segunda-feira, 7 de abril de 2025

A maravilhosa Flamboyant na voz e interpretação do grande Emílio Santiago


Flamboyant, com Emílio Santiago 

(Compositores: João Batista Maranhão Filho e Paulo César de Oliveira Feital)


Por quantas noites eu me vi desencantar

Enquanto os palcos desabavam sobre mim

O meu amor então beijava o meu olhar

Dizia: "Vamos lá. Levanta e vai cantar"

E eu me vestia e ela ia amamentar

Nosso menino era platéia e camarim

E dos seus seios parecia perguntar:

"Meu pai, o que é que há?

Me beija e vai cantar"

E eu sabia que tinha de ir

Pra amenizar toda a dor da cidade

E eu pousava nos pianos por aí

Tal qual um sabiá pousa num flamboyant

Por quantas vezes eu pedi a Deus de manhã

Deixar eu cantar pro Brasil

Pra ter no portão o leite e o pão

E o rabo do cão que diz não quando é sim

Meu amor já na porta de casa

Tendo ao colo o nosso Arlequim

Me dava a impressão de um samba de Tom Jobim

Até que um dia eu resolvi desencantar

E desabei por sobre os palcos do país

O meu amor ainda beija o meu olhar

E eu digo: "Vamos lá; Cantar; Pra que chorar?"

E eu peço a Deus para poder doar a luz

Que  minha voz cumpra a missão de atenuar

Toda a amargura dessa terra de Jesus

E eu digo: "Vera Cruz, cantar pra não chorar"

E pros que cantam nos seus cabarés

Tenham orgulho dessa profissão

Pousem nos palcos dos pianos, violões

E a voz é um colibri, nas flores das canções

Por quantas vezes eu peço a Deus de manhã:

"Conserva-me a simplicidade"

"Pra ter no portão o leite e o pão"

E o rabo do cão que diz não quando é sim

Meu amor já na porta de casa

E o sorriso do meu Arlequim

É um céu de emoções e eu sou uma luz assim

A brilhar, a brilhar, a brilhar

Meu amor sempre à porta de casa

E o sorriso do meu Arlequim

Sou um samba-canção eterno de Tom Jobim

A cantar, a cantar, a cantar

Meu amor sempre à porta de casa

E o sorriso do meu Arlequim...

domingo, 6 de abril de 2025

Angústia

 



Tristeza, solidão, silêncio, uma angústia filha da puta. Aqui é um oásis em campo de neve. Um útero aquecido artificialmente, que abriga alguns por alguns instantes. Logo todos serão devolvidos à sua angústia silenciosa fora daqui. Se me dão opção, permaneço, não embarco, tomo mais um café, e outro e outro..., na esperança de acordar em casa, a milhares de quilômetros. Olho aquela que serve: donde a alegria que expressa no olhar? Só há tristeza, frio, umidade e solidão aqui em torno...! Lá fora, a lotação é a representação da desesperança. Que se vá sem mim. Me ocorre uma canção: “chove lá fora / e aqui tá tanto frio”. Por um momento queria ser ela, me sentir feliz, seguro, como ela aparenta ser, alheia a esse espaço deprimente. Se eu fosse ela, queria mais era morrer. A canção insiste: me chama, me chama, me chama.

Solidão (1992)

Noite Estrelada, obra de Vincent Van Gogh

Quase zero hora. Fecha o programa em que vinha trabalhando, encerra o login, desliga a máquina. Àquela hora restam poucos gatos pingados na Redação. Se despede com um aceno, sem balbuciar palavra e sai, descendo os três lances de escada que conduzem para fora do prédio. A rua, a essa hora e no meio da semana, costuma estar quase vazia. A noite está quente, boa para se caminhar. E é o que faz. Podia tomar um táxi, um ônibus para voltar à casa. Mas para quê? Caminha pela rua vazia quase roçando o tapume da obra de um grande edifício que está sendo erguido nas imediações. Sente conforto com a sensação de desaparecer, ser absorvido por aquelas paredes, como numa passagem imaginária para outra dimensão qualquer. Pensa na vida. Tem quase 40 anos. A família está em vias de se dissolver, como de fato ocorrerá. Os dias que virão serão uma incógnita e, de certa forma, isso o estimula mais do que o atormenta. Atravessa uma rua um pouco mais movimentada, olha para dentro dos carros, se fixa nos casais – a essa hora não há crianças acompanhando os pais. Se sente nostálgico de uma situação que ainda irá viver, mais sozinho ainda do que está agora. Continua o caminho; até a casa são cerca de 4 quilômetros e meio, um trajeto que deve percorrer em cerca de uma hora. Contorna uma praça, passa por pessoas que aguardam ônibus em um ponto. Evita o olhar das pessoas, receia encontrar alguém conhecido. Essa possibilidade é praticamente nula, mas o desejo de evitar contato persiste como se o risco fosse real e iminente. Toma uma rua em forte aclive, agora numa direção mais definida rumo à casa. Vence os cerca de mil metros até o topo do trajeto, a partir de onde a rua se converte em um longo declive, como que para compensar o gasto de energia do trecho anterior. Tem a atenção voltada para um ambiente iluminado, um bar aberto àquela hora. Estranhamente sente vontade de entrar. Não mais que meia dúzia de notívagos bebem cerveja e assistem algo numa velha TV suspensa. Há muito tempo, desde que a crise se instalou na sua vida, não sente fome. Mesmo assim, para justificar a presença ali, pede um sanduiche e algo para beber. O ambiente lhe é absolutamente estranho e isto propicia um relativo conforto emocional: ninguém ali conhece os problemas que ele vive. Momentaneamente se sente bem; há meses, talvez um ano, não experimentava essa sensação. Os presentes não estranham a presença do estranho, aliás, são praticamente indiferentes a ele – é mais um que prefere a rua à casa, à noite. Cada qual tem seus motivos. Termina o sanduiche e a bebida, paga a despesa e volta ao seu caminho. Ainda faltam uns 2 quilômetros para chegar em casa, já deve ser quase uma hora da manhã, a noite está clara, quente e aquele homem que caminha só consegue por breves minutos desaparecer no mundo. Até chegar em casa, onde todos já dormem e onde adentrará o seu quarto, tomará um banho e se deitará para dormir por algumas horas. Se tiver sorte, não irá sonhar. Amanhã será outro dia, e pode ser que nesse novo dia aconteça algo que traga a vida perdida que ele quer de volta. Mas pressente que não acontecerá. Ele ainda não sabe, mas não faltam muitos amanheceres para o sol voltar a brilhar para ele. Até lá, seguirá só; ele só e seus pensamentos.

terça-feira, 6 de agosto de 2024

Memórias da pandemia da Covid-19

É quase madrugada, aqui no prédio há um silêncio sepulcral. Na rua também não passa um carro, um motoqueiro entregador, nem mesmo daqueles que têm pai e não abrem o escapamento da motocicleta. No apartamento em que vegeto, então, nem os meus passos fazem qualquer ruído. E estou calçando propositalmente uma bota, não é nem sapatênis, que faz a gente flutuar. Não, é uma bota de cano curto, dessas que só uso no inverno, e nem assim ela faz barulho. Parece que faz isso para me irritar, aumentar a minha solidão.

Desde que a última namorada foi embora isso daqui ficou uma quietude enervante. Quando ela vivia aqui eu até dava um jeito de atiçá-la para que soltasse uns berros, um escandalozinho pra quebrar o ar de monotonia do ambiente. Era uma polaca, sabe, e polacos têm gênio miserável de ruim, qualquer coisinha já fecham o tempo. E a minha polaca era explosiva; quando eu conseguia enfezá-la, não só o meu prédio, mas os demais do quarteirão ficavam sabendo que eu era um "vagabundo, que não sabia tratar uma mulher"! Aquilo tinha ritmo, era animado. Usava uns qualificativos massa: "demonho" era o mais usual. Não era dessas que dissimulam o desequilíbrio emocional e por mais que a gente mereça nos saem com coisa do tipo: "não aprovo seus modos".
Ah, vá...

Mas voltando ao que interessa, eu até podia aumentar o volume da TV para agitar as coisas, e até recorri a esse expediente uma noite dessas, mas só serviu pra vizinhança pensar que ocorria uma suruba aqui em casa, tal os aiiiiii, ahnnnn, uiiiii e outros gemidos que essas atrizes de filmes pornô são treinadas pra fazer. Houve queixas à administração do condomínio, recebi multa, não foi bom. De resto, me granjeou olhares de admiração de uns adolescentes e outros da mais indisfarçada lascívia de vizinhas que também moram só. A princípio até achei que iria tirar proveito, mas a mais ajeitadinha caminha com o auxílio de um andador e no último aniversário que comemorou tinha mais velas em cima do bolo do que naqueles cruzeiros de cemitérios.

Mas o meu problema nem é tanto com o barulho, e sim o tédio que o silêncio propicia. Noite dessas, num final de semana, resolvi passar trotes por telefone pra quebrar a monotonia. Peguei uma antiga lista telefônica e comecei a pesquisar. Queria um desses prédios em que há telefone na portaria. Logo encontrei um, num edifício alto na rua do Biarticulado. Escolhi um apartamento aleatório, o 601, de alguém com sobrenome Azevedo. Eram 3h50 da madrugada do sábado, fazia um calor insuportável e chovia moderadamente. Tive que ligar três vezes até que finalmente alguém atendeu. Fiz aquela voz arrastada de bêbado e tasquei:

- Dr. Azevedo? Aqui é o porteiro, me empresta 50 reais pra eu comprar uma cerveja e cigarro, que acabou?

O sujeito ficou possesso: - VOCÊ TÁ BÊBADO, REGINALDO? SABE QUE HORAS SÃO? VOU LIGAR PRA ADMINISTRAÇÃO, VOCÊ VAI SER DEMITIDO!

Insisti: - Quando sair o vale eu pago. Vou subir buscar ...

O sujeito entortou: - NÃO VENHA; VOCÊ VAI SE DEMITIDO!

Bati o telefone. Em seguida liguei pro porteiro, com tom de voz de comando:

- Reginaldo, é o Dr. Azevedo, do 601. Sobe aqui rápido pra me ajudar que quebrou um cano e está alagando tudo.

