sábado, 28 de agosto de 2010

Ex-menina de rua de SP
estuda Medicina em Cuba

Este post foi copiado do Blog Balaio do Kotscho. No momento em que a mídia brasileira incensa alguns cubanos que professam o culto ao Mac Lanche Feliz e pensam que soberania é marca de sofá das Casas Bahia é bom conhecer o depoimento de uma jovem que foi menina de rua em São Paulo e hoje estuda Medicina no país de Fidel Castro. A seguir, uma breve apresentação da jovem feita pelo Kotscho. Após, o depoimento de Gisele Antunes Rodrigues. Bom sábado a todo mundo!


Graças a alguns “papa-hóstias”, como costumo chamar meus amigos da igreja, fiquei sabendo da história dela durante um agradável almoço na Feijoada da Lana, na Vila Madalena, a melhor da cidade. Repórter vive disso: tem que andar por aí, conversar com todo mundo para descobrir as novidades, ficar sabendo de personagens cuja vida vale a pena ser contada.
É este o caso da jovem Gisele Antunes Rodrigues, de 23 anos, ex-menina de rua de São Paulo, nascida em Ribeirão Pires,  que deu a volta por cima e hoje está no terceiro ano de Medicina. Detalhe: ela estuda no Instituto Superior de Ciências Médicas de La Habana, em Cuba, onde estão matriculados outros 275 brasileiros.
Gisele veio passar as férias no Brasil e, na próxima semana, volta a Cuba. Como ela foi parar lá? Ninguém melhor do que a própria Gisele, que escreve muito bem, para nos contar como é a vida lá e como foi esta sua incrível travessia das ruas de São Paulo até cursar uma faculdade de Medicina em outro país.
A meu pedido, Gisele enviou seu depoimento nesta sexta-feira e eu pedi autorização para  poder reproduzí-lo aqui no Balaio. Tenho certeza de que esta comovente história com final feliz pode servir de estímulo e inspiração a outros jovens que vivem em dificuldades. RK

Para: Ricardo Kotscho
Olá!!!
Autorizo o senhor a publicar essa história. Caso deseje, pode corrigir os erros. Mas, por favor, sem sensacionalismo. Tente seguir mais o menos o texto abaixo. Desculpa por escrever isso, mas eu já tive problemas.

Gosto do seu blog, vou tentar acessar  nele em Cuba.
Abraços
Gisele Antunes
***
Só mais uma brasileira
Saí de casa com 9 anos de idade porque minha mãe espancava  eu e meu irmão. Não tínhamos comida,  o básico para sobreviver. Meu pai nunca foi presente. É um alcoólatra que só vi duas vezes na vida. Minha mãe é uma mulher honesta, mas que não conseguia educar seus filhos. Já foi constatado que ela tem problemas mentais.
Ela trabalhava como cigana na Praça da República. Quando eu fugi de casa segui esse caminho, e encontrei uma grande quantidade de meninos e meninas de rua. Apresentei-me a um deles, este me ensinou como chegar em um albergue para jovens, e a partir desse momento passei a ser menina de rua. Só comparecia nessa instituição para comer, tomar banho e ter um pouco de infância (brincar). No meu quinto dia na rua, comecei a cheirar cola e depois maconha.
Alguns educadores preocupados com a minha situação tentavam me orientar, mas de nada valia. Foi quando me apresentaram a uma religiosa, a irmã Ana Maria, que me encaminhou para um abrigo, o  Sol e Vida. Passei uns três anos lá e deixei de usar dogras. Esta instituição não era financiada pelo governo. Quando foi fechada, me encaminharam a outros abrigos da prefeitura, entre eles o Instituto Dom Bosco, do Bom Retiro. E assim foi, até os 17 anos.
Para alguém  que usa droga, não era fácil seguir regras. Foi por muita persistência e um ótimo trabalho de vários educadores que eu consegui deixar a drogas, sair da desnutrição e recuperar a saúde após anemia grave.
Na infância, era rebelde, não queria aceitar a minha situação. Apenas queria ter uma família. Mas havia algo que eu valorizava _ a escola e os cursos que eu fazia na adolescência. Aos 14 anos de idade, comecei a jogar futebol, tive a minha  primeira remuneração. Aos 16 anos, entrei em uma empresa, a Ericsson, que capacitava jovens dos abrigos para o mercado de trabalho. Essa empresa financiou meu curso de auxiliar de enfermagem e o inicio do técnico. O último não foi possível concluir.
Explico: existe uma lei nas instituições públicas segunda a qual o jovem a partir dos 17 anos e 11 meses não é mais sustentado pelo governo, tem que se manter sozinho. Como eu não tinha contato com a minha família, quando se aproximou a data de completar essa idade, entrei em desespero.
A sorte foi que a entidade, o Instituto Dom Bosco Bom Retiro, criou um projeto  denominado Aquece Horizonte. Este projeto é uma república para jovens que, ao sair do abrigo, podem ficar lá até os 21 anos. Os coordenadores e patrocinadores acompanham o desenvolvimento do jovem neste período de amadurecimento.
As regras mais básicas da república são: trabalhar, estudar e querer vencer na vida. No segundo ano de república, eu desejava entrar na universidade, mas sabia que não tinha condições de pagar a faculdade de enfermagem ou conseguir passar na universidade pública.
Optei então por fazer a faculdade de pedagogia. É uma área que me encanta, e a única que podia pagar. No primeiro semestre da faculdade de pedagogia,  um educador do abrigo, o Ivandro, me chamou pra uma conversa e me informou sobre um  processo seletivo para estudar medicina em Cuba. Fiquei contente e aceitei participar da seleção.
Passei pelo processo seletivo no consulado cubano e estou desde 2007 em Cuba. Dou inicio ao terceiro ano de medicina no dia 06 de setembro de 2010. São 7 anos no país, sendo 6 de medicina e um de pré-médico.
Ir a Cuba foi minha maior conquista. Além de aprender sobre a medicina, aprendo sobre a vida, a importância dos valores.  Antes de ir,  sempre lia reportagens negativas sobre o país, mas quando cheguei lá, não foi isso que vi. Em Cuba,  todos têm direito a educação, saúde, cultura, lazer e o básico pra sobreviver.
Li em muitas revistas que o Fidel Castro é um ditador, e descobri em Cuba, que ele é amado e idolatrado pelos cubanos. Escrevem que Cuba é o país da miséria. Mas de que tipo de miséria eles  falam? Interpreto como miséria o que passei na infância. Em casa, não tinha água encanada, luz, comida.
Recordo que tinha dias em que eu, meu irmão e minha mãe não conseguíamos  nos  levantar da cama devido a fraqueza por falta de  alimento. Tomávamos água doce pra esquecer a fome. Então, quando abro uma revista publicada no Brasil e nela está escrito que Cuba é um país miserável, eu me pergunto: se em Cuba, onde todos têm os direitos a saúde, educação, moradia, lazer e alimento, como podemos denominar o Brasil?
Temos um país com riqueza imensa, que conquistou o 8º lugar no ranking dos países mais ricos, mas sua riqueza se concentra nas mãos de poucos, com uns 60 % da população vivendo em uma miséria verdadeira, pior que a miséria da minha infância.
Cuba sofre um embargo econômico imposto pelos estados Unidos por ser um país socialista e é criticado por outros  governos. No entanto, consegue dar bolsa para mais de 15 mil estrangeiros de vários países, se destaca na área da saúde (gratuita), educação (colegial, médio, técnico e superior gratuito para todos) e esporte (2º lugar no  quadro de medalhas, na historia dos Jogos Panamericanos), é livre de analfabetismo.
A cada mil nascidos vivos morrem menos de 4.  Vivenciando tudo isso, eu queria também que o Brasil fosse miserável como Cuba, como é escrito em varias revistas. Acho que o brasileiro estaria melhor e não seria tão comum encontrar tantos jovens sem educação, matando, roubando e se drogando nas ruas.
Vou passar mais quatro anos em  Cuba e não quero deixar o curso por nada. Desejo concluir a faculdade e ajudar esse povo carente que sonha com melhoras na área da saúde, quero ajudar outros jovens a realizar os seus sonhos , como me ajudaram. Também pretendo apoiar meu irmão, que deseja estudar direito.
Tenho meu irmão como exemplo de superação. Saiu de casa com 13 anos de idade, mas não foi para uma instituição governamental. Morou em um cômodo que seu patrão lhe ofereceu. Enquanto eu estudava e fazia cursos, ele estava trabalhando para ter o pão de cada dia. Hoje, ele é um homem com 25 anos de idade, casado e tem uma filha linda, e mesmo assim encontra tempo pra me apoiar e me dar conselhos.
Foi muito bom visitar o  Brasil. Depois de longos 13 anos tive um tipo de comunicação com a minha mãe. Isso  pra mim é uma vitoria. Quero estar próxima dela quando voltar.
Conto um pouco da minha história, mas sei que muitos brasileiros ultrapassaram barreiras piores, até realizarem seus sonhos. Peço ao povo brasileiro que continue lutando. É período de eleições, peço também  que todos votem com consciência, escolha a pessoa adequada pra administrar o nosso país tão injusto.
Gisele Antunes Rodrigues
Ser culto é o único modo de ser livre (José Martí)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

As bolas-fora e os bolas-murchas

Beto: "fala do avião do Lula"
Beto Richa não é bom de palpites em programas eleitorais alheios. Em 2006 ele recomendou a Geraldo Alckmin que batesse no avião de Lula, argumentando que a estratégia havia dado certo em 2004, quando se elegeu à Prefeitura.

Alckmin caiu na conversa e, num debate, disse a Lula que se fosse eleito um dos primeiros atos seria vender o avião. Lula retrucou, apontando os milhões de dólares que o governo de São Paulo desperdiçava em aluguel de aeronaves, depois de ter vendido o avião que servia ao governador. Para arrematar, o presidente emendou: “vocês já venderam o patrimônio público todo, só faltava essa agora: quererem privatizar o avião da Presidência!”

