Francisco Duarte
Início da década de 1960, tarde de sábado. No inverno glacial de Curitiba, Tio Patinhas* embarca no ônibus verde-prata-amarelo da linha Vila dos Bancários. Leva com ele os três sobrinhos do Pato Donald – **Huguinho, Zezinho e Luizinho. Os três patos vestem calças curtas, algum agasalho e calçam sapatos pretos com solado de pneu e meias brancas. Tio Patinhas, de terno, gravata e jaquetão, calça também os sapatos de solado de pneu.
O “milionário sovina” passa a roleta, Huguinho e Zezinho se espremem para passar juntos e Luizinho passa por baixo – afinal, a grana é curta. Os quatro dividem um banco duplo. Acomodado para iniciar a lenta viagem até a Praça Zacarias, Tio Patinhas acende um Minister, abre o jornal e se depara com uma notícia curiosa: em algum lugar nas montanhas do Everest alguém teria avistado pegadas do Yeti, o “Abominável Homem das Neves”.
Tio Patinhas lê a nota para os garotos e lhes propõe: vamos montar uma expedição para caçar o Yeti? Os “patinhos” sentem a emoção da proposta, exatamente como na imaginação de Walt Disney. Huguinho, Zezinho e Luizinho riem. Por um instante se imaginam fazendo as malas, munidos do inseparável Manual dos Escoteiros Mirins, embarcando num hidroavião que já os espera com o motor ligado em um porto qualquer. De preferência às escondidas, para não despertar as suspeitas de João Bafo de Onça e outros bandidões. Aliás, sempre em vão, porque o meliante estará espreitando no porto, espiando de dentro de um barril, ou atrás de uma cerca. E, se não embarcar escondido na bagagem, certamente pegará o próximo hidroavião para se manter na cola dos patos aventureiros.
A imaginação voa, animada pelo chacoalhar da geringonça verde-prata-amarelo que se arrasta a 20 quilômetros por hora pela então modorrenta Avenida Iguaçu, conduzida pelo bonachão seu Luís.
Tio Patinhas acende outro Minister, dá baforadas para o alto. Dobra a página, olha outra notícia: o bandido da Luz Vermelha aterroriza São Paulo. Tio Patinhas planeja uma forma de botar as mãos nesse meliante. Quer saber o que os sobrinhos de Donald fariam para meter aquele bandidão na cadeia. – Eu dava um soco na cara dele, diz um dos patos, evocando a imagem de Roy Rogers botando bandidões pra dormir ao poder de um murro.
A viagem segue lenta, num pára-anda-pára de 100 em 100 metros. Ninguém tem pressa, muito menos quem está imerso no mundo da ficção infantil, perseguindo monstros de pé grande e bandidões que sempre perdem no final.
Curitiba, 2009. Lá se foram quase 50 anos. Diferente da história infantil, os sobrinhos do Donald cresceram e o Tio Patinhas partiu para outra dimensão. Sem dúvida, está preparando alguma nova expedição punitiva, que um dia certamente se realizará, quando o quarteto voltar a se reunir.
“Tio Patinhas” era nosso pai, Fernando Campelo Duarte, verdadeiro personagem de história em quadrinhos. Não pelo dinheiro, ao contrário, sua conta bancária estava mais para a do Pato Donald. Mas pelo espírito aventureiro do milionário sovina. Nós, os três irmãos homens, éramos Huguinho, Zezinho e Luizinho vivendo as aventuras fantasiosas em que ele nos metia. Ainda que somente na sua - e na nossa - imaginação.
**Wagner, Chico e Joca
II
Mulherada, tremei
Início da década de 1960, Rio de Janeiro – Verão, Praia de Ipanema, fim de tarde. Playboy aguarda o bonde, a carteira de Minister e o troco pra passagem presos na cintura do calção de nylon. Um certo ar de Elvis Presley. E o sobrinho do Pato Donald sonhando acordado: quando crescer vou ser assim: camisa jogada nas costas, de chinelo e calção, saindo da praia fumando um Minister, com o meu penteado de Elvis. Mulherada, tremei!
Tenho muitas saudades de ver esses 4 juntos...Especialmente hoje que um dos patinhos estaria fazendo 70 anos...
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