Antes de desligar, arrematei: - Você tá de calção por baixo? Ante a afirmação, determinei: Venha de calção pra não se ensopar todo. E desliguei.

Meia hora depois, quando ainda imaginava a cena do Reginaldo só de calção apertando a campainha do Dr. Azevedo às 4 horas da manhã, o telefone tocou. Era da Polícia. O tal Azevedo e o Reginaldo são daquele tipinho que não tem senso de humor.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

O embarque da FEB

Fernando Campelo Duarte

Eu havia pertencido à Polícia e lá deixara bons amigos. Moço de 18 anos, saído de Colégio Marista, filho único, dificuldades e tropeços da vida de meu pai, pequeno varejista do comércio do Rio de Janeiro, e uma amizade de família com os Nobre fizeram-me da noite para o dia o investigador 1129 da Delegacia Regional de Segurança Política e Social, na Polícia Civil do mato-grossense Filinto Müller.

Disse que havia pertencido à Polícia, pois dela saíra a pedidos, cinco meses após entrar, para conservar a mamãe viva alguns anos mais, que tanto a desgastava e preocupava ver o filho que com sacrifícios educara, às voltas com as vicissitudes e os perigos sem glória de mero agente da autoridade.

E porque fizera um concurso no DASP e esperava nomeação para ser o burocrata que ainda sou hoje 20 anos depois, saíra eu da Polícia e lá deixara companheiros dos "0 Hora", das "campanas", das diligências perigosas nas madrugadas dos subúrbios cariocas.

Um dia, já Escriturário do Ministério da Educação e Saúde, já em plena guerra que então abalava o mundo, eis que pelos amigos da Polícia fui dos poucos sabedores do embarque da FEB, do 1º primeiro escalão dos que primeiro se foram como Expedicionários para voltarem sofridos mas gloriosos como Pracinhas.

E aí começa a estória, a estória que só hoje posso contar e que tanto tempo me calei, por assim ser preciso. Manhã bem cedo, bem informado de hora e local para lá me dirigi; claro que não era, não sou e espero em Deus que jamais seja espião, mormente contra a Pátria. Apenas movia-me a curiosidade de participar de algo histórico como o embarque de meus irmãos de geração, que os invejava tanto, pois fora recusado por deficiência física para o serviço ativo do Exército.

Fui de bonde até onde ele foi, da Ponte dos Marinheiros até o Santo Cristo, e daí, a pé até o Cais do Porto, onde estava o grande navio americano que levaria a FEB.

Esperava encontrar meus amigos da Polícia e junto deles, no meio deles, participar anônimo da segurança do grandioso embarque. Mas ai de mim, algo imprevisível aconteceu: os homens da Polícia que vedavam o ingresso no cais, na avenida Rodrigues Alves e já a alguns exitantes e curiosos prendiam, eram todos estranhos, todos de má cotadura, gente vinda não sei de onde, talvez da Polícia Especial. E então, para não ser preso por suspeito e tal coisa eu sabia como doía nos idos do Estado Novo, dei de pronto meia volta, sem sequer olhar para trás, que até a imagem bíblica da mulher de Lhot me veio à mente e não queria levar bala nem virar estátua de sal.

Apressei o passo e voltei rápido pela rua de onde viera e de súbito deparei com uma placa branca no portal de uma casa, que logo passou a ser para mim a tábua de salvação. Rezavam os dizeres da placa, se ainda me lembro: Ministério da Educação e Saúde. Departamento Nacional de Saúde - Serviço de Saúde dos Portos.

Ali estava a minha salvação e cumpria aproveitá-la.

Ingressei no casarão velhote, e moço que era, solteiro, bem vestido no S120 que me dava o luxo de ter, perguntei logo ao primeiro que encontrei pelo Chefe, se estava e quem era. Aí esse primeiro chamou um segundo e outros mais vieram e não sei porque cargas d’água, acredito que por nervoso, pois por presunção juro que não foi, ao saber por todos aqueles quem era o Chefe e que não estava, disse-lhes  que era do Gabinete do Ministro e que estava em inspeção.

Foi um corre-corre danado, todo mundo se arrumando, todo mundo trabalhando e o mais graduado solícito, prestimoso me atendendo.

Tive que ver mapas e relatórios, ouvir desculpas e pedidos, queixas e reclamações, a esta altura já tomando cafezinho feito às pressas, com cuidado para o Oficial de Gabinete do ministro Capanema. 

Fiz promessas evasivas de providências que se impunham, fiquei sabendo de tudo sobre a saúde dos Portos, sobre a desrratização dos porões de navios, sobre os perigos da peste bubônica e um milhão de coisas outras.

Lá fora, no Caís, a FEB embarcava e eu suava a cântaros, às voltas com a encrenca em que me metera na ânsia de escapar de uma outra pior.

Afinal todos ouvidos, todos satisfeitos e preocupados com o Chefe que ainda não chegara, após ouvir um pedido especial de promoção feito pelo contínuo, despedi-me dizendo que deixara o carro à distância por causa do embarque da FEB e saí a passos compassados até dobrar a esquina.

Aí quase corri e quando dei por mim estava sentado, de regresso no primeiro banco de bonde que alcançara no Largo de Santo Cristo. Respirei aliviado e prometi a mim mesmo guardar segredo, que só hoje, 20 anos após revelo de nunca ter sido Oficial de Gabinete de Ministro e sim apenas um Escriturário, e do Serviço de Documentação, que era diretamente subordinado ao Gabinete do Ministro.

Curitiba, 12 de agosto de 1964.

Fernando Campelo Duarte

Serviço do Acordo de Classificação do Estado do Paraná

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Promessa a São João Batista

Seo Jaime é funcionário público bonachão, da antiga, e gosta de contar 'causos'. Este é um deles.

Certo dia, lá pelo longínquo ano de 1984, como de costume desde a morte de sua mãe ele saiu em busca de lenha pelo transcurso do Dia de São João, data também do natalício de sua genitora. No bairro do Xaxim, na época periferia de Curitiba, ele conseguiu o que buscava, mas havia um porém: os 30 metros de lenha amontoados no terreiro, além de únicos, já estavam vendidos, conforme o chacareiro lhe disse.

Matreiro, seo Jaime não se deu por vencido e ficou por ali proseando, estudando um jeito de levar o que queria. Um metro quadrado lhe bastava, mas o chacareiro firmava pé em não vender o que já era de outro. De repente surge o filho mais novo do chacareiro, ao volante de uma Kombi que fora abastecer de gasolina. Vem, entrega as chaves ao pai e diz que o dinheiro não foi suficiente para completar o tanque, uma vez que o combustível havia subido de preço, desta vez de 670 para 890 cruzeiros (a moeda da época). O velho quase que infartou. Os 'elogios' que proferiu aos governantes são impublicáveis. De lado, seo Jaime tornou à conversa:

- Pois essa lenha que eu queria era para fazer uma promessa a São João Batista para vir levar esse Figueiredo (o então presidente general João Batista Figueiredo) para o Quinto dos Infernos ...

O chacareiro quase nem deixou ele acabar de falar:

- Quem comprou 30 metros não vai dar pela falta de um. Posso ajudar nessa promessa também?

Pouco depois estava seo Jaime a caminho de casa e com a lenha necessária para a fogueira em memória de sua mãe. Não levou de graça, mas - ele conta - o chacareiro fez questão de lhe vender pela metade do preço, para assegurar, desta forma, sua participação no cumprimento da promessa.

Seo Jaime garante que enquanto as brasas ardiam e a fumaça subia ao céu fez o pedido prometido.

(No ano de 1984, seo Jaime entregava os releases da Secretaria do Interior nos veículos de Comunicação).

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Reflexões inspiradas na crônica Olhos Parados, atribuída ao poeta Manoel de Barros

RG, 28 junho 99

Meu bom Sobrinho e Amigo Chico:

Do mesmo modo que para "ouvir estrelas / é preciso amar para entendê-las" (Bilac), só vivendo e sentindo muito cada momento que nos dá a Vida é que se pode encontrar felicidade em cada um deles. Fico surpreso ao ver que muito do prazer do Poeta sempre foi meu também. A repetida lembrança dos livros já lidos, duma infância o tempo todo presente, dos passeios aos morros e às ruas antigas, que já não existem, entre velhos eucaliptos há muito mortos, os animais que eram meus amigos e meus irmãos, das Escolas primárias, das professoras, dos poucos colegas com quem faziamos camaradagem, ríamos e conversávamos sobre as coisas do mundo, da Natureza e do Universo, a experiência de plantar e ver crescer, a nostalgia de ver um vagalume e voltar àquelas noites em pijamas de flanela, que fazia a minha boa Mãe, quando a escuridão era fechada e tracejada pelos bichinhos que caçávamos para esfregar a sua luz na nossa roupa, e voltar àquelas noites cheias de estrelas cadentes, e acordar cedo e ver rolinhas e joão-de-barro andando no fundo do quintal, recordar as músicas de uma época tão antiga que em breve dela verá registro, mas ninguém mais que a tenha sentido, em cores, sons e cheiros, que são coisas de percepção individual e impossíveis de transmitir.

Seria para mim uma surpresa se o Poeta fosse um homem jovem  - eu o imagino como a mim próprio, quando os tantos anos vividos nos levam a divulgar essas coisas boas e inesquecíveis, embora estivessem, elas  todo o tempo aflorando em nossa mente, e as tivéssemos como um bem só nosso e vedado ao conhecimento alheio.

Algumas das experiências do Poeta ...são as minhas! Também estive numa igreja velha, vazia, nela entrei e logo saí, e não tem 1 ano voltei ao casarão abandonado, já não mais igreja, e procurei o zelador para saber da sua história, e onde hoje ela se encontrava, o seu nome, e o que se fez dos livros de registros de batismos; também entrei por caminhos fora do meu itinerário Escola-casa por pura curiosidade de exploração de novos roteiros, e quase me afoguei num riacho em cheia, aos nove anos, porque queria ver de perto o volume das águas, depois da chuva; e a beleza , que ele via saindo das rosas, eu a via fugindo das dálias, que eu achava escandalosas, aos meus sete, e cujo perfume não me dava propriamente agrado; de modo que me identifico com as lembranças e com o sentimento do Poeta para com as coisas tão simples da sua vida, e que provavelmente ele considera o seu mais precioso bem. Porque os outros, que por ventura ele possua, poderão ser vendidos ou trocados, mas um sacramento tem valor próprio e único, pertence à vida de uma pessoa tanto quanto a alma é individual e intransferível.

