda e de esquerda possivelmente deram o seu voto em segundo turno a Pimentel (não por ele, mas para evitar a vitória dela).

Entre os que viraram as costas aos dois candidatos de direita, certamente estão uns poucos militantes da extrema esquerda, que julgam com isso "marcar posição". Fora esses poucos, o grosso da parcela que não compareceu às urnas ou anulou optando pelo voto em branco possivelmente é composto pelos desiludidos de Bolsonaro e Moro.

Outrora, o ex-presidente militarista recebeu votos desse contingente em razão da agressiva campanha de mídia contra o PT e Lula. Mas o seu desastrado governo e sua constante agressão à Democracia e às leis fizeram abrir os olhos desse público.

O mesmo ocorreu em relação ao ex-juiz, cujas atitudes reveladas pela Vaza Jato e o fim da blindagem que a velha mídia lhe concedia expuseram o seu caráter ambicioso e carreirista aos olhos desse público conservador.

O que pode ser feito

O aqui exposto não tem suporte científico; trata-se apenas de uma tentativa de interpretar o fenômeno abstinência a partir de um olhar sobre o diversificado noticiário das eleições de 2024 e das manifestações sobre o tema nas redes sociais, em especial o X (ex-Twitter), WhatsApp e Facebook. A análise empírica deveria ser complementada com uma pesquisa com esse público, para identificar suas razões.   

Trabalhando sem a confirmação por pesquisa, considerando ser verdade o quadro descrito, cabe às forças de esquerda e centro esquerda conquistar ao menos uma parte significativa desse público conservador para obter sucesso nas próximas eleições de 2026. Para isto, a Comunicação deve ter um caráter de ESCLARECIMENTO, não apenas informativo.  

domingo, 11 de dezembro de 2022

Reflexões sobre a esquerda brasileira

Antes de mais nada, necessário esclarecer que esta análise data de 2017, antes, portanto, da eleição de Jair Bolsonaro para destruição do Brasil. Desde então, a nossa esquerda despertou parcialmente, mas precisa amadurecer muito mais. Se essa análise puder contribuir para melhorar a ação de petistas e de outras forças democráticas, então vale a pena torná-la pública.

"Antes de perder o governo com o impeachment da presidente Dilma Rousseff, nós perdemos a guerra da comunicação. Senão, vejamos:

 

Vamos deixar de lado a incapacidade da presidente Dilma para exercer a autoridade frente a empresários e agentes do Estado que a desrespeitaram aberta e grosseiramente, como se viu na abertura da Copa do Mundo e na colocação de sua foto no alvo de tiro em um stand da Polícia Federal, para ficar apenas nesses dois casos exemplares.

 

Vamos nos ater apenas à questão da Comunicação. Não me refiro aqui às propagandas do Governo, à comunicação institucional, à fartura de dinheiro dada aos jornais, portais, rádios e TVs que diariamente omitiam boas notícias do governo e criavam ou davam divulgação a fake news contra a presidente, o Governo e o PT.

 

Aqui me refiro apenas à nossa comunicação informal, à “briga de torcidas”, como gosto de dizer, para ilustrar como se dá o convencimento do público não-engajado. Essa gente que não está nem aí para partidos, para políticos, para propostas e projetos de governo, algo assim como o baixo clero da população, que é aquele que em geral decide qualquer eleição. Ao menos no Brasil.

 

E como é que esse pessoal decide? Pelo movimento de manada, tangido para o lado que mais levantar a voz, com maior eficácia, com maior poder de produzir estragos no adversário.

 

Esse contingente, que de maneira grosseira calculo seja em torno de 60% da população com Título de Eleitor (pelo menos), funciona como fiel da balança em eleições, assim como em posicionamentos em geral. É gente propensa a ser convencida, ao contrário daquelas parcelas à direita e à esquerda, cada qual com cerca de 20% do eleitorado, gente com ideologia, convicção de posições e projetos de poder.  Já a massa intermediária, sem ideologia definida, oscila ora para a direita, ora para a esquerda conforme a força de convencimento de cada um desses dois lados. E esse convencimento não se faz em cima de propostas e projetos, mas da desconstrução do adversário.

 

E nesse quesito nós da esquerda fomos de um primarismo que dói. Antes de me alongar, vamos estabelecer aqui uma premissa (ou axioma): se temos dois candidatos oponentes, o que irá se destacar para essa massa de 60% do eleitorado não é aquele com a melhor proposta, a melhor ideia, as melhores intenções, mas aquele que mostrar à torcida que confere maior valor a quem o escolher.

 

O candidato precisa parecer jovem, arrojado, vigoroso, belo, destemido, ousado, charmoso, líder inconteste, rápido de raciocínio, irônico na medida certa, agressivo na medida certa. Outras “qualidades” essenciais, mas que não podem ser diretamente associadas à imagem do candidato, são a capacidade de dissimulação para driblar evidências, a violência para coagir os contrários e um caráter maleável para baixar o nível da disputa e atribuir essa ação ao adversário.

 

Não quero dizer que para vencer a eleição os candidatos precisem necessariamente ter esse perfil abjeto. O que é preciso é conhecer essa realidade, saber identificá-la naquele que se enquadra nesse perfil e ter a capacidade estratégica para se contrapor a essas artimanhas e artifícios.