No dia seguinte ao debate Beto se vangloriava nos jornais dizendo que fôra ele quem tinha dado a dica ao Alckmin. O que ele não sabia – nem o Geraldo – é que os dois haviam oferecido de bandeja à campanha do PT o mote para colocar em foco novamente o tema das privatizações desastrosas da dupla Demo-PSDB.

Candidato a fazer papel de bobo
Depois de reconhecer o estrago, Alckmin chegou a se fantasiar de garoto-propaganda das estatais, vestindo uma ridícula jaqueta forrada com as logos da CEF, BB, Petrobras e Correios. Beto, por sua vez, tratou de calar o bico e nunca mais falar da “grande sugestão” dada ao companheiro paulista.

Passou o tempo e novamente o Beto Richa se mete a dar palpites em campanhas, desta vez na de José Serra. Quem sabe se para não se comprometer diretamente com outro ato aloprado, desta vez ele se limitou a generalidades indecifráveis. Segundo a Folha de São Paulo, "Richa disse que Serra pode reverter a desvantagem nas pesquisas desde que mude seus programas (...); deve melhorar seus programas na TV, acertar uma linha de ação".

Se o Serra não der uma grande virada depois dessa recomendação é porque é "buro mesmo", como se diz lá na Nhanha.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Fandango em São Mateus

Vocês conhecem o idioma "polaquês"? Quem já conviveu com um polaco das antigas lembra bem a fala engraçada, que forma as frases colocando o verbo no final. Pois o excepcional Trio Favetti compôs o Fandando em São Mateus, inspirado na fala "polaquês". "Aprumem" o ouvido:



Não sei por que eu fui dizer Bye bye..., Serra

O Blog Atividade leva até vocês mais um programa da séria série "Dedique uma canção a quem você ama".
Eu tenho aqui em minhas mãos uma carta, uma carta de um ouvinte que nos escreve e assina com o singelo pseudônimo de "Eleitor apaixonado do Higienópolis". Ele nos conta que no dia que seria o dia do dia mais feliz de sua vida, Zezinho da Móoca, seu candidato, um zezinho conhecido do pequeno e milhardário bairro do Morumbi, fugiu, desapareceu, escafedeu-se dos programas de propaganda eleitoral dos candidatos do seu partido, o DEMO/PSDB. Oh! Zezinho da Móoca, onde quer que você se encontre, volte para o seio de seus aliados. Eles esperam ver aquele baú sem alça voltando, com FHC debaixo do braço e em cima do muro.
Agora uma canção
O Falcão canta por mim
Nós não queremos ver
Você tão triste assim....




Acompanhe a letra

O Dinheiro Não É Tudo Mas É 100%

Falcão

Composição: Falcão/Tarcísio Matos

Dois mais dois são quatro
Sexta-feira à noite
O quadrado de 69 é pura esculhambação
Que gente besta não conta
É sabido se atrapalha
Pois fazer conta de cabeça, noves fora nada
Legal que só!
Entrar na vida legislativa
Puxar o trem com a caneta
(De trás pra frente)
Cheio de parentes, de agregados,
De aderentes, etc. e tal
2 mais 2 nunca é 4
Segunda-feira de manhã
1000 meu com 1000 seu é a comissão
Que o tesoureiro se assusta
Mas passa o recibo
Diz que não está por dentro e tira 10%
Legal que só!
Entrar pra vida legislativa
Pra me eleger
Posso contar, humildemente
Com meus parentes, meus agregados,
Meus aderentes e depois tchau!

Texto bão dimais, sô!

Uma mineira - Jacira - me enviou e compartilho com vocês. Ou: co'cêis.

O sotaque das Mineiras


Felipe Peixoto Braga Netto*

O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. Afinal, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar, sensual e lindo das moças de Minas ficou de fora?


Porque, Deus, que sotaque! Mineira devia nascer com tarja preta avisando: 'ouvi-la faz mal à saúde'. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: 'só isso?'. Assino, achando que ela me faz um favor.

Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma. Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só pelo sotaque.

Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas... Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho. Não dizem: pode parar, dizem: 'pó parar' Não dizem: onde eu estou?, dizem: 'onde queu tô.' E até ?oncotô?.

Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem - linguisticamente falando - apenas de uais, trens e sôs.

Digo-lhes que não. Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade. Fala que ele é bom de serviço. Pouco importa que seja um juiz, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô. Se der no couro - metaforicamente falando, claro - ele é bom de serviço. Faz sentido...

Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem. Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra: 'cê tá boa?' Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela tá boa é desnecessário.

Há outras. Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada.
Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: - Mexe com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc..)

O verbo 'mexer', para os mineiros, tem os mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar.

Se lhe perguntarem com o que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu ofício.

Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue nada. Você não dá conta. Sôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo, você liga e diz: '- Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não, sô.'

Esse 'aqui' é outra delícia que só tem aqui. É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública, de qualquer frase. É mais usada, no entanto, quando você quer falar e não estão lhe dando muita atenção:

é uma forma de dizer 'olá, me escutem, por favor'. É a última instância antes de jogar um pão de queijo na cabeça do interlocutor.

Mineiras não dizem 'apaixonado por'. Dizem, sabe-se lá por que, 'apaixonado com'. Soa engraçado aos ouvidos forasteiros.

Ouve-se a toda hora: 'Ah, eu apaixonei com ele...'. Ou: 'sou doida com ele' (ele, no caso, pode ser você, um carro, um cachorro).

Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira. Nada pessoal. Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas.

Por exemplo: em Minas, se você quiser falar que precisa ir a um lugar, vai dizer: ?'Eu preciso de ir.' Onde os mineiros arrumaram esse 'de', aí no meio, é uma boa pergunta... Só não me perguntem! Mas que ele existe, existe. Asseguro que sim, com escritura lavrada em cartório.

No supermercado, o mineiro não faz muitas compras, ele compra um tanto de coisa. O supermercado não estará lotado, ele terá um tanto de gente. Se a fila do caixa não anda, é porque está agarrando lá na frente. Entendeu? Agarrar é agarrar, ora!

Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará :'- Ai, gente, que dó.'

É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras... Não vem caçar confusão pro meu lado! Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro 'caça confusão'. Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele 'vive caçando confusão'.

Ah, e tem o 'Capaz....' Se você propõe algo a uma mineira, ela diz: 'capaz' !!! Vocês já ouviram esse 'capaz'?
É lindo. Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer 'ce acha que eu faço isso'!? Com algumas toneladas de ironia...

Se você ameaçar casar com a Gisele Bundchen, ela dirá: 'ô dó dôcê'. Entendeu? Não? Deixa para lá.

É parecido com o 'nem...'. Já ouviu o 'nem...'? Completo ele fica: '- Ah, nem...'. O que significa? Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum. Você diz: 'Meu amor, cê anima de comer um tropeiro no Mineirão?' Resposta: 'nem...'. Ainda não entendeu? Uai, nem é nem. Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?

Preciso confessar algo: minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras.

Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão.

Se você, em conversa, falar: 'Ah, fui lá comprar umas coisas...'. - Que' s coisa? - ela retrucará. O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o 'que'!

Ouvi de uma menina culta um 'pelas metade', no lugar de 'pela metade'. E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa, confidenciará : ? Ele pôs a culpa 'ni mim'.

A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios, em Minas... Ontem, uma senhora docemente me consolou: 'preocupa não, bobo!'...

E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem se espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: 'não se preocupe', ou algo assim. Fórmula mineira é sintética e diz tudo.

Até o tchau, em Minas, é personalizado. Ninguém diz tchau, pura e simplesmente. Aqui se diz: 'tchau pro cê', 'tchau pro cês'. É útil deixar claro o destinatário do tchau.


*Felipe Peixoto Braga Netto (1973) afirma que não é jornalista, não é publicitário, nunca publicou crônicas ou contos - não é, enfim, literariamente falando, muita coisa, segundo suas próprias palavras. Paulistano, mora em Belo Horizonte e ama Minas Gerais. Ele diz que nunca publicou nada, mas a crônica abaixo foi extraída do livro 'As coisas simpáticas da vida' (Landy Editora, São Paulo (SP) - 2005, pág. 82).

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Nana Caymi, de Aldir Blanc, com desejo
de ótimo sábado pra todo mundo




Votem em mim!




José Serra, o candidato caô-caô

Assista uma versão muito bem-humorada do “samba da favela virtual” do programa do candidato José Serra adaptado para o clássico “Político Caô Caô”, do mestre Bezerra da Silva. A adaptação genial foi feita por Anita Prates, e o vídeo postado no Blog Tijolaço, do Brizola Neto.


segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Graças à Web, Globo e Veja
não elegem mais os presidentes

FHC e Collor foram os últimos presidentes eleitos pela Rede Globo, as revistas Veja e Época, os jornais Folha, Estadão, O Globo, as Rádios CBN, Jovem Pan, Band ... Depois da Web, os presidentes são eleitos pelos brasileiros, como deve ser.


Mozart Lula versus Salieri FHC

A maior flor do mundo

A Maior Flor do Mundo from Fundação Jose Saramago on Vimeo.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Herança perene


Joca (com camisa)
Fernando Campelo Duarte, nosso pai, partiu antes do combinado, como diz o famoso contador de causos Rolando Boldrim. Ele se foi, mas nos deixou uma herança que há mais de trinta anos desfrutamos quase que todos os dias, herança essa que nenhum ladrão consegue roubar, que foi o seu exemplo de pessoa do bem, preocupado com seu semelhante, desapegado de bens materiais, sempre procurando a justiça social. Hoje, quando faria noventa anos, podem ter certeza de que está comemorando do outro lado da vida com tantos amigos seus que por pressa desnecessária também partiram antes do combinado.