Mais uma vez sou grato à sua presença junto a mim, essa presença o mais das vezes não física, como agora, quando através dos olhos parados do Poeta você me reativa os verdadeiros valores desta minha vida.

Muito obrigado.

Graudo  

quinta-feira, 21 de março de 2024

Lula, o filho do Brasil, não é aceito pelos "filhos da puta"



José Ribeiro Jr

Lula é uma metáfora viva: o filho da empregada é mais inteligente, mais competente, mais bem-sucedido do que o filho da patroa!

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Salão Baobá, formando raízes

José Ribeiro Jr



Nos anos 80, um poeta popular escreveu: "Sorte tem quem acredita nela". É uma meia verdade, porque só acreditar não basta, é preciso dar oportunidade à sorte para que ela nos encontre. E essa oportunidade atende pelo nome de INICIATIVA.

Isso me vem à ideia depois de ouvir o relato sobre uma jovem mulher que deixou o seu país, foi enganada, passou dificuldades, enfrentou-as e se estabeleceu. E um dia, assim como quem não quer nada, a sorte esbarrou com ela e derramou sobre ela as suas bênçãos pagãs.

Mas vamos ao começo: a nossa personagem chama-se Letícia e é uma mulher negra, original da República Democrática do Congo, país africano que por muitos anos foi colônia da Bélgica. Lá, a nossa Letícia era casada e seu marido trabalhava na área da Informática. Tinham uma filha pequena, Raíssa, que veio com a mãe para o Brasil em busca de melhor sorte. O ponto de contato no Brasil era um irmão do marido, que vivia no Paraná. O parceiro seguiria a mulher e a filha mais adiante, quando ..., quando ..., quando ... e até hoje não veio. Isso foi há 8 anos.

Quando se deu conta do logro, a congolesa tocou a vida sozinha. Uma habilidade trazida da África era o trato com cabelos encarapinhados. A moça sabia fazer aquelas tranças que fazem sucesso nas cabeças de artistas, jogadores de futebol e outros famosos. Tanto que ganharam nome em inglês: Dreadlocks (rastafari, para outros).

Foi assim que ela rapidamente conseguiu colocação em salões de cabeleireiro e conquistou a simpatia de clientes. Não demorou muito, montou seu próprio negócio, simples, pequeno, apertado, mas seu.  E assim, dando sopa para ser bafejada por alguma sorte, eis que numa manhã comum foi parada na Rua das Flores, o quarteirão mais famoso no Centro de Curitiba, por alguém que se dizia fotógrafo e pedia que ela posasse seu bonito rosto e cabeleira para alguns instantâneos.

Após postar as fotos em seu Instagram (isthisreal), o fotógrafo-artista Brian Baldrati quis ouvir sua história e soube do sonho de trazer a mãe para o Brasil. Daí para a ideia de fazer um crowdfunding (vaquinha) entre os seus 1,8 milhão de seguidores, para abrir à cabeleireira congolesa as "portas da esperança", foi um pulo.

  Uma breve pesquisa em sites de viagens mostrou que R$ 12 mil seriam suficientes para bancar a viagem transatlântica. As carteiras se abriram rapidamente, atendendo o apelo do influenciador digital, e não pararam nos R$ 12 mil, bateram a marca dos R$ 25 mil. Agora não só era possível trazer a mãe da nossa personagem ao Brasil, como também dar um 'upgrade' no salão.

Voltando ao poeta popular e parodiando a sua 'máxima', concluo que quem deseja se molhar deve, ao menos, sair à rua sem guarda-chuva.

A moça deu ao Salão o nome Baobá, uma árvore enorme, de origem africana, com muitas raízes. A inspiração não se encerra na memória afetiva de sua longínqua África, ela tem também um significado no imaginário de Letícia: multiplicar o salão em diversas franquias, tantas quantas são as raízes de um bom Baobá.



As fotos a seguir são de autoria do fotógrafo Brian Baldrati, postadas em sua página no Instagram (isthisreal). O próprio autor aparece em uma das imagens, ao lado de Letícia e Raíssa.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Dica de livro: Minha Vida de Terrorista, de Carlos H. Knapp

A fantástica história de um publicitário (Carlos Knapp) que de uma hora para outra se viu envolvido com um grupo de jovens que faziam resistência armada à ditadura militar de 1964 e foi obrigado a ingressar na clandestinidade. Da agência de publicidade ao desemprego, da mansão nos Jardins paulistanos aos aparelhos dos "terroristas", do luxuoso Mercedes Benz nos anos 70 para o fusquinha do psicanalista Angelo Gaiarsa em um episódio nada edificante (para o psicanalista). Uma história entremeada de amores, paixões, uma tentativa de sequestro na Disney e algumas revelações nada linsonjeiras sobre alguns personagens que, ao contrário do publicitário, conheceram o amargo sabor do caviar do exílio. Leitura interessante, agradável, necessária. Descobri o livro ao acaso, em Abril de 2015, quando fazia hora em uma livraria no Espaço Itaú de Cinema, em Botafogo, à espera do início de uma sessão. Vale a pena; disponível na Amazon, ou nos Sebos.

sábado, 2 de dezembro de 2023

A 5ª Série é um estado de espírito

A melhor entre as muitas performances do ônibus! Se alguém souber o nome da escola, por favor avise nos comentários. O ano era 2014.

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Ave Maria do Morro, de Herivelto Martins, com Choro das Três

Grupo maravilhoso de Porto Feliz, São Paulo. Corina na flauta, Elisa no Bandolim e Lia no Violão de 7 Cordas. "Papai Dudu", no pandeiro, foi levado pela Covid-19. Lamentavelmente não se vacinou. Na voz, Paulo Godoy.

Recordações da infância: O Galo tem Saudade da Galinha Carijó

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Educação sexual: como nascem as guerras

Desconheço o autor da peça; se alguém souber, informe, por favor, para que lhe seja atribuída a autoria.

domingo, 19 de fevereiro de 2023

Porque é Carnaval: Sei lá, Mangueira

Sei lá, Mangueira, a obra prima de Paulinho da Viola e Ermínio Belo de Carvalho em homenagem à Estação Primeira. A propósito, Paulinho da Viola fará 80 anos nos próximos dias.



sábado, 18 de fevereiro de 2023

Os hits de propaganda das Casas José Araújo

Anúncios criativos de um tradicional comércio de tecidos pernambucano, da cidade de Pesqueira, as Casas José Araújo entraram para a história da propaganda brasileira. As inesquecíveis campanhas para TV são dos anos 80 e 90 e foram produzidas pela Itaity Publicidade. Várias delas se tornaram hits, como a que homenageia as coisas do Nordeste, outra que tem por tema o Carnaval e outra ainda sobre a tradicional Festa de Nossa Senhora da Conceição. A rede "Casas José Araújo", fundada em 1880, se espalhou por todo o Nordeste e ainda existe. Felizmente.



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Lula é toda a nossa gente! Poesia rima com Democracia

 Poesia do poeta e cordelista Antônio Marinho no Festival do Futuro/2023.



domingo, 12 de fevereiro de 2023

Membro de conselho fiscal da Copel não pode atuar como advogado da Ferropar

O Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) determinou que o membro do conselho fiscal da Companhia Paranaense de Energia (Copel Holding) e de suas subsidiárias Harry Françóia Júnior, que atuava como advogado da Ferrovia do Paraná S.A. (Ferropar), seja afastado caso volte a atuar em processos em que seja verificada a possibilidade de conflito de interesses com a Copel ou com o Estado do Paraná.


A medida foi tomada em razão de o conselheiro da Copel ter atuado como administrador massa falida da Ferropar, contra a qual a Estrada de Ferro Paraná Oeste S.A. (Ferroeste) formulou pedido de falência devido a créditos milionários não honrados.


O TCE-PR julgou procedente Representação formulada pelo Ministério Público de Contas (MPC-PR, por meio da qual apontou que o conselheiro da Copel atuava em situação que afrontava as disposições dos estatutos dessa sociedade de economia mista.


Ao acatar a Representação, o conselheiro do TCE-PR Ivens Linhares havia afastado cautelarmente o conselheiro da Copel, por meio de despacho homologado na sessão ordinária nª 8/22 do Tribunal Pleno do TCE-PR, realizada por videoconferência em 23 de março de 2022.


O MPC-PR ressaltara que o membro do conselho fiscal atuava como advogado em favor de empresa devedora ao Estado do Paraná e causadora de rombo nas contas da Ferroeste, empresa estatal paranaense. O órgão ministerial tinha destacado que teria havido afronta às normas relativas à necessidade de preservação da integridade e da independência dos conselhos e dos órgãos dirigentes das empresas estatais; e de repúdio a conflitos de interesses (artigos 14, I a III, e 17, IV e V, da Lei Federal nº 13.303/16), além do descumprimento da norma de integridade da própria Copel Holding e suas subsidiárias.


Para a concessão da medida cautelar, Linhares havia considerado que a situação informada configurava possível conflito de interesses do conselheiro fiscal da Copel Holding e de suas subsidiárias com o Estado do Paraná, por ele atuar paralelamente na condição de advogado da falida Ferropar nos autos nº 0012412-06.2005.8.16.0021, da 3ª Vara Cível de Cascavel.


O conselheiro do TCE-PR lembrara que a Ferroeste é uma sociedade de economia mista de capital fechado que, nos termos da Lei Estadual nº 9.892/91, tem o Estado do Paraná como seu maior acionista; e que o processo de falência fora instaurado por conta de créditos não honrados pela Ferropar que, em 2005, correspondiam a R$ 22.073.516,89. Assim, ele havia concluído que a atuação no processo em favor da Ferropar contrariava o interesse patrimonial do próprio Estado do Paraná.


