quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A CPMF e o tratamento do câncer


João Luiz A. Duarte

Para quem não vivenciou os anos 60 é difícil de imaginar, mas muitas coisas eram diferentes das de hoje. A televisão estava iniciando suas atividades, com uma programação diária que começava às 18 horas e terminava às 22 horas. As pessoas tinham mais dignidade, os ricos não eram tão ricos e os pobres tinham seus valores. A polícia era respeitada e a sociedade vivia com tranqüilidade.

Estudante do 3º ano do Curso Primário do Colégio Estadual Dom Pedro II, eu saia envergonhado à rua, batendo de casa em casa, para arrecadar dinheiro para o combate ao câncer. Cada doação era anotada em uma folha, com o nome da pessoa e o valor oferecido. Essa era uma atividade solicitada pela escola, e que muitos alunos cooperavam com empenho e honestidade.

Hoje, passados quase 50 anos, vemos como as coisas mudaram. Descobrimos que temos de conviver com alguns tipos de câncer. Algumas pessoas se dedicam de corpo e alma para amenizar o sofrimento alheio, outras ficam ricas aproveitando a situação para lucrar absurdamente.

Grande parte da mídia que nos anos sessenta pouca influência tinha sobre a sociedade hoje faz o que bem entende com a população em geral, que parece ter preguiça de raciocinar e incorpora a opinião de jornais, TVs e revistas como sendo sua.

Não faz muito tempo a população em geral ficou muito satisfeita com o fim da CPMF. Adotou a grande mentira imposta pela mídia (que a CPMF era ruim) como sua “inteligente opinião”. A grande mídia dizia:

  • Chega de imposto, nós já pagamos demais.
  • Esse imposto foi criado para a saúde e esta sendo desviado para outros fins.
  • É um imposto em cascata, que onera toda a cadeia de consumo.
  • O trabalhador gasta oito dias por ano para pagar a CPMF.
  • As classes mais baixas é que acabam pagando esse imposto.
  • A classe dos taxistas é uma das que mais pagam CPMF.
  • O governo que pare de roubar, que aí não precisa de mais impostos.
  • Para quê imposto para saúde, se a saúde brasileira é um caos?

E outras tantas opiniões furadas que diariamente os grandes jornais, as TVs, as rádios pregavam aos incautos e aos desprovidos de raciocínio próprio. A quem interessava colocar a opinião pública contra CPMF? Acredito que isso só interessava às pessoas muito ricas e gananciosas, que ganham dinheiro com um sistema privado de saúde e por isso não desejam serviços de saúde pública com qualidade. Também os desonestos e sonegadores, que não desejam ter seus movimentos financeiros rastreados. Além desses, políticos e jornalistas que colocam suas atividades a serviço justamente dos gananciosos e dos desonestos.

Impostos são um ônus de se viver em sociedade e servem para manter o bem coletivo. E a CPMF era de todos os impostos aquele cuja existência mais se justificava, por ser o único tributo que todo mundo paga. Além disso, tem um caráter de justiça, porque aqueles que têm mais, pagam mais. E há outras vantagens: seu custo de cobrança é pequeno, é pago à vista, não tem como ser sonegado, não há isenção (até as igrejas pagam), serve para apanhar sonegadores do Imposto de Renda, comprovar dinheiros de origem desonesta etc.

Esse imposto, cuja arrecadação provinha principalmente de milionários, especuladores e grandes empresas, era em grande parte destinado à saúde e ao bem-estar dos mais necessitados. Quando o Presidente da República se propôs a assinar um documento pelo qual o Governo se comprometia a aplicar 100% da CPMF na saúde publica, veio a terra mais um argumento furado dos enganadores do povo (que o tributo era aplicado em outros setores). Ora, se o Presidente não cumprisse o prometido, jamais faria seu sucessor.

Quem já teve câncer, ou um parente com essa doença, sabe o sofrimento que o paciente e sua família passam, mesmo os de classe média. O tratamento é muito caro, impossibilitando que mesmo pessoas de classe média alta consigam arcar com todos os gastos. Acompanhei a agonia de um irmão com câncer sendo tratado no Hospital Erasto Gaertner, em Curitiba. O corpo clínico e o pessoal da logística do hospital foram, em sua maioria, dedicados e dotados de compaixão para com os enfermos, mas a situação é muito penosa, as instalações são péssimas, as condições de conforto dos pacientes, trabalhadores e familiares são extremamente degradantes, a infraestrutura deficiente, o hospital não comporta o número de doentes que precisa atender. Quase que diariamente, os pacientes das enfermarias vêem pessoas morrendo na cama ao lado, e isso abala a auto-estima já debilitada dos doentes.

Se em 50 anos tanto se batalhou para a cura do câncer, não conseguindo esse intento, pelo menos que se dê condições dignas de conforto àqueles que por infelicidade são vítimas dessa doença.

Que a Presidente Dilma crie novamente essa contribuição sobre a movimentação financeira, com uso exclusivo para hospitais de combate ao câncer nas grandes cidades desse país.

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