João Luiz (Joca)

De repórter pra repórter

A vida não me fez conhecê-lo mas o tenho guardado com amor e carinho no coração. Às vezes me dá a sensação de que convivemos em alguma fase, não sei se pelas estórias ouvidas ou pelo desejo de tê-lo por perto. A ligação é tão forte que sem saber acabei escolhendo a mesma profissão e descobri isso tem pouco tempo. Me orgulho de saber que um dia ele foi jornalista e que bom poder descobrir seus passos mesmo tantos anos depois. Se hoje fosse vivo seria uma grande alegria comemorar seus 90 anos. Não sei se estaria mais tranqüilo ou rabugento com a idade, mas seria igualmente amado. Vô*, onde quer que esteja obrigada pela preciosa família que você e a vó formaram. É a nossa mais valiosa herança!

Juliana Duarte

(*Fernando Campelo Duarte)

Espelho


Fernando Campelo Duarte... Hoje faria noventa anos de Vida no Planeta!
Nome caro ao nosso coração! Um caro impagável! Nada que façamos parece um pouco poder saldar nem tão pouco saudar a conta de sua vida entre nós!
É meu Pai e Pai dos meus sete irmãos. Devemos a ele a participação no dom da vida e de nossa evolução na caminhada, ainda que tenha morrido já faz 30 anos! Deixou-nos com 60 anos de idade, após um coma de cinco outros anos...
Seu modo de pensar e agir são presentes em nós e vez por outra iluminam o nosso pensar, o nosso agir. Nele, como disse um dia o inesquecível e incomparável Dom Helder Câmara, “nada do que é humano me é estranho!”, pudemos conhecer a limitação e a dignidade do Ser Humano!
Agradeço a Deus por tudo isto! Presenteou-me, antes de tudo, com a semente da fé em Deus que procurou plantar em todo terreno onde caminhou. Católico praticante, como se dizia no seu tempo... Hoje se fala em cristão ativo, militante, participante... Não importam as palavras; o sentido é o mesmo. Buscou conhecer o Criador e participar do Plano insondável da criação, no meio de todas as criaturas. Exaltado e contestador, portava-se como um “protestante”, o evangélico de nossos dias de hoje. Tenho muito desse seu lado. Combatente incansável, orava sempre pedindo ao Pai as forças dos “Céus” para levar a bom termo o seu combate aqui nesta Terra. Ousado e frágil a um só tempo! A Família saiu do Rio de Janeiro e veio para o Paraná atrás dos seus sonhos de uma vida melhor! Reconheceu sua limitação para aculturar-se... Gostava da conversa simples e solta do carioca. Gostava da amizade que o povo paranaense, composto por gente vinda de vários cantos do Brasil, ofereceu ao seu cotidiano. Deu-nos amigos que até hoje fazem a diferença ao meu viver. Destaco a Família Albrecht. Mas, também fomos acompanhados pelo Dival, pelo Durval, pelo Sadoc de Sá, pelo Vilella, pelo Palma (hoje também tenho Palma-s- que me acompanham!) e muitos outros... A vida no Sul do país nos favoreceu conhecer um lado do Brasil que a Avó Ottília apreciou como “pedaços bonitos da Europa da minha ‘dela’ infância”. Muita limpeza, ordem, zelo pelo meio ambiente... Flores de Curitiba, tão mágicas!
Pensando no meu Pai não tenho como deixar de ver quanto recebi dele. Meu estudo foi extremamente sustentado pela força do seu trabalho! Apreciei seu lado de bom Pai que se fazia completo ao lado de nossa Ecéa, ao ponto d’eu inventar, desde minha juventude, o nome “FERCEA” que aos 40 anos de idade pude dar para minha filha. Ali eu compus o que desejava de uma pessoa: íntegra, feliz, sonhadora, realizadora: união de FER (do Fernando) com CEA (da Ecéa).
Pai, hoje no caminho do “Céu” como aqui sabemos falar, que sejamos como Ana Freud disse um dia: “não sou nem a favor, nem contra ele; sou depois dele!”...
Se puder dizer o que sou em uma palavra, sou: “GRATIDÃO!”

Maria Lúcia

Meu pai, o Caminhante

Papai era uma pessoa bem diferente. Autoritário mas ao mesmo tempo engraçado. Gostava muito de caminhar e nós não tínhamos essa mesma preferência. Um dia me convidou para sair com ele, queria ir até uma exposição de gado no Parque Castelo Branco, me animei toda e fui, só que aquela proposta era só uma estratégia para eu caminhar com ele. Ele me levou até o Alto da Rua Quinze de Novembro e ficou me mostrando a caixa d'água da cidade. Lembro bem que estava tão irritada, me sentindo enganada que nem levantei o olhar, de cabeça baixa estava e assim permaneci. Vendo que eu tinha empacado que nem um burro, não lhe restou outra alternativa, rumou para o Parque. Lá fiquei super feliz, voltamos bem tarde, pois era o último dia da exposição. Enfrentamos uma fila imensa para voltar, tinha até gente bêbada no ônibus. Coitado, ele pagou bem caro essa enrolada. Quando chegamos em casa levei uma grande bronca da mamãe, pois ele estava com pouco dinheiro e teve que gastar muito com esse passeio, por minha causa. Hoje eu o entendo, meu querido pai, você só queria uma companhia para caminhar, mas na época não era essa a minha praia. Te amo, paizão! Espero que você esteja fazendo lindas caminhadas junto com o nosso Pai do céu

Bebetila

Falar do meu pai, caramba...

Acho que a primeira coisa é a falta que fez e que faz. Ainda hoje sou carente de ter um pai, afinal, apesar das brigas (coisa normal em qualquer família), éramos companheiros, nos divertíamos muito juntos.
Você, pai, fazia minhas vontades, brincava e me provocava sempre, mas eu me vingava e você não resistia às minhas chantagens infantis: "se não comprar essa boneca vou chorar e gritar e você vai passar a maior vergonha". E lá ia você comprar o que eu queria. 
Sem falar nas risadas que você me causava ao espantar os cachorros de rua riscando fósforos... Impossível lembrar sem rir novamente...
O pingo de leite, a paçoca e o chocolate Diamante Negro são meus doces mais especiais, porque você sempre os trazia no bolso do paletó na volta do trabalho. Para mim e para a Mariinha. Mal você chegava em casa e a gente pulava em cima pra pegar os doces!! Nossa!, era muito bom!
Lembro certa vez quando tive que fazer uma redação sobre "meu pai". Isso foi mais ou menos na 2ª série do Primário, hoje Ensino Fundamental. Eu tinha uns 7 ou 8 anos e escrevi mais ou menos assim, dentre outras coisas: "Meu pai está no sofá assistindo o Amaral Neto, o Repórter. Ele veste um pijama cor de rosa com bolinhas brancas". A professora ao ler deu aquele sorrisinho maroto, e eu ainda posso vê-lo agora como o descrevi. Inclusive a sua cara braba quando leu aquilo.
Bem, pai, dentre tantas coisas boas, ótimas que posso falar de você agradeço a Deus por ter me permitido conhecê-lo e conviver com você, mesmo que por apenas 8 anos. Até hoje não sei dizer muito bem o que senti quando o vi imóvel, em coma, sem o sorriso, sem a palavra e sem poder mais brincar comigo.
Quando penso em você o sinto bem , feliz, olhando e cuidando de cada um de nós e também dos que vieram de nós, como um Anjo.
 Você, pai , com seus erros e acertos foi um bom homem, um bom pai, que sendo filho único nos deu a oportunidade, junto com nossa mãe, de sermos uma GRANDE FAMÍLIA. Nos deixou de herança o maior legado: o Amor a Deus, a Honestidade e a União entre nós!
Pai, obrigada por tudo!
Se pudesse fazer hoje um desejo pelos seus 90 anos gostaria de poder te dar um enorme, apertado e demorado ABRAÇO. E assim matar as saudades do tempo de criança. Sua filha caçula,
Zeza.

Noventa anos do Campelo

Maria Imaculada de Abreu Duarte

A chefe Maria Imaculada e sua tropa de escoteiros 
Hoje, dia 10 de agosto de 2010, nosso pai, Fernando Campelo Duarte, faria 90 anos. O que dizer desse pai com quem convivi tão pouco??? A convivência com ele durou apenas doze anos... Tempo este que diminui, se contar que na memória eu tenho apenas situações a partir dos 5/6 anos. Algumas situações, porém, me marcaram... músicas tocadas em festas de igreja a que ele nos levava, Festa da Laranja em Cerro Azul, passeio de Litorina, balas sempre trazidas em seu retorno do trabalho para casa, confetes e serpentinas atiradas do prédio “BRASTEMP” (Praça Zacarias) em dias de carnaval e a maior herança que nos deixou: a família de Campelo, cidadezinha no interior do Rio de Janeiro. Esta eu só conheci verdadeiramente após o tempo que o Sr. Campelo “hibernou” para depois partir... Considero este o maior legado dele. Penso que o conheci pouco, mas se ele foi capaz de ser amado por pessoas como aquelas é porque era realmente uma pessoa muito especial.
Hoje, em que ele estaria completando 90 anos de vida, penso em quantas coisas deixamos de viver juntos. Acho que ele gostaria da adulta que me tornei. Creio que amaria minhas filhas, que brigaria algumas vezes com meu marido, que tem algumas semelhanças com ele. Que curtiria meu quintal, meus animais e principalmente a velhice junto da minha mãe. Gostaria de tê-los juntos morando no meu quintal.
Parabéns, Pai, e que onde você estiver tenha aprendido muitas lições que possam ser compartilhadas conosco quando nos encontrarmos no “grande acampamento”.
Beijos da Mariinha

Recado da companheira

Fernando:
"O maior presente que a vida me deu" - assim me expressei um dia com relação a você.
Estava sendo sincera, mas o tempo me mostrou que, na verdade, você estava sendo o portador do grande presente: DEUS!
Por sua interferência, fui percebendo Deus em mim. Isso fez a maior diferença!
Recordando seus 90 anos de estada aqui na Terra, quero agradecer a Deus a sua presença na minha vida e dizer da importância do que trouxe como presente - o tesouro escondido que vive em cada ser humano à espera da feliz descoberta.
Que Deus ponha na sua conta o grande bem que me causou e que frutificou nos filhos que nos foram dados!
Saudades,
Ecéa

domingo, 8 de agosto de 2010

Ao seu Campelo, onde estiver

Nosso pai, o Campelo como o chamavam seus colegas de repartição, gostava de música e muitas vezes o ouviamos cantando no chuveiro, seu palco preferido. Em geral, músicas de Lamartine Babo, Herivelto Martins, Nelson Gonçalves, Orlando Silva e outros da sua época. Mas também apreciava a nova geração, e isso às vezes nos surpreendia, pois sempre pensamos que ele fosse velho (embora tenha partido com apenas 56 anos). É o caso da "Moro onde não mora ninguém", do esquecido Agepê, cujos versos ele cantarolava quando estava feliz da vida.