O relator do processo de Representação afirmara que o Estatuto Social da Copel é expresso, em seu artigo 68, parágrafo 6º, inciso V, ao vedar a indicação para o conselho fiscal de "pessoa que tenha ou possa ter qualquer forma de conflito de interesse com o Estado do Paraná ou com a Copel".


Decisão


Na decisão de mérito do processo, Linhares acompanhou as manifestações da Quarta Inspetoria de Controle Externo (4ª ICE) e da Coordenadoria de Gestão Estadual (CGE) do TCE-PR, para julgar procedente a Representação, sem aplicação de sanções, com expedição de determinação e recomendação.


O conselheiro confirmou que incide em vedação estatutária da Copel a mera possibilidade de qualquer forma de atuação em conflito de interesses, possibilidade inerente à representação judicial de parte situada no polo oposto de uma ação em que se discutem interesses patrimoniais em montante inegavelmente relevante para o Estado do Paraná.


Finalmente, ele votou pela recomendação de que a Copel adote medidas de controle e monitoramento de situações que possam levar ao descumprimento de normas internas relativas a conflito de interesses por parte de integrantes de seus conselhos.


Os conselheiros acompanharam o voto do relator por unanimidade, na sessão nº 18/22 do plenário virtual do Tribunal Pleno do TCE-PR, concluída em 8 de dezembro de 2022. Eles disponibilizaram a decisão, contra a qual cabe recurso, ao Ministério Público Estadual para a tomada de providências. A decisão está expressa no Acórdão nº 3241/22, disponibilizado em 9 de janeiro, na edição nº 2.896 do Diário Eletrônico do TCE-PR (DETC).

Fonte: TCE/PR

Boas canções que quase ninguém conhece - Ypê

Voltamos a Belchior. "Ypê", gravada em 1978, é simples e profunda a um só tempo. O poeta e cantor cearense devia estar influenciado pela filosofia Zen Budista, que ele mescla com um toque de Cristianismo, expresso nas palavras de Jesus no Sermão das Montanhas quando propôs "Olhai os lírios do campo ..." Bem jovem, Belchior viveu uma experiência como frade capuchinho, no Mosteiro de Guaramiranga/CE. Isso foi antes, bem antes de ele conhecer as delícias femininas, que devem tê-lo feito repetir Santo Agostinho ao se deparar com uma mulher deslumbrante: "Senhor, faz-me casto..., mas não agora".
Pesquisando sobre a canção cheguei a um texto do jornalista Jotabê Medeiros, que relata o seguinte: os ipês que inspiraram o cantor ficam no bairro Brooklin Velho, em São Paulo, no comecinho da rua João Álvares Soares, quase esquina com a Tomé Portes. Foram plantados ali pelo sogro de Belchior, e estão floridos, como garante Jotabê.

Vamos a Belchior e sua bela composição Ypê (a propósito, foi essa a canção escolhida por Zeca Baleiro para chorar a morte do artista, em 30 de abril de 2017). 


Boas canções que quase ninguém conhece - Olhar de Tela

 A balada "Olhar de Tela" foi lançada por Oswaldo Montenegro em 1991 no LP "Vida de Artista".



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

"Boas canções que quase ninguém conhece" - Princesa do Meu Lugar

Outra poesia do mestre Belchior, na voz e interpretação de Daíra. A moça superou até a Elba Ramalho, que também fez uma boa interpretação de Princesa do Meu Lugar. Fluminense de Niterói, nascida em 1989, Daíra é talvez a melhor intérprete da obra do cantor, poeta e compositor cearense que morreu em 30 de abril de 2017.



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Todos na festa para os 92 anos do Mazza. Nesta sexta-feira, 10/2


O Sindicato dos Jornalistas do Paraná promove um festão nesta sexta-feira, 10/2, para celebrar os 92 anos do jornalista Luiz Geraldo Mazza. Veja o comunicado a seguir:

SindijorPR promove Ronda da Noite em homenagem a Luiz Geraldo Mazza

Com atividades culturais envolvendo música, literatura e fotografia, o Ronda da Noite irá marcar o aniversário de 92 anos do jornalista

O SindijorPR promove nesta sexta-feira (10) mais uma edição da Ronda da Noite, a partir das 18 horas, no Essen Biergarten, em Curitiba. Desta vez, a Ronda será dedicada ao jornalista Luiz Geraldo Mazza, que completa 92 anos na ocasião – sendo mais de 70 dedicados ao jornalismo do Paraná. Com experiência em todos os meios de comunicação e passagem pelos principais veículos do Estado, Mazza também integra a Academia Paranaense de Letras em reconhecimento à mais de uma centena de livros publicados sobre os mais variados temas ao longo de sua carreira.

Da mesma forma que na primeira edição de 2023, haverá lançamento de livros, como o de Zeca Corrêa Leite, Luiz Cláudio Oliveira e do próprio Mazza, além da participação musical de colegas da imprensa, incluindo Julião Boêmio, Vinícius Chamorro e Zezinho do Pandeiro.

A exposição fotográfica "Yo Soy Fidel" também estará na Ronda e traz registros do funeral de Fidel Castro, em 2016, produzido pelos jornalistas Gibran Mendes, Leandro Taques e Tadeu Vilani. A Ronda em homenagem a Mazza também contará com a participação do chargista Ademir Paixão.

Serviço:

RONDA DA NOITE

Sexta-feira, 10/02/2023 às 18h

Essen Biergarten: Rua José Sabóia Cortês, 358 - Centro Cívico

Curitiba – PR

Realização: SindijorPR

Apoio: ArfocPR

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

"Boas canções que quase ninguém conhece" - Passeio

Marco Mazzolla e Belchior, 1976

Belchior, como outros artistas nordestinos que vieram para o Sul trazer a sua arte também se encantou pela metrópole paulistana e, como vários deles, se declarou à Cidade. A sua "Passeio" não faz frente à Sampa, de Caetano, mas tampouco faz feio. E dá até para imaginar o cantor sobralense tirando um cochilo no meio da tarde no Parque Trianon, no coração da Avenida Paulista, sonhando conquistar o Brasil, como de fato fez. A canção é do LP Mote e Glosa, de 1974, que não aconteceu. Dois anos mais tarde, em 1976, Belchior seria descoberto pelo produtor musical Marco Mazzola e dispararia para o sucesso nacional com o LP Alucinação. De repente, o Brasil inteiro cantava "eu sou apenas um rapaz / latino-americano / sem dinheiro no banco / sem parentes importantes / e vindo do interior ..." Finalmente Belchior alcançava o que pretendia, e o seu canto torto / feito faca / cortaria (para sempre) a carne de todos nós.



Da série "Boas canções que quase ninguém conhece" - Sádico Poeta

Essa é do mineiro de Conselheiro Pena, Fernando Mendes, gravada em 1999. A letra mistura no cadinho do poeta toques de Oswald de Andrade, Fagner, Martinho da Vila e Roberto/Erasmo Carlos. 
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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Da série "Boas canções que quase ninguém conhece" - Estou Voltando Para Casa

Essa música de Raul Seixas, numa excelente interpretação do Cantor Pedro Paulo, foi gravada em 1971. É uma das preferidas de Paulo Coelho, segundo o próprio já disse. As imagens evocadas por Raul nos versos que recheiam a melodia soam familiares para quem conhece bem o subúrbio do Rio de Janeiro e já andou numa daquelas latas-velhas que trafegam em alta velocidade pela Avenida Brasil, desafiando as leis da Física e o bom-senso. Arrisco dizer que o protagonista da canção mora no Irajá e que o seu cachorro se chama Faísca. (Estou Voltando Para Casa)



domingo, 5 de fevereiro de 2023

Mais uma Intentona Bolsonarista fracassada

O caso da denúncia fake que o senador bolsonarista Marcos Do Val fez à revista Veja não apenas deverá leva-lo à cadeia, junto com Jair Bolsonaro, mas também fazê-lo perder contratos que têm com o governo e empresas norte-americanas da área de espionagem. Afinal, a máxima da deduragem ainda vige: "aproveite-se a delação, despreze-se o delator".

Recordando: Do Val denunciou que Jair Bolsonaro chamou-o em dezembro passado, numa das residências oficiais da Presidência, em Brasília, e tentou coagi-lo a gravar conversa com o ministro Alexandre de Moraes, com intuito de prender o presidente do TSE, dar um golpe no Brasil, anular a eleição do presidente Lula e voltar à Presidência da República.

Quem esperava que os Bolsonaro partissem para cima do senador dedo-duro, xingando-o violentamente como costumam fazer, se surpreendeu com a lhaneza do clã e com as mútuas declarações de amor correspondido que ambas as partes – delator e delatados – trocaram em púbico.

Se havia uma mínima chance de o caso não ser mais uma farsa montada pela verdadeira quadrilha que por quatro anos tomou conta do Brasil, essa chance hoje é zero. Acompanhe a seguir as contradições dos envolvidos, que desnudam a trama.

Antes brabinho ...

Na madrugada de 30/10/2019, minutos após o Jornal Nacional noticiar que o porteiro do Vivendas da Barra havia reconhecido a voz de Jair Bolsonaro naquele que autorizou o acesso àquele ambiente fechado de um dos assassinos da vereadora Marielle Franco, na véspera do crime, o ex-presidente fez uma live urgente, às 3h50, direto da Arábia Saudita, onde estava. Notadamente desequilibrado, bradava contra a Globo: canalhas, patifes, jornalismo podre, sem escrúpulos; o sistema Globo é uma imprensa porca, nojenta, imoral ...

Relembre o vídeo:




... hoje uma dama!

Já neste janeiro, ao ser acusado por seu aliado, senador Marcos Do Val, de tramar um golpe para prender o ministro-presidente do TSE, Alexandre de Moraes, anular a eleição do presidente Lula e dar um golpe de Estado para voltar à Presidência, Bolsonaro se mantem calado até agora. E seu filho, senador Flávio, revela uma calma incomum para ele e afaga o senador que dedurou o seu pai e pede que ele não renuncie ao mandato.