 

Dito isso, temos que o PT, nos anos mais recentes, fez exatamente o contrário disso.

 

Comecemos pelo apodo que a direita pespegou na esquerda: “pão com mortadela”. Queiramos ou não, a designação é ofensiva, pois sugere que os esquerdistas são “pobres”.  Não é que ser pobre seja algo vergonhoso; o que interessa aqui é o sentido dado à palavra, levando em conta o senso comum da população. Ser pobre não é apenas não possuir bens materiais, mas, no senso comum, é ser medíocre, menor, ignorante, de mau gosto, intelectualmente tosco, grosseiro nos modos e maneiras, alguém digno de ser enjeitado, portanto.

 

Em resposta, a esquerda usou a palavra “coxinha”, simpática até no uso do diminutivo. A palavra coxinha não induz a nada negativo, ao contrário: do banqueiro Andre Esteves, do BTG Pactual, ao gari que coleta o lixo em um conjunto da faixa 1 do Minha Casa Minha Vida, todos apreciam uma coxinha bem preparada. “Xingar” alguém de coxinha sugere expressar “data vênia” antes de dizer que o adversário não é gentil... E isso dito em resposta a um adversário que nos chama de “ladrão, corno, veado, filho da puta”, entre outros adjetivos.

 

Poderia citar inúmeros exemplos, como a forma com que os senadores do PT e do PCdoB trataram o senador Anastasia quando o ex-governador mineiro aceitou cumprir o papel ignominioso de elaborar o parecer previamente acertado que recomendou o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Para não me alongar, digo que só faltou os senadores Gleisi Hoffmann, Vanessa Grazziotin e Lindbergh Farias, em vez de aproveitarem a oportunidade para denunciar ao vivo, na TV, o papel baixo e imoral que o senador mineiro aceitou cumprir, só faltou eles elogiarem a virilidade do político mineiro, aliado de Aécio Neves. Fazendo um chiste, digo que dava a impressão de que ao elogiarem o currículo de mestre constitucionalista de Anastasia os petistas e a comunista piscavam para ele como a dizer: “tô te elogiando, hein?!; você vai reconhecer a inocência da Dilma, né?!”

 

Outro exemplo, sem me estender, foi o termo “República de Curitiba” usado para criticar a milícia montada em torno da operação Lava-Jato. O termo remonta aos episódios que levaram o presidente Getúlio Vargas ao suicídio e, mais recente, à passagem de uma quadrilha de Alagoas no poder federal.

 

No caso de Getúlio, o termo assume um caráter bastante positivo e remete a supostos atos de bravura e de defesa da moralidade pública atribuídos a jovens oficiais da Aeronáutica emprenhados de ouvido pela verve de um Carlos Lacerda. Basta conhecer um pouco da História contemporânea para saber que o termo “República do Galeão” não confere qualquer peso negativo à “República de Curitiba”.

 

Já a “República de Alagoas”, referência aos bárbaros levados ao Planalto por Fernando Collor, poderia, sim, emprestar um caráter eminentemente negativo à outra “República” ..., se ela fosse, digamos, de Goiás ou do Maranhão,  por exemplo, mas jamais de uma cidade como Curitiba, tida e havida como “civilizada” (sem demérito ao estados citados, mas a seus políticos mais notórios. O risível desempenho de Álvaro Dias no debate da Globo é um episódio à parte).

 

Será possível que não ocorreu a ninguém pespegar na turma da Lava Jato o apodo “Milícia de Curitiba”?

 

Para não me alongar muito, lembro outros exemplos toscos: o discurso da esquerda rescende a naftalina. Chamar políticos corruptos de “golpistas” é o mesmo que xingar um agressor feroz de “seu feio!” Outra palavra – entreguista – soa até uma coisa meio gay (sem preconceitos). Estamos falando principalmente para quem tem entre 15 e 40 anos e adotamos termos e linguagem toscas usados pelos nossos avós nos anos 50 e início dos 60! Ou seja: há mais de meio século!!!

 

Isso sem falar no conteúdo do discurso; os jovens de hoje, muitos deles “doidos” para se encostar num emprego público ou numa estatal estão nem aí para a privatização da Petrobras, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, ou até da própria mãe, se isso significar o aceno de acesso a um IPhone, um “carro completo com banco de couro” (mesmo com dez anos de uso), uma selfie numa academia ...

 

Faria mais efeito propor um auxilio-IPhone para a garotada, como aquele dinheiro milionário distribuído a juízes e promotores com ou sem casa, apartamento, mansão etc.

 

Para finalizar, a esquerda foi pródiga também em produzir discursos frouxos e toscos, embora tratados pela mídia reverente até como “inteligente”. Foi o caso da “crítica” do senador Roberto Requião ao ato desvairado do então juiz Sergio Moro, em viagem de lazer a Portugal, quando do habeas corpus concedido pelo único juiz do TRF 4 (os demais pertencem ao TRF de 4) ao presidente Lula: “cabe ao juiz Sérgio Moro tomar bom vinho, comer bacalhau”, escreveu no Twitter o senador que o eleitorado do Paraná, acertadamente, aposentou da política. Afinal, se é essa a capacidade de crítica do senador, diante da evidente, grosseira e indevida interferência de um juiz de piso em determinação de um desembargador de segunda instância, uma coluna social em jornal do interior lhe será muito mais adequado do que a Câmara Alta."