Bom Dia dos Pais aí na Eternidade, seu Campelo - que nesta terça-feira, dia 10/8, faria 90 anos!

sábado, 7 de agosto de 2010

"Ninguém vai destruir minha relação com a sociedade"

Entrevista de Lula à revista IstoÉ

Carlos José Marques, Delmo Moreira, Mário Simas Filho e Octávio Costa


Antes de iniciar a conversa com ISTOÉ, o presidente Lula mostrou que estava disposto a dar uma entrevista reveladora. “Vamos combinar o seguinte: podem fazer qualquer pergunta, por mais inconveniente que pareça”, disse ele ao ocupar a cabeceira da comprida mesa de reuniões no seu gabinete improvisado no Centro Cultural Banco do Brasil. “Vamos adotar o seguinte: é probido proibir”, afirmou.

E assim foi. Animado, coloquial e bem-humorado, Lula falou por quase duas horas com a equipe de ISTOÉ, sem recusar nenhum tema proposto. Em dois momentos mostrou um especial estado de espírito. Primeiro um largo sorriso quando recebeu de um assessor, durante a entrevista, os dados da última pesquisa Sensus/Ibope que dava 10% de vantagem à sua candidata Dilma Rousseff sobre o oposicionista José Serra. Pouco depois, o presidente ficaria com o olhos marejados quando falava dos principais legados que julga deixar para o País: “Hoje os pobres sabem que podem chegar lá.”


ISTOÉ – O sr. deixa o Planalto como o presidente mais popular da história do País. Como pensa em administrar esse patrimônio depois de sair do governo?

Luiz Inácio Lula da Silva – O meu medo é tomar uma atitude precipitada sobre o que eu vou fazer. Montar alguma coisa e depois de seis meses descobrir que não era aquilo. Então, eu acho que alguém que deixa o mandato, como vou deixar, numa situação graças a Deus muito confortável, tem que dar um tempo de maturação. Preciso de um tempo, quem sabe quatro, cinco, seis meses. Tem que deixar a Dilma construir um governo que seja a cara dela, do jeito dela, e eu ficarei no meu canto, curtindo o fato de ser um ex-presidente da República.

ISTOÉ – Isso é possível, presidente?

Lula – O Felipe González (ex-primeiro-ministro da Espanha) contou-me uma história que eu faço questão de repetir. Ex-presidente é que nem aquele vaso chinês que você ganha de presente. Você não sabe onde colocar o ex-presidente. Ele passa a ser incômodo se não se tocar que é um ex-presidente. Essa é a parte mais séria da história. Quero dar um tempo maior. O que eu pretendo fazer? O acúmulo de acertos nas políticas sociais que nós tivemos no Brasil precisa ser socializado. Eu quero socializar essas políticas com os países da América do Sul, do Caribe, com os países africanos. Eu já tenho muitos convites de países africanos para ir lá e mostrar a ideia e o que nós fizemos. Mas é para ir lá com tempo, para ir a campo.

ISTOÉ – O sr. fará as caravanas internacionais, então?

Lula – Eu não sei se serão as caravanas como as que eu fazia aqui no Brasil. Mas pretendo construir uma equipe de companheiros que acumularam oito anos de experiência no governo e 30 anos de experiência enquanto oposição, para que a gente tente colocar em prática, junto aos governantes dos países mais pobres, as condições de eles terem uma política de desenvolvimento social.

ISTOÉ – É preciso ter um cargo para isso, como o de presidente do Banco Mundial?

Lula – Não. É só a vontade política.

ISTOÉ – Mas vários governantes falam de seu nome para ocupar um organismo internacional multilateral. O que o sr. acha disso?

Lula – Tenho companheiros que falam, olha Lula você vai para a ONU. Eu tenho uma ideia diferente. Acho que a ONU é uma instituição que tem que ser dirigida por um burocrata, que tenha a consciência de que ela é subordinada aos presidentes dos países. Porque se você coloca alguém lá, que, por coincidência, tenha mais força que alguns presidentes, haverá, no mínimo, uma anomalia. Você fica com uma instituição criada para servir os países com gente mandando mais. Imagine se a moda pega e os ex-presidentes americanos resolvem ser secretário-geral da ONU.

ISTOÉ – Mas o sr. recusaria um convite nessa direção?

Lula – Eu recusaria. Recusaria essa coisa de Banco Mundial. Eu tenho consciência do seguinte: tenho 64 anos e quando deixar a Presidência vou ter 65 anos, logo ainda tenho uma contribuição política para dar ao País. Eu sonho com a construção de uma frente ampla no Brasil. Juntar as forças políticas aqui, construir um programa comum, fazer a reforma partidária, que acho que é uma condição sine qua non para a gente poder mudar em definitivo o Brasil. Temos que fazer a reforma partidária. Isso não é coisa de presidente da República. Isso é coisa dos partidos políticos. E eu, de fora, pretendo ajudar o meu partido a organizar os outros partidos em torno da ideia da reforma política.

ISTOÉ – O projeto de um instituto para irradiar essas ideias também está em curso?

Lula – Também está em conta. Mas agora estou com a minha cabeça voltada para o seguinte: tenho mais cinco meses de governo. Tem muita coisa para acontecer, e sabe do que eu tenho medo? Eu sou muito amante do futebol e o que eu jamais faria como técnico é marcar um gol, correr para a retranca e ficar esperando o adversário vir para cima de mim. Então, tenho muito trabalho pela frente. Quero trabalhar até o dia 31 de dezembro. Tenho agenda até o dia 29 de dezembro, tenho agenda no dia 28 de dezembro, eu quero ter agenda até o último dia de trabalho. No dia que eu entregar a faixa para quem for eleito presidente da República, aí sim...


ISTOÉ – Presidente, pelas pesquisas atuais, há uma grande chance de o sr. entregar a faixa para a ex-ministra Dilma Rousseff. A que o sr. atribui o êxito de Dilma? Foi graças ao empenho do sr.? É o perfil dela?

Lula – Acho que há um conjunto de valores. Primeiro, é preciso ter muita humildade para pedir para o povo votar na Dilma. Um voto é um direito livre e soberano de cada cidadão, mas, como eu passei por aqui oito anos e sei como funciona isso, sinto-me na obrigação de dizer ao povo quem eu entendo que poderia dar continuidade àquilo que nós estamos fazendo. Esta é a primeira coisa com que nós temos que ter todo o cuidado. A segunda coisa é a seguinte: um governo que tem 76% de bom e ótimo nos últimos cinco meses de mandato, um presidente da República que tem 86% de bom e ótimo e se colocar regular vai a 98%, 97% em alguns Estados, é um governo com forte possibilidade de fazer a sucessão. Tem uma aliança política muito forte. Tem muitos candidatos a governador apoiando a ministra Dilma. Ela está muito bem preparada, não tem hoje no Brasil ninguém mais preparado do que a Dilma, do ponto de vista de ter o Brasil na cabeça.


ISTOÉ – Mas o sr. construiu sua candidata do zero, não é, presidente?

Lula – É por isso que nós preparamos o PAC 2. Porque eu poderia deixar para ela preparar em janeiro. Mas o que eu quis na verdade foi, primeiro, definir as obras prioritárias para o Brasil com os governadores e os prefeitos, colocar dinheiro tanto no orçamento quanto na LDO. Então quem começar a governar não vai ter que encher a bola. A bola vai estar cheia e o cara vai começar jogando. Eu acho que a Dilma está extremamente preparada e madura politicamente. Acho que a vantagem da Dilma é que ela não tinha pretensão. Acho que jamais passou pela cabeça da Dilma que ela seria escolhida candidata a presidente da República


ISTOÉ – E na cabeça do sr. qual foi o primeiro momento?

Lula – O primeiro momento que me veio na cabeça foi quando eu, na Favela da Rocinha, no Rio, disse que ela era a mãe do PAC. Ali, na verdade, eu estava começando a preparar.

ISTOÉ – O sr. chegou já chegou lá com a ideia de fazer essa declaração?

Lula – Foi na hora, em função do clima, que eu falei. E foi importante naquele momento.


ISTOÉ – Muita gente pensava que sua candidata seria a Marina Silva, que, pelo histórico, era considerada o Lula de saias. Por que a Marina Silva não foi a sua escolha?

Lula – Quando a gente vai escolher alguém para ser presidente da República, essa pessoa tem que ter um acúmulo de qualidades, e não apenas um pouco de qualidades. A Marina é minha companheira de 30 anos. Vocês jamais ouvirão da minha boca uma palavra ou uma vírgula que possa falar mal da Marina. Um ano antes de deixar o governo, a Marina pediu demissão. Eu não aceitei a demissão dela por conta da Dilma Rousseff. A Dilma e o Gilberto Carvalho me pediram para convencê-la a ficar. Ela ficou mais um ano, até que quis sair. Até hoje não me explicou por que saiu do PT e eu não fui tomar satisfação do motivo por que ela saiu.