Assista:




Veja agora o Do Val que falou à Veja

Aqui a gravação da entrevista que Marcos Do Val deu à revista Veja, antes do episódio vir a público. Nessa fala à Veja, semanas antes da sua suposta irritação com bolsonaristas que o chamaram de traidor, Do Val relatava que Bolsonaro lhe dissera: “o GSI vai te equipar; botar o equipamento de escuta, de gravação e a sua missão é marcar com o Alexandre e conduzir o assunto até a hora que ele falar que ele, que ele avançou, extrapolou a Constituição, alguma coisa nesse sentido. Aí eu derrubo, anulo a eleição, o Lula não toma posse, eu continuo na Presidência e prendo o Alexandre de Moraes por conta da fala dele”.

Assista:


O Brasil que tem miolos e os usa augura que a próxima reunião dos quadrilheiros para tramar novos golpes ocorra na Papuda!

domingo, 29 de janeiro de 2023

A velha mídia censura o MST e se faz de vítima

A velha imprensa, de 5ª categoria, gosta de se fazer de vítima sempre que cobrada a ter responsabilidade com as informações que divulga, enquanto CENSURA todos aqueles que não rezam pelo seu credo ou não lhe dão dinheiro, especialmente o dinheiro público. Com essa postura, a velha imprensa nacional e todas as suas cópias provincianas não apenas desinformam como também alimentam preconceitos nos cérebros suscetíveis às influências mais negativas. O MST é um dos principais alvos da desinformação da velha imprensa e dos micos amestrados da publicidade e propaganda que criaram o termo vazio "AGRO" para "encher a bola" dos que pagam para aparecer. A propaganda AGRO na TV, por ecemplo, é uma espécie de coluna social dos caipira chic. Mas não vamos ficar chorando pelos cantos, nem nos limitarmos ao jus sperniandi; vamos para cima desses picaretas que usam uma concessão pública que deveria servir à boa e ampla informação de toda a coletividade, mas que, ao contrário, é usada para desinformar, mentir e vender prestígio a picaretas endinheirados. Vejam a seguir a excelente informação vinda do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, o MST, que a velha mídia esconde da população:

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

O impeachment da Dilma Rousseff salvou a Democracia brasileira

Quem poderia imaginar que o impeachment/golpe contra a Presidente Dilma Rousseff em 2016 iria salvar a Democracia brasileira? Duvido que alguém tivesse essa consciência então, nem mesmo a própria líder deposta em um dos episódios mais vergonhosos da Política brasileira e que teve a contribuição decisiva da velha e corrupta mídia e da Milícia de Curitiba, vulgo operação Lava Jato. Mas foi o que realmente aconteceu, e isto podemos constatar hoje ao acompanharmos a luta corajosa do ministro-presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Alexandre de Moraes, no enfrentamento de militares corruptos-terrorristas e de empresários corruptos e incompetentes que tentaram transformar o Brasil em uma ditadura no último dia 8 de janeiro. Não fosse a deposição da Dilma, o corrupto Michel Temer jamais teria chegado à Presidência da República e, consequentemente, não teria indicado Alexandre de Moraes para integrar o STF em substituição ao ministro Teori Zavascki, morto em um acidente aéreo. Dilma teria indicado um bunda mole qualquer, como ela e o presidente Lula fizeram anteriormente, e o indicado seria mais um a se acovardar diante das ameaças da corja bolsonarista, como fez e faz o ministro Dias Toffoli. Que as gerações futuras saibam que a Democracia brasileira só está salva graças ao Presidente Lula - único brasileiro capaz de realizar essa tarefa a frente do Poder Executivo - e ao ministro Alexandre de Moraes.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

domingo, 22 de janeiro de 2023

O cego das ideias não atentou para a advertência bíblica

José Ribeiro Jr, do The Villa Biscaia Post

O "colonista" da Gazeta do Povo, vulgo Gazeta do Gado, Rodrigo Constantino me faz lembrar um dizer bíblico: "se um cego conduzir um cego, ambos cairão no mesmo buraco". Isto me vem a propósito da reação do jornal bolsonarista à afirmação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que "o empresário não ganha muito dinheiro porque ele trabalhou, ele ganha muito dinheiro porque os trabalhadores dele trabalharam”. Percebam: Lula não disse que os empresários não trabalham, mas sim que o dinheiro não é ganho pelo trabalho exclusivo do empresário, mas do coletivo empresário e trabalhador. E que, por isso, o resultado desse trabalho (riqueza) tem que ser melhor distribuído. Mas o cego das ideias Rodrigo Constantino, com os olhos fechados pelo mal da extrema direita obtusa, conduziu o seu rebanho para o buraco da ignorância com o discurso puído do Marxismo (que nem ele, tampouco as tias do zap que o têm por líder estudaram). E são muitas dessas tias do zap cativas do cego das ideais - gente que faz sanduíche para vender, serve refeições, recupera pneus usados, faz entrega de fast food, lava cabelos e faz maquiagem, tosa e dá banho em cachorrinhos, entre outras atividades - que se autointitulam "empresário" e julgam que adentraram o mundo de Beto Sicupira, Marcel Telles e JP Lemann. A Gazeta do Gado certamente faria melhor se ensinasse a esses "empresários" que, antes de qualquer outra designação, eles são TRABALHADORES. E como tais, trabalham muito, tanto ou até mais do que seus empregados. Acordam de madrugada para preparar o dia, comprar os ingredientes e insumos essenciais à atividade, põem a mão na massa e, no final do dia, fecham as contas. Uma rotina muito diversa daquela do trio da 3G que quebrou recentemente o Grupo Americanas (fraude de R$ 40 bilhões, segundo o Valor Econômico), mas fundamentalmente semelhante a dos milhões de Zés, Marias, Anas, Zecas, Lulas, Pedros, Paulos, Terezas, Maras que igualmente acordam de madrugada, pegam ônibus, metrôs, trens, bicicletas, motocicletas para também pegar no pesado e fazer a economia do Brasil avançar. E que, portanto, têm que ter uma parte maior na divisão dos ganhos. Se a Gazeta do Gado e o cego das ideias Rodrigo Constantino soubessem que essa noção é fundamentalmente CAPITALISTA (*como já o sabia Henry Ford, há mais de um século) certamente guiariam o seu rebanho para bem longe de qualquer buraco.

*Exatamente no dia 5 de janeiro de 1914, Henry Ford decidiu introduzir o salário de 5 dólares por dia na sua fábrica de Detroit. O valor era mais que o dobro do salário vigente na época. Além disso, o fundador da Ford Motor Company também reduziu a carga de trabalho de 9 para 8 horas diárias e ainda ofereceu aos funcionários participação nos lucros da empresa e garantiu que nenhum trabalhador seria demitido, exceto por infidelidade ou ineficiência comprovadas.

Doodle Google: Ano Novo Lunar



sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Carlos de Carvalho Colla, o CCC do Bem

Pois não é que zapeando pelo youtube nessa tarde de sexta-feira de um bom calor me deparo com um vídeo da TV Brasil com o Carlos Colla. Já ouvi falar desse nome, mas na hora não ligo os pontos. Mas eis que uma sinopsezinha me diz que ele é autor de sucessos de Roberto Carlos, Legião Urbana etc. Opa, Legião me interessa, então vamos lá.

O vídeo começa com canções do RC. Conheço todas: Falando sério (Eu não queria ter você por um programa / E apenas ser mais um na sua cama ...) Se alguém não conhece, é uma versão sapatênis de Eu vou tirar você desse lugar. Depois veio Sonho lindo (Foi por medo de perder que eu perdi você...) E Passatempo (Passa o tempo, só não passa essa saudade / você quis brincar de amor mas eu te amei ...) Mais um bobo.

Carlos Colla também é autor de algumas daquelas mais tocadas na zona (não que eu frequente) como a "Pra que saber meu nome" (uma forma poética de dizer "não espere que eu vá te ligar amanhã"). Outros sucessos do Colla entre os frequentadores das casas de luzinha vermelha na fachada são a brega Bijouteria (E no brilho de uma pedra falsa / dei amor a quem não merecia / eu pensei que era uma jóia rara / Era bijouteria), a melodramática Pede a ela (Pede a ela pra ligar pra mim / a saudade tá batendo, tá ruim) e a antesala do sexo selvagem Além da cama (É o lado mais puro, mais angelical / É o cheiro, é a pele, é o lado animal ...)

Deixando esse lado mezzo corno/mezzo tarado pra lá, o tal Colla emplacou outros grandes sucessos que duvido que alguém do milhões que me leem não se recorde: Bye, Bye tristeza (não vou sugerir os versos pra que essa canção-ciclete não venha colar de novo na minha ideia), Estou apaixonado (versão de um hit mexicano gravado creio que pela dupla João Paulo e Daniel), Solidão (A solidão é nada, você vem na hora errada, em que eu não te quero aqui...) e o sambinha Verdade chinesa (Mas o que é vida, afinal / será que é fazer o que o Mestre mandou / é comer o pão que o diabo amassou / perdendo da vida o que tem de melhor?)

Essa é apenas uma pequena amostra da obra do cara que compôs mais de 2 mil canções e teve parceiros como Maurício Duboc, Michael Sullivan, Marcos Valle, Ed Wilson, Lincoln Olivetti, Peninha, o próprio Roberto Carlos e outros nomes de que nunca ouvi falar, mas que também devem ter uma conta bancária de dez dígitos.

Assisti o vídeo integralmente (e recomendo a vocês; cerca de uma hora de boa música) e resolvi buscar mais informações sobre o tal Carlos Colla. De cara fiquei sabendo pelo Google que ele tem um Carvalho no nome, o que faz dele um CCC do Bem - os que sofreram a ditadura militar de 1964 sabem a que me refiro. Mas em seguida veio a má notícia: o Carlos Colla morreu faz uma semana, aos 78 anos, no dia 13 de janeiro de 2023, em decorrência de dois aneurismas da aorta abdominal. Logo agora que virei fã do cara ele me inventa de morrer? E essa situação me remete ao amigo professor Aroldo Murá, também ele recém-falecido e que, numa segunda-feira de fúria no Jornal Indústria & Comércio desabafava com a mulher do Odone Fortes: "Dona Irene, isso daqui é uma bagunça, é um que me falta, outro que me morre ..."

