domingo, 28 de março de 2010

Reminiscências no exílio

Esse texto é do meu pai, Fernando Campelo Duarte. Poderia se chamar "Reminiscências de um carioca no exílio", mas saiu como "Ode ao Bonde". Foi escrito em 1964, quando ele já vivia em Curitiba. Na época, a Prefeitura do Rio estava encerrando as linhas dos últimos bondes na Cidade Maravilhosa, e o "exilado" certamente sentiu o golpe.

Com exceção das duas irmãs mais novas, os demais filhos passeamos de bonde com os nossos pais pela velha São Sebastião. Era divertido. Quem tiver oportunidade não deixe de vislumbrar a Lapa de cima dos famosos Arcos (foto) a bordo do bondinho de Santa Tereza, o único que restou no Rio de Janeiro. Sai da velha Lapa (Estação Carioca), perto do prédio da Petrobras, e vai ao Alto da Boa Vista e ao Sumaré. Vale a pena.

A mana Maria Lucia tem outros textos do pai, que postarei oportunamente.


Ode ao Bonde

Fernando Campelo Duarte (1920-1981)

Era noite. Na quietude sossegada da minha casa num *bairro pobre de Curitiba, recordava-me do meu distante e amado Rio de Janeiro. E, então, como se fôra um filme, um filme em retrospecto do meu passado, vi-me a recordar os meus tempos de infância e de moço em minha terra natal. Lembrei-me dos passeios que meu **pai e eu fazíamos de bonde e aí então foi que senti o desaparecimento desses veículos, da paisagem atual do Rio de Janeiro moderno.

E, por incrível que pareça, senti imensamente como se fôra algo de assim tão profundamente se sentir que as contingências dinâmicas das imposições do que se chama progresso houvessem decretado a morte dos bondes que fizeram parte integrante da minha infância e juventude.

E o filme prosseguia e as visões se sucediam... Recordei-me dos reboques, uns abertos, outros de plataforma fechada; dos trilhos reluzindo pelo perpassar constante do tráfego; dos bondes de 2ª classe, os “taiobas”, nos quais se pagava um tostão para ir da Tijuca à Praça Tiradentes. Lembrei-me dos letreiros, mais tarde acrescidos com números – MUDA-65-Andaraí-Leopoldo-71-Uruguai-Engenho Novo-Penha-91 – e muitos e muitos outros.

Jardim Leblon, o bonde que mais gostava de viajar nos passeios dos domingos. Ia pela Praia do Flamengo, ganhava Botafogo, Largo dos Leões, Jardim Botânico e, do Jóquei Clube em diante, em linha singela, por entre o mato, como se fôra trem, buscava os areais do Leblon então nascente, para afinal atingir a circular de retorno no Bar 20, de Ipanema.

Bondes da minha juventude, que estudantes gostávamos de pegar andando, de descer andando; dos carnavais gostosos do Rio de Janeiro.

E na seqüência das recordações, em que nem tudo eram figuras materiais do passado, veio à minha lembrança a figura humana do ***motorneiro, dos condutores, fiscais e despachantes. Gente zelosa e dedicada de um exército particular, quase todos lusos, alegres e chistosos, mas cônscios de seus deveres e pontuais em suas obrigações.

Que noção de responsabilidade! Que dignidade tinham os motorneiros dos meus bondes do Rio. Quantas freadas bruscas, retrocessos e limpa-trilhos descidos para salvar crianças e animais que passavam à frente dos elétricos.

Bondes da minha terra, vocês não existem mais. Em vez do ruído gritante de suas loucas disparadas nas madrugadas do meu Rio de Janeiro, há apenas agora na cidade moderna uma quietude fria de cidade sem alma.

Tudo é rápido, apressado, inhumano, ninguém se conhece, ninguém ama ninguém e assim não há mais lugar para você, meu velho bonde. Você, bonde, fazia amigos os seus passageiros; era o palco ideal das grandezas humanas, nas rotineiras viagens diárias de uma cidade que trabalha, nas horas agradáveis de uma cidade que se diverte.

Você era o bairro que chegava ao centro, era o comércio, era o borburinho do centro que adentrava os bairros.

Bonde da minha infância, da minha juventude, dos meus tempos de estudante, de policial, de funcionário, de namorado, de carnavalesco, de carioca, você hoje é apenas saudade, barulho doce que ecoa sereno nas recordações gostosas do ontem que hoje não mais pode voltar.

(Escrito em 11/08/1964, com caneta tinteiro, em papel timbrado do Ministério da Agricultura – ****Serviço do Acordo de Classificação no Estado do Paraná)

*Vila Isabel
**José Ribeiro Duarte Júnior
***Condutor do bonde
****Onde o autor exercia a função de secretário-geral
(foto) Fernando Campelo Duarte em 1966, na formatura de Segundo Grau da primogênita Maria Lucia Madeira Duarte

Um comentário:

  1. Está muito claro,lendo este texto, porque escrever bem é "mal" de família.....genética pura!!!
    Deu para viajar junto com o pai!!!!

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