ISTOÉ – Antes da Dilma, o sr. chegou a pensar em outros nomes? No seu primeiro mandato havia Palocci, José Dirceu...

Lula – Obviamente, se não tivesse acontecido com o PT o que aconteceu em 2005, o quadro político poderia ser outro. Mas a Dilma, então, veio para a Casa Civil. E eu já contei que a Dilma foi escolhida ministra de Minas e Energia por conta de uma reunião que eu estava fazendo em São Paulo, preparando 2002. Quando ela chegou, depois de uma hora de reunião, eu falei: é a minha ministra. Tanto é que o Zé Dirceu já tinha feito acordo com o PMDB para ter o Ministério de Minas e Energia e eu disse: “Desfaça tudo porque eu já tenho a ministra.” E ela foi de uma competência exuberante na construção do marco regulatório do modelo de energia elétrica do Brasil. Quando ela veio para a Casa Civil começamos a trabalhar juntos, a nos reunir cotidianamente, a discutir as reuniões. Aí eu percebi que estava diante de um animal político não trabalhado. De um animal político que foi educado a vida inteira para ser técnica. E eu comecei a falar: bom, agora nós temos que descobrir o lado político de Dilma.


ISTOÉ – E como o sr. fez?

Lula – Fui colocando a Dilma em várias reuniões das quais, teoricamente, ela não precisaria participar. Comecei a levá-la para viajar comigo para que começasse a ver o mundo de uma concepção mais política. Eu acho que hoje ela é uma figura extraordinariamente preparada. Lógico que na política você está sempre se preparando. Às vezes, as pessoas ficam comparando a Dilma comigo. Mas não é possível, porque eu venho de um mundo diferente. Comecei diferente. E tenho um acúmulo diferente.


ISTOÉ – Mas a geração é a mesma...

Lula – É a mesma, mas traçamos caminhos diferentes. Eu acho que o que é importante é que ela é hoje uma mulher sem ressentimentos, sem mágoa. Eu conto sempre o dia em que eu desci com Dilma de helicóptero no Quartel do 2º Exército em São Paulo. Quando o helicóptero parou, ela ficou olhando, olhando e disse: “Foi aqui que eu fui trazida quando fui presa.” E depois me disse: “Engraçado, não estou ressentida.” Descemos lá, fomos tomar café, cumprimentamos todo mundo. Eu achei isso um gesto de superação, o que é importante para alguém governar esse país. Quando chega ao cargo de presidente da República, ninguém tem o direito de ter mágoa, rancor, ressentimento, de dizer eu não gosto de fulano. Não tem esse direito.


ISTOÉ – Um dos ministros mais importantes para o sr. foi o Palocci, que agora está na campanha de Dilma. Como o sr. vê o papel dele num eventual futuro governo Dilma?

Lula – Esse é um problema do futuro governo. Mas eu vou dizer o que penso do Palocci. Acho que no Brasil nós temos, se é que temos, raríssimas pessoas com a inteligência política do Palocci. Digo sempre que eu credito uma parte do sucesso do meu governo aos primeiros dois anos, quando nós tivemos que comer carvão em vez de filé mignon. Quando tivemos que trocar todo o capital político que eu tinha por uma política fiscal dura. Assim, a gente pôde chegar aonde chegou. Possivelmente, se não fosse o Palocci, nós não teríamos feito isso. Talvez pela qualidade de médico, de não sentir a dor que sente o paciente, ele manejava a economia com uma maestria que possivelmente um economista não manejasse. Eu devo muito do sucesso do meu governo ao Palocci. Ele é um animal político que certamente dará contribuições enormes a esse país. Ele é muito jovem e acho que ainda tem muita contribuição para dar.


ISTOÉ – A Dilma não era uma escolha clara do PT, mas o sr. fez valer sua vontade. O sr. acha que ficou maior do que o PT?

Lula – É humanamente impossível fazer qualquer teste de DNA no PT e não me encontrar lá dentro. Da mesma forma é muito difícil fazer um DNA em mim e não encontrar o PT aqui dentro. O fato de eu ter sido presidente me transformou numa figura infinitamente mais projetada do que o PT. Mas isso não significa que eu seja maior do que o PT. É um partido muito organizado no Brasil inteiro, que tem muita força. Agora, acho que nós temos condições de construir uma coisa mais forte. Eu tenho dito a alguns companheiros que não é uma tarefa fácil, mas eu gostaria de criar, dentro de um processo de reforma política, uma frente ampla de partidos que pudesse construir um programa para o Brasil, mais forte do que um partido. Pode ter gente de todos os partidos, pode ter a maioria dos partidos.


ISTOÉ – Isto seria o fim do PT?

Lula – Não. É uma espécie de seleção brasileira. O Corinthians não deixa de ser Corinthians porque o Mano Menezes convocou o Jucilei. E nenhum time deixa de ser porque teve craques convocados. É uma coisa maior para construir um arco de alianças maior.


ISTOÉ – Esse grupo poderia ter o PSDB?

Lula – Eu acho que acabou o tempo da ilusão em que a gente poderia trabalhar junto com o PSDB. Eu acreditei nisso. E muita gente do PT acreditou nisso.

ISTOÉ – O sr. acha que o PSDB foi para a direita?

Lula – Acho que eles escolheram outro projeto. Vocês estão lembrados que, logo que o Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência, ele juntou gente que na época se comportava como de esquerda, como o PPS. Aquelas pessoas achavam que iriam ter uma participação no governo. Qual foi o problema? Foi a reeleição, que conduziu para uma relação promíscua com o Congresso Nacional e a coisa desandou um pouco. Essas coisas são muito fáceis de falar, mas é muito difícil fazer, porque para construir uma frente ampla é preciso construir uma direção partidária, que as pessoas respeitem, que vejam nela uma liderança. De qualquer forma, como vou ter tempo, essa questão política vai voltar com muita força na minha cabeça. Acho que nós temos que fazer um reforma para moralizar a política no Brasil, fortalecer os partidos políticos, para moralizar a fidelidade partidária, para parar com esse negócio de judicializar a política como ela está judicializada. Isso se faz com o debate político. E eu quero estar vivo no debate político.


ISTOÉ – Como sua imagem, que nem os adversários atacam nesta campanha, pode ser usada sem ofuscar a candidata? Qual é a dosagem certa?

Lula – Fico feliz em saber que ninguém quer fazer campanha falando mal de mim. É uma coisa boa, é agradável. Mas eu tenho um lado, um partido e um candidato. E isso eu faço questão de deixar público durante o processo eleitoral. Uma coisa a gente tem que compreender: eu cito muito futebol porque futebol é a coisa mais fácil do povo entender. Não existe a possibilidade de o Lula ofuscar a grandeza da candidata, porque vai chegando o momento em que o clima na sociedade, na imprensa, no debate, é da candidata, não é do presidente. A sociedade vai percebendo isso. É muito melhor para a candidata se ela tiver um presidente que ela não tenha que ter vergonha de dizer que é apoiada por ele, como o Al Gore fez com o Bill Clinton.



ISTOÉ – O PT não terá mais influência num governo de Dilma do que teve no seu?

Lula – Quem fala isso não conhece a Dilma. Ela é uma mulher de personalidade muito forte. O PT está na direção da campanha da Dilma, como estava na direção da minha.



ISTOÉ – Mesmo o relacionamento do sr. com o PT foi mudando...

Lula – A minha relação com o PT era diferente porque eu fui o criador do PT. Fui 13 anos presidente do PT. A minha relação com o partido sempre foi diferente da relação da Dilma, que é uma filiada. A direção do PT hoje está totalmente afinada com a candidata e a candidata totalmente afinada com a direção.



ISTOÉ – E aquele episódio do programa de governo diferente, apresentado pelo PT?

Lula – Vocês não podem errar e confundir uma tese com o programa. Quando se constrói um programa suprapartidário, cada partido constrói uma palavra, uma vírgula. Enquanto não há operação definitiva que diga “está pronto o programa”, não é programa, é pré-programa. E no pré-programa entra qualquer coisa. O programa não é do PT nem pode ser. O programa tem que ser uma síntese do pensamento dos partidos que compõem a base de apoio da ministra Dilma. É com isso que ela vai governar o País. E ela e o partido têm clareza disso.



ISTOÉ – O sr. acha que ela conseguirá ter ascendência política sobre o partido?

Lula – Vai ter. Deus queira que ela não tenha muita ascendência, porque não é importante que a candidata passe a ser muito mais forte, porque pode querer desrespeitar o partido. Eu quero que ela passe a ter uma relação com o partido de liderança, de respeito, que não tenham medo dela. Eu quero que os dois se respeitem. Se os dois se respeitarem, eles vão divergir, vão brigar, mas vão construir o melhor.



ISTOÉ – Como o sr. vê a relação com o PMDB, tradicionalmente fisiológico, que exige ministérios e muitos cargos no governo?

Lula – Eu não acho que seja assim. Nós temos que levar em conta que o PMDB é um partido forte. E que continuará sendo. É um partido que tem muitos vereadores, muitos prefeitos, muitos deputados, muitos senadores. Sempre, qualquer que seja o governo, de ultraesquerda ou de ultradireita, será preciso trabalhar com o PMDB. Quando nós fizemos a Constituição de 1988, esse foi um equívoco. Nós construímos uma carta parlamentarista. Fizemos um plebiscito e o parlamentarismo tomou uma trolha de 80%. Só para vocês saberem, a direção do PT, da qual eu fazia parte, era parlamentarista. Mas eu ia para o debate e o pessoal falava assim para mim: “Ô Lula! Você é tonto, rapaz! Agora que está chegando a hora de a gente chegar ao poder você quer transferir poder para o Congresso te eleger? Não vão te eleger nunca.” Nós perdemos internamente no PT. A direção tomou uma surra. Acho que mais de 70% ficaram contra a direção.