Então eu me conformo e aceito que assim é a vida: este janeiro está uma bagunça, já dois me faltam, já dois me morrem.

Posto aqui o vídeo do Carlos Colla na TV Brasil para quem quiser assistir.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Deputado italiano pede que governo não dê fuga a Bolsonaro

O risco de a família Bolsonaro se refugiar na Itália para não responder aos crimes dos quais é acusada no Brasil preocupa o deputado italiano Angelo Bonelli. Esta semana, o parlamentar pediu que o ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, responda se Jair Bolsonaro e seus filhos fizeram pedido de dupla cidadania ao governo da Itália e recomendou que o benefício não seja concedido, uma vez que a família Bolsonaro responde a processos na Justiça brasileira. O deputado italiano também comentou os atos terroristas cometidos por grupos bolsonaristas em Brasília no último domingo, 8/1, e pediu que a Câmara dos Deputados da Itália manifeste sua irrestrita solidariedade ao povo, à Democracia no Brasil e ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Mucuripe (Belchior/Fagner)

As velas do Mucuripe 

Vão sair para pescar

Vou levar as minhas mágoas

Pras águas fundas do mar

Hoje à noite namorar

Sem ter medo da saudade

E sem vontade de casar


Calça nova de riscado

Paletó de linho branco

Que até o mês passado

Lá no campo inda era flor


Sob o meu chapéu quebrado

Um sorriso ingênuo e franco

De rapaz novo, encantado

Com 20 anos de amor


Aquela estrela é dela

Vida, vento, vela ... 

Leva-me daqui.



segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Samba e Poesia sensual de altíssimo nível é Madeixa

 Madeixa, obra-prima de Vidal Assis (letra) e Moysés Marques (música e voz).



domingo, 18 de dezembro de 2022

Alvorecer, uma obra-prima de Dona Yvone Lara e Delcio Carvalho, na voz de Emílio Santiago

Fiz uma correção nessa letra depois que o autor, Delcio Carvalho, me chamou a atenção ao dar entrevista a um desses podcasts sobre músicas e artistas, no Youtube. Ele citou essa maravilhosa canção e disse que os muitos que a gravaram não entenderam a letra e a cantam errado. "EU nunca escreveria que a flor acende, não sou burro", disse ele, explicando que o que escreveu foi "olha como a flor ascende quando o dia amanhece..." Muito bem, está feita a correção, e espero que ninguém mais cante "olha como a flor se acende", já que flor não é lâmpada, lampião, inqueiro ..., como disse, meio enfezado, o Delcio.


 

Alvorecer (Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho)


Olha como a flor ascende

Quando o dia amanhece

Minha mágoa se esconde

A esperança aparece


O que me restou da noite

O cansaço, a incerteza

Lá se vão na beleza desse lindo alvorecer (Bis)


E esse mar em revolta que canta na areia

Qual a tristeza que trago, em minh'alma campeia

Quero solução, sim, pois quero cantar

Desfrutar dessa alegria

Que só me faz despertar do meu penar


E esse canto bonito que vem da alvorada

Não é meu grito aflito pela madrugada

Tudo tão suave, liberdade em cor

Refúgio da alma vencida pelo desamor (Bis)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Lula recebe diploma de Presidente da República em honra do povo brasileiro

 Assista o discurso emocionado do Presidente da República eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, em solenidade no TSE nesta segunda-feira histórica, 12 de dezembro de 2023. O vídeo foi gravado pelo excelente e competente portal GGN, do reconhecido jornalista brasileiro Luiz Nassif (https://jornalggn.com.br/luisnassif/).



domingo, 11 de dezembro de 2022

Reflexões sobre a esquerda brasileira

Antes de mais nada, necessário esclarecer que esta análise data de 2017, antes, portanto, da eleição de Jair Bolsonaro para destruição do Brasil. Desde então, a nossa esquerda despertou parcialmente, mas precisa amadurecer muito mais. Se essa análise puder contribuir para melhorar a ação de petistas e de outras forças democráticas, então vale a pena torná-la pública.

"Antes de perder o governo com o impeachment da presidente Dilma Rousseff, nós perdemos a guerra da comunicação. Senão, vejamos:

 

Vamos deixar de lado a incapacidade da presidente Dilma para exercer a autoridade frente a empresários e agentes do Estado que a desrespeitaram aberta e grosseiramente, como se viu na abertura da Copa do Mundo e na colocação de sua foto no alvo de tiro em um stand da Polícia Federal, para ficar apenas nesses dois casos exemplares.

 

Vamos nos ater apenas à questão da Comunicação. Não me refiro aqui às propagandas do Governo, à comunicação institucional, à fartura de dinheiro dada aos jornais, portais, rádios e TVs que diariamente omitiam boas notícias do governo e criavam ou davam divulgação a fake news contra a presidente, o Governo e o PT.

 

Aqui me refiro apenas à nossa comunicação informal, à “briga de torcidas”, como gosto de dizer, para ilustrar como se dá o convencimento do público não-engajado. Essa gente que não está nem aí para partidos, para políticos, para propostas e projetos de governo, algo assim como o baixo clero da população, que é aquele que em geral decide qualquer eleição. Ao menos no Brasil.

 

E como é que esse pessoal decide? Pelo movimento de manada, tangido para o lado que mais levantar a voz, com maior eficácia, com maior poder de produzir estragos no adversário.

 

Esse contingente, que de maneira grosseira calculo seja em torno de 60% da população com Título de Eleitor (pelo menos), funciona como fiel da balança em eleições, assim como em posicionamentos em geral. É gente propensa a ser convencida, ao contrário daquelas parcelas à direita e à esquerda, cada qual com cerca de 20% do eleitorado, gente com ideologia, convicção de posições e projetos de poder.  Já a massa intermediária, sem ideologia definida, oscila ora para a direita, ora para a esquerda conforme a força de convencimento de cada um desses dois lados. E esse convencimento não se faz em cima de propostas e projetos, mas da desconstrução do adversário.

 

E nesse quesito nós da esquerda fomos de um primarismo que dói. Antes de me alongar, vamos estabelecer aqui uma premissa (ou axioma): se temos dois candidatos oponentes, o que irá se destacar para essa massa de 60% do eleitorado não é aquele com a melhor proposta, a melhor ideia, as melhores intenções, mas aquele que mostrar à torcida que confere maior valor a quem o escolher.

 

O candidato precisa parecer jovem, arrojado, vigoroso, belo, destemido, ousado, charmoso, líder inconteste, rápido de raciocínio, irônico na medida certa, agressivo na medida certa. Outras “qualidades” essenciais, mas que não podem ser diretamente associadas à imagem do candidato, são a capacidade de dissimulação para driblar evidências, a violência para coagir os contrários e um caráter maleável para baixar o nível da disputa e atribuir essa ação ao adversário.

 

Não quero dizer que para vencer a eleição os candidatos precisem necessariamente ter esse perfil abjeto. O que é preciso é conhecer essa realidade, saber identificá-la naquele que se enquadra nesse perfil e ter a capacidade estratégica para se contrapor a essas artimanhas e artifícios.

 

Dito isso, temos que o PT, nos anos mais recentes, fez exatamente o contrário disso.

 

Comecemos pelo apodo que a direita pespegou na esquerda: “pão com mortadela”. Queiramos ou não, a designação é ofensiva, pois sugere que os esquerdistas são “pobres”.  Não é que ser pobre seja algo vergonhoso; o que interessa aqui é o sentido dado à palavra, levando em conta o senso comum da população. Ser pobre não é apenas não possuir bens materiais, mas, no senso comum, é ser medíocre, menor, ignorante, de mau gosto, intelectualmente tosco, grosseiro nos modos e maneiras, alguém digno de ser enjeitado, portanto.

 

Em resposta, a esquerda usou a palavra “coxinha”, simpática até no uso do diminutivo. A palavra coxinha não induz a nada negativo, ao contrário: do banqueiro Andre Esteves, do BTG Pactual, ao gari que coleta o lixo em um conjunto da faixa 1 do Minha Casa Minha Vida, todos apreciam uma coxinha bem preparada. “Xingar” alguém de coxinha sugere expressar “data vênia” antes de dizer que o adversário não é gentil... E isso dito em resposta a um adversário que nos chama de “ladrão, corno, veado, filho da puta”, entre outros adjetivos.

 

Poderia citar inúmeros exemplos, como a forma com que os senadores do PT e do PCdoB trataram o senador Anastasia quando o ex-governador mineiro aceitou cumprir o papel ignominioso de elaborar o parecer previamente acertado que recomendou o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Para não me alongar, digo que só faltou os senadores Gleisi Hoffmann, Vanessa Grazziotin e Lindbergh Farias, em vez de aproveitarem a oportunidade para denunciar ao vivo, na TV, o papel baixo e imoral que o senador mineiro aceitou cumprir, só faltou eles elogiarem a virilidade do político mineiro, aliado de Aécio Neves. Fazendo um chiste, digo que dava a impressão de que ao elogiarem o currículo de mestre constitucionalista de Anastasia os petistas e a comunista piscavam para ele como a dizer: “tô te elogiando, hein?!; você vai reconhecer a inocência da Dilma, né?!”

 

Outro exemplo, sem me estender, foi o termo “República de Curitiba” usado para criticar a milícia montada em torno da operação Lava-Jato. O termo remonta aos episódios que levaram o presidente Getúlio Vargas ao suicídio e, mais recente, à passagem de uma quadrilha de Alagoas no poder federal.

 

No caso de Getúlio, o termo assume um caráter bastante positivo e remete a supostos atos de bravura e de defesa da moralidade pública atribuídos a jovens oficiais da Aeronáutica emprenhados de ouvido pela verve de um Carlos Lacerda. Basta conhecer um pouco da História contemporânea para saber que o termo “República do Galeão” não confere qualquer peso negativo à “República de Curitiba”.

 

Já a “República de Alagoas”, referência aos bárbaros levados ao Planalto por Fernando Collor, poderia, sim, emprestar um caráter eminentemente negativo à outra “República” ..., se ela fosse, digamos, de Goiás ou do Maranhão,  por exemplo, mas jamais de uma cidade como Curitiba, tida e havida como “civilizada” (sem demérito ao estados citados, mas a seus políticos mais notórios. O risível desempenho de Álvaro Dias no debate da Globo é um episódio à parte).

 

Será possível que não ocorreu a ninguém pespegar na turma da Lava Jato o apodo “Milícia de Curitiba”?

 

Para não me alongar muito, lembro outros exemplos toscos: o discurso da esquerda rescende a naftalina. Chamar políticos corruptos de “golpistas” é o mesmo que xingar um agressor feroz de “seu feio!” Outra palavra – entreguista – soa até uma coisa meio gay (sem preconceitos). Estamos falando principalmente para quem tem entre 15 e 40 anos e adotamos termos e linguagem toscas usados pelos nossos avós nos anos 50 e início dos 60! Ou seja: há mais de meio século!!!

 

Isso sem falar no conteúdo do discurso; os jovens de hoje, muitos deles “doidos” para se encostar num emprego público ou numa estatal estão nem aí para a privatização da Petrobras, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, ou até da própria mãe, se isso significar o aceno de acesso a um IPhone, um “carro completo com banco de couro” (mesmo com dez anos de uso), uma selfie numa academia ...

 

Faria mais efeito propor um auxilio-IPhone para a garotada, como aquele dinheiro milionário distribuído a juízes e promotores com ou sem casa, apartamento, mansão etc.

 

Para finalizar, a esquerda foi pródiga também em produzir discursos frouxos e toscos, embora tratados pela mídia reverente até como “inteligente”. Foi o caso da “crítica” do senador Roberto Requião ao ato desvairado do então juiz Sergio Moro, em viagem de lazer a Portugal, quando do habeas corpus concedido pelo único juiz do TRF 4 (os demais pertencem ao TRF de 4) ao presidente Lula: “cabe ao juiz Sérgio Moro tomar bom vinho, comer bacalhau”, escreveu no Twitter o senador que o eleitorado do Paraná, acertadamente, aposentou da política. Afinal, se é essa a capacidade de crítica do senador, diante da evidente, grosseira e indevida interferência de um juiz de piso em determinação de um desembargador de segunda instância, uma coluna social em jornal do interior lhe será muito mais adequado do que a Câmara Alta."


O evangelismo de resultado

As igrejas evangélicas neopentecostais que atuam no Brasil devem o seu sucesso à exploração de um nicho de mercado, por elas descoberto. Trata-se da venda do perdão divino ao “rebotalho”.  De onde saiu isso? Da observação pura e simples (à espera de que sociólogos se debrucem sobre o assunto). Explica-se: as Igrejas Católica e as Protestantes tradicionais sempre “venderam” o perdão divino para os ricos e poderosos: reis despóticos, banqueiros usurários, chefes de Estado corruptos e genocidas, fazendeiros escravagistas e assassinos, financistas corruptos de toda ordem, herdeiros de grandes fortunas deformados morais etc etc etc.


O que as evangélicas neopentecostais que atuam no Brasil descobriram é que a venda do perdão divino ao rebotalho era uma oportunidade de negócio inexplorada; o “rebotalho” representava uma imensa fatia de mercado, que era desprezada pelos dois principais expoentes da fé cristã.


E então abraçaram com avidez esse nicho, representado por traficantes de drogas e armas, assaltantes de bancos, matadores de aluguel, doleiros, estelionatários, contrabandistas, fraudadores, falsificadores, mercadores do sexo, estupradores, pedófilos, praticantes de furtos em geral, golpistas de toda ordem, funcionários públicos corrompidos, vendedores de pareceres e sentenças, assassinos de ocasião, gente que vive de pequenos expedientes etc etc etc.


São crimes em que os agentes não têm pruridos de sujar as mãos – ao contrário da pseudoelite, que delega a execução dos crimes mais bárbaros (e paga migalhas por isso) justamente ao rebotalho da sociedade, que vive ainda num estágio de barbárie intelectual, social, sanitária, moral e em tudo o mais.


As neopentecostais perceberam que nesse nicho – pela enorme quantidade de agentes – circulavam grandes somas. E se fosse aplicado a ele algumas regras, organização e estrutura seria possível fazer render muito mais. E onde há mais dinheiro, pela lógica direta das neopentecostais, há muito mais dízimo!


Foi o que fizeram; ajudaram a profissionalizar as atividades criminosas do “rebotalho”, grupo social que, hoje, pelo nível de sofisticação das práticas alcançado, já não cabe mais no adjetivo substantivado.


A retribuição financeira que os agentes criminosos desse nicho de mercado dão às igrejas neopentecostais se expressa nos palácios por elas erguidos nas principais capitais brasileiras, na ostentação de riqueza de seus líderes (embarcações de luxo, aviões e helicópteros com que se deslocam pelo mundo, mansões e fazendas etc).


Um dado bastante ilustrativo dessa venda e compra do perdão divino foi a descoberta da doação de R$ 100 mil de um traficante ao pastor Silas Malafaia, ocorrida há não muito tempo. Essa transação só se tornou conhecida do público porque caiu nas malhas da Polícia Federal. Não fosse isso, seria contabilizada naturalmente como “pagamento de dízimo” (ou algo parecido) à igreja de Malafaia, que se justificou com o argumento malandro de que “não pergunto de onde vem o dinheiro das doações que recebo”.


O perdão divino, nos casos dos crimes praticados pelo “rebotalho”, se assemelha, por exemplo, à remissão que empresários e banqueiros fraudulentos sempre buscaram em padres católicos e em líderes religiosos protestantes para cauterizar suas consciências ante o desemprego, a miséria, as mortes causadas por suas fraudes.


Mas há um outro viés a ser estudado, e que decorre da migração de comunidades antes chamadas “macumbeiras” para o evangelhismo neopentecostal. É o recurso à proteção divina para o corpo, que, diferente do que ocorre com os criminosos da pseusdoelite, sofre uma exposição direta no exercício da prática criminosa.


Antepassados desse grupo social recorriam às divindades da Umbanda, especialmente, para ter o “corpo fechado” em situações de troca de tiros com a polícia, ou eventualmente com as suas vítimas, mas também com adversários no mercado do crime. Hoje, antes de embarcarem em SUVs, armados com escopetas e munição pesada para dinamitar caixas de agências bancárias, interceptar carros fortes, transportar drogas e armas, executar pessoas como a juíza Patrícia Acioli, os criminosos dão-se as mãos, cerram os olhos, elevam o pensamento e clamam pela proteção de Nosso Senhor Jesus Cristo na missão que têm a cumprir.


Parte do butim vai para as mãos de pastores na forma de dízimo, em agradecimento ao “corpo fechado” pelo deus que derrubou as muralhas de Jericó.

A Queda da UNIBAN. A paródia Nota 1000 completou 13 anos

O caso da Uniban rendeu a melhor paródia de todos os tempos com o filme A Queda - As últimas horas de Hitler. O autor, que desconheço, criou uma obra-prima das paródias. Assistam e guardem.  




quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Bolsonaro, quem diria, iniciou a reforma no Estado brasileiro. E ela não pode retroceder

The Villa Biscaia Post / Editorial

A única coisa que presta feita pelo (des)governo Bolsonaro foi a redução das alíquotas do ICMS sobre combustíveis e serviços essenciais. E Bolsonaro fez isto não para beneficiar a população, mas para atacar os governadores, e nesta ação atingiu tanto aqueles que não lhe agradavam, quanto os que lhe serviam de capacho. Mas foi algo acertado, porque era um absurdo cobrar quase 30% de imposto para as pessoas terem Água/coleta de esgoto, Luz, Gás, telecomunicações em suas casas, sem falar nos combustíveis que movem os veículos motores. Os governadores e prefeitos estão fazendo lobbie para voltarem as alíquotas anteriores sob a falsa alegação de que as contas das administrações não fecham. Não fecham por causa da farra de dinheiro público para membros do Judiciário, do Ministério Público, dos Tribunais de Contas, universidades e do Legislativo etc. Por isso é preciso que a nova mídia, os sindicatos e os partidos de oposição se oponham à volta das alíquotas altas e exijam o corte da farra de dinheiro público nessas áreas citadas (entre outras). Não se trata do servidor público qualificado que tem salário de R$ 30 mil, mas dos penduricalhos que aumentam essa cifra dez vezes ou mais. Por que o povo que trabalha na iniciativa privada tem que pagar escola dos filhos, creche, tratamento dentário, plano de saúde, a roupa que usa para trabalhar, o transporte etc e os encostados no Estado transferem essas contas todas para os cofres públicos? A reforma do Estado foi iniciada - mesmo sem essa intenção - pelo mais desqualificado sujeito que ocupou a Presidência da República do Brasil, e ela não pode retroceder.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Gal, Boldrin e agora Erasmo. E 2022 ainda não chegou ao fim ...

Fernanda Passos & Erasmo Carlos

O mês de novembro deste 2022 foi cruel com a melhor música brasileira. Num mesmo dia nos tomou Gal Costa e Rolando Boldrin, e sem nos permitir um fôlego, levou também Erasmo Carlos. O "Tremendão", como o batizou o eterno Carlito Maia ao dar forma ao programa Jovem Guarda, nos anos 60, foi o melhor expoente do rock feito no Brasil, admirado por jovens de todas as idades, dos 15 aos 80 e tantos anos. O autor de rocks e baladas como "Splish-splash" - um dos primeiros sucessos de Roberto Carlos - e Gatinha Manhosa experimentou altos e baixos na vida artística e se despediu dela em alta. Chamado pelos amigos carinhosamente de "Gigante Gentil", Erasmo cumpriu na vida dos palcos um roteiro inverso ao de seu parceiro em composições Roberto Carlos. No início da carreira, Roberto superava de longe o amigo. E não apenas sob o ponto de vista do sucesso financeiro; RC, com canções eternas como Amada Amante, Quero que Vá Tudo Pro Inferno, Detalhes, O Portão, Outra Vez, Como é Grande o Meu Amor por Você, O Tempo Vai Apagar, entre tantas outras, ocupou durante décadas lugar especial no gosto popular brasileiro. Erasmo, ao contrário, viu momentos de brilho intenso e outros de quase opacidade, que superou com maestria. Mas, ao contrário de RC, que piorou com o tempo e hoje se parece um imitador de Chitãozinho (que era inicialmente um imitador barato de seus gestos no palco), Erasmo melhorou e muito na medida em que os anos avançavam. Manteve um rosto e uma expressão jovem aos 80 e tantos anos, sem tentar fantasiar com tinturas e perucas o tom mais do que grisalho e a calvície. Simpático, terno, divertido, direto nas muitas entrevistas que deu nos anos recentes, o Gigante Gentil dos anos 2000 era muito melhor do que o garotão da Jovem Guarda. Um exemplo raro de gente que imita os bons vinhos de boas safras.