ISTOÉ – O sr. continua parlamentarista?

Lula – Eu acho que tudo está ligado à evolução cultural da sociedade. O parlamentarismo não dará certo, como não dará certo uma cooperativa, se você criá-lo de cima para baixo. Eu, por exemplo, trabalhava com a ideia de que era favorável ao voto distrital. Como eu imaginei organizar o PT por núcleos, em cada rua, em cada vila, pensava numa organização tão forte que não haveria dinheiro no mundo capaz de ganhar uma eleição de você. Eu sonhava isso. Você teria como candidatos as grande personalidades e as lideranças sociais. Mas muita gente no PT não acreditava nisso. Defendiam que tem que se pedir voto para todo mundo. Mas essa história favorece quem? Quem tem dinheiro. Eu conheci deputado que pegava helicóptero e viajava para o interior para passar a tarde carregando gente. Parava em campo de futebol, colocava o sujeito dentro do helicóptero e dava uma volta. Ganhava o voto do tadinho que nunca andou de helicóptero. Mas também esse processo de mudança não pode ser um estupro. Ter a maioria e empurrar na garganta da minoria, não. O problema é que não há muito debate.


ISTOÉ – O sr. espera que sua ideia de frente ampla mude o modo de fazer política no País?

Lula – Eu quero ter esse papel aqui dentro. Também tenho discutido muito em nível internacional. Muita gente já conversou comigo para que eu tivesse um papel na Internacional Socialista. Mas acho que a Internacional Socialista tem a cara da Europa, não tem a cara da América Latina. Eu seria um estranho no ninho. Mas eu quero também contribuir para que a gente discuta um pouco uma organização política aqui na América Latina.


ISTOÉ – Nos mesmos termos?

Lula – Eu não sei ainda. Mudou a cara política da América Latina, mas os partidos continuam os mesmos. As forças são as mesmas. A gente não evoluiu na organização internacional. O que é o partido do Chávez? Ou os partidos políticos na Argentina? Lá tem um monte de partidos políticos, mas todos são peronistas. O Uruguai tem o partido mais organizadinho, com a Frente Ampla. No Paraguai, o presidente foi eleito por fora dos dois maiores partidos. É juntar essa coisa toda e começar a elaborar possivelmente uma nova doutrina da criação de uma instituição política que pense em uniformizar determinados princípios na América Latina. Sem o dogmatismo do manifesto, que não venha com aquele negócio da terceira, quarta internacional, não quero mais saber disso.



ISTOÉ – Há um temor no meio empresarial de um futuro governo da Dilma ser mais estatizante que o seu.

Lula – Não há essa hipótese. Eu conheço bem a Dilma e sei o que ela pensa. Obviamente que nós não queremos ser estatizantes, mas também não vamos carregar a pecha que nos imputaram nos anos 80, quando se dizia que o Estado não valia nada e que o mercado era o Deus todo-poderoso. Essa crise americana mostrou que o mercado é frágil, é corrupto e que quem tinha o Estado mais forte salvou-se primeiro. No caso do Brasil, se não tivéssemos o Banco do Brasil, como é que a gente iria comprar a carteira de financiamento de carro usado do Votorantim? Eu cheguei para o Banco do Brasil e para o companheiro Guido Mantega (ministro da Fazenda) e disse: “Companheiros, nós não podemos deixar quebrar as finanças de carro usado, porque se não vender carro usado não tem compra de carro novo.” Eu perguntei para o Dida (presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine): “Como o Banco do Brasil está? Pode financiar carro usado?” “Ah! Nós não temos expertise, presidente.” Eu perguntei, o que a gente faz então? “A gente tem que formar.” Que formar, o quê! Não temos tempo de formar, a crise está aqui, batendo à porta. Vamos comprar de quem tem. O Votorantim tem, quer vender? Então compramos 50% da expertise do Votorantim. Acabou o problema. O Serra queria vender a Caixa Econômica Estadual. Começaram a falar para mim: “Você não pode comprar, porque o Serra é candidato, é adversário, o Serra vai juntar muito dinheiro para a campanha.” Eu disse: vocês são doidos! Acham que, por causa da campanha do Serra, vou deixar de comprar um banco que permitirá que o Banco do Brasil volte a ser o maior do País? Quem vai fiscalizar o dinheiro do Serra é a Justiça Eleitoral, não serei eu. Nós vamos comprar. E compramos.



ISTOÉ – O sr. considera que estes foram dois grandes momentos no enfrentamento da crise?

Lula – Quando a gente chega aqui é menos teoria e mais prática. Quando a gente está na oposição, está discutindo. Você fica numa mesa de bar conversando e diz: eu penso isso, eu penso aquilo. Quando senta naquela cadeira de presidente, você não acha, você não pensa, você não acredita. Você faz ou não faz. E tem que tomar decisão na hora. Não tem que se preocupar com a repercussão. Eu, de vez em quando, adoto uma máxima do Chico Buarque: tem que ouvir o ministério do que vai dar merda. Aprendi antes de tomar a decisão a chamar outras pessoas para perguntar: isso aqui vai dar merda ou não? Governar é uma coisa engraçada. Uma vez o Gilberto Gil propôs a criação da Ancinave. Era uma proposta. De repente a gente estava tomando porrada de todos os lados. Eu reuni numa mesa todos os ministros envolvidos naquilo: Justiça, Fazenda, Indústria e Comércio, Cultura, Secom e mais uns três ou quatro. Disse que nós estávamos apanhando muito na imprensa e que eu precisava saber se todos nós estávamos de acordo com a proposta na mesa. Foi fantástico. Nenhum ministro concordava com a proposta. Porque era uma proposta para debate e surgiu como se fosse uma proposta acabada do governo. Então eu falei: “Alguém tem que comunicar à imprensa que está retirada a proposta. Se ninguém defende a proposta, por que vai continuar?” No governo ou você toma a decisão rapidamente ou é engolido rapidamente.



ISTOÉ – O Brasil, apesar dos preconceitos machistas, está pronto para ser presidido por uma mulher?

Lula – O preconceito é uma coisa cultural muito forte no mundo e no Brasil. Mas a ascensão das mulheres nos últimos 20 anos é uma coisa extraordinária. Fui num debate com empresários no Paraná na sexta-feira passada e eu dizia a eles: o que leva um homem a ter preconceito contra um ser humano que o carregou na barriga nove meses? Que o limpou enquanto ele não sabia se limpar? Que o ensinou a comer quando ele não sabia comer? Que formou o seu caráter e que continuou cuidando dele até ele se casar? E só parou quando a sogra começou a se invocar? Qual é a razão que a gente tem para não acreditar num ser que fez a gente? Vamos ser francos: o nosso caráter é o da nossa mãe. A gente pode adorar o pai da gente, mas na hora, que a gente caiu quem estava do nosso lado era nossa mãe. Na hora que a gente tinha dor de barriga quem estava conosco era nossa mãe. Na hora que a gente acordava de noite chorando quem estava do nosso lado era nossa mãe. Quem levantava para trocar nossa fralda de noite era nossa mãe. Quem colocava mamadeira na nossa boca de manhã era nossa mãe. Quem dava o peito para a gente machucar era nossa mãe. Por que nós temos preconceito contra essa figura tão nobre? Eu tenho dito para a Dilma que ela tem que dizer: “Eu não vou governar o Brasil. Eu vou cuidar do povo brasileiro.” Porque a palavra correta é cuidar. E cuidar da parte mais pobre. Tem rico que vem aqui, te pede um bilhão de reais e sai falando mal de você. O pobre te pede dez reais e fica agradecido pelo resto da vida. Então, nós temos que cuidar do povo. Esse país não pode continuar com o povo esquecido. Eu acho que nós vamos vencer o preconceito.


ISTOÉ – Acha que foram superados preconceitos que havia contra o sr.?

Lula – Eu fui vítima de muito preconceito. Nas primeiras eleições que perdi, eu perdi porque o pobre não confiava em mim. E eu não tinha mágoa do pobre por isso. Mas ele me via e dizia: se esse cara é igual a mim, por que eu vou votar nele? Era isso que levava o pobre a desconfiar de mim. Eu precisei perder três eleições, amadureci muito, e a sociedade foi amadurecendo até compreender que poderia votar em mim. Hoje, eu acho que o grande legado que vai ficar da minha passagem pela Presidência são os pobres desse país estarem acreditando que eles podem chegar lá. É isso que eu quero fazer com a mulher. A mulher não é apenas a maioria numérica. Em muitas funções, a mulher é igual ou mais competente do que os homens. Todos vocês são casados e suas mulheres são mais corajosas do que vocês. E a minha também. As nossas mulheres têm coragem de fazer brigas que nós não fazemos. Às vezes, o vizinho enche o saco e nós dizemos que vamos conversar. E a mulher diz: “Não tem essa não.” Ela abre a porta e vai lá. Eu acho isso uma coisa estupenda. A coragem da Marisa para tomar decisão é infinitamente maior do que a minha. Com ela, eu tenho que contemporizar. Não, não vamos brigar agora. E ela diz que tem que resolver já, não tem meio-termo. E eu acho que toda mulher é assim.


ISTOÉ – Como o sr. vê José Serra como adversário de Dilma?