Para lembrar Erasmo, três momentos da mais pura ingenuidade poética do cantor e compositor: O Caderninho, A Carta e O Bilhetinho.








quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Um dia de fúria para a música brasileira da melhor qualidade: perdemos Gal Costa e Rolando Boldrin

Gal Costa e Rolando Boldrin

Esta quarta-feira, 9 de novembro de 2022, nos privou abruptamente de dois gigantes da melhor música brasileira: a tropicalista Gal Costa, jovem aos 77 anos, e o maior representante atual da canção sertaneja de verdade, Rolando Boldrin, na juventude de seus 86 anos.


Boldrin será o eterno Sr. Brasil, aquele que ainda na década de 70 despertou em todos nós um prazer havia a muito esquecido: a genuína música caipira, que as rádios de jabá desprezavam. As manhãs de domingo ganharam nova vida com o programa criado pela dupla Boldrin e Ratinho (não esse Ratinho avacalhado da Rede Massa, mas o Ratinho da dupla que formara com o também lendário Jararaca).

Já a Gal Costa surgiu para o grande público um pouco antes, ainda no final da década de 60, ombreando com os tropicalistas Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, Maria Bethânia e outros mais. Uma curiosidade em relação a Gal: a cantora motivou uma microrreforma ortográfica no Brasil. Antes da década de 70, general era abreviado como gal. O ditador de plantão era o gal. Costa e Silva, que não gostou do nome adotado pela tropicalista. Achou que era provocação - e parece que era mesmo - e foi então que general passou a ser abreviado como gen.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Quando falham as instituições, surgem homens excepcionais

Fonte original: Le Monde Diplomatique | Brasil

Serge Katz, doutor em Sociologia pela UFPB

3 de novembro de 2022

A longo da história, todos os países que passaram por graves crises políticas que colocaram em risco sua democracia e sua república se remeteram nas mãos e na coragem de raros homens que acreditavam mais que todos os outros. No caso do Brasil da era bolsonarista, podemos apontar Luiz Inácio Lula da Silva e Alexandre de Moraes como esses homens especiais.

Depois da Segunda Guerra Mundial, quando a França já havia conseguido normalizar o clima social e político deteriorado pela ocupação nazista, o escritor e ministro André Malraux pronunciou um dos melhores discursos já escritos na história francesa. Malraux, homenageando o herói da Grande Guerra e chefe da resistência interior Jean Moulin, cujos restos mortais entrariam no Panteão, lembrou que “o destino da França esteve suspenso por um fio na coragem desse homem que tudo sabia e mesmo assim nada falou” após longas horas de tortura. Os grandes nomes da resistência francesa ao nazismo foram De Gaulle e Jean Moulin. Os grandes nomes que a história brasileira recordará depois das eleições de 2022 são Lula e Alexandre de Moraes.

Xandão e Lula da Silva: o Foda e o Fodão
No caso do Brasil da era bolsonarista, podemos apontar Luiz Inácio Lula da Silva e Alexandre de Moraes como esses homens especiais. Ambos foram alvos de uma verdadeira máquina de mentiras e calúnia. O ministro do Supremo e presidente do Tribunal Superior Eleitoral se tornou alvo da extrema-direita e suas teses conspiracionistas. Ele também foi alvo de críticas de grande parte de uma esquerda impaciente e imprudente; mesmo assim, resistiu, se manteve firme e sereno e contrariou uma após outra todas as jogadas covardes da extrema-direita que até o último momento, até poucas horas antes do fechamento dos centros eleitorais, acreditava na possibilidade de adiamento ou anulação da eleição.

Norberto Bobbio, o grande pensador e filósofo italiano do século XX, perguntou certa vez se era preferível para um país ter instituições fortes ou grandes governantes. Na verdade, a história nos revela que em tempos de paz as instituições sempre foram as melhores garantias da sobrevivência e continuidade republicana. Porém, em tempos de grandes crises, todas as grandes nações se abrigaram na coragem de homens e mulheres excepcionais.  Esse é um grande paradoxo das nossas democracias. Recorrentemente nos vangloriamos da fortaleza das nossas instituições e tradições republicanas, entretanto, inúmeros exemplos ao longo da história mostram que a passagem de um regime democrático para um ditatorial muitas vezes depende mais da força e firmeza de alguns raros homens.

O ministro Alexandre de Moraes revelou-se ser um deles e por sorte não tem a indecente ambição política de Sérgio Moro; de modo que com ele o Brasil não corre o risco desse atroz mélange de genres. Moraes, porém, terá mais trabalho e oportunidade de inscrever ainda mais seu nome na história do Brasil e já sinalizou que compreende a importância de seu papel decisivo. Trata-se de uma reforma das leis sobre regulamentação das plataformas digitais. Durante a coletiva de imprensa posterior ao anúncio dos resultados das eleições, ele afirmou a necessidade de responsabilizar as plataformas dando-lhes status de veículos de informação. Justíssimo!

Entretanto, essa missão terá que contar com a participação de toda a sociedade civil. E mais uma vez o Brasil pode ser pioneiro em sua legislação sobre mídias digitais e internet. A realidade é que hoje a maior ameaça para as democracias liberais do Ocidente são os disparos em massa de fake news.

A extrema-direita e a memória do nazismo

Os quatro anos do governo Bolsonaro deixaram evidente que as instituições brasileiras são facilmente corrompíveis, porém, o posicionamento recente da maioria dos líderes das instituições e lideranças partidárias do bolsonarismo mostraram também que têm em grande apreço uma vida política institucionalizada. É outro paradoxo brasileiro. As instituições são frágeis, mas os políticos se fortalecem no carreirismo.

Outro ponto essencial que deve mobilizar os debates nos próximos dias é o espaço ocupado por esses mais de 58 milhões de brasileiros que escolheram Bolsonaro no último domingo. São todos extremistas e fascistas? Certamente não. Mas muitos deles constituem essa massa flutuante que navega entre o centro, a direita e a extrema-direita. Um desafio político e ideológico do próximo governo consistirá em trazer essas pessoas para o lado da democracia, talvez até por meio de medidas econômicas e políticas públicas.

O Brasil de Bolsonaro também cristalizou a posição do país longe do secularismo e da laicidade. A centralidade do debate religioso durante a campanha eleitoral, sobretudo, no segundo turno, e o fortalecimento dos evangélicos como atores essenciais dos processos políticos são um triste aviso de que a democracia brasileira perdeu uma característica fundamental dos Estados modernos que é o “desencantamento do mundo”, a separação da política com a esfera religiosa. De agora em diante, a política brasileira será pautada pela temática religiosa. É uma tendência que afeta também os Estados Unidos.

A vitória de Lula, ou melhor, a vitória do campo democrático por meio de uma aliança ampla que reuniu vários partidos políticos com fortes raízes democráticas é uma oportunidade única de marginalizar a extrema-direita no Brasil. Retomando as comparações com a Europa, vemos desde a eleição presidencial francesa de 2002 quando Jean-Marie Le Pen chegou ao segundo turno, que nesse país é comum uma frente ampla ser formada para barrar a extrema-direita; de tal forma que não se vislumbra no horizonte seu acesso à presidência da república. É óbvio que a extrema-direita se tornou uma força política na França, mas ela não é uma força capaz de chegar à presidência. O motivo dessa impossibilidade é histórico e cultural no sentido em que a extrema-direita francesa é intimamente relacionada na memória dos eleitores com a ocupação nazista e a colaboração durante o regime de Vichy. No Brasil, essa associação com o nazismo é de frágil demonstração.

No máximo, se pode relacionar a extrema-direita com a ditadura militar. Contudo, hoje, seus laços parecem ser mais fortes com os grupos religiosos evangélicos mais radicalizados do que com a memória da ditadura militar. Por isso, aumenta no Brasil a dificuldade da formação de uma frente ampla contra a extrema-direita.

Dito isso, é preciso tomar alguns cuidados na análise. A tese de que o bolsonarismo é forte precisa ser relativizada. E nem o Bolsonaro é tão forte fora da presidência. Não significa que o conservadorismo (e seus aspectos religiosos) seja fraco no Brasil. Me refiro à figura de Bolsonaro como sendo central na articulação desse conservadorismo. É esse ponto que deve ser relativizado. Muitos dos seus aliados de primeira hora foram atacados pelos filhos e o “gabinete de ódio”. Os recentes aliados sabem que é um risco que sempre vai existir com eles. Se vislumbrarem a possibilidade de tirar os filhos da cena política, não hesitarão. A presteza, domingo, de vários bolsonaristas em reconhecer sua derrota já indica essa tendência. Bolsonaro pode se manter importante nos próximos anos, mas precisará demonstrar muita inteligência política. O comportamento mais óbvio que se esperaria dele seria continuar sendo relevante mantendo a postura truculenta que sempre o caracterizou. Ele aposta na agitação. Isso mantém o engajamento de alguns radicais, mas não durante quatro anos. Além disso, há um risco político para ele caso aposte por promover uma agitação desmedida que pode irritar a Justiça. E sabemos que não é uma boa ideia num país como o Brasil onde o Poder Judiciário já mostrou que é propenso a intervir nos processos políticos.

Portanto, para o novo governo, trata-se de aproveitar essas pequenas brechas que se apresentam e recapturar os milhões de brasileiros que se afastaram de um engajamento incondicional com os valores republicanos e democráticos. Esse é um dos grandes desafios da sociedade brasileira nos próximos anos: marginalizar ao máximo o campo da extrema-direita ampliando a adesão popular à democracia.