Lula – Para mim, essa é uma eleição engraçada. Três candidatos de oposição foram do meu partido: Marina Silva, do PV, José Maria, do PSTU e Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL. E o Serra é uma pessoa com quem eu tenho uma relação de respeito muito antiga. Quando vejo eles debatendo, não tenho nenhum inimigo. Tenho alguns adversários disputando com a minha candidata. E eu acho que o Serra deu azar. Deu azar de disputar comigo quando eu não podia perder. Digo do fundo da alma, eu nunca tive a menor preocupação de que não ganharia aquela eleição de 2002. Eu estava convencido de que era a minha vez, que tinha chegado a hora. Eu tinha participado da candidatura do (Franco) Montoro e sabia como era isto. Em 1982, não adiantava nada, aquela era a hora do Montoro ser governador. Podia falar o que quisesse. Que ele tinha 20, 80 aposentadorias. Era a hora dele. E foi. Em 2002, eu sabia que era a minha hora. Eu lembro que quando não ganhei no primeiro turno, cheguei no gabinete à noite e havia uns 100 delegados da América Latina, todo mundo lá triste. Estavam lá o Zé Dirceu e o Duda Mendonça na frente da telinha medindo voto, dizendo que ia dar por meio ponto. E eu disse: “Gente, deixa para lá. Tanto faz primeiro ou segundo turno.Vai apenas demorar um pouco mais. E vai ter uma diferença bem maior depois.” E foi uma coisa extraordinária porque o segundo turno permite que você tenha um embate direto. Eu hoje agradeço por todos os santos o segundo turno com o Alckmin, porque eu pude lavar a minha alma. Eu pude aumentar a minha votação em 12 milhões de votos. E ele perdeu três milhões de votos, uma coisa inédita.



ISTOÉ – E qual é exatamente o azar do Serra, presidente?

Lula – Ele foi candidato num ano em que eu não tinha como perder as eleições. E ele agora é candidato num ano em que a Dilma tem todas as condições de ganhar as eleições porque o governo está muito bem e porque as coisas vão melhorar.



ISTOÉ – O sr. acredita em decisão já no primeiro turno?

Lula – Eu acredito no processo eleitoral. Para mim, não importa que seja no primeiro ou no segundo turno. Nós temos é que ganhar as eleições. Temos que trabalhar para ganhar as eleições. E eu acho que é uma eleição que pode terminar no primeiro turno. Mas se for para o segundo turno não existe nenhum problema, nenhum trauma. Nós vamos fazer uma bela campanha.



ISTOÉ – Fala-se muito que há uma grande possibilidade de, em 2014, o presidente eleito agora ter o sr. pela frente. Como está desenhada essa possibilidade?

Lula – Vamos colocar a política no seu devido lugar. Quando você tem um político cretino, ele não quer que o seu aliado ganhe, mas, sim, o adversário para ele voltar quatro anos depois. No meu caso, eu lancei a Dilma candidata porque eu quero que ela ganhe. E porque eu quero que ela faça um governo melhor do que o meu. E que ela tenha direito a ser candidata à reeleição. É um direito legítimo dela. Não tem essa de que a Dilma vai ser candidata para o Lula voltar em 2014. Não existe essa hipótese. Se a Dilma for eleita ela vai fazer um governo extraordinário e vai ser candidata à reeleição. Se o candidato for um adversário, a história muda de figura. Mas, aí, eu preciso estar bem, porque eu já vou estar com 69 anos. E com 69 anos você parece novo, mas não é tão novo, não. Eu, às vezes, acho que na política deveria ser que nem na Igreja Católica, onde o bispo se aposenta com 75 anos.



ISTOÉ – A mais ousada ação do seu governo na política externa nos últimos tempos foi a intermediação da questão atômica com o Irã. O que faltou para o êxito da negociação?

Lula – É o tipo da coisa que somente o tempo vai se encarregar de mostrar o que aconteceu. Eu não tinha nenhuma relação de amizade com o (Mahmoud) Ahmadinejad. Conheci o Ahmadinejad numa reunião da ONU antes da minha ida a Pittsburgh para discutir o G-20. Tive uma conversa com ele. Discutimos duas horas e a primeira coisa que comecei a discutir era a respeito do Holocausto. Se era verdade ou não que ele não acreditava no Holocausto. E ele disse: “Não foi bem isso que eu quis dizer.” Se não foi bem isso que você quis dizer, então, diga. Porque em política todas as vezes que a gente começa a se explicar muito é porque a gente cometeu um erro. Ele disse: “É porque morreram 67 milhões de seres humanos na Segunda Guerra e parece que só morreram os judeus. Os judeus se fazem de vítimas.” Eu falei que se era isso que ele, Ahmadinejad, queria dizer então dissesse. Morreram 67 milhões de pessoas na Segunda Guerra, mas os judeus não morreram em guerra. Eles foram assassinados a sangue-frio, crianças, mulheres, em câmaras de gás, é diferente. Senti que tinha uma possibilidade de conversa. Ele pessoalmente é muito mais afável do que na televisão.


ISTOÉ – Como o sr. encaminhou a questão?

Lula – Eu cheguei na ONU, cheguei em Pittsburgh, tinham dado uma entrevista o Sarkozy (presidente da França, Nicolas Sarkozy), Gordon Brown (então primeiro-ministro britânico) e Barack Obama (presidente dos EUA) criticando Ahmadinejad. Fui no Obama e falei: “Companheiro, você já conversou com o Ahmadinejad alguma vez? Não. Você se dignou a pegar o telefone, ligar para ele e dizer: eu quero conversar com você? Não”. A mesma conversa eu tive com o Sarkozy, com o Gordon Brown e com a Angela Merkel (chanceler alemã). Ora, vocês nunca conversaram com o Ahmadinejad e estão dizendo que ele não quer sentar à mesa para negociar essa questão da paz. Então eu quero dizer para vocês o seguinte: eu acredito que ele quer sentar e eu estou convidando ele para ir ao Brasil, estou convidando o primeiro-ministro de Israel, estou convidando o Shimon Peres, estou convidando o presidente da Síria para ir ao Brasil. Separadamente, cada um na sua data. Ahmadinejad veio aqui. Nós conversamos mais de duas horas. Eu disse que, se fosse possível a gente avançar, eu mandaria o Celso Amorim ir muitas vezes lá. Como a Turquia também estava tentando, então o Celso Amorim e o ministro das Relações Exteriores da Turquia começaram a conversar com o primeiro-ministro do Irã, preparando a nossa ida lá. Em Copenhague, quase que eu consigo marcar um jantar entre Sarkozy e Ahmadinejad. Mas, como a rainha da Dinamarca não convidou o Ahmadinejad para o jantar, não deu. Chegou o dia de eu ir ao Irã e eu falei para o Celso que era preciso dizer para o Ahmadinejad que eu não poderia fazer uma viagem inútil.


ISTOÉ – O sr. também havia recebido um pedido de Sarkozy para encaminhar ao Ahmadinejad.

Lula – Sarkozy tinha falado conosco da moça que estava presa, se poderia ter um gesto de liberar. Eu conversei com Ahmadinejad e ele se comprometeu a liberar, tanto é que eu cheguei à meia-noite lá e às cinco horas da manhã ele liberou. Duas semanas antes de eu viajar, recebo uma carta do Obama. E a carta do Obama tinha um viés. Primeiro tratando de uma forma carinhosa, se desculpando da grosseria dele quando nós fomos discutir o assunto nuclear lá. Ele achou que eu e a Turquia estávamos sonhando, acreditando no Ahmadinejad, que ele iria enganar a gente, não iria cumprir nada. Eu disse o seguinte: “Eu nasci político, meu filho. Toda a minha vida, desde 1969, foi negociar. Perdi muita coisa, ganhei muita coisa, mas negociar é a arte maior de fazer política. Então eu vou lá porque eu acredito.” Tanto é que quando eu cheguei na Rússia, na viagem para o Irã, Dmitri Medvedev (presidente russo) me disse: “Obama me ligou dizendo que ele acha que você vai ser enganado pelo Ahmadinejad.” Um jornalista perguntou: “Escuta aqui, de zero a seis, qual é o grau de otimismo que você tem para fazer a negociação?” O Medvedev falou 30%. Eu disse: Porra! Que otimismo pessimista! Eu falei 99,9%. Cheguei ao Qatar, o Obama tinha ligado para o emir dizendo que vão enganar o Lula. Cheguei ao Irã, conversamos, conversamos, conversamos. Fui conversar com o líder supremo, Khamenei. Duas horas de conversa. Depois fui conversar com o Ali Larijani (presidente do Parlamento) e com todos falei da importância, que eles não poderiam arriscar o bloqueio.


ISTOÉ – Por que, presidente?

Lula – Porque o bloqueio começa sem dor, mas daqui a pouco começa a faltar remédio, começa a faltar comida. E quem paga o preço são as crianças. Contei que Cuba viveu 50 anos, que a Líbia viveu 13 anos com bloqueio. Eu conversei tudo o que poderia conversar com eles. O Celso Amorim teve um papel extraordinário com os ministros. Chegou no outro dia às 9h da noite e nós fomos jantar. O Celso não estava no jantar e estava o ministro deles. Azedou, pensei. Esse aqui (o ministro Franklin Martins) estava muito pessimista. Na hora que eu saí do hotel, ele falou: “não vai dar nada”. E eu: “Calma, rapaz, tem que ter fé. A fé que move montanhas.” Eu cheguei lá, estava o ministro deles, mas não estava o Celso. Pensei que tinha azedado mesmo. Então disse para o Ahmadinejad: amanhã eu vou embora, sabe que para eu vir aqui eu larguei a minha mulher e os meus filhos, tenho tarefa pra caramba no Brasil. Vim aqui porque eu quero para você o que eu quero para mim. Eu quero que o Irã desenvolva o enriquecimento de urânio para fins pacíficos, para produzir coisas para a indústria farmacêutica, para produzir coisas para a energia nuclear e no meu país isso está na Constituição. E eu não quero que, por equívoco, o mundo rico, que tem bomba nuclear, te impeça de fazer isso. Então, na verdade eu vim aqui para dar as minhas costas para repartir as chibatadas que você está tomando e não gostaria de ir embora sem assinar esse acordo. Se eu for embora sem assinar esse acordo, eu vou ter que começar a fazer discurso dizendo que você não quer negociar mesmo.


ISTOÉ – Depois disso ele resolveu assinar?

Lula – Ele disse: Vamos conversar amanhã de manhã? O ministro dele estava comigo e ia encontrar o Celso ainda. O ministro dele disse assim para mim: “Presidente, falta só um ponto, eu vou encontrar com o Celso agora.” Quando foi meia-noite, eu cheguei ao hotel e o Celso me liga: “Presidente, fechamos.” Nós fomos para acertar o acordo. Tinha físico para dar palpite, como vocês nem imaginam. Os caras não queriam assumir compromisso com data. Eu disse que sem data nós não concordávamos. Eu falei: “Ahmadinejad, vocês sabem o que falam de você. Lá fora na Europa, nos Estados Unidos, falam que você não cumpre palavra, você sabe disso. Por isso é importante colocar a data dizendo que tal dia você vai mandar tal coisa”. Ele topou. Qual foi a minha surpresa, companheiros? É que o pessoal que estava há não sei quantos anos tentando conversar com o Ahmadinejad e nunca conversou, porque nunca tentou, ficou com ciúmes. Por isso a reação. Na minha opinião, essa é a única explicação para a ciumeira do Conselho de Segurança da ONU. Nós ainda mandamos para o grupo de Viena, com Rússia, Estados Unidos e França, a carta no domingo, e ainda assim eles tentaram barrar. Eu acho que a história vai mostrar o equívoco dos companheiros que resolveram trocar as conversas pelas sanções, porque demonstraram apenas ciúmes. Em minha opinião, uma atitude pequena. O problema é o seguinte: se a ONU continuar fraca do jeito que está, vai prevalecer o unilateralismo, a posição unilateral dos americanos vai continuar prevalecendo. Quando nós propusemos fortalecer a ONU, não queríamos só a entrada do Brasil. Mas a entrada do Brasil, da Índia, da Alemanha, de dois ou três países africanos.



ISTOÉ – Mas uma luta histórica do Brasil é pelo assento definitivo no Conselho de Segurança da ONU.

Lula – É para que tenha mais representatividade. Imagine o continente africano com 53 países que não tem ninguém. E quantos têm os europeus? E agora tem mais a Alemanha, convidada especial. O Conselho de Segurança da ONU não pode ser um clube de amigos, não pode ser tratado assim. Aquilo tem que ser uma instituição multilateral para resolver problema de conflitos. Em minha opinião, no Oriente Médio não haverá solução enquanto os americanos acharem que são eles os responsáveis pela construção da paz. Se a ONU fosse forte, resolveria o problema do Oriente Médio. Iria lá, demarcaria a terra dos palestinos, demarcaria a terra de Israel e faria cumprir, como fez em 1948, quando criou o Estado de Israel. Como ela é fraca, fica só lá, um dia vai um e ganha o Prêmio Nobel, outro dia vai outro e ganha o Prêmio Nobel, não faz nada, outro dia vai outro e outro prêmio. Então, eu acho que é uma estupidez política não reformar o Conselho de Segurança da ONU.



ISTOÉ – Nesses oito anos, o sr. se arrepende de algo que não fez?

Lula – Talvez nesses cinco meses de reflexão que eu pedi para vocês, vá surgir muita coisa. Eu fiz uma proposta de política tributária que todo mundo dizia que precisava. Fiz uma em consenso com os governadores, com todos os empresários, com todos os dirigentes sindicais, com todos os lideres partidários e ela não foi aprovada. Mandei para o Congresso Nacional e não foi votada. Então tem um desgraçado de um inimigo oculto que está trancado em algum armário e não permite que se vote a reforma tributária.



ISTOÉ – Com qual legado o sr. quer ser lembrado daqui para a frente?

Lula – O mais importante é a relação que eu estabeleci com a sociedade. No meu governo, eu fiz 72 conferências nacionais, de tudo o que você possa imaginar. Todas as políticas públicas que nós colocamos em prática são resultado de milhares de pessoas participando nos municípios, nos Estados, até chegar aqui. Esse é o legado que nós vamos deixar, que nenhum presidente vai ter coragem de mudar. Há muitas coisas que me emocionam (fala com os olhos marejados). Foi um processo educativo. De a gente teimar que era possível provar o seguinte: o Palácio de um governo não é apenas para receber príncipe, rainha ou presidente. É para receber do pé descalço ao cara que está de sapato alto. Essa foi a coisa rica do governo. Os sem-teto entrando lá dentro e chorando. Os cegos também entraram. Aprovamos aposentadoria para hansenianos que ficaram mais de 30 anos em colônias. Beijei cada um, porque nunca um presidente havia encostado neles, possivelmente de nojo. Eu acho que esse é o legado. Todos os anos, eu me reuni com reitores, com prefeitos. Não houve segmento da sociedade que ficou de fora: foi do empresário mais rico ao cidadão mais pobre. Eu acho que esse é o grande legado que espero que seja um grande aprendizado para o nosso país. Deus queira que o Brasil continue andando desse jeito. Se continuar assim por mais seis, sete anos, nós seremos a quarta economia do mundo. O povo vai estar comendo mais e consumindo mais. Eu adoro quando vejo os jornais dizerem, às vezes em letrinhas pequenas lá embaixo no rodapé, que os pobres estão comendo mais e que o consumo aumentou, que a classe D está comprando mais. Eu acho tudo isso fantástico. Mas ainda falta muito para fazer.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O coração brasileiro mora no Rio de Janeiro

Jingle da campanha à reeleição de Sérgio Cabral reúne sambistas da velha guarda e a turma do pagode. Confiram:

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Criança é phoda!

Denúncia Bomba!!! Infâmia!!! Crime contra a Humanidade!!! O PT aparelhou os jardins de infância e está desvirtuando a alma pura de nossas crianças. Vejam a prova robusta - como dizem os advogados - neste vídeo apreendido pela vice-prevaricadora Sandra Curió, a abestada.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Eu jurava que era "trololó petista"

Navegando pela Web, dia desses, sem querer cai num link que me chamou a atenção. E se me contassem eu não acreditaria, diria que era "trololó petista", como reage o candidato José Serra sempre que jornalistas não-reverentes lhe fazem perguntas incômodas. Pois alguém aí acreditaria que o candidato José Serra tentou vender espaços publicitários nos uniformes dos estudantes pobres de São Paulo? Já imaginou o garoto, a garota indo pra aula feito um desses homens-sanduiche que a gente vê oferecendo "compro ouro" nas ruas do centro paulistano? Acham que é piada (?), então vejam a notícia da Folha de São Paulo que encontrei nessas navegadas a esmo:

30/08/2005
Serra libera anúncio em uniforme escolar
RENATA BAPTISTA
FABIANE LEITE
da Folha de S.Paulo
O prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB), decidiu permitir que os uniformes escolares da rede pública municipal de ensino tenham propagandas.
Segundo a proposta, em troca da publicidade, as empresas vão bancar a compra das roupas dos 900 mil alunos beneficiados. O kit escolar incluirá agasalho, calça, meias e até roupa íntima, num total de nove peças.
A medida será viabilizada por meio de um acordo com a Abravest (Associação Brasileira do Vestuário), que irá procurar patrocinadores para os kits.
O coordenador da ONG Ação Educativa, Sérgio Haddad, afirmou que considera a idéia uma "invasão do setor privado no espaço público".
"A melhor maneira de as empresas ajudarem é pagando os seus impostos. Ou financiando projetos específicos. Alguém perguntou para as crianças?"
Segundo o secretário da Educação, José Aristodemo Pinotti, alunos, professores e pais não foram consultados formalmente. Pinotti diz ter feito uma pesquisa informal com as crianças em três escolas que visitou recentemente. Recebeu a "aprovação" depois de dizer que, com os R$ 70 milhões que gasta por ano com as roupas, fará mais escolas. "Eu estou favorável desde que isso não agrida as crianças", disse Pinotti.
O promotor da Infância e da Juventude Vidal Serrano disse que o órgão acompanhará a mudança e afirma não haver irregularidade, desde que não haja exagero na propaganda. O Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe que os menores sejam expostos a situações vexatórias.
Serra acredita que não dará tempo para que os uniformes patrocinados sejam entregues no primeiro semestre do próximo ano. Por esse motivo, a aquisição dos uniformes de verão para o início do ano letivo de 2006 ficará ainda por conta da prefeitura. Os novos, com propaganda, seriam distribuídos no segundo semestre, com roupa de inverno.
"Essa campanha da Abravest para arrecadar recursos entre seus associados pode ter sucesso total ou parcial, ou ainda não dar certo", disse Serra.
Já o presidente da Abravest, Roberto Chabad, acha que será possível captar os recursos para doação dos kits escolares já para o início do próximo ano. Segundo ele, os alunos do último ano de moda da FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas) entregarão protótipos de uniformes até a próxima sexta-feira, que serão enviados à prefeitura para seleção.
"Já entramos em contato com bancos, supermercados, Fiesp e redes de telefonia para saber se têm interesse em fazer a propaganda nas roupas", afirmou.
De acordo com Chabad, os locais destinados à propaganda nos uniformes provavelmente serão nas duas mangas da camisa e na coxa da perna direita. "O prefeito viu e achou muito sutil."
De acordo com Pinotti, a prefeitura vetou propagandas de cigarros e bebidas e terá de aprovar todos os patrocinadores.
O presidente do Sinpeem (Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São Paulo), Cláudio Fonseca, disse ser contrário à utilização de propagandas nos uniformes escolares.
"Os alunos não devem ser usados como outdoors." Segundo Fonseca, a economia que a prefeitura vai conseguir com a medida não é justificada. "Existem recursos orçamentários destinados a este fim", disse.